Recomenda-se:

Netscope

Wednesday, October 30, 2019

Nem os bonecos escapam ao absurdo da "masculinidade tóxica"!




O meu pequenote descobriu aos três meses de idade que gostava de ver televisão. Eu nem sabia que crianças tão pequenas prestavam atenção a grande coisa- ou pelo menos, no que a conteúdos diz respeito, a programas que não fossem aqueles mobiles psicadélicos tipo Baby TV (eu costumava fazer troça do Baby TV, dizendo que era uma tonteria para pôr os bebés todos maluquinhos com tantas cores às voltas e músicas deprimentes, mas a verdade é que os entretém. E não sejamos hipócritas:  que qualquer coisa que os distraia é uma obra de misericórdia para os pais em certas alturas do dia). 

Porém, certa vez eu sentei-o ao pé de mim enquanto via Horrible Histories (um programa de sketches de História para crianças da BBC, que eu adoro e que vai dar post um dia destes) e o malandreco ficou apaixonado: desatou a dar guinchinhos, pulinhos e a agitar os bracitos ao som do genérico- todo contente com as rábulas de execuções, surtos de peste negra e peripécias do Nero, do Hitler e da Cleópatra. Sai à mãe, nada feito. E lá explorei os canais infantis daqueles para miúdos mesmo minúsculos, em busca de opções aceitáveis para o deixar ver um bocadinho quando preciso de fazer as minhas lides. 





O belo resultado disso é que, primeiro, o karma que acumulei na infância me veio morder no derrièrre mais cedo do que eu esperava porque o maroto (que benza-o Deus, dorme a noite inteira, ou quase, desde que veio ao mundo) acorda às seis da manhã e já nem ficar na cama dos pais o segura: quer ir para a sala mexer nos brinquedos, balouçar-se no ovo  e...ver os bonecos. Agora é que sei como os pai e a mãe se sentiam quando eu e o meu irmão nos levantávamos com as galinhas ao fim de semana!

 E segundo, não só fiquei a conhecer sumidades de que já ouvira falar, e.g. a célebre Masha e o Urso (que é francamente melhor do que eu imaginava; nada de pavoroso tipo Ruca, que nunca entrará cá em casa enquanto eu estiver de perfeito juízo) como retomei o contacto com personagens que já conhecia, como o comboio Thomas (sinistro) Mr.Bean (que ele também adora) ou o Bombeiro Sam, que cativou logo o António e que vamos discutir hoje. É que este pode parecer um baby post, mas não é.

  


Quem cresceu nos anos 80 e 90 deve recordar-se da fofa série em stop motion Fireman Sam, criada por um bombeiro de Londres e produzida no País de Gales. Quando passou em Portugal eu já era maiorzinha e só via porque dava antes dos Cavaleiros do Zodíaco, mas gostava imenso da canção do genérico e por causa disso nunca mais me esqueci.







Ora, parece que o simpático bombeiro nunca se foi realmente embora, que é uma espécie de tesouro nacional cá no Reino Unido e que se produziram várias versões ao longo dos anos. Finalmente, porque fazer stop motion é demoradíssimo, caríssimo, chatíssimo e agora parece ser de rigueur converter tudo quanto é animação em CGI, as novas temporadas são produzidas numa animação computorizada algo questionável (longe da qualidade da Masha e o Urso, por exemplo) mas que é compensada por guiões muito bem escritos e assim como assim, sempre permite aventuras mais emocionantes com helicóteros, anfíbios, submarinos e tudo quanto é geringonça.




Se fizermos vista grossa a certos factos apontados pelos fãs - como a quantidade enorme de desastres ocorridos numa vilória como Pontypandy, ou o absurdo de uma comunidade tão pequena, com meia dúzia de habitantes, ter à disposição não sei quantos carros de bombeiros de vários tamanhos, um helicóptero, uma data de barcos, mais motos de água que o Baywatch, etc, e de esses recursos serem usados a esmo, às vezes para apagar uma frigideira; ou ainda se ignorarmos que o pequeno Norman Price, que causa 90% desses incidentes com as suas brincadeiras, ser um perigo para a sociedade e raramente ser castigado proporcionalmente à asneira e ao desperdício de meios- a série é mesmo gira e passa bons exemplos.


Este garoto é muito azarado, ou um sociopata dos grandes.


