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Monday, March 5, 2018

Mulheres da luta nostálgicas: Xica da Silva x Violante Cabral





Há umas semanas atrás, deu-me para rever episódios soltos de uma das poucas novelas que acompanhei na vida: Xica da Silva!

Como já contei por aqui algures, telenovelas eram um passatempo desencorajado lá em casa - tal como qualquer tipo de "romance cor de rosa". O senhor pai, principalmente, achava que isso não era entretém que ensinasse alguma coisa - nada de bom, pelo menos-  fosse a quem fosse, e muito menos a raparigas que não quisessem ficar parvinhas e estouvadas.

  Era dada *certa* tolerância aos folhetins baseados em obras como as de Jorge Amado ou que tivessem algum conteúdo histórico, e olhem lá. Mas Xica da Silva foi ele próprio que me chamou para ver, tinha eu uns catorze anos, Sissi, está a dar uma novela que se passa no século XVIII.  Música para os meus ouvidos: passámos a ver juntos a Xica da Silva, embora se arranjassem pretextos para eu me ausentar da sala nas cenas embaraçosas ou demasiado violentas (e houve muitas- o autor fantasiou imenso e até meteu bruxas e vampiros ao barulho, embora nem fosse precisa grande imaginação; afinal, o século XVIII foi uma época tão fascinante como complicada: basta recordar o martírio dos pobres Távoras ou a execução absolutamente medonha do regicida *falhado* Robert-François Damiens).

Adiante: o tema central da trama era a rivalidade entre a ex-escrava Xica e a sua ex-"sinhá" que não a deixava em paz, a  orgulhosa fidalga Violante Cabral, por causa do contratador de diamantes João Fernandes.





 O argumento bem elaborado, os excelentes diálogos,  a boa direcção de actores e a interpretação inesquecível das actrizes Taís Araújo e Drica Moraes fez com que o cliché televisivo mais velho do mundo (a heroína pobrezinha e a vilã riquinha esgatanhando-se à conta de um par de calças) se mantivesse interessante até ao fim, apesar de haver outros núcleos igualmente cativantes na história, como a religião afro-brasileira dos escravos ou os amantes infelizes Martim e das Dores.

Só que nem Xica da Silva era uma heroína boazinha típica, nem Violante Cabral a vilã vaidosa e unidimensional do costume. Aliás, as duas estavam mais para anti-heroínas do que para outra coisa qualquer (a densidade emocional e o realismo de todas as personagens, nem totalmente boas nem totalmente más, era precisamente um dos pontos fortes deste folhetim).




Para quem não viu ou não se lembra, a história, baseada em factos passados em Diamantina (Minas Gerais) era isto: João Fernandes, riquíssimo senhor da pequena nobreza encarregado de explorar os diamantes para a Coroa, chega ao vilarejo e acha que a senhorinha Violante Cabral é um bom partido: bonitinha, discreta, de boas famílias. Sem imaginar que a menina é de força e tem um mau feitio pior que trinta diabos, pede-a logo em casamento e a pobre, (que já tinha sido rejeitada por um noivo que a  trocou por uma meretriz e acabou na forca) apaixonada à primeira vista pela belíssima figura do pretendente (Victor Wagner, uma das caras mais lindas que já deu ar da sua graça nas telas da lusofonia) aceita na hora, mortinha por desencalhar, por se tornar ainda mais rica e importante e para se livrar do cognome infame que lhe tinham posto de Noiva do Enforcado.



Só que o senhor João Fernandes, que tem tanto de bem parecido e de bondoso como de doidivanas e desmiolado (já lá vamos) põe os olhos na mucama de Violante, a linda Xica, e decide que a  quer para sua concubina...esperando com a maior naturalidade que Violante, como era costume naquela época, faça vista grossa e fique calada.

 E de facto, no início do enredo ambas procedem como mulheres daquele tempo e da sua condição: a escrava Xica (que a início está furiosa por ser vendida e se faz difícil mas acaba por se apaixonar pelo amo) acha natural que João fique com as duas para cumprir as exigências sociais; Violante hesita, pensa em aceitar... mas depois tem um assomo revolucionário de dignidade feminina e, vendo que ele faz finca pé em não abrir mão da amásia, diz que não o aceita pela metade (bravo!). 

Quanto ao contratador, surpreendido por tantas "exigências" e "imposições"(cof. cof) da noiva, por um lado, e por outro fascinado pelo brio de Xica, que ao contrário de todas as outras o tinha feito esforçar-se para a conquistar, decide alforriar a antiga escrava, 
assumi-la como sua mulher aos olhos de todos tanto quanto a lei permitia e cobri-la de luxo, de diamantes, de belos vestidos, em suma, fazer dela a senhora mais poderosa da região, escandalizando toda a gente.




