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Monday, March 28, 2016

Quando se deixa de ir com a cara de alguém.



Acontece. Em amizades, amores e relações de parentesco ou de negócios. Mesmo às pessoas de lealdades mais constantes - e geralmente depois de o ex-afecto em causa ter feito trinta por uma linha ou, simplesmente, revelar que afinal não tem tão bom coração como isso. Ou porque é um Judas, ou porque é uma pessoa "venha a nós" ou invejosa, ou simplesmente por ser uma alma cheia de manias, que acha que tudo lhe é devido, sempre de mal com o mundo e não há paciência.

                                     

Mas em todos os casos, a linha ténue entre "dava-me muito bem com fulano ou beltrana, mas as coisas têm-se complicado" e "já não suporto esta alma nem com molho de tomate"  passa a ficar inequivocamente traçada no momento em que tudo o que ela faz e diz começa a causar urticária.

É que é complicado distinguir exactamente o "antes" e o depois". Nem toda a gente tem a clareza de sentimentos para perceber, de imediato "já não gosto desta pessoa". Mas a irritação pelas pequenas coisas é um sinal que não engana. Se a cada passo se pensa "que idiota" ou "que ridículo (a)", o que era doce azedou.



Quando se gosta de alguém, até os defeitos têm graça. Ou se não tiverem, dá-se o desconto pelo bem que se lhe quer e por amor às suas qualidades que superam grandemente as falhas de carácter. Às pessoas queridas, tolera-se até o intolerável. E convenhamos, nem sempre se gosta muito das pessoas de quem se gosta. Muitas grandes amizades sobrevivem à base de "és um imbecil, mas adoro-te na mesma". Já a estranhos ou antagonistas, suporta-se muito pouco. E quando o "adoro-te" se vai, fica só o imbecil.



Se a nossa melhor amiga aparecer com um look de mau gosto, podemos avisá-la, ou não dizer nada para não a magoar - ou no limite, brincar com o assunto. Mas não sejamos hipócritas: se uma mulher com quem se embirra vestir o mesmo, não seremos tão caridosas. Ainda que cá com os nossos botões e com um certo remorso, em modo "sei que isto é feio mas sabe tão bem" troçaremos dela sem dó nem piedade.

A uma pessoa apaixonada, tudo lhe parece bem: mas se deixa de estar, poderá até ser um pouco mesquinha. Vai reparar em tudo aquilo a que antes fazia vista grossa e ouvidos moucos e apontá-lo como que a fazer contas aos pretextos para sair de cena.

Gostar de alguém também passa por querer gostar. E o querer gostar requer razões. Uma vez deixando de haver motivos, a vontade de ver só qualidades desaparece. Quem for uma pessoa decente tentará não o fazer com maldade - apenas deixar de acrescentar lenha à fogueira desse afecto, afastar-se, não querer proximidades. Uma vez tirando os óculos cor de rosa do afecto, vê-se a pessoa mais ou menos como ela é: e se os defeitos superarem as virtudes, o caldo pode entornar-se. C´est la vie...

Friday, March 4, 2016

Um tipo esquisito de inveja





A inveja é capaz de ser o sentimento mais overrated, mais inflado e exagerado por aí. Quem não é invejado, tem a mania que sim. Quem é criticado, mesmo que a crítica seja justa, atira quase sempre "tens é inveja". 

Basta ver que qualquer bruxa de jornal se anuncia especialista em retirar "inveja e mau olhado" e a quantidade de frases ridículas passadas nas redes sociais em homenagem às "invejosas" (que são assim um papão como o patriarcado; ninguém sabe muito bem a identidade exacta do bicho). É que apesar de haver poucas coisas tão desagradáveis como lidar com um verdadeiro invejoso - especialmente se esse invejoso é um suposto amigo- bem diziam os antigos, "antes inveja do que pena!". 

Ser alvo de inveja -mesmo inveja imaginária - faz com que o maior falhado se sinta importante. Não esqueçamos que o melhor antídoto para a maioria dos casos de mal de inveja é ser discreto...

De todo o modo,podemos definir vários tipos de inveja: a tal inveja imaginária, delírio de quem é vaidoso e gosta de lançar aos outros a culpa dos seus problemas; a inveja verdadeira (como a do Iago de Shakespeare) que pode ser declarada ou encapotada, mas visa destruir o que se ambiciona em outrem ou mesmo essa pessoa, em modo "se eu não tenho,tu também não hás-de ter"; a inveja branca, ou inveja da boa, que quase sempre é bem intencionada, vulgo "que bom, és tão sortuda, também quero" e que é uma fonte de inspiração ou motivação para conseguir igual ou melhor. 



Mas ainda - e este é o tipo de inveja mais estranho -a inveja-despeitadinha. Que é um híbrido entre a inveja verdadeira encapotada e a inveja branca. 

Ou seja, um invejoso despeitadinho não deseja mal. Não quer tirar nada a ninguém. Até é capaz de ficar contente pela sorte de um amigo. Só que fica triste por não ter tido a mesma sorte. MESMO triste. MUITO triste. PROFUNDAMENTE triste.

