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Monday, March 4, 2019

As coisas que eu ouço: não, c´os diabos!!! (Baby post #1)



Tal como partilhei convosco via Facebook, não tenciono dedicar muitos textos ao meu estado de graça. Estou nas núvens, claro - se puser de parte os enjoos contínuos, a exaustão e outros "extras" que fazem parte da encomenda - mas já se sabe que as futuras mães todas acabam por debitar as mesmas ideias, mais vírgula menos vírgula e que isto tudo só é grande novidade (e uma coisa do outro mundo) para a própria interessada.  

E como também vos disse... até ver, graças aos céus, estar de esperanças não me transformou numa taradinha canta-monos, adepta de horrores como "sessões fotográficas sexy para grávidas" e de baby showers, o que me fez comprovar que as hormonas são injustamente acusadas de muita coisa, quando a culpa assiste à falta de gosto, de decoro e de bom senso. 

Falaram-me num baby shower (com a maior boa vontade, assinale-se...) e benzi-me logo, disse que agradecia a intenção mas achava agoirenta a ideia, isto para não ser indelicada e acrescentar que é uma pinderiquice; e expliquei o mais delicadamente possível que quem desejar dar presentes poderá fazê-lo, se Deus quiser, quando o piqueno nascer e/ou for baptizado, como os nossos antepassados Católicos sempre fizeram. Só me faltava mais essa!




Vou explicar melhor, para não se zangarem já comigo: o bem intencionado hábito americano do baby shower (ou "chá de bebé", como se convencionou dizer por terras de Vera Cruz e me soa sempre a bruxas malvadas que metem criancinhas no caldeirão) começou a popularizar-se nos anos 1950, época do baby boom, como forma de desmistificar a gravidez (na época victoriana e até antes já havia tradições semelhantes, mas a festa era sensatamente feita depois do nascimento, não só devido ao secretismo que rodeava a gestação mas também aos riscos que o parto envolvia). Regra geral, era 
 um evento modesto organizado pelas amigas da gestante, sendo uma forma de ajudar a futura mãe a compor o enxoval do primeiro filho, e apenas do primeiro- que já se sabe, é sempre uma despesa considerável. 

Claro que os americanos são uns bem dispostos e uns caturras sempre prontos a fazer festas por qualquer pretexto, por isso a brincadeira foi evoluindo para formatos cada vez mais elaborados e consumistas. E também é verdade que certas coisas que no Velho Continente, de cultura mais parcimoniosa e supersticiosa, soam de mau gosto, são mais desculpáveis nos expansivos e impulsivos (mas fofos)  americanos.


Baby Shower americano na década de 1960

 Porém, tal como sucedeu com os casórios e o fenómeno bridezilla, até por Terras do Tio Sam a coisa tem ganho contornos de tal maneira egocêntricos e gananciosos (de baby showers organizados pela própria futura mãe para "pescar presentes" a listas de exigências, há casos escandalosos) e uma estética tão aberrante que nenhuma pessoa de bom gosto se lembrará de copiar tais ideias.


Para piorar um pouco, a figura do baby shower popularizou-se na Europa muito à conta de reality shows como o programa das Kardashians e afins, o que já diz tudo. As primeiras pessoas que vi a adoptar a ideia eram precisamente...enfim, mulherio de gosto e perfil duvidoso.

 Mas mais importante, além de ser uma maneira mais ou menos descarada de pedinchar presentes, fazer um baby shower é deitar foguetes antes da festa, o que nunca é alvissareiro por muito que a ciência evolua- até a criancinha estar cá fora sã e escorreita nunca se sabe, lagarto, lagarto, bate na madeira, cruzes canhoto

As minhas avós haviam de persignar-se ante tal irreverência, mas não estou sozinha nisto: em Inglaterra muita gente mais old school considera o conceito de baby shower azarento, inapropriado e deselegante. 

