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Thursday, January 24, 2019

Mulheres, não sejam uma "Jenifer" (as Jennifers que me desculpem).




Por malhas que os feeds de notícias tecem (eu que de música brasileira só conheço praticamente samba, bossa nova mais um ou outro hit que ande para aí nas bocas de toda a gente, e que fujo de funks e coisas assustadoras dessas como o demo da Cruz) fiquei a saber que há uma cantiga orelhuda que anda a dar com todas as raparigas chamadas Jennifer em doidas lá por terras de Vera Cruz, tal como a "Mila" e a "Ana Júlia" atormentaram as homónimas em tempos idos.

Dizem que O nome dela é Jenifer (sic) vai ser o grande sucesso deste Carnaval. E a fazer fé no que costuma acontecer, não tardará até a praga se instalar por cá -  pelo menos nos antros mais underground onde se fazem bailes funk a par com festas da kizomba, twerk e latinadas ou tudo junto desde que dê para roçar fivelas e rebolar o derrièrre até ao chão (lagarto, lagarto). Fica a obra prima, se ainda não ouviram:




Fiquei curiosa e fui ver do que se tratava, descobrindo rapidamente a romântica (not) história deste sucesso. Então reparem: os autores da música/letra estavam reunidos num bar ou coisa que o valha, trabalhando em busca de um novo êxito para vender, quando uma rapariga "bastante feiinha" (palavras deles) apareceu e se abraçou a um dos rapazes, toda atiradiça e desejosa de demonstrar o seu interesse no moço.

 Mal ela virou costas, os outros começaram a troçar de tão fraca conquista: "é sua namoradinha, é?". E o galã, envergonhado de ser visto em flagrante delito com um dos seus entreténs "à falta de melhor" (já se sabe que a maior parte dos homens não é exigente quando se trata de diversão fácil e gratuita) rosnou com desprezo: "qual quê! Não, ela é do Tinder".

Os outros acharam genial e decidiram que tinham de escrever uma canção com uma história semelhante... e que incluísse o Tinder na letra.

Atenção, não estou a criticar o Tinder per se: apesar de o achar uma engenhoca assustadora por causa de revelar em tempo real a localização dos utilizadores, o tempo tem vindo a provar que nem só de engates sórdidos vive a aplicação. Tem havido muitas histórias de amor e até casamentos made in Tinder, o que prova que nesta vida tudo pode ser usado para o bem ou para o mal. Mas já se sabe que a maioria...é o que se sabe. E a tal Jennifer representa a maioria desses relacionamentos casuais pouco edificantes.




A letra é básica, como costumam ser estas letras, e depois lá lhe arranjaram um videoclip para ilustrar a fábula: o D.Juan da história saiu de um relacionamento sério com uma rapariga giraça (dentro do estilo tatuagens reles e vestidinho de poliéster, mas vá). E dali a pouco a ex, vendo-o andar numa vida airada de mulheres fáceis e vinho verde, vem toda ressabiada pedir-lhe satisfações sobre a nova "amiga" dele, ao que o mariola responde que não lhe deve explicações, mas já agora....


O nome dela é Jenifer
Eu encontrei ela no Tinder
Não é minha namorada
Mas poderia ser


O nome dela é Jenifer
Eu encontrei ela no Tinder
Mas ela faz umas paradas
Que eu não faço com você

OK, a atitude da ex nem vem ao caso agora: foquemo-nos na Jenifer (só com um "n") que pelos vistos, anda a investir muito do seu rico tempo com um rapaz que se diverte à brava com ela mas que se apressa a pô-la no seu devido lugar, esclarecendo imediatamente que ela não é sua namorada. E caso restem dúvidas, ele acrescenta logo que a boa da Jenifer (apesar de não ter o título nem os privilégios de um relacionamento, nem qualquer garantia de exclusividade ou de amor) se presta a tudo e faz vontades que a ex não fazia só para lhe agradar. Grande recompensa, hein Jenifer? Bem jogado!



Questionados sobre o que é que a Jenifer fará exactamente que a outra não estava pelos ajustes, os autores disseram que fica à imaginação de cada um- e que tanto se pode tratar de acrobacias de alcova como, simplesmente, de a Jenifer ser uma rapariga alegre, positiva, sempre pronta a acompanhá-lo aqui e ali sem esquisitices, birras, caprichos nem nariz torcido. Porém, andem a Jenifer e o D.Juan na malandrice ou muito inocentemente a jogar à bisca ou a rezar o terço, o que conta aqui é que a moça anda a dedicar-se, a troco de nada, a um homem que não a acha diga de um relacionamento sério, a ver se cola, em modo "amiga colorida com esperanças", mulher da luta ou simplesmente burrinha-parvinha. E já sabemos como isso acaba...

Algumas feministas (tinha de ser) vieram mesmo problematizar a coisa, apontando o facto de terem escolhido uma modelo e actriz plus size para fazer de Jeninha-sem-compromisso e dizendo que isso vem reforçar o estereótipo de as raparigas gordinhas (ou que não correspondem por algum motivo ao padrão de beleza) serem mais atiradiças, desinibidas, disponíveis ou "fáceis" para compensar e chamar a atenção dos rapazes, rebaixando-se a ver se assentam (ou até, se "caçam" um galã de capa de revista, que à partida estará fora do seu alcance pelo menos no que ao compromisso sério diz respeito, só para provar alguma coisa às amigas). 

A verdade é que muitas "plain Janes" realmente procedem assim (o que raramente tem um final feliz), já que a falta de auto estima nunca é boa conselheira... e que as mulheres consideradas mais atraentes costumam ver-se rodeadas de mais pretendentes por onde escolher, tendo - estatisticamente falando -menos tendência a cair em tais enredos. 

Porém, como no final das contas o que vale é o conjunto e * mais importante *, como isto vai tudo da cabecinha que se tem, do sentido de dignidade feminina, da verguenza na cara e da educação que se levou em casa, há por aí muita rapariga de aspecto banal que se sai lindamente e outras, bem mais bonitas e/ou vistosas, que se prestam a ser Jenifers da vida para os sultanetes de serviço.

Se a Jenifer não fosse Jenifer e mulher da luta, e burrinha- parvinha, e "amiguinha", e desesperada, ao ouvir o refrão saía mas era porta fora, bloqueava o espertalhão no Tinder (acho que o Tinder dá para bloquear pessoas) mandava-o à ex que o aturasse e ia em busca de alguém que estivesse realmente interessado, caidinho por ela, pelo seu sorriso, pela sua atitude positiva, etc, mortinho por a apresentar a toda a gente como "o nome dela é Jenifer, ela é minha namorada". Mas a Jenifer é Jenifer, e como ela há muitas a ganhar má fama, a desvalorizar-se e a dar má fama ao resto do mulherio, desvalorizando o belo sexo a cada par de patins. É triste, não acham?

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