A pontos de preferir desaparecer para não ver de perto aquilo que lhe causa incómodo. Não é um ressabiamento furibundo e reverdido: é um despeito de extrema melancolia.

 Não é que quem sofre disso deseje que o vizinho se estampe no novo Ferrari - mas vai recusar todos os convites para dar uma volta nele. O sentido de suposta injustiça, de pensar "porque é que ele é tão afortunado e eu não?", de comparação com os outros, é igual ao da inveja comum. Só que menos virulento, menos abespinhado, cheio de auto-comiseração e de "sai-me da frente que eu não quero ver isto nem ser desagradável contigo; Deus te faça muito feliz, mas onde eu não assista".

Penas que não se vêem, coração que não sente. 

É compreensível, é humano, mas não deixa de ser um pecado de orgulho...nem de entristecer quem, muito ingenuamente, tenta partilhar o bocado de felicidade que lhe coube...

Tuesday, January 19, 2016

"Amiga é nossa barriga e não há-de ela doer"?


"Amiga é nossa barriga e não há-de ela doer" - a minha sábia avozinha repetia com frequência este adágio local, bem duro de escutar naquelas idades em que mesmo o adolescente mais bicho-do-mato quer fazer muita fé no seu grupinho de amigos. Era outra maneira de nos entranhar um dos lemas de uma família reservada e orgulhosa, que acreditava firmemente que o sangue é mais espesso do que a água

Ouvi vezes sem conta o raio da frase, geralmente seguida de um sermão que enaltecia os pais, os irmãos, a cara metade e meia dúzia de parentes escolhidos como as pessoas que realmente se importam connosco. Os amigos - os verdadeiros - segundo a avó eram raros, e mesmo esses estão sujeitos a falhas, egoísmos e imperfeições. Mesmo os que parecem tão próximos como a nossa barriga (que raio de imagem, mas seja) podem surpreender-nos com umas voltas e umas dores em caso de crise.


 Raciocínio que me ensinou a dar um grande desconto aos amigos, ou a não esperar demasiado deles - uma grande ajuda para manter amizades de longa data. É que por muita devoção que alguém nos tenha, no fundo cada um cuida dos seus assuntos. E quanto mais não seja, num momento de aflição, por muito que goste de nós, o desejo de salvar a pele ou de levar a melhor pode falar mais alto. Os heróis são poucos, os mártires e os santos menos ainda, e flores de honra andam em vias de extinção.

 Quem não põe expectativas muito altas, não se desilude. E já não falo dos "conhecidos", dos "amigos de estroinice", das simpatias superficiais. Mesmo entre os "bons e velhos amigos", há que lembrar sempre que ninguém é perfeito. E que uns são mais imperfeitos do que outros. 


Longas amizades existem, mas boa parte delas vive do "gosto muito da tua companhia" ou do "uma mão lava a outra". As puras, as abnegadas, as que confirmam a frase "amigos são a família que escolhemos" são raríssimas.

A outra avó, que pensava de modo semelhante, essa jurava pelo ditado "é no hospital e na prisão que se reconhecem os amigos". Pois a experiência mostrou-me que ela tinha razão mas que para cobrir todas as eventualidades, é preciso juntar-lhe a conclusão de Oscar Wilde: é mais fácil ser solidário com um amigo em desgraça do que ficar genuinamente feliz pelo seu triunfo.


Quem já foi bafejado pela boa sorte sabe que nos bons momentos tem de ser extra lúcido com as amizades, pois em alturas dessas há três tipos de amigos: os verdadeiros (que comemoram a boa nova, que se alegram pelo amigo sem despeito e sem se sentirem diminuídos) os aproveitadores (que surgem ou ressuscitam do nada para se colarem à boa estrela e tirarem alguma vantagem disso) e finalmente, os invejosos (que de repente se mostram intimidados, inferiorizados, pouco à vontade, ou têm mesmo a lata de darem "elogios" que não soam como deveriam, ou de "alfinetar" a alegria alheia). 


Para estes últimos, seria melhor que a pessoa ficasse como estava, que não saísse da cepa torta. Um amigo verdadeiro partilha o bom e o mau, quer o bem do outro e confia nele; logo sabe que uma volta para melhor na sua vida não o fará mudar nem estragará a amizade.  Se acreditasse nessa falta de carácter, não seria amigo da pessoa para começo de conversa. Por isso, se o (a) amigo (a) está a ter um merecido sucesso/enriqueceu/ herdou uma fortuna/emagreceu ou mudou de visual/recebeu uma grande promoção ou prémio/está numa relação fantástica/ficou famoso/casou bem/etc, para um amigo a sério a alegria dele (a) é como se fosse sua. 


 Mas para um amigo inseguro ou invejosito, já não é bem assim. Nem se trata tanto, ou só, do "porquê ele (a)e não eu?" (até porque as suas ambições podem não ter nada a ver com as do amigo). É mais um sentimento de não querer evoluir mas não gostar que os outros evoluam.  Recentemente li uma frase, esta para quem gosta de moda, que explica a ideia: "uma amiga verdadeira não te deixa sair de casa mal vestida". Já uma amiga falsa, alegra-se à socapa pela triste figura da outra.

Gente assim prefere a versão mais infeliz - e portanto, mais confortável - do suposto amigo. 


