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Monday, November 19, 2018

Amor em tempos de...paz, amor e rock n´roll




Ando há bastante tempo para criar um post sobre o Woodstock - ou antes, sobre o street styling do Woodstock, porque houve realmente looks incríveis no festival mais ou menos improvisado que correria extraordinariamente bem e viria a ser um dos eventos mais emblemáticos de todos os tempos, símbolo incontornável do movimento Flower Power e dos protestos contra a Guerra do Vietname e a favor dos Direitos Civis. 

O que se pensava ser apenas "um festão numa quinta" acabaria por se tornar o retrato de uma geração e de um tempo em que os idealistas eram ingénuos mas realmente bem intencionados e sabiam vestir de forma controversa para as normas da época mas continuar giros - ao contrário dos snowflakes de hoje que só dizem disparates, falam de barriga cheia e se põem feios de propósito. 

Deve ter sido uma época interessante para se ser jovem, por muito que eu ache que certas "novidades" que sairam daquelas cabeças mais valia nunca terem existido, porque abriram portas a muita coisa que me desgosta hoje em dia. Enfim, a História nunca se faz sem solavancos e sem que algumas coisas mudem para melhor e outras tantas para pior...


 De qualquer modo, creio que se inventassem uma máquina do tempo eu daria um pulinho ao Woodstock, apesar de Festivais não serem o meu cup of tea e de o pivete a marijuana me dar volta ao estômago a uma distância de 100 metros. Isto se a máquina do tempo incluísse uma casa de banho com duches, ou nada feito. Até posso gostar de brincar aos hippies uma vez por outra, mas sempre em versão limpinha. 

E curiosamente, foi um casal "não hippie" que passou a ser a cara do Woodstock: em Agosto de 1969 Nick e a sua então namorada, Bobbi (ele empregado num banco, ela ainda na faculdade) ouviram na rádio o aviso das autoridades para que as pessoas se mantivessem afastadas do pandemónio nas imediações do festival. 



Como os jovens têm por hábito ser do contra, agarraram em alguns amigos, pegaram na carrinha da mãe de um deles e foram ver o que se passava. Acabaram por gostar do ambiente de espontânea alegria e música que se tinha criado e ficaram, embrulhados numa colcha que encontraram abandonada a um canto.

De madrugada o fotógrafo Burk Uzzle, trabalhava para uma agência noticiosa mas decidira ir registar o evento por sua conta, viu o casal abraçado de pé contra o nascer do sol, achou a imagem bonita - e sem que os visados se apercebessem, registou o momento.



O festival acabou, a multidão dispersou e Nick e Bobbi voltaram às suas vidas normais de quem não é hippie, com responsabilidades e contas para pagar - viriam a casar dois anos e pouco depois. Só quando o álbum com a música do Woodstock veio a público souberam que tinham sido fotografados...e que estavam famosos! (Quanto a mim foi uma sorte a relação ter resultado- imaginam-se a aparecer ad aeternum ao lado de um ex em tudo quanto é merchandising de nostalgia? Cruz Credo!).




Quase 50 anos volvidos, o casalinho continua apaixonado, a receber correio dos fãs e a dar ocasionalmente entrevistas sobre as suas memórias. Numa delas, os eternos namorados partilharam mesmo a receita para um amor sem prazo de validade e um matrimónio bem sucedido:

"O casamento é difícil. Há bons e maus momentos. É preciso escolher as batalhas: às vezes é muito mais fácil ser feliz do que ter razão. É preciso perguntar a nós mesmos- estou melhor com ou sem esta pessoa? E se estamos melhor com ela, então fazemos com que resulte".

Quanto a mim, esta é a fórmula mais sensata de todas. Devia vir escrita em papel selado quando se avançam com os documentos na conservatória....




Sunday, November 18, 2018

A soldier´s daughter never cries

Runnymede Air Forces Memorial, 25 de Julho de 2018

Eu não sei introduzir textos tristes, tocantes, solenes e bonitos. Eu não tenho jeito para despedidas porque me partem o coração e me deixam, simultaneamente, totalmente atrapalhada e com medo de soar desrespeitosa ou ridícula. Tenho menos aptidão para lidar com sentimentos em público do que a Rainha de Inglaterra (falei-vos disso, em tempos). Admiro-me sempre de ser capaz de trabalhar num sítio onde há constantemente gente a chegar e a partir e a despedir-se de parentes e amigos, nem sempre com alegria. Não sei ser desta época em que é suposto partilharem-se fraquezas, ser-se vulnerável e  toda a gente saber com que palavras, com que cara e com que postura se divulgam notícias pessoais desagradáveis (sejam mais ou menos sérias) no cenário dos social media

  Como vos comuniquei há pouco por Facebook, perdi  o senhor meu pai - como me referia sempre a ele quando uma das suas tiradas me inspirava aqui um post - de forma totalmente inesperada. 


