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Sunday, February 4, 2018

As coisas que eu ouço: é brejeirice à portuguesa, com certeza (e além fronteiras).




Aqui há tempos fartei-me de abanar a cabeça com uma notícia (e sobretudo, com os comentários à dita cuja...) que dava conta de uns quantos pais portugueses, coitados, que carinhosamente enchiam as malas dos filhos, residentes ou estudantes em Londres, de acepipes e farnéis lusitanos de cada vez que estes iam de férias à santa terrinha.

Abanei a cabeça aos sempre divertidos comentários facebookianos porque eram, basicamente, escritos do tipo "coitadinhos destes emigrantes de hoje! Quando eu fui a salto prá França ninguém me foi lá levar «o comer»" pejados de erros ortográficos e cunhados por "Zés avecs" do antigamente, para quem história de emigrante em que o protagonista não sofre, tipo cantiga do Graciano Saga, não é história de emigrante que se preze.

E depois abanei a cabeça também à candura destes pais amorosos, mas um bocadinho simplórios, emalando tupperwares de rissóis e bacalhau à Brás (bem bom, verdade seja dita) como se os filhos fossem para o mato e não para um país a duas horas de avião onde, porta sim porta não, há mercearias e restaurantes portugueses. 


A zona onde moro será composta sobretudo de nativos, londrinos de gema (a minha vizinhança é quase tudo velhinhos veteranos da Grande Guerra que me tratam por darling e só querem saber de jardinagem, de levar os bisnetos aos treinos do Chelsea e de reclamar contra as regras malucas da recolha do lixo). Depois há uns quantos polacos, italianos e portugueses e o resto é diversidade e multicularidade, mas mesmo com esta dispersão, sem precisar de sair da freguesia contei umas três ou quatro mercearias/cafés do mais português que há, onde se compra desde bacalhau a salame de chocolate passando por álcool etílico (os ingleses têm a mania de desinfectar as feridas com uma pomada que é milagrosa para todos os males da pele, mas um atraso de vida quando se trata de um corte, coitados) e uns dois ou três restaurantes.

 Que diremos noutras zonas de Londres, com maior concentração de lusa gente! Depois, caso as saudades de uma feijoada, de uns pastéis de bacalhau ou de uma Sagres sejam mesmo insuportáveis, basta apanhar um comboio até Vauxhall e dar um pulinho ao Little Portugal, que uma pessoa parece que está numa aldeia chamada qualquer coisa "de Cima" ou "de Baixo" pronta a montar um arraial mais minuto, menos minuto. E de resto, os maiores supermercados têm secções de produtos internacionais onde polacos, romenos, portugueses, brasileiros, vietnamitas ou caribenhos encontram as marcas da sua terra a um preço bastante decente - misturada que me permite, sem qualquer dificuldade, reproduzir a receita de kalilu que a tia aprendeu em S.Tomé (e me passou depois de muita insistência) para o almoço e fazer um cabrito assado à moda da Beira para o jantar. A fruta e os vegetais são baratos e excelentes, com coisas de todo o lado. A carne o peixe já precisam de mais critério, mas nada que impeça um português ou um italiano de comer como fazia em casa.



Sempre me pareceu que isso do português que vai para fora e não gosta da comida é um grande patranha, ou pelo menos que não se aplica em Londres - apesar de o elogio à superioridade da alimentação portuguesa ser justíssimo. Quem o diz ou gosta de se queixar, ou tem preguiça de explorar o seu bairro, ou simplesmente não gosta de cozinhar. Ou então não sabe nem estrelar um ovo- o que já tornaria um pouco menos disparatado chamar a estes jovens expatriados, como disse o Zé avec, "meninos da mamã". A sério, salvo em caso de receitas de família complicadíssimas, não vejo necessidade de levar (e demais a mais em voos da Ryanair ou da Easy jet, que muitos destes jovens utilizam) farnéis a perfumar o ambiente!

Porém, cada um sabe de si e isto tudo foi só para introduzir a bonita cena a que assisti (ou, se quisermos aludir à modinha do #metoo, de que fui vítima, pobrezinha de mim, mulher frágil e indefesa) num restaurante português há um par de semanas.



Como vos disse, aqui há uns quantos restaurantes lá da terra, e alguns onde se come francamente bem - uns mais mainstream, com uma decoração a tender para o sofisticado, outros do estilo tasquinha embora os preços não variem muito entre uns e outros. Desta feita, fomos a um desses mais "modernos" que é frequentado tanto por ingleses como por portugueses de todas as categorias e províncias, casa simpática que serve uma belíssima espetada à madeirense. Entrámos e a patroa, que não nos conhecia, cumprimentou-nos em inglês (aqui nunca atinam com a nossa proveniência, é um fartote) com um forte sotaque da língua de Camões. Nas mesas à frente e atrás, britânicos a conversar alto e bom som. Na mesa ao lado, uma grande família portuguesa que era um estereótipo ambulante (o sogro Zé das Couves, o genro Carlão do ginásio, o filho do meio Carlito Rúben do tuning, a filha Sheila manicura e o irmão mais novo, o Joãozinho) a fazer mais barulho ainda, se possível. 