Sem mesmo dar chance à pessoa de provar a sua fidelidade, assume coisas do tipo: " fulano está todo importante: aposto que nos vai desprezar" ou "já não me sinto à vontade com sicrana agora que ela é a mais gira do grupo".A sua frase preferida é "beltrano mudou muito e já não conhece os amigos, fez-se um peneirento de nariz empinado" mas no fundo quer dizer "ele (a) já não é um de nós". Seja o "um de nós" um dos encalhados, um dos falidos, um dos fora de forma, um dos desleixados, um dos que estão em relações que não prestam, um dos azarados ou simplesmente, um "um de nós" imaginário.

Se tivesse cinco euros por cada vez que ouvi dizer isto de alguém, sabendo que se passava precisamente o oposto...vivia que nem um pachá.

Por isso, desculpe avó, mas permita-me aperfeiçoar a máxima: é na queda em desgraça e nos grandes triunfos que se distinguem os amigos.


 Mas um amigo verdadeiro tem outros traços distintivos. Um dos mais importantes, que normalmente não engana, é a paciência para aturar a pessoa no seu pior. O que é mais do que levar flores ao hospital ou chamar um táxi para quem bebeu demais. É sofrer o lado menos divertido, mais crítico, mais patético e definitivamente, menos glamouroso do amigo, por meses a fio se necessário for. É fazer pelo amigo ou amiga o que se faria pela família - maldizendo a sua sorte às vezes em modo "estou bem arranjada contigo" (elas) ou "olha-me este #$%&" (eles), gritando à pessoa que se recomponha porque já ninguém aguenta, mas nunca pondo em causa o seu apoio.


Outro que traça a linha entre os amigos bons e os outros é proteger o amigo a todo o custo - seja defendendo-o se outros dizem mal dele, interrompendo categoricamente alguma piada de mau gosto que visa vexar a pessoa, ficando ao seu lado na iminência de um desacato de bar que ameaça
 tornar-se físico ou sabendo escolher lados. Eu diria mesmo que a coragem é a característica mais marcante de um amigo verdadeiro porque a amizade, como o amor, exige bravura.


Muitas vezes um amigo vê-se posto à prova: seja interrompendo quem fala mal de um amigo ou troça dele (o que obriga a vencer a timidez, passar por desmancha-prazeres ou incompatibilizar-se com alguém) seja recusando-se a ser amigo dos desafectos do amigo, ou mesmo a tolerá-los com cordialidade: o inimigo do meu inimigo meu amigo é


 Ser amigo de alguém exige outra característica sine qua non, que é a lealdade: tomar as suas dores, custe o que custar. Nem sempre há formas diplomáticas de o fazer, mas lá dizia Dante: os piores lugares no inferno estão reservados a quem fica neutro em tempos de crise.


 Digam o que disserem, quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. É impossível gostar muito de uma pessoa, ser seu confidente, comer o seu sal como dizem os árabes... e ao mesmo tempo compactuar, em alegre camaradagem, com quem lhe fez alguma maldade ou lhe quer mal. Isso não é exequível nem no amor, nem na guerra, nem na diplomacia, e na amizade também não. Claro que se pode dizer que acontece às vezes na política, onde os inimigos de hoje são os aliados de amanhã.


 Mas não esqueçamos que os políticos têm de ser vira casacas uma vez por outra e procuram o poder acima de tudo; logo a arte do possível , a realpolitiks, não pode espelhar-se na amizade
 nem servir-lhe de modelo. Se alguém "não está para se maçar" se diz muito "eu não me meto nisso" ou "isso é lá com vocês, resolve tu"; se prefere ofender um íntimo a melindrar um suposto conhecido, não é que seja uma pessoa dada à paz: é antes dada ao egoísmo, ao seu conforto, à sua cobardia.


 Até pode ser uma alma muito divertida, muito prestável, um cortesão razoável ou um político de mão cheia, mas não serve para amigo do peito. Amigos são aliados. Nas alegrias e nas guerras de cada um. 

A frase "sou amigo do meu amigo" é estafada até à exaustão, mas muita gente confunde amizade com simpatia ou afinidade. Não percebe que "ser uma barriga que nunca há-de doer", ser um amigo verdadeiro, não é tão diferente de fazer um casamento durar. É uma canseira. É um compromisso. É um juramento de bandeira. Por muito que viva de farras e galhofas, é uma coisa muito séria para gente séria...



Monday, December 14, 2015

Serendipidade do dia: os "walking dead" de cada um



"É isto, nada além: um dia as pessoas morrem na gente. Pode ser um amigo que parece não se importar mais ou então aquele que telefona só quando quer ajuda, um amor que gastou todas as chances que tinha, um primo de longe, qualquer um. Um dia as pessoas simplesmente morrem na gente, e a gente esquece as tardes divertidas que passou, a esperança que alimenta quando ainda não viveu muito, a promessa de nunca esquecer; a gente esquece que um dia quis ficar junto pra sempre, que jurou um monte de coisas, que registou em fotografias uma quantidade de momentos bonitos. É isto, nada além: um dia as pessoas morrem na gente, embora continuem vivinhas da silva". 