Reveillon em Londres, 2016-17


 E tal como expliquei, a comoção e as medidas que foi preciso tomar impediram-me de escrever. Mas eu não saberia o que escrever...e hesitei até agora. Escrever o quê? Um epitáfio? Escrever o quê, justos Céus? Passar adiante, guardar a notícia para os muitos familiares e amigos que nos acompanharam, debruçar-me sobre outros temas como se nada tivesse acontecido? Embora eu nunca fosse de partilhar aqui a minha vida privada, passar uma borracha também não faria sentido já que fui não só contando algumas anedotas familiares, muitas em que o pai era o protagonista, como vos dei parte de algumas ocasiões realmente importantes embora não chegasse a elaborar ora por falta de ocasião, ora porque não é mesmo o meu estilo.




 E no entanto, se calhar, o papá foi o grande responsável por eu não conseguir lidar com estas coisas de forma compungida e dramática: é que não só fui educada por ele, mas sou muitíssimo parecida com ele, para o bem e para o mal. 

 O pai não era de sentimentalismos, fora de casa pelo menos. Apesar do coração de ouro, de se derreter pela família e do seu irish/sicilian temper, era muito anglo saxónico por educação e quando se tratava de coisas sérias, entrava em fleuma britânica. No fundo era um soldado, um espartano no sangue e nos modos, e filha de soldado nunca chora. Perante uma emergência, uma tragédia, um transe da vida, depois dos primeiros prantos é suposto fazer como o Marquês de Pombal depois do Terramoto e atender ao mais urgente, em modo marcial e robótico, com nervos de aço e o coração sabe-se lá em que estado.





 O que é que o pai diria? Oh, eu sei o que ele diria: pull yourself together! Put on a brave face! Ou: sai uma palmada que é para chorar com razão! ou ainda, "oh Sissi, vamos lá a «Tarantar» por amor de Deus!!!" («tarantar» foi um verbo que inventámos a partir de um antigo nome da nossa família, Taranto, que perdendo-se oficialmente continuou  connosco como alcunha, e como era tudo gente brava e desempenada passou a designar ser corajoso e recompor-se).

 Mas - oh ironia-  no meio do desgosto esmagador, da surpresa que me deixou sem reacção, (a vida tem destes sarcasmos crueis, ou será que nos são enviados os desafios que mais tememos?)  a primeira provação foi ver-me precisamente - eu que sou um horror nestas coisas, eu que me encontro fora do país e que estava ainda sem chão -  a braços com a tarefa de esclarecer parentes, amigos, militares que comandou, alunos e tantas outras pessoas que o admiravam que, incrédulas, estarrecidas,  me contactavam de Portugal, de Londres, dos Emirados Árabes e de outros países ainda, aflitas a querer saber se era verdade, se não era algum engano ou partida de mau gosto.




 E lá tive, enquanto arranjava tudo à pressa para seguir para Lisboa, de explicar vezes sem conta (sabe Deus com que vontade de repetir aquilo que ainda me custava a perceber): caiu fulminado durante um dos seus treinos de bicicleta, o que teria sido o tipo de viagem para o outro mundo que o pai tinha pedido a Deus... se fosse só daqui a 20 anos. Rápido e indolor para ele, e de pé como um bravo até ao fim, a fazer algo que adorava. Não numa cama ou numa poltrona, que ele não suportava gente mandriona...seria o fim perfeito - se tal coisa existe - mas foi cedo demais.


Num evento na Brigada Ligeira de Intervenção de Coimbra, 2005 (?)


Não é de estranhar esta reacção de quem privara com ele: o Senhor Tenente Coronel era uma figura tão larger then life, forte e invencível, alpha male por excelência como já se vão fazendo poucos, oficial majestoso que apavorava os tímidos (até começar a contar piadas, entenda-se) fanático do fitness, tão divertido, carismático e sociável, com um aspecto tão jovem, 60 anos recém feitos mas a  rivalizar nas proezas atléticas (apesar dos nossos avisos) com os rapazinhos de 20, que parecia realmente impossível. 

