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Thursday, January 10, 2019

Sobre as polémicas televisivas da semana...




... só tenho uma coisa a dizer: os portugueses dão demasiada importância à televisão.


Podem armar-se em muito progressivos, muito avant garde, na proa das novas tecnologias e super anti fascitoides (a modinha de ver fascistas até debaixo da cama nunca esteve de tão boa saúde) mas mantêm pela TV um fascínio tão bacoco como tinham no tempo do nacional - canconetismo, com dois canais a preto e branco e quase nernhuma informação alternativa.

Só isso explica a relevância dada a Cristina Ferreira, ao ordenado "escandaloso" e vida privada da criatura (assunto para outro post, mas nenhuma apresentadora valeria tanto se o investimento não compensasse largamente; e que uma Tininha da Malveira tenha público a esse ponto diz muito das prioridades lusas). Ou o ultraje por Manuel Luís Goucha, também ele apresentador de entretenimento e não jornalista, por muito bem preparado que digam que é, ter tido o mau gosto de convidar um vulgar criminoso para representar ideias conservadoras (quanto a mim, um favorzinho feito à Esquerda, de propósito ou não) num programa da manhã. 

Ou ainda a indignação por o Presidente da República, esquecendo por momentos que não está no papel de celebridade (atitude que anda infelizmente na moda entre Chefes e Estado e representantes de Casas Reais) ligar em directo à mesma Cristina Ferreira a 
dar-lhe os parabéns pelo seu novo formato (que diabo, gosto do Professor Marcelo em muitas coisas, mas podia passar sem esta: mandava-lhe uma mensagem no Whatsapp e poupava-se o chilique nacional!). 


Minha gente, tudo isto pode até não ser muito edificante, mas não passa de televisão generalista; e eu julgava que a TV generalista, e os disparates que nela se possam dizer, não tinha o poder de ressuscitar Salazares nem D. Sebastiões. E que não valia grande coisa numa época em que temos acesso a dúzias de canais, a engenhocas na tv cabo para seleccionar programas, ao Youtube, a jornais online de todo o mundo e de todas as cores políticas e correntes de pensamento, mais a tantas outras formas de escolher conteúdos on demand para nos mantermos entretidos e informados. 

Afinal, parece que não: os ordenadões de fulana ou beltrana são uma ameaça à justiça social; uma entrevista (por mais mal enquadrada que seja) a um skinhead caído de pára quedas é uma ameaça à democracia e um telefonema escusado e pateta, sim, mas sem consequência, de um ex-comentador televisivo e figura popular que se fez Presidente levanta mais indignação que o caso do colar de Maria Antonieta.

Pois é, parece que me enganei e que para a generalidade dos portugueses minimamente cultos, instruídos, politicamente conscientes e supostamente dotados de espírito crítico, a "caixinha mágica" continua a ser tão poderosa como no tempo da outra senhora.
 Ou que tem o mesmo glamour e influência para pessoas "estudadas" que tem para as velhotas que discutem a vida da Cristina Ferreira na fila do Centro de Saúde, para quem tudo o que "vai à televisão" é "lindo e tem muito valor".

A única diferença é que agora podem ir para as redes sociais desabafar uns com os outros sobre o assunto. Se vissem tanta televisão como eu, que só lhe mexo para escolher o que realmente quero que ocupe o meu tempo e a minha cabecinha, andariam menos nervosos. Ainda bem que o meu paizinho me incutiu um snobismo e um cepticismo danado em relação ao pequeno écrã, safa...

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