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Monday, April 23, 2018

A nobre arte de..."apertar as pérolas"



A expressão anglo saxónica "clutching the pearls" ou "pearl clutching" (levar as mãos ao peito/colo, em sinal de indignação perante qualquer coisa vulgar, escandalosa ou de mau gosto,  como que segurando um colar de pérolas imaginário) tem sido, ultimamente, batida à exaustão por esta internet do Senhor.



  E sempre de forma jocosa, acrescente-se:  invariavelmente em textos que-querem-por-força-ser-subversivos da ala ultra progressista, marxista, feminista, esquerdista, comunista, socialista, relativista, artista, alpinista, ciclista,malabarista e outras coisas revolucionárias, agitadoras e patetas acabadas em ista.



Basicamente, quando a tropa moderninha quer dar nas vistas e arreliar os mais conservadores com uma das suas "modinhas e novidades" (que até podem irritar mas já não chocam ninguém) adiciona esse cliché provocador aos seus artigos.

Isto porque as pérolas estão, enfim, incontornavelmente ligadas a uma imagem tradicionalista; pensemos na Baronesa Thatcher, que nunca as largou nem por um decreto.




 Dispendiosas (quando verdadeiras ou de bijutaria muito boa) mas não extravagantes e jamais decadentes, as pérolas são normalmente usadas em jóias e acessórios elegantes, intemporais e bon chic bon genre. 

Às vezes andam mais em voga e ganham até uma aura jovial, edgy, quase punk dependendo do styling que lhes quisermos dar: é o caso agora, com marcas como a Gucci a apostar em acessórios de/com pérolas e a Chanel a investir nelas mais do que nunca e de formas inesperadas- e.g, cravejando-as em botas.  Noutras alturas estão menos evidentes nos editoriais e nas lojas; mas nunca passam realmente de moda.


A Rainha Alexandra com o célebre colar "Dagmar", no dia da sua boda com o futuro Eduardo VII



"Só há uma jóia que favorece toda a gente por igual, que fica encantadora com quase todos os conjuntos, que é apropriada para praticamente todas as ocasiões e indispensável no guarda roupa de todas as mulheres...longa vida ao colar de pérolas, verdadeiro ou falso, do primeiro encontro ao último suspiro!"


Genevieve Antoine Dariaux, autora de "A Guide to Elegance"





Modas à parte - e por muito que a Chanel, por mão de Karl Lagerfeld, as misture ao denim e ao cabedal desde os anos oitenta-  as pérolas, verdadeiras ou de bijutaria, naturais ou de cultura, sozinhas ou entrelaçadas com fios dourados, brilhantes, correntinhas, etc, estão  invariavelmente presentes em looks associados ao old money, às "pessoas bem"ou com uma imagem mais "betinha", "certinha", old school e por aí fora.




 Pensemos em Jackie Kennedy (autora da imortal frase"pérolas são sempre apropriadas"), Audrey Hepburn, Grace Kelly (que jurava preferi-las a quaisquer outro adorno, dentro e fora das telas) ou em Sua Majestade Isabel II, só para citar alguns exemplos mais conhecidos. Lady Sarah Churchill dizia sentir-se despida sem as suas; Marilyn Monroe, que era adepta de um estilo bastante minimalista na sua vida privada, não prescindia de pérolas para iluminar o rosto.



  

Quanto a Coco Chanel, essa afirmava que uma mulher deve possuir fiadas e fiadas de pérolas. Tanto que popularizou as missangas (de qualidade, atenção) junto da boa sociedade, fazendo prevalecer o valor do design sobre o da matéria prima per se e abrindo caminho para a democratização das pérolas entre as mulheres de classe média.





Pessoalmente, toda a vida fui fã acérrima de pérolas. E embora seguisse quase sempre as filosofias "menos é mais" e "materiais nobres, ou nada", preferindo uma statement piece a muitas peças juntas e dando primazia às pérolas verdadeiras, abri sempre uma ou outra excepção para colares ou gargantilhas de pérolas falsas (falsas mas de boa qualidade e se possível, vintage) que tivessem os formatos que me agradavam.


Josephine Baker e as suas famosas fiadas à la "flapper"

 Porém, como o estilo pessoal está em constante evolução e (de acordo com o que já aqui falámos várias vezes) chegamos a uma altura da vida em que ele se define no essencial para ir sofrendo apenas pequenas actualizações a partir daí, ultimamente tenho investido mais nos acessórios- nomeadamente, em pérolas! Não só na compra de algumas peças que me faziam jeito, mas também no uso (e styling) das muitas que já tinha.




