Recomenda-se:

Netscope

Sunday, November 18, 2018

A soldier´s daughter never cries

Runnymede Air Forces Memorial, 25 de Julho de 2018

Eu não sei introduzir textos tristes, tocantes, solenes e bonitos. Eu não tenho jeito para despedidas porque me partem o coração e me deixam, simultaneamente, totalmente atrapalhada e com medo de soar desrespeitosa ou ridícula. Tenho menos aptidão para lidar com sentimentos em público do que a Rainha de Inglaterra (falei-vos disso, em tempos). Admiro-me sempre de ser capaz de trabalhar num sítio onde há constantemente gente a chegar e a partir e a despedir-se de parentes e amigos, nem sempre com alegria. Não sei ser desta época em que é suposto partilharem-se fraquezas, ser-se vulnerável e  toda a gente saber com que palavras, com que cara e com que postura se divulgam notícias pessoais desagradáveis (sejam mais ou menos sérias) no cenário dos social media

  Como vos comuniquei há pouco por Facebook, perdi  o senhor meu pai - como me referia sempre a ele quando uma das suas tiradas me inspirava aqui um post - de forma totalmente inesperada. 


Reveillon em Londres, 2016-17


 E tal como expliquei, a comoção e as medidas que foi preciso tomar impediram-me de escrever. Mas eu não saberia o que escrever...e hesitei até agora. Escrever o quê? Um epitáfio? Escrever o quê, justos Céus? Passar adiante, guardar a notícia para os muitos familiares e amigos que nos acompanharam, debruçar-me sobre outros temas como se nada tivesse acontecido? Embora eu nunca fosse de partilhar aqui a minha vida privada, passar uma borracha também não faria sentido já que fui não só contando algumas anedotas familiares, muitas em que o pai era o protagonista, como vos dei parte de algumas ocasiões realmente importantes embora não chegasse a elaborar ora por falta de ocasião, ora porque não é mesmo o meu estilo.




 E no entanto, se calhar, o papá foi o grande responsável por eu não conseguir lidar com estas coisas de forma compungida e dramática: é que não só fui educada por ele, mas sou muitíssimo parecida com ele, para o bem e para o mal. 

 O pai não era de sentimentalismos, fora de casa pelo menos. Apesar do coração de ouro, de se derreter pela família e do seu irish/sicilian temper, era muito anglo saxónico por educação e quando se tratava de coisas sérias, entrava em fleuma britânica. No fundo era um soldado, um espartano no sangue e nos modos, e filha de soldado nunca chora. Perante uma emergência, uma tragédia, um transe da vida, depois dos primeiros prantos é suposto fazer como o Marquês de Pombal depois do Terramoto e atender ao mais urgente, em modo marcial e robótico, com nervos de aço e o coração sabe-se lá em que estado.





 O que é que o pai diria? Oh, eu sei o que ele diria: pull yourself together! Put on a brave face! Ou: sai uma palmada que é para chorar com razão! ou ainda, "oh Sissi, vamos lá a «Tarantar» por amor de Deus!!!" («tarantar» foi um verbo que inventámos a partir de um antigo nome da nossa família, Taranto, que perdendo-se oficialmente continuou  connosco como alcunha, e como era tudo gente brava e desempenada passou a designar ser corajoso e recompor-se).

 Mas - oh ironia-  no meio do desgosto esmagador, da surpresa que me deixou sem reacção, (a vida tem destes sarcasmos crueis, ou será que nos são enviados os desafios que mais tememos?)  a primeira provação foi ver-me precisamente - eu que sou um horror nestas coisas, eu que me encontro fora do país e que estava ainda sem chão -  a braços com a tarefa de esclarecer parentes, amigos, militares que comandou, alunos e tantas outras pessoas que o admiravam que, incrédulas, estarrecidas,  me contactavam de Portugal, de Londres, dos Emirados Árabes e de outros países ainda, aflitas a querer saber se era verdade, se não era algum engano ou partida de mau gosto.




 E lá tive, enquanto arranjava tudo à pressa para seguir para Lisboa, de explicar vezes sem conta (sabe Deus com que vontade de repetir aquilo que ainda me custava a perceber): caiu fulminado durante um dos seus treinos de bicicleta, o que teria sido o tipo de viagem para o outro mundo que o pai tinha pedido a Deus... se fosse só daqui a 20 anos. Rápido e indolor para ele, e de pé como um bravo até ao fim, a fazer algo que adorava. Não numa cama ou numa poltrona, que ele não suportava gente mandriona...seria o fim perfeito - se tal coisa existe - mas foi cedo demais.


Num evento na Brigada Ligeira de Intervenção de Coimbra, 2005 (?)


