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Monday, February 19, 2018

Jorge IV: glutão, mulherengo e...forreta.





Há dias tive ocasião de ver um episódio desta excelente série de documentários sobre a vida privada dos monarcas. Achei interessante como se debruçaram, em detalhe, sobre os excessos de George IV (que ainda enquanto Príncipe, daria título ao Período da Regência - 1811-1820, época que ficou associada aos romances de Jane Austen). E embora já desconfiasse, fiquei convencida de que:

1) a pobre Maria Fitzherbert fez mesmo má escolha em aceder às pressões do príncipe egoísta para casar com ele (podem ler ou recordar o post sobre Maria aqui). O facto de ela ser Católica devota explica muita coisa: a infeliz senhora devia ter paciência de santa, é que só podia. A segunda esposa já foi mais esperta e separou-se dele na primeira oportunidade, mas acabaria por morrer de desgosto graças às imoralidades do marido. Cavalheiro encantador, hein?



2) o famoso dândi Beau Brummel esteve muito bem ao insultar o Príncipe George, em público, na cara e com a maior das latas, de "gordo", como falámos neste post. Parece que o incidente, ocorrido num baile de máscaras, acabou com a vida social do plebeu trend setter... mas deve ter-lhe dado bastante satisfação: perdido por um, perdido por mil e quem diz a verdade não merece castigo.

O Príncipe quando era novinho, magrinho e bonitinho


Dizem que o maior feito de George IV foi a monarquia britânica ter sobrevivido aos seus dez anos de reinado. Isso, e a sua paixão pela arte e arquitectura, que resultou em boa parte dos edifícios mais emblemáticos de Londres tal como os conhecemos, incluindo Regent Street e a fachada do Palácio de Buckingham. Em tudo o resto, porém, o Príncipe Regente que entretanto se tornaria Rei conseguia cair no desagrado de meio mundo. Os pais - o Rei George IV e a Rainha Charlotte, casal conhecido pela sua bondade, simplicidade e sólida moral - não tinham a menor paciência para ele nem para as suas extravagâncias;  obrigavam-no a fazer dieta, a estar quieto em casa, e só lamentavam que aquele filho estouvado, dissoluto, frívolo e hedonista tivesse nascido primeiro para herdar o trono em vez do seu ajuizado irmão mais novo, que era o queridinho da família.

Uma vez feito regente, o povo desprezava-o por andar em festanças decadentes enquanto o país sofria com a guerra contra os franceses (e com os pesados impostos que vinham com isso).



Enquanto foi jovem e bonito, o bon vivant George usava as mulheres como se fossem lenços de papel, mantendo numerosas amantes: mas cedo as comezainas e as bebedeiras lhe acabaram com a saúde...e com a bela figura. A esposa que lhe arranjaram a ver se continha os seus desmandos, Carolina, quando o conheceu disse que ele era muito anafado, e nada bem parecido como os retratos lhe tinham feito crer (o casamento foi um desastre, claro).




Os seus contemporâneos, incluindo o Duque de Wellington, pasmavam para a habilidade que o divertido Príncipe, cada vez mais rechonchudo, tinha para comer que nem um alarve; e os que conviviam de perto com ele ousavam mesmo compará-lo a "um grande colchão de penas", a uma baleia (fazendo um trocadilho entre "Prince of Wales" e "Prince of Whales") ou a "uma enorme salsicha a rebentar pelas costuras".



Porém, o que me chamou mesmo a atenção no programa foi este detalhe escandaloso: a  dada altura, os estragos na aparência associados a um feitio desagradável (as suas maneiras impecáveis tinham-lhe ganho o cognome de "Primeiro Cavalheiro de Inglaterra", mas perdia a cortesia depressa) conseguiram afastar mesmo as mulheres fáceis e interesseiras que costumam gravitar à roda de qualquer cabeça coroada. Como Príncipe Encantado, estava visto que George não convencia ninguém...
Fosse por isso, fosse porque lhe fugia o Real e gotoso pé para o chinelo e para a baixaria, logo gostava de raparigas ordinárias (não seria o primeiro nem o último cavalheiro de alta estirpe com gostos tão duvidosos, verdade seja dita) a verdade é que George prometia principescas somas de dinheiro a mulheres de vida airada para passarem a noite com ele.



 Isto diria muito da sua baixa moral (e da sua falta de atractivos) mas não seria tão estranho assim, não fosse um pormenorzinho extremamente reles: é que, volta não volta, o Palácio se via aflito para encobrir as chantagens de meretrizes a quem ele tinha dado o calote.

Pois muito bem, não sejamos ingénuos: que um cavalheiro seja femeeiro, ainda por cima se for casado, é sempre mau; de mais a mais, sendo Rei. Que um cavalheiro seja femeeiro, casado, e, sendo Rei, que se baixe a recorrer a mulherio de aluguer, é muito mau, mas enfim- ainda se podia pensar que pagava para não ter de aturar mulheres iludidas, peganhentas, cheias de expectativas e já a sonhar com o Trono, na manhã seguinte.

 Mas que um cavalheiro seja casado, Rei, femeeiro, contrate mercenárias e ainda por cima seja demasiado forreta para honrar o acordo (negócio imoral ou não, palavra de Rei não volta atrás), aproveitando-se das pobres "moças trabalhadoras" que por ganância ou necessidade acediam aos amplexos do gorducho monarca e pondo a sua reputação em causa por meia dúzia de tostões... é MUITO rasteiro.

Não é de admirar pois que ninguém o tomasse a sério e que, quando se finou aos 67 anos, tão pesado que transportar e pousar o caixão para o velório exigiu cautelas especiais, ninguém o lamentasse. Houve mesmo quem dissesse "nunca ninguém teve tanto amor à vida e foi tão pouco chorado quando saiu dela". Um verdadeiro encanto, este Príncipe Jorginho...

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