 Afinal quando, graças à experiência de uma vida, ficámos a conhecer de cor o que nos assenta e construímos um guarda roupa de acordo, é altura de brincar com a tela que fomos criando ao longo dos anos. Principalmente se o nosso estilo é bastante depurado e suporta bem mais alguma informação visual. Por fim, trabalhar muito com o styling de acessórios de luxo nos últimos anos também contribuiu para aprender novas formas elegantes e inesperadas de os coordenar.



E como tinha de ser fiel ao meu estilo e no meu dress code profissional a sobriedade é nota obrigatória - não esqueçamos que, segundo as normas, pérolas são das poucas jóias "correctas" para usar antes do pôr do sol - eis-me a luzir mais pérolas do que alguma vez usei na vida, de mil maneiras consoante o decote ou a gola que trouxer no dia, por vezes misturando vários colares e gargantilhas.


 Ora à Belle Époque ou à Barroca, ou à la Chanel - usando mesmo colares longos de várias voltas estilo anos 20, que eu até julgava não serem my cup of tea.




Por vezes ponho uma fiada de pérolas redonda do mais básico; mas se quero algo um pouco mais singular, a minha escolha vai para um colar justo, baixo no pescoço e espesso de várias voltas com um pesado fecho de brilhantes, estilo Madame du Barry. A minha combinação preferida, porém,  é uma gargantilha de veludo espessa do tipo vitoriano, rodeada de vários colares mais longos, ou uma gargantilha de veludo fina, mais outra fina de pérolas, seguida de várias fiadas de contas conforme me dita a fantasia. Não haja dúvidas que tornam o look mais interessante: quando a roupa é simples, são os detalhes que a tornam divertida.




Tive mesmo de comprar um guarda jóias maior, claro, que mais parece o cofre de um pirata, para conter e organizar todas as minhas relíquias (e como compro quase tudo vintage porque a qualidade e a piada não se comparam, a maioria é relíquia mesmo).


Contei-vos tudo isto só para dizer que os meninos e meninas "rebeldes de pacotilha" podem mandar-me apertar as pérolas à vontadinha (e fazer imensos disparates no firme propósito de arreliar as pessoas caretas como eu) que eu tenho bastantes pérolas para apertar e faço o maior gosto nisso.



 Aliás, continuem a fazer mais e pior a ver se me dão motivos: é que isto está uma seca...ultimamente aperto-as mais por um misto de pena e zombaria quando vejo o mulherio "forte e independente" a chorar pelos cantos porque não encontra o amor no Tinder nem emagrece com lattes de soja -ou outro motivo patético- do que por alguma novidade que me faça gritar, com o devido zelo e efeito : "ultraje! Pouca vergonha! Blasfémia!". Daqui a nada já nem aperto as pérolas, limito-me a um ligeiro rolar de olhos, erguer de sobrancelhas ou encolher de ombros. Ná- nada o efeito que os revolucionários contorcionistas,  malabaristas e monociclistas pretendem! Sorry. Fail.




 Isto porque na tentativa de serem tão subversivos, tão anárquicos, tão avant garde, tão tolerantes com todas as bizarrias, tão amorais, tão politicamente correctos, tão ateus, tão promíscuos, tão hispsters, tão sensíveis, tão "artísticos"...acabam por ser todos iguais e já não escandalizarem ninguém. 

Paradoxalmente, até são esses pseudo rebeldes tão amiguinhos da liberdade e da tolerância que andam sempre com chiliques, ofendidos com tudo, armados em "floquinhos de neve"- a apertar os piercings e as rastas sempre que alguém discorda dos seus disparates!




 Aiás, digo imensas vezes  que ser conservadora é a minha forma de rebeldia - mas se calhar, não é só a minha; será, isso sim,  a única forma de rebeldia possível actualmente, face ao esprit du siècle em que todos são "diferentes" e "rebeldes". 

Ser careta é o novo punk. Posto isto, continuem que está fraco: cada vez tenho menos motivos para me chocar ou surpreender e logo, para levar as mãos às pérolas, o que é extremamente entediante. Viver sem troçar de ninguém não tem a menor das graças.

 As pérolas, essas. nunca passarão de moda- tal como a beleza, a harmonia, a elegância de maneiras, os dress codes, os valores familiares, as tradições, a religião e outras coisas que os "Lucifers de trazer por casa" tanto adoram mandar abaixo. Deal with it.







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