Toda a gente espera que os adoentados, os azarados da vida, os sofredores, os que levam uma vida de excessos, os velhos e os emocionalmente frágeis vão primeiro. Mas homens de aço como o pai, capazes de olhar a morte nos olhos e dar-lhe um piparote sem tir-te nem guar-te, não. Esses são, supostamente, como aquela personagem de The Walking Dead: "only Merle can kill Merle". Ou como o General Patton:  "though I walk through the Valley of the shadow of Death, I shall fear no evil...because I am the meanest motherf*** in the Valley.'

 Esses é suposto terem sete ou nove vidas como os gatos, e se não as gastaram todas, nobre e espectacularmente, em cenário de guerra ou numa aventura qualquer tipo Rambo ou Indiana Jones, cá ficarem ad aeternum a mandar em toda a gente, a suportar o peso do mundo nos ombros, a comandar as tropas até serem velhos rezingões mas sempre rijos, que enchem a paciência à família e espantam toda a gente com os seus chistes, partindo quando já não há mais a tirar da vida. 




 É o tipo de certeza que dá alguma segurança às pessoas e que, quando se vê que não é bem assim, as deixa cheias de medo além da tristeza. Se um homem assim é vulnerável, nada é seguro neste mundo. 


Eu própria tinha uma secreta esperança de que o pai saísse ao avô dele, que com duas tromboses em cima ainda arriava na Guarda Republicana tareias de criar bicho. Infelizmente, saiu à outra metade dos homens da família, que na minha não há meio termo: ou duram para sempre ou vão cedo e de repente.

Em Julho tínhamos passado uma semana juntos aqui no Sudoeste de Londres, em alegres patuscadas, a gozar a piscina do nosso jardim, os passeios a Windsor e a margem do rio em Twickenham (onde o nosso Rei Senhor D. Manuel II se exilou e de onde Sua Majestade apoiava as nossas tropas que lutaram ao lado dos Britânicos na I Guerra- até há um lindo memorial ao Rei e soldados portugueses  na paróquia que frequentava). 




 O autor dos meus dias adorava o Reino Unido, onde vinha regularmente em trabalho,  e os E.U.A, onde estudou em miúdo. Sempre preferiu que eu vivesse em Londres, tendo-me educado com essa ideia fixa. Até me deu o nome de uma colega de carteira do liceu (coisa que nunca lhe desculpei, se bem que o petit nom Sissi também foi ideia dele) e por sua parte, trabalhou numa organização britânica até ao fim, logo que se reformou do Exército.


Ao serviço do British Council em Abu Dhabi, com alunos e amigos


 Creio que lá no fundo amava igualmente do seu país, que serviu fielmente; mas era um amor ferozmente crítico, à maneira Queirosiana como o Afonso da Maia: nunca se exilou de vez, porém tinha um enorme desgosto pela rebaldaria em que Portugal se transformou, nomeadamente em termos de ética de trabalho e no desrespeito pelas Forças Armadas, algo que o magoava mais do que gostava de admitir. Acho que apesar das suas costelas estrangeiras, da influência britânica que norteava a sua forma de estar, de ser muito pouco português em muita coisa menos no respeito à bandeira (preferia a azul e branca, mas honrou a que temos e que o cobriu nas últimas cerimónias)  e à língua, tinha um lado vivamente lusitano, Moura enrustido e medievo capaz de brandir a espada de D. Afonso Henriques. Português da velha guarda, da raça dizimada em Alcácer Quibir, inconformado com a falta de patriotismo e de brio. Em suma, perdido e achado ferrava-se na velha Albion e só o facto de saber que lhe fiz a vontade não me encheu de remorsos por estarmos longe um do outro. 

No Verão fez-se uma onda de calor impossível, mas ainda conseguimos ir ver juntos o Museu Imperial da Guerra (onde está exposto um uniforme igual ao que membros do Corpo Expedicionário Português, como o meu bisavô, usaram) e o Memorial da Força Aérea em Surrey, onde o papá prestou homenagem aos gloriosos  caídos na II Guerra Mundial. Sem ele ver tirei-lhe o retrato que podem ver no topo da página, não sonhando que passaria a ser icónico para mim, meses mais tarde. "Que nunca por vencidos se conheçam". Godspeed, daddy.

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