     Ana Laura Nahas

É curioso como certos factos insignificantes se juntam para pequenas e grandes conclusões ou descobertas inesperadas: é o chamado serendipismo. Numa destas manhãs ouvi na rádio essa cantiguinha de Selena Gomez (cuja música, confesso, desconhecia de todo) e pensei "olha uma canção pop que parece outra coisa e que até tem significado":


E logo a seguir, aparece o texto citado acima, desses de novos autores que andam pela internet em partilhas inconsequentes mas dão que pensar. E que por sua vez, me lembra outro sucesso pop que adorei e que foi analisado aqui...


É verdade que há pessoas que morrem em cada um, embora continuem vivinhas da silva.

 Toda a gente tem os seus "defuntos vivos", os seus "walking dead" - pessoas que passam de ser indispensáveis, a companhia e o cuidado de todas as horas, o grande amigo ou o grande amor... a ser "somebody that I used to know". Continuam vivas e de saúde mas noutra dimensão, noutro tempo, noutro espaço. Vê-se a pessoa passar na rua, sabem-se até notícias dela, mas é como se fosse personagem de ficção ou um quase estranho. Já nem se aplica a fórmula: "a tragédia é a diferença entre o que foi e o que podia ter sido". Só resta o vácuo.

 Há-de vir o dia em que a física quântica explicará isto e aí todos ficaremos esclarecidos. 
Mas por enquanto é um mistério. Uma categoria muito esquisita e desconfortável para se atribuir a quem significou muito...e no entanto, esse pequeno drama acontece a alguém todos os dias, em todos os cantos da terra. 


Até ver, nada de descoberta aqui; é uma simples constatação de uma das realidades menos fáceis da vida.

 O que fez click na equação das duas canções + texto foi a causa-consequência: é que para morrer para alguém, para se tornar "somebody that I used to know"..é preciso muito Same Old Love. Ou seja, muito Same Old, Same Old. Muito "mais do mesmo". Ziliões de encores e bis e "só mais um!só mais um!" dos mesmos *maus* comportamentos de sempre, dos mesmos erros, das mesmas palavras gastas, das "mais uma oportunidade", dos cansaços e desilusões repetidos ad nauseam

Como a autora supra-citada é brasileira, permitam-me usar uma expressão brasileira também, e novelesca (porque nestas coisas há sempre um sabor a telenovela das oito): nenhuma ligação forte morre de morte morrida, sem mais aquelas, foi-um-ar-que-lhe-deu. Para desaparecer, para morrer para a vida, é preciso que morra de morte matada. E até pode não morrer solteira, mas há sempre um que toma a iniciativa de puxar o gatilho. O outro limita-se a fazer-lhe as exéquias...

Tuesday, June 16, 2015

Nancy Mitford dixit: mau vento, mau casamento, más companhias e má memória





 "Não haveria consequências, pois as pessoas têm fraca memória para este tipo de coisas... e no fim de contas, não há nada para esquecer excepto o mau gosto"

                                                      Nancy Mitford, "Love in a cold climate"

Ante uma amizade danosa ou ligação de mau agouro, o que está feito está feito; se vemos um cavalheiro decente ou uma rapariga de juízo serem levados por amigos estroinas; ou então um bom rapaz ou uma mulher elegante e bondosa unidos a uma pessoa sem nada que se recomende, das duas uma: ou corre tudo pelo melhor e só se estraga uma casa, ou não dá em nada, 
zangam-se as comadres, vai cada um para seu lado e do mal, o menos. 

Só resta esquecer o mau gosto - que é o que por vezes choca mais quem vê.

Afinal, a má pontaria nas companhias e nos amores é como o mau vento -ou como  um faux pas de moda cometido num momento fashion victim - passa, apagam-se os retratos e esquece. E Nancy Mitford, cujo grupinho de seis irmãs encantou e escandalizou a boa sociedade inglesa nos anos 30, sabia do que falava: ela própria fez um casamento infeliz, enganando abertamente o pobre marido com um oficial francês; a irmã Diana - a lindíssima Lady Mosley, comparada à Vénus de Botticelli - socializava alegremente com Hitler juntamente com a mana Unity; a do meio, Jessica, para contrariar fez-se comunista; só a mais nova, Deborah, teve uma vida sossegada como Duquesa de Devonshire.

 Mas para a posteridade o que ficou foi a imagem de seis lindas e endiabradas raparigas do seu tempo e do seu meio...não há poeirada que um pouco de glamour e cinismo não cubram! Isso aos olhos do mundo, claro. A pureza de consciência é uma história completamente diferente. Qualquer erro, para ser sanado, exige contrição, expiação e redenção, porque só o vento não basta, nem o correr das águas...

Thursday, January 22, 2015

Eça de Queiroz dixit: amigas amigas, cuidados à parte



“(...)o que nas nossas raparigas mais impressiona é a fraqueza moral que 
revelam os modos e os hábitos.” 