Aí Violante não aguenta: e em vez de continuar a agir com a dignidade que tinha mostrado até ali, de se pôr nas suas tamancas, de seguir o conselho da família para entrar num convento (solução sempre digna para uma moça devota como ela) ou melhor ainda, de se juntar ao irmão mais velho e partir para a Corte de Lisboa, onde decerto não lhe faltariam partidos melhores... não. Dá mais valor ao orgulho ferido do que à sua felicidade, perde o bom senso que todos admiravam nela e decide ficar a pé quedo lá na terreola, no firme propósito de se vingar de Xica e reconquistar o contratador só para si com recurso às piores tramóias (de bruxedos à Santa Inquisição, tudo ela consegue envolver na trapalhada). 

A fixação é de tal ordem que, apesar de ambiciosa, até o pedido de casamento de um Marquês ela recusa; e por mais que disfarce acaba amarga, ressabiada e histérica, cheia de fanicos, invejosa, obcecada com os pecados deste mundo. Como todas as mulheres ressentidas, torna-se objecto de ridículo: embora toda a gente lhe reconheça a fibra e a força de carácter, rosnam nas suas costas que o seu problema óbvio é a falta de marido, que lhe transtorna os nervos de solteirona. De rapariga admirável passa a víbora mal amada que inferniza toda a gente.




 Quanto a Xica, rapidamente percebe que Violante é o menor dos seus problemas: é que o seu Príncipe Encantado está longe de ser perfeito pois, apesar de gostar muito dela, não resiste a qualquer criatura de saias que lá apareça, independentemente da cor, feitio, idade ou condição social. Sim, o senhor João Fernandes é um mulherengo: tudo - mas absolutamente tudo, de escravas a fidalgas passando por maluquinhas e bruxas - lhe serve. Acaba mesmo por continuar a iludir, de certa forma, Violante, deixando-lhe uma réstia de esperança unicamente porque a paixão dela lhe massaja o ego. E Xica, que é tão esperta, não vê isso ou finge que não vê: mesmo quando já não precisa dele pois tem diamantes que lhe cheguem para levar vida farta e regalada em qualquer parte do mundo, aceita o malandro sempre de volta (com muitas cenas e vinganças pelo meio) e chega a cometer atrocidades para o conservar por perto.




Ora, dramaticamente falando a rivalidade das duas, insultando-se respectivamente de "macaca" e "lacraia" e urdindo conspirações terríveis uma contra a outra  rendeu óptimo entretenimento.  Xica intensa, desabrida, excessiva, amiga da ostentação, muito engraçada com tiradas de "estou deitando fogo pelas venta!" e "estrupício!" e Violante contida, cortante, toda ciosa da sua categoria, espirituosa, com uns penteados sempre super compostos, umas mantilhas lindas e ditos do tipo "eu sempre terei o meu lugar no mundo; sou Violante Cabral aqui, no Rio de Janeiro ou na Corte Portuguesa; quanto a vosmecê, sem o contratador vai acabar a guardar porcos"  foram realmente personagens extraordinárias. As cenas das duas eram sempre dignas de registo, fosse quando trocavam galhardetes "educadamente" (ver abaixo)...





...ou quando perdiam a calma e chegavam a vias de facto:



Porém, na cena em que as duas mandam a compostura às urtigas e andam à batatada para gáudio do populacho, uma das personagens (brutamontes mor lá do sítio) resume  numa frase simples a maior verdade disto tudo: é que, como já tratámos aqui em tempos, os homens são os únicos que se ficam a rir quando as mulheres se rebaixam a andar à luta por causa deles.

"Briga de mulher é a melhor coisa que tem para se ver!"

Na ficção enredos destes até têm graça, mas meninas e senhoras devem mirar-se no exemplo, pois na vida real estas situações não têm piada nenhuma: tanto Xica como Violante eram mulheres admiradas por todos pela sua inteligência, sagacidade e força moral; mulheres que superavam as limitações da sua época (uma por escapar a um destino de escravatura e reinventar-se, outra por não se resignar ao papel submisso e passivo que esperavam dela, sem perder a elegância nem a  feminilidade).

 E no entanto. deitavam tudo isso a perder e estragavam a sua paz de espírito por um homem leviano. A verdade é que ambas mereciam melhor e que o senhor João Fernandes, pese embora as suas qualidades, não era merecedor da devoção de uma nem da outra: como eu digo sempre, um homem que se deixa disputar não é digno de cobiça para começo de conversa.

Ou como também já vimos, quando é preciso lutar por um homem é porque a batalha está perdida à partida. Era assim no sec. XVIII e assim continuará a ser enquanto o mundo for mundo.

2 comments:

João P. said...

Resumir um telenovela em tão pouco tempo! É obra!

Gostei da tieta, e do roque santeiro novelas que vi até ao fim! A eletricidade tinha chegado à pouco tempo à aldeia, as novelas era quase sempre tema de conversa do dia seguinte! Velhos tempos que recordo com saudade.

Susana said...

Também segui esta novela na minha adolescência! Foi a última que segui. Depois disso só acompanhei a nova versão da Gabriela por ser um marco. E como o João P antes dessa vi a Tieta, Roque Santeiro e uma outra que adorei a D. Beija com a estampa de mulher Maitê Proença - um tipo de beleza clássico e delicado. Recordações

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