Não é de estranhar esta reacção de quem privara com ele: o Senhor Tenente Coronel era uma figura tão larger then life, forte e invencível, alpha male por excelência como já se vão fazendo poucos, oficial majestoso que apavorava os tímidos (até começar a contar piadas, entenda-se) fanático do fitness, tão divertido, carismático e sociável, com um aspecto tão jovem, 60 anos recém feitos mas a  rivalizar nas proezas atléticas (apesar dos nossos avisos) com os rapazinhos de 20, que parecia realmente impossível. 

Toda a gente espera que os adoentados, os azarados da vida, os sofredores, os que levam uma vida de excessos, os velhos e os emocionalmente frágeis vão primeiro. Mas homens de aço como o pai, capazes de olhar a morte nos olhos e dar-lhe um piparote sem tir-te nem guar-te, não. Esses são, supostamente, como aquela personagem de The Walking Dead: "only Merle can kill Merle". Ou como o General Patton:  "though I walk through the Valley of the shadow of Death, I shall fear no evil...because I am the meanest motherf*** in the Valley.'

 Esses é suposto terem sete ou nove vidas como os gatos, e se não as gastaram todas, nobre e espectacularmente, em cenário de guerra ou numa aventura qualquer tipo Rambo ou Indiana Jones, cá ficarem ad aeternum a mandar em toda a gente, a suportar o peso do mundo nos ombros, a comandar as tropas até serem velhos rezingões mas sempre rijos, que enchem a paciência à família e espantam toda a gente com os seus chistes, partindo quando já não há mais a tirar da vida. 




 É o tipo de certeza que dá alguma segurança às pessoas e que, quando se vê que não é bem assim, as deixa cheias de medo além da tristeza. Se um homem assim é vulnerável, nada é seguro neste mundo. 


Eu própria tinha uma secreta esperança de que o pai saísse ao avô dele, que com duas tromboses em cima ainda arriava na Guarda Republicana tareias de criar bicho. Infelizmente, saiu à outra metade dos homens da família, que na minha não há meio termo: ou duram para sempre ou vão cedo e de repente.

Em Julho tínhamos passado uma semana juntos aqui no Sudoeste de Londres, em alegres patuscadas, a gozar a piscina do nosso jardim, os passeios a Windsor e a margem do rio em Twickenham (onde o nosso Rei Senhor D. Manuel II se exilou e de onde Sua Majestade apoiava as nossas tropas que lutaram ao lado dos Britânicos na I Guerra- até há um lindo memorial ao Rei e soldados portugueses  na paróquia que frequentava). 




 O autor dos meus dias adorava o Reino Unido, onde vinha regularmente em trabalho,  e os E.U.A, onde estudou em miúdo. Sempre preferiu que eu vivesse em Londres, tendo-me educado com essa ideia fixa. Até me deu o nome de uma colega de carteira do liceu (coisa que nunca lhe desculpei, se bem que o petit nom Sissi também foi ideia dele) e por sua parte, trabalhou numa organização britânica até ao fim, logo que se reformou do Exército.


Ao serviço do British Council em Abu Dhabi, com alunos e amigos


 Creio que lá no fundo amava igualmente do seu país, que serviu fielmente; mas era um amor ferozmente crítico, à maneira Queirosiana como o Afonso da Maia: nunca se exilou de vez, porém tinha um enorme desgosto pela rebaldaria em que Portugal se transformou, nomeadamente em termos de ética de trabalho e no desrespeito pelas Forças Armadas, algo que o magoava mais do que gostava de admitir. Acho que apesar das suas costelas estrangeiras, da influência britânica que norteava a sua forma de estar, de ser muito pouco português em muita coisa menos no respeito à bandeira (preferia a azul e branca, mas honrou a que temos e que o cobriu nas últimas cerimónias)  e à língua, tinha um lado vivamente lusitano, Moura enrustido e medievo capaz de brandir a espada de D. Afonso Henriques. Português da velha guarda, da raça dizimada em Alcácer Quibir, inconformado com a falta de patriotismo e de brio. Em suma, perdido e achado ferrava-se na velha Albion e só o facto de saber que lhe fiz a vontade não me encheu de remorsos por estarmos longe um do outro. 

No Verão fez-se uma onda de calor impossível, mas ainda conseguimos ir ver juntos o Museu Imperial da Guerra (onde está exposto um uniforme igual ao que membros do Corpo Expedicionário Português, como o meu bisavô, usaram) e o Memorial da Força Aérea em Surrey, onde o papá prestou homenagem aos gloriosos  caídos na II Guerra Mundial. Sem ele ver tirei-lhe o retrato que podem ver no topo da página, não sonhando que passaria a ser icónico para mim, meses mais tarde. "Que nunca por vencidos se conheçam". Godspeed, daddy.

2 comments:

M. said...

Um beijinho de conforto! Também perdi o meu há 17 anos, o meu pai que nunca ficava doente!

Susana said...

Sissi as minhas condolências. Como não tenho facebook não fazia ideia da infelicidade que caiu sobre a vossa família. Um beijinho grande

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...