Eça de Queiroz


Por estes dias, reparou-se cá em casa nas imagens que uma conhecida minha da faculdade publicou nas redes sociais. A pessoa em causa é aquilo que se costuma designar, vagamente, por "boa rapariga". Um pouco superficial, mas divertida e simpática. Conheço-a, embora mal, há anos, e é daquelas pessoas com quem não se perde totalmente o contacto, o que me indica que terá a sua dose de lealdade. Nada tenho que lhe apontar, a não ser coisas que não me dizem respeito: ou seja, as suas opções no que toca a companhias e à apresentação. Isto só seriam contas do meu rosário caso decidisse estreitar laços de amizade com ela ("diz-me com quem andas....").

E, por mais injusto que isso possa soar, é a razão por que não me sentiria confortável ao fazê-lo.



Às vezes podemos ter pontos em comum com algumas pessoas, até 
reconhecer-lhes virtudes, mas se o seu barómetro moral (ou tolerância moral) for muito diferente do nosso, é complicado dar-se com elas. Ou seja, se uma pessoa não vê mal nenhum em nada (ou por falta de formação, ou por ingenuidade) a proximidade é mais difícil, ou desaconselhável...ainda que pretendamos ser um bom exemplo para a amiga em causa.

 Aqui há tempos, falei nas amizades a evitar. Esta não será se calhar uma delas, mas é uma amizade a levar com ponderação.

 Como dizia D. Francisco Manuel de Melo, uma mulher que está segura da sua integridade pode achar que não há dano em ser amiga de mulheres que sejam, ou pareçam, menos bem comportadas. Porém, quem vê não distingue e toma tudo por igual.

 Eça de Queiroz foi mais longe ao retratar essa situação em O Primo Basílio, através da amizade entre Luísa e Leopoldina: a preocupação de Jorge, marido de Luísa, que berrava "tudo, menos a Leopoldina!" não se prendia apenas com a reputação da esposa, mas com o receio de que Leopoldina a influenciasse negativamente.


Luísa e Leopoldina na série brasileira "O Primo Basílio" (1988)

 Com a sua visão libertina do mundo, as suas paixões romanescas e as toilettes coleantes, Leopoldina, glamourosa, rebelde e "a mulher mais bem feita de Lisboa" parecia à amiga, que vivia uma vida pouco estimulante entre quatro paredes, entretendo-se com novelas, uma figura desses romances. E embora Luísa tendesse a desculpar as atitudes de Leopoldina  por ter um casamento infeliz "ia atrás da paixão, coitada!" aos poucos ia-se deixando contagiar pelas suas ideias. Começava a não ver mal em certas coisas e a relativizar conceitos morais básicos, como a gravidade do adultério. 

Podemos quase pensar em Luísa e Leopoldina como a Samantha Jones e  a Charlotte York do século XIX - uma abertamente escandalosa, outra aparentemente púdica mas sempre pronta a ouvir as aventuras da companheira. Tal como Leopoldina, Samantha é uma boa amiga à sua maneira: espirituosa, sincera, leal e constante, sempre disposta a ajudar. Tem também a qualidade de assumir as suas acções e as respectivas consequências (a má reputação e estigma social que afecta as duas personagens são uma constante tanto em O Primo Basílio como em O Sexo e a Cidade). Só não será a influência mais aconselhável...



 Obviamente, nem Eça de Queiroz apresenta Leopoldina como única causa da tragédia de Luísa - que é caracterizada ao logo de todo o romance como ociosa e de cabeça leve, cheia de "deixar-se ir" - nem podemos tomar o autor ao pé da letra.

 Luísa e Leopoldina são caricaturas das mulheres daquele tempo e daquele meio, que Eça procurava hiperbolizar para exemplo, mostrando-as sem auto domínio (Leopoldina) ou incapazes de pensar pela própria cabeça (Luísa).

 Esse aspecto fica claro quando Jorge pede ao melhor amigo, Sebastião, que impeça as visitas de Leopoldina na sua ausência:

"Por isso, Sebastião, enquanto eu estiver fora, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luísa! Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona. É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: "Alto lá, isso não pode ser!" Que então cai logo em si, e é a primeira!... Vens por aí, fazes-lhe companhia, fazes-lhe música, e se vires que a Leopoldina aparece ao largo, tu logo: "Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não!" Que ela, sentindo-se apoiada, tem decisão. Se não, acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: "Não te quero ver, vai-te!" Não tem coragem para nada; começam as mãos a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca... É mulher, é muito mulher... ".

Tão pouco, em Sexo e a Cidade, Samantha tem culpa ou influência directa nos tropeços de Charlotte e das restantes - mas não digo que, através dos relatos das suas conquistas, não puxem umas pelas outras, nem sempre com bons resultados.

E é claro que as mulheres de hoje serão mais ocupadas (na sua maioria) e menos cabeças de vento (algumas, vá) do que na Lisboa da Belle Époque, e que a vida real não é exactamente O Sexo e a Cidade. Porém, muitas continuam a encher a mente de romances de cordel bem piores que os daquele tempo e o que é mais grave, a tomá-los a sério.

Será que as mentalidades mudaram assim tanto?

Parece-me que qualquer mulher que zele pela sua reputação - e pela firmeza das suas ideias, por muito sensata que seja - deve tomar estas amizades com um grão de sal.

