Recomenda-se:

Netscope

Thursday, January 17, 2019

A saga dos farnéis ("pega na lancheira e vai levar o almoço ao pai", lá dizia a outra).

John Montagu, 4º Conde de Sandwich


O farnel para crianças e adultos (e tudo o que envolve arranjá-lo) é quase uma instituição na cultura anglo saxónica- e especialmente acarinhada no Reino Unido, onde a tradição do pic nic continua viva e de boa saúde.


Piquenique nas corridas de Ascot


Ao contrário dos portugueses [que embora se vão aos  poucos (re) acostumando a trazer almoço de casa ou comprar qualquer coisa no supermercado em vez de ir sempre a restaurantes, ainda são demasiado peneirentos para fazer da lancheira um hábito] os britânicos não se acanham de comer as suas sandwich onde quer que seja. 

Ou não fosse esta a pátria da sanduíche, invenção atribuída a John Montagu, 4º Conde de Sandwich, nobre senhor que nasceu aqui bem perto de mim em Chiswick e que, não querendo interromper os seus jogos de cartas, mandaria pôr carnes frias dentro de um pão!



 Passem junto ao Selfridges perto da hora de almoço e verão muito executivo de fatinho italiano (ou melhor, Savile Row) descontraidamente sentado num parque ou num vão de escada, mofando a sua marmita enquanto goza o ar fresco com o maior à vontade. Se estava bom para o Senhor Conde de Sandwich está bom para eles, digo eu.
 Por aqui na velha Britannia há (felizmente, mas já lá chego) toda uma indústria paralela dedicada à  preparação da lancheira. Supermercados, bazares, tabacarias e até farmácias vendem tudo o que é necessário para facilitar a vida às mães e esposas (ou pais e maridos a quem também calha a fava na época da igualdade) que enfrentam diariamente esse trabalhinho de Hércules.


Executivos gozando a paparoca e o sol em Hyde Park

  De tupperwares descartáveis (porque ninguém quer, garanto-vos, chegar ao fim do dia e abrir uma lancheira com caixas cheias de restos de molho malcheiroso e peganhento e bananas esmagadas, blhec) e zipper bags a miniaturas de queijos ou pacotes mini de batatas fritas, nachos, barritas de proteínas, bolachas de aveia ou pipocas e outros snacks (com ou sem glúten, com ou sem sal, a escolha é infinita e envolve toda a espécie de modernices saudáveis, como vagens de ervilha secas e temperadas) passando por tacinhas invioláveis com ovos cozidos (cozê-los não custa, mas embrulhá-los de modo que não se esborrachem é um horror) ou snacks de sushi.... a variedade é infinita.




Resumindo, todas as manhãs há, por este país fora, milhares de estantes a serem reabastecidas e arrumadas meticulosamente unicamente a pensar na inevitabilidade do farnel. Tenho para mim que se quem produz miniaturas disto e daquilo e saladas ou sanduiches embaladas fizesse greve por uns dias, tínhamos uma revolução à francesa ou uma revolta dos coletes em terras de Sua Majestade.

A palavra "farnel" pode ser um bocado rústica, pitoresca e antiquada nesta era das paparocas gourmet e lancheiras bonitinhas para Pinterest ver (embora "farnel" evoque imagens apetitosas de cestas a abarrotar de queijo, broa, azeitonas e outras coisas boas depois de um passeio no campo). Porém,  não me ocorre chamar-lhe outra coisa. Primeiro, porque "almoços/lanches empacotados" é uma tradução um bocado redutora para a subtil, extenuante e rotineira (mas nunca repetitiva) arte de "packing a lunch".




 Segundo, porque embora eu seja um ás da cozinha (modéstia à parte) e fique horrorizada só de pensar nos assomos das feministas que se recusam a fazer sanduiches e até empunham cartazes a dizer isso, às vezes fico tão farta de planear, fazer e empacotar almoços e lanchinhos que lhe chamo farnel por mera delicadeza, para não insultar a coisa de "bucha" - palavra rude que a boa gente da lavoura empregava mas que até já ouvi dizer numa roda de fidalgos em festa de cerimónia para designar, com toda a ausência de dita cuja e o maior desrespeito e impaciência, os canapés gourmet emproados e finórios que teimavam em não chegar. Foi um episódio muito libertador, mas ainda não consigo chamar "bucha" ao farnel porque me lembra uma criada que conheci e que cozinhava lindamente mas tinha o vício de roubar coisas parvas, como panelas. Adiante.