É que mesmo segundo a lupa actual do politicamente correcto, pouco há a apontar em Fireman Sam. Tem a lição de moral (geralmente, normas de segurança que dá sempre jeito saber) tem a inclusão e a diversidade (há uma personagem paraplégica, minorias representadas, um casal birracial, uma italiana, Bella Lasagne, que é a única que leva com um estereótipo, gordos e magros, novos e velhos) e não esquece a igualdade de género, com duas bombeiras que têm tanto tempo de antena como os homens- pelo menos a principal bombeira, Penny.




É claro que Sam e os rapazes seus companheiros, principalmente o piloto de helicóperos australiano, Tom (que eu acho engraçado por ser a cara chapada do senhor meu marido em versão animada) são, felizmente, o retrato do macho alfa bem dirigido, que canaliza a sua masculinidade, força, capacidade de liderança e valentia para proteger os mais fracos e acudir a quem precisa. São desempenados e fortes mas nenhum deles é bronco, nem fanfarrão, nem brutamontes, nem arrogante ou um bully, antes pelo contrário. E todos tratam as colegas mulheres de igual para igual. 





Parece uma série sã e equilibrada para o século XXI, não acham? Seria então de esperar que ninguém fosse embirrar com o Sam e companhia, certo?


*Som de buzina* ERRADO!

O pobre Sam, que é tão bom moço e vive para ajudar toda a gente, tem enfrentado desde 2017 um flagelo pior que a peste do Norman Price. Ou seja, acusações de sexismo de liberais de Esquerda, feministas e outros arautos do políticamente correcto (incluindo o Mayor de Londres, Sadiq Khan, useiro e vezeiro nestas andanças, que apoiou uma campanha para pressionar o infeliz a mudar o nome para "Firefighter Sam"). 

Depois, como esta gente super tolerante arranja maneira, sempre em nome da tolerância, de ser intolerante até com personagens de ficção e entra em modo #cancel quando não gosta de alguma coisa, este ano o desgraçado do Sam foi mesmo "despedido" do seu papel de mascote dos Bombeiros do Condado de Lincolnshire, por ser "demasiado masculino", o que "desencoraja as mulheres que pensem tornar-se bombeiras". E não se terem posto a cavalo no movimento #metoo para o acusar também de assédio ao mulherio de Pontypandy foi uma sorte!

Resumindo e baralhando, a queixa seguiu e apesar de a população e a imprensa protestarem contra tal disparate, frisando que bastava juntarem a Penny às mascotes e problema resolvido, os social justice warriors lá levaram a sua avante. 

E zás: substituiram o Bombeiro Sam por uns extintores humanizados de ambos os sexos, que as pessoas rapidamente apelidaram de "sapos coloridos" ou "preservativos gigantes".



Eu cá mantenho a minha teoria, de que já falei aqui há tempos a propósito da Gilette: estas ideias muito "woke" (jargão irritante para "estar alerta para injustiças sociais") só podem vir de um complexo de inferioridade. As feministas amargas e encalhadas queriam um Sam ou um Tom mas nunca passam de um contacto no Tinder, quando muito, para esses "homens com H" que têm mais e melhor por onde escolher; ou até gostavam de ser bombeiras mas têm medo e preguiça de entrar em forma para isso, portanto limitam-se a berrar que são muito corajosas e independentes a ver se disfarçam. E os homens que as apoiam, como não podem ser um Tom nem um Sam, fazem coro a ver se têm sorte com as mulheres, nem que seja com essas hárpias eternamente mal dispostas, deitando ao mesmo tempo abaixo os machos alfa que invejam. Convençam-me do contrário, porque não me ocorre outra hipótese que tenha pés e cabeça.

O jornalista Piers Morgan, que detesta tais bizarrias e tem protestado várias vezes contra a ditadura da "justiça social" e do politicamento correcto, falou lindamente contra este absurdo, lembrando que "as mulheres que se deixem desencorajar por um raio de um desenho animado provavelmente não têm o que é preciso para ser bombeiras".





É caso para repetir aquela anedota que tem circulado nas redes sociais a propósito destas paranoias: parece que os doidos estão a dirigir o manicómio. Ou simplesmente, que as pessoas andam com demasiado tempo livre nas mãos, para se entreterem a problematizar futilidades destas.



Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...