 Em última análise, vícios privados, públicas virtudes: se uma boa amiga tem, digamos, uma cabeça mais aberta, pode dar-se-lhe o desconto, ensinar pelo exemplo, mas o mínimo que se lhe pede é seja discreta e caso isso seja impossível, há que limitar educadamente o convívio.

Parafraseando Eça de Queiroz, "ao menos estão salvas as aparências!".


Monday, January 19, 2015

Amizades com o sexo oposto, verdade ou mito?




Recentemente, as redes sociais deram voz a uma série de "correntes de pensamento" politicamente incorrectas que tentam rumar contra a maré no que respeita aos papéis sociais de género, dizendo (de forma hiperbólica, bem humorada, para tomar com o devido grão de sal e bom senso) verdades que nem toda a gente quer ouvir, porque vão completamente contra o status quo idealista e pseudo fofinho que grassa por aí. 

Coisas do tipo que eu disse ontem, que as avós diziam, vá, e que pessoas chegadas me costumam dizer cá entre nós; coisas que nem sempre fica bem uma pessoa atrever-se a declarar em público actualmente...mas que, vai-se a ver, são mesmo verdade.

 Uma dessas ideias, que me custou em bocadinho a absorver e que só percebi quando vi caso atrás de caso com os meus olhos, é a raridade da amizade - verdadeira, fraternal e desinteressada - entre homem e mulher. Ou como "eles" dizem por aí nos facebooks da vida, "amizade entre homem e mulher só existe se ela for feia ou ele for gay".

Atenção, eu não concordo na totalidade com a afirmação atrás; camaradagem pode existir entre colegas ou pessoas do sexo oposto, mas é de facto rara. Como mencionei aqui, cuidado com isso!


 Pessoalmente nunca gostei de cavalheiros que se gabam de ter muitas "amigas" - se as ditas tiverem um ar duvidoso, pior um pouco -  nem aconselharia para um rapaz da minha família uma mulher que fizesse questão de manter muitos "amigos" . 

Primeiro, porque é um sinal de complexo de Manuel (ou Maria) dos Plásticos; segundo porque lá dizia Séneca, "quanto mais numerosas as pessoas com quem convivemos, maior é o perigo". Ou citando o Cardeal Mazarin, é pelas companhias (e pelo seu número) que se conhecem as pessoas.

 Por cada amizade sincera e fraternal, há não sei quantas pessoas que fariam o que fosse preciso para transformar a amizade noutra coisa, ou que a confundem com um convite para a intimidade: Nietzsche afirmava que para a amizade entre os sexos durar é preciso que haja uma aversão física. Porém, essa falta de atracção é quase sempre unilateral -  mesmo o amigo desengonçado ou a amiga insignificante podem encher-se de ilusões e fazer de ombro interesseiro, o que  causa muitos problemas.



 Há imensas mulheres da luta sem auto estima (admiradoras disfarçadas de amigas, ex namoradas, etc) que se contentam com o papel de "compincha" tentando que isso leve a algo mais num momento de fraqueza do rapaz em causa. 

Porém, no caso dos "amigos" homens relativamente às mulheres esse fenómeno é mais acentuado ainda.

 Custa admitir isto e dar razão a irmãos super protectores, pais rígidos e parceiros possessivos que acham que uma rapariga "saber muito bem conduzir-se e falar com qualquer pessoa à vontade" não basta, mas a verdade é que nós, mulheres, às vezes somos ingénuas ou distraídas. 
Não falo das que gostam de se envaidecer com elogios baratos, mas das que não vêem maldade em nada e alimentam, sem querer, amizades ou conhecimentos cordiais com "cavalheiros" que nunca pretenderam só amizade. Uns porque se deixam entusiasmar pelo convívio ou tomam simpatia por flirt, outros por falta de noção,  ou ainda porque, lá no fundo, vêem as mulheres como objectos - desde que as achem bonitas, claro.



Poucas coisas são tão desapontantes - ou uma traição tão feia - como uma mulher descobrir que fez confidências a um homem que julgava seu amigo, que lhe mostrou o seu lado mais vulnerável, apenas para descobrir que ele a olhava maliciosamente o tempo todo, com segundas intenções. Para não falar que quando isso acontece, muitas vezes o "amigo", sentindo-se rejeitado, vinga-se.

Tolkien disse, a respeito desse tema, que a amizade entre homem e mulher é praticamente impossível (...) a não ser entre santos ou pessoas mais velhas, e que não convém contar com ela;  quase sempre uma das partes falha, desapontando a outra ao "apaixonar-se" . Segundo o autor, em geral nenhum homem quer amizade, mesmo que diga o contrário

Também James Joyce e Oscar Wilde descriam de tais amizades: Joyce achava que a atracção complicava sempre tudo, Wilde declarava-as impossíveis: paixão ou inimizade de morte sim, até idolatria, mas amizade não.

 Visto isto recomendam-se algumas cautelas - principalmente a quem tem um compromisso ou simplesmente, zela pela sua honestidade e quer cercar-se apenas de pessoas sinceras. 







Wednesday, November 5, 2014

4 "amizades" que gente séria deve evitar como a peste.



