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Wednesday, October 10, 2018

Casamento: a nobre arte do "cá nos havemos de arranjar"


Cindy Crawford e Rande Gerber

 Há tempos reparei em duas frases sobre a vida de casal que me deixaram a pensar. A primeira, do filme "Cavalo de Guerra" traduz algo que decerto passa pela cabeça de muita esposa por este mundo fora (principalmente daquelas que têm a seu lado homens bons mas impulsivos, que às vezes fazem disparates). 



Quando o desastrado marido da personagem de Emily Watson lhe pergunta se ao fim de tantos anos de casados ela não está já fartinha dele, a resposta dela é sublime:
"Posso detestar-te mais, mas nunca hei-de amar-te menos".
 

Ela sabe o homem corajoso e esforçado que ele é - apesar de ter voltado da guerra traumatizado e com uma perna doente, o que o leva a refugiar-se na bebida e a tomar decisões menos benéficas para a família. Conheceu o esplêndido rapaz que ele era antes disso, por quem ela se apaixonou e com quem escolheu casar mesmo quando ele regressou danificado e uma sombra de si próprio. E como é uma mulher forte e sensata, escolhe fixar-se nisso (nesse lado que ela conhece, nesse amor e nas qualidades que ele conserva) em vez de se concentrar nas dificuldades que têm passado juntos.
 Nem sempre se gosta, todos os dias, das pessoas que se ama. Amar-nos uns aos outros mesmo quando não estamos lá muito amáveis (ou estamos mesmo em modo detestável) é parte essencial do tecido de uma família.


A segunda lição veio nada mais nada menos que dos Simpsons- que a brincar, a brincar, nos vão dando dicas para um casamento sólido há mais de vinte anos!

Num daqueles  episódios em que há um flashback para os tempos de namoro da Marge e do Homer, ele fez uma daquelas asneiras monumentais em que é useiro e vezeiro. E apesar de a peripécia ser grave, capaz de deixar qualquer noiva em parafuso e de pé atrás, a boa da Marge decide ir para a frente com o casório, dizendo-lhe:

"Temos uma vida inteira pela frente
 para corrigir esses problemas".


Ora aí está uma grande verdade: bem diz o povo "quem pensa não casa". Eu acrescentaria que não casa quem pensa demasiado. A minha avozinha também repetia sempre "o casamento é uma carta fechada" e "amanhã Deus dará".



 Certamente há defeitos de carácter tais, ou relacionamentos tão tóxicos e incompatíveis, que dificilmente têm remédio por mais que as pessoas até pareçam gostar uma da outra: é o caso da violência, da infidelidade e de outras questões graves. Em situações dessas, mais vale recuar e procurar a  felicidade noutro sítio, especialmente quando só uma das pessoas parece esforçar-se para levar a relação a bom porto. E nem falemos dos casos em que só uma parte está interessada (ou continua a investir porque afinal já desperdiçou não sei quantos anos e mais vale *tentar* casar com o diabo que se conhece do que com o que não se conhece) e a outra vai deixando andar à falta de melhor. Se é assim, direita, volver! Abortar missão e para a frente que atrás vem gente!


Porém, quando não é assim; quando um casal realmente se adora, quando tem aquela cumplicidade e compatibilidade que é difícil de encontrar e se as coisas funcionam APESAR DESSA QUESTÃO INCÓMODA, então trata-se apenas de limar arestas, ao estilo "a mulher educa o marido e vice versa". E isso não se consegue de um dia para o outro... portanto é melhor armar-se de paciência, não encher o sótão de macaquinhos, arranjar um saco cheio de confiança mútua e dar um grande salto de fé, repetindo os mantras "cá nos havemos de arranjar" e "a seu tempo lidamos com isso".



Entrar num casamento conhecendo a jóia que se tem ao lado e os polimentos de que ela necessita é, a meu ver, uma atitude mais madura e bem preparada do que caminhar para o altar aos pulinhos, no impulso da ilusão, apenas para levar um grande balde de água fria pouco depois e desistir à primeira (e inevitável) tempestade. Afinal, não há relação perfeita, por muito maravilhoso que um casal seja e por mais apaixonado que se mantenha.  Porém, a boa notícia é que se vai ter de lidar com a pessoa todos os dias e enfrentar montes de desafios grandes e pequenos, o que fará com que as questões mesquinhas se vão diluindo. Uma vida inteira é muito tempo, e o tempo- mais os afazeres do dia a dia- é um santo remédio.