Por estes dias a ex-actriz de TV Cabo que casou com o Príncipe Harry deixou muito boa gente desagradada ao organizar um baby shower ultra extravagante e caríssimo em Nova Iorque, algo normal entre novos ricos mas altamente mal visto em círculos tradicionais (quanto mais na Família Real Britânica) onde a ostentação é desprezada e há toda uma aura de superstição que rodeia o nascimento de uma criança. 

Na semana passada conversava com uma amiga irlandesa que era da mesma opinião: os irlandeses conseguem ser mais dados a crendices que italianos, brasileiros, ingleses e portugueses todos juntos; e por tradição nem o berço era trazido para casa antes de o bebé vir ao mundo são e salvo. Agora, com esta americanice, não só as avós se afligem, como as pessoas se sentem na obrigação de dar lembranças três vezes: no baby shower, na primeira visita ao bebé e no baptizado!

Por tudo isso, obrigada mas não obrigada...e acho aconselhável que quem quiser adoptar o hábito para mimar uma amiga o faça discretamente, com certa modéstia elegante, depois do nascimento do bebé -principalmente se não vai haver baptizado, pelo menos nos próximos tempos. Não constranger os outros nem criar obrigações escusadas é uma delicadeza que cai bem em toda a parte.


mmmm...não, obrigada, com mil diabos!!!

Mas há mais; parece que nenhuma futura mãe hoje em dia escapa ao assunto dos tenebrosos "books de gestante"(Credo!) mesmo quando foge deles como o demo da Cruz.



Ora, há umas semanas estava previsto nevar em Londres e fiquei com esperança de que houvesse um nevão como no Inverno passado, quando tudo aqui à volta ficou coberto de um espesso manto branco e tive a oportunidade de tirar boas fotografias. 

Como tem estado sempre chuva e vento e não tem havido boa luz, até agora ainda tirei poucos "retratos de mamã para mais tarde recordar" (lá por não gostar de "books de gestantes" não quer dizer que não queira guardar alguns instantâneos bonitos e espontâneos, como sempre se fez desde que as famílias passaram a ter acesso a máquinas fotográficas). 

E lá pensei "boa, se nevar podemos conseguir algumas imagens bonitas" tendo em mente, claro está, algo natural, fofinho e normal como o exemplo no topo do texto. Comentei o assunto com umas conhecidas e eis que uma, que casou bem e teve convívios bastante civilizados na melhor sociedade (logo ganhou obrigação para não dizer tais disparates) se sai com esta:

"Que máximo! Se nevar podes tirar fotografias de bikini!!!".

(Tipo, assim:)



(ou assim!)



Podem imaginar as reacções que me passaram pela cabeça (rir-me à gargalhada na cara dela ou oferecer-lhe uma tareia, por exemplo!) mas fiquei-me por um "estás doida, rapariga, para que é que eu havia de querer retratos nesses preparos?  Então e o frio?" e ela, com o ar mais sério deste mundo: "punhas um casaco de peles por cima! Não queres mostrar que és uma grávida em boa forma e lembrar-te disso mais tarde?".

Sim, que isso do casaco havia de valer de muito...nem sei o que é pior em tal ideia: se o ridículo, se a galdeirice e sem vergonhice, se o disparatado de andar de bikini no meio da neve em qualquer circunstância, se o propósito não só de tirar tais fotografias mas de partilhá-las com o mundo (como se o meu marido alguma vez desse Amens a tal coisa, ainda que eu fosse desmiolada a esse ponto), se o facto de o frio ser arriscadíssimo não só para uma gestante mas para o pobre inocente que não fez mal nenhum.

 Anda o Serviço Nacional de Saúde a gastar meios em vacinas da gripe e da tosse  convulsa obrigatórias para grávidas (as duas já cá cantam, não vá o diabo tecê-las, e até reagi bastante mal a uma delas) porque É INVERNO E ESTÁ FRIO, mas vamos lá descascar-nos em bikini fora de época para passar vergonhaças e pneumonias. 

Como alguém disse recentemente - e com carradas de razão- numa conhecida página facebookiana cá do burgo, " quando as mulheres tiram a roupa por outro motivo são taxadas de galdérias mas se estão grávidas já tudo diz que é lindo?". Go figure.

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