Pessoas simpáticas tendem a ser educadas com toda a gente; depois, é natural que na era da internet e do networking a rede de "conhecidos" se alargue. No entanto, há monstrinhos sociais que servem mal para conhecidos e muito menos para amigos: são caixas de Pandora e só trazem complicações. Aqui fica uma lista resumida das amistades peligrosas:

1- O rapaz "amiguinho e bonzinho"



Sabem aquele mocinho tímido, se calhar um pouco inadaptado socialmente, que vos segue para toda a parte, vai convosco às compras, faz de ombro e está sempre disponível? É uma espécie de melhor amigo gay, só que...sem o ser. 

Embora possa haver amizades 100% desinteressadas entre pessoas do sexo oposto, casos em que um rapaz e uma rapariga são apenas compinchas como dois irmãozinhos, diz quem sabe que situações dessas são raras

90% das vezes a amizade é unilateral e o rapaz que vos trata fraternalmente pode ter um problema de não saber sair da friend zone. Ou seja, confunde as leis da atracção e alimenta um sentimento platónico, acreditando que em algum momento *de carência* a grande amiga o verá como outra coisa, apesar de ter todas as provas em contrário. 

O problema? É que primeiro, ele dá todos os sinais errados, logo a rapariga em causa não se apercebe que o pode estar a magoar sem necessidade; depois,  ninguém é assim tão bonzinho. Obviamente o "amiguinho" de serviço não faz nada sem segundas intenções: pode mesmo espalhar intrigas ou minar relacionamentos só para tentar ver a amiga sozinha e carente. Afinal o "bonzinho" tem motivo, meio e oportunidade para causar danos.
 
  Quem é capaz de se aproveitar das fraquezas alheias é capaz de tudo! 

Na sua cabecinha, os favores que faz são realmente...favores e ele trata de os contabilizar. Isso é tudo menos amizade. A dada altura vai sentir que lhe devem alguma coisa, que como muito aturou tem direito a ser recompensado passando a um nível seguinte que só existe na sua imaginação.

 E quando se vê rejeitado, das duas uma: ou fica de rastos (se for um pateta, mas boa pessoa) ou fica ressentido (se não for assim tão boa pessoa) e vira-se contra a pobre coitada. De ressabiado, é capaz de tentar estragar-lhe a reputação ou arruinar os relacionamentos dela com pessoas que ele vê como "rivais" usando a informação privilegiada a que teve acesso como grande amigo.
 Em última análise, é arrepiante pensar que se chorou no ombro de quem estava mortinho por se aproveitar disso. 

NOTA: Isto também acontece no feminino, embora mais raramente. Mas quando sucede, dão-se casos assustadores estilo Atracção Fatal, o filme. Cuidado!

2- A (o) frenemy


São amiga (o)s desde a Batalha de Aljubarrota e a ligação manteve-se apesar dos solavancos da vida; por vezes, há mesmo uma certa picardia ou rivalidade, mas não deixam de ser próxima (o)s por causa disso.
 Tudo muito lindo e em certos casos alguma competição pode ser saudável, pois ninguém quer ficar para trás: se alguém tem de puxar por nós, que sejam os nossos amigos.

 No entanto, se a pessoa já cometeu uma série de "pequenas" deslealdades (dar-se com pessoas que não podem consigo e não ver nenhum mal nisso ou revelar segredos seus, por exemplo) se nunca está disponível quando é necessário mas aparece magicamente quando lhe dá jeito, se some do mapa quando arranja amigos novos e só reaparece quando tudo lhe corre mal ou faz pequenas coisas que magoam sem pensar duas vezes, se só os problemas dela (e) é que são dignos de registo porque você é a pessoa super forte que nunca precisa de nada, aí há um problema grave.

 A vida não é uma telenovela e amizade só é digna desse título se houver mútuos sacrifícios e igual investimento de parte a parte. Conselheiros, psicólogos, motoristas, personal stylists, palhaços, terapeutas, etc, são profissionais pagos. Se é só para isso que a relação serve, talvez deva encaminhá-la (o) para quem presta esse tipo de serviços...ou pensar em ter com a pessoa uma relação estritamente de negócios. É  a mesma coisa, mas com benefícios e zero envolvimento emocional, capice?

O tempo é demasiado precioso para ser gasto com pessoas egoístas e sem bússola moral.

3- O (a) "amigo (a)" comprometido (a)



Aqui aplica-se novamente o que foi dito acima: amizades 100% desinteressadas entre pessoas do sexo oposto são raras. 
Se já se conhecem há muitos anos e têm por hábito trocar impressões é uma coisa;outra muito diferente é dar conversa ao cavalheiro que se queixa constantemente da namorada/noiva/mulher só para testar o seu poder de atracção sobre as outras. 

Isso é contribuir para uma forma ligeira - mas não menos grave - de infidelidade e fazer uma grande figura de ursa.

Se não há qualquer má intenção da sua parte, pode ver-se injustamente num sarilho.

Se há, é uma atitude muito feia e que não compensa. 

O nosso instinto diz-nos sempre o que é certo e o que é errado, e a velha lei do não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti nunca falha. 

 Num caso desses, uma amiga verdadeira não dá outra resposta que não seja mandá-lo resolver as coisas com a legítima. É com ela que ele tem de conversar- o resto é pura malandrice!

