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Saturday, March 31, 2018

Haja paciência: um Hospital muito "prá frentex"




Segundo a Revista Sábado, o Hospital de Cascais está a ser alvo de protestos por tentar impor aos seus funcionários, homens e mulheres, um código de vestuário discreto e normas que deviam ser básicas para quem está perto de doentes - como, por exemplo, evitar perfumes fortes.



Para mim, que não trabalhando numa área tão ...vá, solene como a da Saúde, todos os dias estou sujeita a standards de apresentação rigorosos q.b. (e acho isso naturalíssimo) é difícil de entender como é que estes médicos/enfermeiros/auxiliares/administrativos se sentem no direito de se indignar.

Que a alguns não lhes apeteça cumprir até percebo e nem me espanta nada (já lá vamos).


Porém, que o digam em voz alta, como se esperar um mínimo de sobriedade no local de trabalho fosse alguma coisa do outro mundo; que façam queixa, que isso vá parar à imprensa e que o próprio Sindicato dos Médicos da Zona Sul venha afirmar que tudo fará "para impedir que o Hospital de Cascais se transforme numa caserna militar"...já é muita relaxaria junta. Mas afinal o que é que querem?


                                        


Para fazer tanto escândalo, será que a ideia deste staff é....


...ir trabalhar assim?

                                


Ou assim?

                                                  

Ou ainda...assim?

                               


Agora a sério, e falando da realidade que conheço melhor.


A maioria das pessoas que trabalha na indústria de moda, obviamente uma área profissional bem mais criativa do que a Saúde, obedece a dress codes (quem nunca leu/viu "O Diabo veste Prada"? O ambiente na vida real é um bocado esse, garanto). 

Quando não existe um uniforme e apenas um código de vestuário, o grau de "liberdade de expressão" varia de acordo com o segmento (o mercado de luxo pede geralmente visuais sofisticados e clássicos; marcas trendy ou alternativas permitem alguma rebeldia embora muitas sejam, por exemplo, rigorosas com as cores autorizadas) e consoante se trabalha em head office (editores, buyersdesigners, online stylists...) ou em contacto com o público (vendedores, gerentes de loja, personal shoppers residentes, vitrinistas...). Mas regras de imagem há sempre.


Staff de cosmética Gucci: dress code típico para profissionais de retalho de luxo

                       
E para os profissionais de moda que estejam em contacto com o público, esses dress codes não andam longe daquele que é proposto agora pelo Hospital de Cascais. Ou de qualquer empresa onde vigorem normas de apresentação dentro do business/corporate dress.

As regras a cumprir em lojas de departamento de luxo, por exemplo, visam não só as fatiotas permitidas, mas detalhes como a espessura dos collants (quase sempre 15 den, preto ou cor da pele conforme a casa) o cabelo (que tem de estar penteado com elegância, sempre em cores "naturais e normais", afastado do rosto e preso se for comprido) o tipo de calçado (é raro serem autorizados sapatos de fivela, botas, sandálias ou sling backs) a altura dos saltos (se possível, 5 cm ou mais) o comprimento das saias (pelo joelho ou abaixo e quase sempre, saia lápis) e ausência de jóias espampanantes, nail art, piercings ou tatuagens visíveis. 
E quem não cumprir é mandado para casa sem mais aquelas. As poucas excepções têm a ver com símbolos religiosos (uso de turbantes, hijabs, crucifixos e por aí). 


                                       


O objectivo disso é garantir um visual neutro, profissional e elegante, que não seja fonte de distracções ou de mal entendidos.

Isso pode parecer limitativo, mas tem razão de ser: quanto mais liberdade, maior a margem de erro. Mesmo em ambientes onde as pessoas têm obrigação de saber o que é adequado e favorece, há sempre quem careça de bom senso e se lembre de aparecer demasiado casual, demasiado sexy e por aí fora. Havendo certos padrões, certas normas a que todos estão sujeitos, está garantida a igualdade (evitando-se questões do tipo "se fulana pode usar mini saia, porque é que eu não posso?") e é mais certo o look de toda a equipa estar de acordo com a imagem, valores e missão da empresa. De mais a mais, lida-se com diversos tipo de pessoas, com sensibilidades, backgrounds e opiniões diferentes: num momento atende-se uma cantora pop ou o jogador de futebol, no outro o Príncipe árabe ou a velhinha aristocrática. Uns lidarão bem com piercings ou decotes, outros nem por isso. 

