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Thursday, April 25, 2019

Louboutin, Portugal e os Juliões Zuzartes.

Monsieur Louboutin com o sorriso ingénuo de quem ainda não percebeu que este é um país de maldispostos.


Há muitas, muitas coisas portuguesas de que sinto falta no Reino Unido. Comprar peixe fresco e carne de qualidade em toda a parte. Vinho e azeite decentes. Água da torneira (em Coimbra, vá, onde a água sabe toda à do Luso) que seja potável e agradável, o que permite que uma pessoa esquecer-se de comprar água mineral não seja o fim do mundo.

Passear por Lisboa. Pinhais com caruma. Pinhais com caruma perto da praia, com cheiro a maresia e piqueniques de frango de churrasco que não mate uma alma de susto (o frango em Inglaterra merece um post em si mesmo, volta ASAE que estás perdoada). 
Canja de galinha que seja mesmo canja, sem legumes (blhec) em qualquer tasca da esquina. Quem diz canja diz sopa Juliana ou caldo verde (aqui para fazer caldo verde só cortando-o eu, haja pachorra, ou comprando congelado em mercearias portuguesas).



Tascas da esquina que vendam comida caseira para fora. Igrejas com mais de 200 anos (por cá as Igrejas mais antigas foram quase todas transformadas em anglicanas) com ar e cara de Católicas e cinco Missas por dia todos os dias, à vontade e conveniência do fiel mais ocupado, mais preguiçoso e mais ingrato. Ou até mesmo da nossa burocracia - que é horrorosa, mas pelo menos faz sentido: a burocracia britânica pode ser menos intrincada mas tem cada doideira que não lembra ao Menino Jesus e às vezes parece tirada, sem tirar nem pôr, da Alice no País das maravilhas.

Enfim, Portugal tem imensas coisas que me fazem falta em Londres... mas outras tantas sem as quais passo perfeitamente, obrigadinha.

No topo da lista estão decerto o atrevimento, a excessiva informalidade, o desrespeito pelas tradições e o desprezo pela cortesia que era tão portuguesa  (um dia destes volto a isso).

Porém ainda mais intolerável, se possível, é a negatividade gratuita de certos "Zés e Marias Povinho", sempre de "Toma!" em riste para atirar a esmo, sem alvo definido, just in case, a que se junta a pelintrice inerente, generalizada, hereditária, fadada, de mão dada com um ódio vago e parvo pelos "ricos". (Deixo, a talhe de foice, um excelente texto sobre o assunto, de um estimado professor de quem tive a honra de ser aluna).






 E pior ainda (já que ser pobre é aborrecido mas não é nenhuma desonra e ser cronicamente pobretanas não é, tantas vezes, responsabilidade de cada um) é o estranho misto de despeito e orgulho exibicionista em ser pelintra.

Eça de Queiroz retratou lindamente esse tipo na figura de Julião Zuzarte, o médico azarado d' O Primo Basílio. Secretamente envergonhado da sua falta de recursos (que não era culpa sua, coitado) fazia gala (isso sim, culpa sua) em ser miserabilista e azedo, expondo, exagerando mesmo, as suas maleitas económicas e não se dando sequer ao trabalho de se pentear, engraxar as botas e de enfim, tentar parecer apresentável.



"É um extravagante — disse com terror Sebastião, — Não te pareceu, hem ?
— Pareceu-me um asno. Umas maneiras, uma afectação, um alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de mulher... E com um certo sorriso azedado: — Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas, — disse, apontando para os botins mal engraxados — tenho muita honra nelas, são de quem trabalha... Porque publicamente costumava gloriar-se duma pobreza que intimamente não cessava de o humilhar."







Falando em botas, o famoso designer de calçado de luxo Christian Louboutin tem há muitos anos casa em Portugal e adora o nosso país. Ao contrário de Madonna, (que para aí veio dar nas vistas e cheia de exigências depois de ter cumprido a sua palavra e desamparado a loja ao tio Donald Trump, que nos passou alegremente a pastilha) Monsieur Louboutin gasta discretamente o seu rico tempo e dinheiro em solo português a gozar o sol e a boa paparoca como um pacato cidadão.

O pior é que o senhor (como qualquer sortudo que viva em Portugal com rendimentos que lhe permitam não precisar de trabalhar para/com portugueses nem privar com o hoi polloi) tem uma ideia romântica de Portugal e dos lusitanos, povo gentil e fofinho, hospitaleiro e ameno - aparentemente.





