Por pessoas -chihuahua, entenda-se as que são sempre assim (Credo!) ou as que, face a qualquer contrariedade, não se sabem expressar nem desabafar sem proceder como chihuahuas.
Deixem-me tentar explicar. É que eu adoro quase todos os animaizinhos (excepto centopeias, caranguejos-ferradura e mais umas criaturas estranhas) mas os chihuahuas estão longe de ser o meu cão preferido. Para ser mais clara, apesar de ser mais uma cat person gosto de cães e eles gostam de mim: regra geral, não há cão que me ladre. E nunca nenhum me mordeu, mesmo os que têm má fama. Palavra, até os pit bulls me adoram.
Mesmo o único cão que me fez mal, tinha eu uns dois ou três anos, foi por gostar muito de mim: o Kaiser, supostamente impassível dobermann do vizinho, que na ânsia de me dar um abraço canino me atirou ao chão.
A estrada estava a ser alcatroada e bati com a minha face de bebé na gravilha. Fiquei com uma esfoladela por toda a bochecha, do tamanho de uma bolacha. Não deixou marca, graças aos céus, nem ganhei a mínima aversão a canídeos. Outra experiência, porém,
fez-me preferir cães calmos e altivos, que saibam guardar uma casa, como os Pastores Alemães e os Serra da Estrela: o meu springer spaniel (chamado Calimero por ser trapalhão e não dever muito à coragem) enrolou a trela nas minhas pernas, eu tropecei nele e fomos os dois, embrulhados um no outro, a rebolar ladeira abaixo. Calimero não sofreu nada, eu dei cabo de um joelho. Ainda tenho a cicatriz.
Volto a dizer, sou incapaz de voltar costas a um cão, gato, ou qualquer bichinho necessitado seja de que raça ou não raça for, mas se tiver de escolher um cão para companhia prefiro-o de nobre atitude, grande e peludo. E se falarmos de cães pequenos, sou doida por pequinois.
Agora chihuahuas, poupem-me. Pode haver alguns muito queridos, mas para começo de conversa lembram-me sempre o Ren & Stimpy: neuróticos, arrebitados, barulhentos, de olhos esbugalhados e ar famélico.
Por muito que as Paris Hilton da vida e as flausinas que a querem imitar
Ora, esta opinião agravou-se um belo dia em que ia com a senhora minha mãe, a passear por uma rua de casas baixas. Do nada, saltam de uma janela três (ou quatro, já nem sei, fiquei estarrecida) chihuahuas furiosos, perfeitamente loucos, a ladrar para nós que nem possessos. Tipo, assim:
Demos um salto: eles rosnavam, eles torciam-se como atacados de convulsões, eles babavam-se e - uma vez que o vidro os impedia de nos ferrar- desataram a morder-se uns aos outros como um monstro possuído de três cabeças, excitando-se com os próprios guinchos. Visão do inferno! O próprio Cerbero, que tranquilamente guardava as portas do Hades, pareceria um mansarrão ao pé daquilo. Benzi-me, zarpei dali e lá se estabeleceu a excepção à regra. Não morro de amores por tal bicho, pronto. Tudo o que é pequenino e malvado é suspeito.
E claro, não morro de amores por pessoas-chihuahua: sabem, aquelas que são nervosinhas, almas-aflitas, histericazinhas, sassaricadas e repisadoras, em permanente necessidade de tomar um chá de camomila ou flor de laranjeira bem forte. Que não causam grande dano, mas irritam. As que basta haver um contratempo qualquer e murmuram, refilam, blasfemam (é um "ai meu Deus!" por dá cá aquela palha) e não falam, rosnam ou respingam. Que são incapazes de discutir um problema sem se tornarem emocionais e que levam tudo a peito. E mulheres- chihuahua? Aquelas que debatem, dissecam, insistem, voltam atrás, vão buscar coisas que já lá vão e que não interessam para o caso e que se o oponente se afasta para que a coisa não escale, se põem a falar sozinhas, para as panelas se for preciso, sem se importarem com a estridência da própria voz?
Dá-me vontade de lhes espetar um piparote. Não que eu desse um piparote a um chihuahua ou outro bicho qualquer, salvo em auto-defesa...