                         
                                         Uniformes da casa Van Cleef &Arpels


Mas falemos de outra área ainda mais corriqueira: a Estética.
 

Claro que sabemos que muitas cabeleireiras, esteticistas e manicuras não cumprem o que lhes foi ensinado nas escolas (dependendo muito da casa para que trabalham) mas é sabido que regras como "consumir drops de menta nos intervalos e evitar perfumes intensos" de modo a não incomodar a clientela com quem terão grande proximidade física, são batidas à exaustão. E tenho conhecido salões de cabeleireiro em que, embora a profissão exija roupa confortável, são de rigueur as t-shirts e calças pretas - jeans só são tolerados se forem de um denim muito escuro.



                                        
                                                   Staff dos salões de cabeleireiro Tony& Guy- Kwait


Que será então num hospital, onde as pessoas esperam um ambiente calmo e de confiança, e não o mesmo que se encontra "na noite" !

De mais a mais, basta, por exemplo, olhar para a história da enfermagem (quero dizer, depois de Florence Nightingale) para lembrar que este foi um campo em que se batalhou muito por uma imagem de respeitabilidade, criando-se por isso uma certa tradição de grande rigor no vestuário de modo a acautelar não só aspectos práticos como a higiene e o conforto, mas também a dignidade das candidatas a enfermeiras.

Qualquer enfermeira que me leia saberá como o treino era muito exigente, muitas vezes num regime de internato quase religioso (ou vá lá, concedamos - militar). Nas escolas inglesas, a "matron" era uma autêntica autoridade que tanto exigia na medida exacta das dobras dos lençóis ou na precisão ao ligar uma ferida, como na posição do toucado, no comprimento milimétrico da saia ou na postura correcta das suas pupilas. Muitas escolas de enfermagem eram verdadeiras finishing schools para as raparigas de classe trabalhadora ou média que aspiravam a uma profissão de futuro, que lhes abrisse novos horizontes, sem beliscar a sua reputação de "meninas sérias".


                           


Ora, embora os tempos tenham mudado e já não exista uma necessidade óbvia de defender a honra de enfermeiras, enfermeiros, doutores e seus companheiros contra ideias feitas, a verdade é que o uniforme (ou a bata, e o que vem com ela) deve convidar ao respeito e passar uma sensação de seriedade, de segurança. Em alemão, por exemplo, a palavra para enfermeira ainda é "Krankenschwester" - irmã dos doentes.

Obviamente uma pessoa vestir assim ou assado, tatuar-se ou não, ou o que faz na sua vida privada (desde que esta se mantenha muitíssimo privada, bem entendido) não diz do seu talento, habilitações ou paciência para cuidar de pacientes.
Porém, o simples contacto com os utentes que o exercício do ofício requer deveria ditar as normas de cada um. E não é preciso pensar muito para perceber que o que é "demasiado sexy" , garrido, rebelde, enervante para os olhos ou possa dar a ilusão de não estar limpo (ou de ser difícil de limpar) é contraproducente para quem está a tratar-se e para os familiares que acompanhem o doente. As pessoas fazem associações de ideias, gostemos ou não.

                                                  
Há lugares para exibir as tatuagens e mini saias, e lugares para as esconder. A última coisa que um médico, cheio de pressa para ver uma fila de dez doentes, precisa... é de um velhinho da aldeia a berrar que não quer ser atendido por um sótor com dragões nos braços e alargadores de orelhas. 


E convém que a médica de serviço não tenha um Carlão acidentado do tuning a
 espreitar-lhe pelo decote e a fazer trocadilhos inapropriados; ou que a enfermeira, que devia ser o anjo velando por aquela gente toda, não ouça comentários menos simpáticos da esposa do Senhor Feliciano, que teve um enfarte, por se apresentar como uma concorrente da Casa dos Segredos mascarada para o Halloween.