Alguém muito sábio disse que o amor não é só um sentimento: é uma escolha diária. Mas também é feito de muita paciência e esperança para um permanente "logo se vê".

Monday, October 8, 2018

Manners maketh man




Há dias, sem contar, calhou-me ver a comédia de espionagem Kingsman: The Golden Circle, e fiquei encantada. Boa banda sonora, excelente coregografia e fotografia e um elenco com alguns dos meus actores preferidos (como Julianne Moore e Mark Strong). Tudo isso embalado numa história que gira à volta de duas estéticas opostas, mas igualmente icónicas: por um lado, o mais puro estilo Londrino com fatinhos de Savile Row e o bom e velho código de conduta do cavalheiro Old Etonian; por outro, a atmosfera muito americana dos cowboys da velha guarda, gente desempenada e varonil que gosta pouco de disparates. Best of both worlds!



Ora, a personagem de Colin Firth, responsável por transformar num cavalheiro o herói da história, que ao início era um grandessíssimo guna/mitra/gandim (ou chav, como por cá se diz) tem um lema muito verdadeiro, que gosta de recordar - a bem ou a mal -a quem se atravessa no seu caminho:

"Manners Maketh  Man"- as maneiras fazem o Homem.

 A frase "Manners Maketh man",vulgo de moribus facit hominem, terá começado a usar-se no sec. XIV em Inglaterra, sendo a divisa adoptada pelo director dos colégios de Winchester e de Eton. O de Winchester e o New College de Oxford mantêm esse lema ainda hoje, e por boas razões!





 Ou seja, as pessoas são julgadas pela forma como se apresentam e se comportam, gostem ou não. As boas maneiras, as maneiras civilizadas, definem o homem. Traçam a diferença entre o bruto, o troglodita, e o homem de boa sociedade: de princípios, honrado e de confiança, que sabe estar em toda a parte.

 Em última análise, as boas maneiras (a que não são alheios o espírito de sacrifício, o altruismo, a coragem e o auto domínio) separam o cavalheiro bem nascido (ou simplesmente o homem bem formado) do labrego básico que vive de acordo com os instintos e os apetites egoístas, impulsos que sem moderação são sempre nocivos para si próprio e para os outros. Seguir diariamente as regras da civilidade impede as pessoas de cair na selvajaria, na anarquia e no caos.



Essa cultura continua (graças aos Céus e a lembretes constantes) bem viva aqui no Reino Unido. Por cá ouve-se muito dizer "manners cost nothing". É raríssimo ver um homem que não ceda o lugar a uma senhora ou que tente passar à frente de outras pessoas na fila para o autocarro, por muito apressado que esteja. E ai de quem o faça! Já o tenho dito: mais do que serem naturalmente corteses e bem educados, os britânicos lembram-se constantemente de agir como tal e tratam de o recordar uns aos outros, raramente caindo num excesso de informalidade, por um lado, ou no excesso ridículo das maneiras afectadas e pomposas, por outro. Lá têm outros defeitos, como todos os povos, mas gostam das coisas simples e civilizadas...e não nos enganemos, ter maneiras nas mais pequenas coisas (uma delicadeza que ao fim e ao cabo, é mesmo grátis) é o alimento diário da civilização.




Mais o que achei mais importante na mensagem do filme- e que escapa às vezes quando se tenta ensinar alguém a prestar atenção ao seu comportamento- é que ter bons modos não rebaixa ninguém, (algo que muita gente parece julgar, na era em que ser atrevido e "não levar desaforos para casa" é uma atitude muito mais à moda) nem é sinal de fraqueza. Antes pelo contrário.

A personagem de Kingsman faz questão de lembrar (com uma boa tareia, se preciso for) que ser um cavalheiro, ser elegante e civilizado, não é, como tantos brutos pensam e com isso se desculpam para serem uns grosseirões, ser delicado, pouco viril, um "copinho de leite" ou uma "florzinha de estufa". Os grandes generais todos tinham boas maneiras: de Alexandre Magno, que tratou com grande cortesia a família cativa do Rei Dário, ao General "Raposa do Deserto" Rommel, que convidou os inimigos capturados para tomar chá, isto só para citar dois que agora me ocorrem sem pensar muito: quanto mais forte um homem é, mais se pode dar ao luxo de ser cortês. Quanto mais poderoso, mais se pode dar ao luxo de ser magnânimo.

As maneiras não são só civilização: no tempo que atravessamos, são mesmo um toque de luxo (que volto a lembrar, é grátis).



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