Pessoalmente, ao fim de quase dois anos a embalar dois farnéis - um para o senhor meu marido e outro para mim-  cansei-me de andar com a minha comida atrás e achei mais prático passar na farmácia Boots ou coisa que o valha e comprar conforme me apeteça. Não me compensa a maçada nem o carrego. Mas ele, ai que não tem tempo para parar, e que lhe sabe mil vezes melhor o que a sua esposinha lhe arranja... e já agora se forem sanduiches, wraps ou saladas preparadas pela dita esposinha amantíssima e não compradas feitas, melhor. 

Haja paciência e amor aos magotes! 

É sabido que os cavalheiros, por norma, evitam a maçada de comprar comida se puderem: quando o meu irmão viveu em Trás-os -Montes preferia carregar o carro com mercearia (da despensa lá de casa)  e tupperwares com comidinha da mamã para congelar todos os fins de semana, só para não se deslocar ao supermercado nem à padaria (que ficavam a dois passos). Go figure. Porém, sejamos justos: não me admira que os homens arranjem desculpas e que as feminazis, essas preguiçosas, protestem que não lhes apetece fazer sanduiches nem embrulhar farnéis. É que realmente fazê-lo deixa de ser divertido quando se torna uma obrigação diária.



Para cada imagem bonitinha de packed lunches gourmet no Pinterest,  há todo um manancial de textos, por essa internet fora, cunhados pela pena de donas de casa desesperadas com as malvadas das buchas, farnéis, lancheiras e marmitas!

E convenhamos: depois de um dia cansativo (em que provavelmente já se passou várias vezes pelo trabalho mental de ensaiar o que comprar e arranjar para pôr na lancheira) ou de manhã, ainda estremunhada, a última coisa que apetece é estar de pé na cozinha a empacotar pasta carbonara, salada de frango com mel e mostarda, tostas à Elvis (bacon, manteiga de amendoim e geleia) sandochas de perdiz com queijo roulè e molho agridoce picante ou sushi feito em casa, fruta lavadinha e pronta a comer num zipper bag (se não comer fruta noutras horas, ao almoço e ao lanche não falha) e outros petiscos, mais os sumos, os snacks, os talheres descartáveis, guardanapos e por aí fora, tudo devidamente selado com papel de alumínio, película aderente, elásticos, etc.




Isto se tudo correr pelo melhor e se não acontecerem incidentes deprimentes como o presunto (o raio do presunto que aqui só vem cortado fininho, fininho, separado por delicadas lâminas de plástico)  colar-se inevitavelmente aos dedos. Depois uma pessoa vai a sacudir a mão e zás, lá entorna um frasco de pickles pela banca fora. Ou, ao tirar do frigorífico uma caixa de queijinhos fundidos daqueles da Vaca que Ri, a caixa dar um piparote inexplicável pelo ar e estatelar-se, acabando uma pessoa, cheia de pressa, a fazer puzzle de queijinhos para a conseguir fechar outra vez, com o desenho do bicho virado para nós a fazer troça. É caso para chamar nomes, rogar pragas e desatar aos pontapés aos tachos. Parece coisa pouca, mas valha-nos Santo Ambrósio na forma do paciente mordomo Ambrósio do Ferrero Rocher.


Lancheira da lendária casa de mercearias finas Fortnum & Mason, fornecedora da Coroa


 Complicado também é encontrar lancheiras de lona do tamanho certo: quando as acho, encomendo várias porque duram pouco e as que se vendem por aí costumam ser bastante acanhadas para caber todo o pic nic, bebidas incluídas. As da Fortnum & Mason (acima) têm o tamanho quase perfeito, embora as latas e garrafinhas fiquem um bocadinho apertadas.

Em suma, este é um óptimo treino de pachorra e destreza para quem ainda não tem filhos (e convém mesmo que se treine, porque com criancinhas mais complicado se torna o processo: toda a vida recordei com carinho e nostalgia os lautos almoços que a  senhora mãe me preparava, apenas para descobrir - precisamente quando há meses me queixei do bruxedo que é tratar disso - que ela se descabelava com as marmitas e que nem sabe onde arranjo tanta paciência. Lá se foi a minha infância idílica).

Por fim, nem comecemos com as sugestões "deles", ou a ausência das ditas:



Passa uma mulher a vida a fugir de pretendentes indecisos como o diabo da Cruz, apenas para casar com um todo decidido e sem meias tintas... que depois de dado o nó responde invariavelmente "tanto me faz...eu gosto de tudo" ou "o que a minha adorada decidir está bem" (com galanteios é que nos enganam) quando lhe perguntamos o que quer levar para o almoço!


Nada disto me faz descrer das alegrias do lar, reparem; mas que se pense "hurra, nada de arranjar lancheiras" assim que entramos de férias, diz muito de quão divertido é isto. Se tiver filhos que reclamem do que lhes arranjo, estão bem arranjados, passe o pleonasmo- passam a embrulhar o próprio almoço que é um mimo. Palavra de honra. Amanhem-se.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...