E julgando fazer uma grande avaria, eis que o designer de moda se lembra de criar uma carteira inspirada em Portugal, com motivos portugueses, mas (como é logico, coriscos!!!) a pensar no seu público alvo internacional, na sua clientela do costume, logo, com o preço habitual dos seus produtos (o que se traduz no valor médio de uma carteira de luxo, ou seja, cerca de 1500€) sendo que parte dos lucros até reverte para uma associação de incentivo ao artesanato português e tudo.





Pois bem, a reacção nas redes sociais foi de tremer e de deixar uma pessoa envergonhada do seu passaporte. É caso para dizer, no tom mais revisteiro e mais lisboeta: ó filho, o que tu "fostes" fazer!

Deixo os print screen falarem por si, em toda a sua pobreza de espírito e baixeza- perdão, em todo o seu esplendor, a atacar a "mala" ora com o ressentimento da raposa que não chegou às uvas, ora com a indignação da injustiça social bacoca:










Vamos lá ver se nos entendemos como gente crescida, bando de malcriadões: Louboutin não fez um especial favor aos portugueses, não desenhou especificamente para as mulheres portuguesas.

 O artista inspirou-se na nossa paisagem, na nossa atmosfera, na nossa cultura, simplesmente e sem qualquer má intenção, da mesma forma que Messere Dolce e Signore Gabbana se inspiram tantas vezes na Sicília e na Espanha, sabendo perfeitamente que os seus modelos não são acessíveis ao bolso da maioria dos sicilianos/italianos e espanhóis. Monsieur Louboutin desenhou para o seu público-alvo assim como o seu concorrente Senhor Luís Onofre, português de gema, desenha sapatos luxuosos (sou particularmente fã das suas botas) que não estão ao alcance da maior parte dos portugueses, pensados para a sua freguesia espalhada por este mundo de Deus.



É claro que não faltam na Pátria senhoras nacionais que (umas com mais ostentação, outras com bom gosto) usam Louboutin, Onofre, Chanel, Hermes e outras sem que isso lhes faça mossa alguma no orçamento (benza Deus) mas não são a maioria- e luxo é luxo por isso mesmo: parte qualidade, parte arrebiques, vive sobretudo da fantasia e da exclusividade, do nome, da raridade. Quem pode pode, quem não pode tira inspiração e lá se arranja de outra maneira.

Há igualmente muita gente abastada que acha isso tudo um disparate e que não se justificam tais balúrdios por uma carteira ou um par de sapatos (o que não deixa de ser verdade num país como o nosso onde temos excelente marroquinaria a preços normais) - são opções, prioridades e opiniões inseparáveis da Liberdade que é tão cara aos portugueses sempre com miufa de que voltemos ao tempo da outra senhora.

O que é inegável é que Christian Louboutin estava no seu direito de se inspirar em Portugal para criar uma carteira para o seu segmento de mercado, e que não tem obrigação alguma de inventar um modelo mais barato só para que as portuguesas o possam comprar. Isso até seria, muito provavelmente, condescendente e paternalista da sua parte, digo eu que não gosto nada que tenham pena de mim.





Também não lhe devemos louvores e gratidão lá por causa desse gesto simpático, bem entendido: a carteira, não importa se é bonita ou nem por isso, é apenas uma homenagem gira que para qualquer povo com um mínimo de "mundo" e sofisticação, para qualquer povo/país "cosmopolita" como Portugal tanto adora tentar provar que é, não seria digno de nota.
Mas qual quê - como sempre, qualquer atenção vinda "do estrangeiro" é recebida com um misto de admiração e desconfiança, posta na coroa da Lua com a babujice e curiosidade dos selvagens e simultaneamente, virada de todos os ângulos com cupidez interesseira, a ver que vantagenzinha pode o portuguesito tirar dali, seja um exemplar grátis seja uma parte dos lucros.

É de entristecer esta mesquinhez, esta indelicadeza, esta agressividade gratuita com coisas de nada - esta futilidade de ser maldoso até com as futilidades da vida. Se os nativos recebem à pedrada cada homenagem que os seus convidados lhe prestam, podem esperar sentadinhos que nunca terão o "reconhecimento internacional", essa pedra filosofal a que o país tanto aspira. E é bem feito.

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