Entretanto precisei de fazer uma chamada e fui às traseiras onde instalaram uma salinha para fumadores. E quem tinha ido lá fumar? O Zé das Couves, o genro Carlão e um outro parente do mesmo género- ao que percebi, todos eles Zés Tugas empedernidos e batidos nas idas e vindas da emigração. Estava eu de telefone ao ouvido, muda e queda à espera que me atendessem, e eles "carvalho para aqui" e "coza-se para acoli" nessa habilidade acrobática e minuciosa de entremear 30 palavrões numa frase só. E vendo que estava uma senhora mas não estando bem certos se eu os compreendia ou não, decidiram experimentar-me, dizendo ainda pior. Jesus, as asneiras que eu ouvi! Mas decidi ficar caladinha a ver até onde ia o disparate...



Continuaram por um bocado, deliciados com as suas obscenidades como uns garotos que usam pela primeira vez esse palavreado nas costas da professora. Entre a possibilidade de dizerem do piorio à frente de uma mulher sem que ela percebesse patavina e a hipótese de essa mulher ser conterrânea e estar constrangida, não sei o que seria mais divertido para eles. Eis aqueles portugueses que dão a todos fama de camponeses analfabetos e trogloditas, e que fazem com que os ingleses trocem que "para saber onde está um português, é seguir os gritos de "carvalho!". 

Até que, já cansado de tentar adivinhar, o tuga pai atirou mais esta (versão censurada):

"Uma vez, andava eu na França, ia com fulano e beltrano num comboio entre a França e a Alemanha, e íamos a dizer «carvalhadas«...«carvalho» para trás, «coza-se» para a frente, filho da piiiiii*** à esquerda e à direita...e estava uma gaja com dois putos sentada à nossa frente. «Atão» não é que a gaja se vira para nós e diz: os senhores façam o favor de falar melhor, que eu também sou portuguesa e levo aqui crianças?".

Essa matou tudo. Ora bem-  nem com uma vergonhaça dessas aprendeu, e ainda usou o exemplo para ofender outra senhora (ou na sua linguagem, outra "gaja"?). Olhem que é preciso ser bruto! Um labrego sem remédio! 

Era a minha deixa para lhes fazer a vontade, respondendo "pois fez a senhora muito bem, seus ordinários!". Ou de chamar o meu marido para os ensinar na única linguagem que entendem, que (apesar de à conta de umas misturas anglo saxónicas lá dos antepassados dele o confundirem com um local a torto e a direito) ele é tão marialva como se pode e já que gostam de se armar em machos latinos, havia de lhes matar as saudades da pátria com umas traulitadas, em modo Alencar: vai-lhes um copo na cara e é aqui um vendaval, que há-de ficar a Grã Bretanha a saber o que é um português!

Mas decidi que era melhor, tal como n´Os Maias,  não haver um vendaval, e a  Grã Bretanha ficar sem saber o que é um português que para fama de campónios e barraqueiros já basta o que basta, e pregar-lhes uma boa partida à minha maneira. Fiz-me de novas e fui-me sentar; com o barulho e a música só se ouvia quem falava aos berros. Entretanto algumas mesas vagaram, a música lá baixou e acabámos de jantar. 

E depois de pagar a conta, antes de sair porta fora,  viro-me muito risonha para a dona do estaminé e para a moça que nos tinha servido, olho para aqueles rústicos como quem não deixa lugar a dúvidas, e atiro alto e bom som, do fundo do meu diafragma como me ensinavam nas aulas de canto:

"Então muito boa noite e até à próxima!".

Calou-se tudo e ficaram com aquela carinha "ó terra engole-me já", e o Carlão a olhar para o brutamontes mais velho com ar de quem diz, a tratar o sogro por tu: "eu bem te avisei que «a gaja» era portuguesa mas tu «não te acreditastes»". Ainda pensei que desatassem a rir (descaramento não lhes faltava) mas vá lá que não...

É como digo sempre: isto portugueses ou são de uma suprema elegância e de uma reserva que roça a altivez, ou são uns parolos que só servem para causar vergonha alheia (ou mais apropriadamente, vergonha patriótica). E depois queixam-se muitas vezes de ficarem na "gaiola dourada", de serem vistos como pessoas "honestas, hospitaleiras, trabalhadeiras e de confiança" mas de não os considerarem gente lá muito sofisticada, com quem se conviva de igual para igual. Se a maioria que nos representa por este mundo fora é assim (e não nos enganemos, apesar de tudo a maioria ainda é esta espécie que faz corar o desembaraçado boneco do Zé Povinho) então querem o quê?

É caso para dizer "valha-me Nossa Senhora da Asneira, que bem pode". Livra!



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