                                       

No entanto, não posso dizer que tanto a necessidade de o dito Hospital dar um "basta" nos exageros, como o sururu que se seguiu, me surpreendam:
sem querer generalizar nem ofender a maioria das pessoas que sabe estar com elegância e seriedade, infelizmente tenho conhecido casos de profissionais de saúde, maioritariamente mulheres (e vá-se lá saber porquê, não tão poucas como isso) que parecem fazer questão de causar embaraços à classe tanto na forma como se vestem como no comportamento em público (nomeadamente virtual).

Não atino com a relação entre tantos exemplos de ousadia (ou mau gosto) e o campo em que trabalham. Talvez o facto de lidarem com a anatomia humana e de ouvirem de tudo um pouco as torne pessoas de "mente aberta" - além do que seria conveniente? Terá a ver com algum facilitismo na admissão aos cursos superiores e com um certo descaso dos costumes de moralidade e seriedade atrás descritos que, pelo menos oficialmente, norteavam as regras de conduta em clínicas e hospitais?


                                                   
                                                Perfil de uma enfermeira no Tinder, a embaraçar as colegas


A verdade é que tenho visto coisas de bradar, que superam os enredos daquelas séries e novelas ranhosas de "médicos e enfermeiros" onde o pessoal hospitalar não faz mais nada senão urdir affairs, escândalos e dramas amorosos nos turnos da noite (programas que me deixam sempre a pensar que a ser assim na realidade... uma pessoa, se tem o azar de adoecer, está entregue a gente muito doida).


                                    

De uma especialista com consultório aberto que teimou em posar como veio ao mundo e divulgar o resultado alegremente no Facebook, sem pensar no impacto que isso teria nos seus pacientes (imagino as piadinhas de alguma clientela, e muita esposa a proibir os maridos de lá porem os pés) a enfermeiras que fazem gala de vestir como strippers tatuadas e que reclamaram com os hospitais/clínicas onde trabalhavam porque foram proibidas de usar unhas de gel- por motivos de higiene que deviam ser óbvios a quem trata de pensos, ligaduras e coisas assim - passando pela divulgação descarada nas redes sociais de comportamentos promíscuos (que a existirem, deviam ao menos ser guardados para a intimidade da pessoa e não ficarem acessíveis a quem quer ver, incluindo colegas e superiores) já me chegou de tudo um pouco.

                            


Há certas "liberdades criativas", opções de vida, formas de estar e visuais que devem ser deixados para as horas vagas - e há determinadas condutas que certas empresas ou organizações não toleram nem sequer nas horas vagas. Na era dos social media (em que tudo se sabe) são cada vez mais os exemplos de pessoas que foram dispensadas de cargos por, mesmo fora das horas de expediente, se darem a actividades, comportamentos ou discursos que vão contra a imagem e os valores da empresa/ organização que representam. E isso não é discriminação ou preconceito, nem acontece só no Exército ou em organizações religiosas: o empregador ainda tem o direito de definir o perfil das pessoas que quer associadas à sua marca.


                               

Quem quer aceita; quem toma ao pé da letra a ideia de rebeldia sempre e em toda a parte talvez deva optar por uma carreira que exija menos disciplina.

Em última análise, quem diz que "um enfermeiro não é menos competente por ter tatuagens" provará muito mais essa teoria - e o seu profissionalismo - se for discreto em relação aos seus hobbies/escolhas de estilo pessoais, sendo um enfermeiro exactamente igual aos outros e destacando-se pelo seu desempenho em vez de cultivar uma imagem de enfant terrible.

Um ofício (ao contrário de um "trabalho") é sempre um sacerdócio. E quem quer "vestir a camisola" tem de a vestir com o brio que a profissão exija. Ainda que a camisola tenha mangas compridas que tapem as tatuagens ou se pareça muito com uma bata. Noblesse oblige, o hábito faz o monge, etc, etc...

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