Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, August 20, 2019

A nobre arte de lidar com o bullying... e as boas intenções


Há dias chegou-me este vídeo que mostra a reacção emocionada de um rapazito de sete anos, vítima de bullying, ao ser surpreendido pela família com um cachorrinho.
O vídeo é fofo, o canito é um amor e o pequeno, bless him, é querido e super educado. Acho lindamente que se ofereça um cãozinho ao miúdo para o animar, especialmente porque ele parece ter jeito e sensibilidade para lidar com bichos.

Porém, quanto mais olhava para aquilo mais me arrepiava de pensar "boa, agora que isto se tornou viral é que o garoto vai ser mesmo o bombo da festa lá da escola".


E de facto, houve mais internautas a comentar isso mesmo: realmente, tudo o que um miúdo perseguido por ser sensível e vulnerável precisa... é aparecer em público choroso e ranhoso, de modo a ter o seu estatuto de xoninhas documentado e esparralhado por essa Internet do Senhor, para gáudio dos rufias que o atormentam e dos que ainda possam não ter dado por ele; isto para não falar dos colegas que não sendo exactamente bullies, vão gozar com ele até à exaustão- o que não é propriamente a melhor receita para quem já não se sabe defender e é inseguro para começo de conversa.
Que diabos estariam os pais a pensar ao publicar tal coisa? "Vamos torná-lo famoso a ver se ele fica mais popular"? É que ser "famoso" costuma dar maus resultados quando se quer evitar atenção indesejada.

Mas deixemos de lado a necessidade de protagonismo e de aprovação nas redes sociais, que parece ser, hoje em dia, a raison d´être de muito boa gente  (na qual arrisco incluir, embora não conhecendo o contexto, os pais deste pobre catraio). Deixemos também de parte a velha discussão de actualmente, não se distinguir bullying de umas brincadeiras mais brutas ou do ocasional sopapo e
 concentremo-nos no essencial:  junto com o cachorrinho, a família devia ter-lhe oferecido umas aulas de Krav Maga, Mixed Martial Arts e Técnicas de Defesa Pessoal.



Valorizar e promover nas escolas ideias como a gentileza, a tolerância, a camaradagem, a aceitação da diferença, o respeito mútuo e o carinho pelos mais fracos é muito bonito e desejável (e bem mais realista e positivo do que a banal campanha "anti bullying", que é quase sempre algo divisiva e lamechas) mas de nada adianta sinalizar o problema sem dar às vítimas ferramentas para se defenderem.

Consolar e apoiar é também tudo muito bonito, mas é o miúdo - por muito que lhe desconhecidos na internet se comovam e lhe digam que ele é fofinho, super sensível, índigo, especial e um anjinho - que vai para a escola enfrentar os rufiões e voltar para casa em modo "anjo depenado e sovado" como o Eusebiozinho às mãos do Carlinhos da Maia...

O caso lembrou-me não só o lema do senhor meu pai ("se te baterem, bate-lhes também, de uma vez e com mais força: é a única linguagem que entendem") que se provou bastante eficaz, mas também este excerto do filme American Sniper, em que um pai macho alfa à moda antiga educa os filhos para não serem "lobos" (predadores que abusam da força para oprimir os mais fracos) nem "ovelhas" (uns fraquinhos que se deixam vitimizar) e sim "cães pastores" (pessoas dotadas de capacidade de agressão mas também de empatia, que se defendem vigorosamente, e ao seu semelhante, contra os "lobos"). A ideia original deste discurso vem, aliás, de um livro publicado pelo Tenente-Coronel David Grossman, especialista em psicologia de combate:


É claro que retaliar é uma ideia controversa entre pais e educadores: contra atacar tem-se provado um santo remédio contra opressores de recreio em muitos casos, mas não é para toda a gente porque exige confiança e coordenação física, além de poder levar a resultados imprevisíveis. No entanto, diz este artigo que levanta vários pontos interessantes e vale uma leitura atenta, mesmo alguns professores que desaconselham tal estratégia aos seus alunos por esses mesmos motivos, são os primeiros a recomendar aos seus próprios filhos que aprendam a defender-se. Quanto mais não seja, ganha-se sempre auto confiança ao aprender a lidar com situações de violência física ou psicológica de forma rápida e eficaz (o que pode ir de saber usar a diplomacia a dar uma resposta torta, ridicularizando quem gosta de expôr os outros, bloquear um beliscão ou dar um soco bem assente). Saber como reagir em caso de necessidade ajuda a construir uma auto estima forte, o que é meio caminho andado para afastar predadores e fazer amigos (o que por sua vez  é um grande preventivo contra rufias, que gostam de atacar alvos isolados e inseguros). Desportos de contacto como o rugby também ensinam a socializar dentro dos limites e a lidar com brincadeiras mais agressivas sem melindres.



Aprendendo as técnicas certas cada um pode, dentro da sua maneira de ser, fazer-se respeitar.

Todos já encontrámos rufiões ao longo da vida, seja na escola seja na vida adulta (algumas pessoas não crescem mesmo; ainda há pouco tempo conheci uma que só lhe faltava mesmo o bibe, mas comigo não teve sorte nenhuma e nem precisei de chegar a ser desagradável com ela). Hoje em dia o bullying tem nome, inúmeros especialistas no assunto e há tácticas para lidar com ele, mas também um certo medo generalizado do bicho papão. A verdade é que, como pais, podemos ensinar os nossos pequenitos a lidar com os bullies enquanto os vilões também são pequenos, e ver o problema como uma oportunidade para afiar as garras nas dificuldades da existência. A vida vai atirar-nos com predadores mais tarde ou mais cedo, por isso podemos bem começar de cueiros e aproveitar a deixa para os correr à bolachada enquanto é tempo, antes que causem traumas e complexos. Uma criança que enfrentou os seus bullies na escola dificilmente se deixará impressionar, depois de adulta, por chefes prepotentes ou se verá presa numa relação tóxica. Lá diz o povo: de pequenino se torce o pepino.


No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...