Mesmo que não haja nenhum interesse da parte da confidente, uma mulher séria tem de ter a coragem para pôr fim a esse tipo de conversinha, para não ser confundida com certo tipo de pessoa...

Alimentar essa proximidade não só é falta de respeito pela outra mulher (que não está lá para se defender) como é falta de respeito por si mesma (está assim tão desesperada por conversar?). 
 Primeiro, um amigo sincero não sujeita uma amiga a mal entendidos: se a namorada souber pode levar a mal e descarregar na ingénua que fez de ombro - porque do fazer de ombro com segundas intenções, então, nem vale a pena falar...

Segundo, ainda que lhe passe pela cabeça que ele seria um belo partido caso as coisas dêem para o torto com a namorada (atitude de vilã, mesmo) ou ele a faça sentir-se especial por a escolher como confidente, é tão certo enfiar um barrete como três e dois serem cinco: quem age assim com uma mulher faz o mesmo com todas, não respeita ninguém. O mais provável é continuar com a namorada em público e manter entreténs privados que nunca iria assumir.  Se ele quisesse mesmo estar consigo estaria consigo, não andava aos cochichos pelos cantos nem a colocava em situações desagradáveis. Quem tem intenções sérias não recorre a esquemas.
 Por isso já se sabe: nem como amiga, nem como outra coisa.

Nota: se um cavalheiro se encontra nesta situação de ombro amigo, então está a ser posto na friend zone. Dificilmente vai levar a algum lado. Quer mesmo perder tempo com isso e pior, arriscar-se a levar um soco se o legítimo souber? Think again.

4- O contacto profissional (ou mentor) da treta



Este espécime sempre existiu - principalmente em certas áreas profissionais. Na era das redes sociais tornou-se mil vezes pior, porque feicebuques e companhia facilitam esse tipo de aproximação, mas eventos de trabalho ou relacionados são igualmente território fértil para isso.
 Ou seja, uma pessoa entra em contacto consigo de uma forma aparentemente inocente, apoiando-se na sua posição de director disto, produtor daquilo ou especialista daqueloutro

Se calhar  vai dizer que o seu trabalho/livro/pesquisa/tese/apresentação/disco *inserir caso específico* é a coisa mais fantástica que viu nos últimos tempos, e que adoraria colaborar consigo ou dar-lhe um impulso na carreira.

E você não vê mal nenhum nisso, porque pode sempre ser um contacto interessante e convém manter boas relações com colegas da mesma área, vale? Hoje em dia o networking é valioso, e não é o que se conhece mas quem se conhece and all that jazz.

Só que vai-se a ver e a alminha em causa fala de tudo menos de trabalho: acha-se no direito de fazer aproximações inapropriadas, elogios que não são para ali chamados, etc, etc. 

Pior ainda - pessoas deste género não costumam desistir nem que saibam ipso facto que o objecto do seu interesse doentio é comprometido ou casado, logo não adianta puxar desse argumento. 

Tentar contornar a questão ou mudar de assunto, limitando a conversa a temas 100% profissionais, vai dar ao mesmo: por muito que lhe custe admitir, criaturas destas não estão interessadas no seu trabalho, nem a (o) tratarão de igual para igual.

 Quem começa uma conversa de forma pouco profissional só tem um objectivo em mente. O único remédio é cortar imediatamente  o contacto. Na dúvida, guarde as conversas escritas, porque nunca se sabe...mas felizmente pessoas assim são cobardes e embora se sintam humilhadas pela tampa categórica, raramente se atrevem a uma vingança aberta; por isso quanto mais cedo melhor. A velha frase "quando se dança com o diabo, as melhores piruetas não valem de nada" é bem verdadeira.

Nota: Escusado será dizer que há mentores diabólicos de ambos os sexos e todas as orientações. Se parece inapropriado, é porque provavelmente é.


Sal e arruda em "inimigos fofos" destes...







Wednesday, August 27, 2014

Solução simples que toda a gente complica.



Porque  com as correrias às vezes nem se pára para pensar e respirar. 

Como reconhecer o amor verdadeiro ou a amizade de quilate sem acabar malzinho dos nervos? Elementar, meus queridos.

  As pessoas que merecem ser incluídas na vida de uma alma sensata, as que merecem ser amadas, são muito fáceis de identificar. Não há cá pozinhos mágicos, nem câmara lenta, nem banda sonora com violinos a acompanhar os encontros nem tretas New Age de almas gémeas (eu sou suspeita, sempre embirrei um bocadinho com almas gémeas, acho-as um conceito um nada maçador...) nem narradores à Sex and the City a relatar as belezas da amizade ou cenários bonitinhos estilo Nicholas Sparks com certezas de amor eterno. Ná, é muito mais fácil, juro. O que é difícil é tomar consciência do facto, depois é canja.

Quem são essas pessoas cósmicas e fenomenais? Meus amigos e minhas amigas, são as que com ou sem borboletas (de preferência, com) não vos fazem andar em stress, com a alma num susto, nem rezar aos santinhos todos para que aconteça assim ou assado, para que desta vez seja diferente e que o disco mude ao menos um tom; que não vos obrigam a dar voltas à cabeça nem a massacrar o travesseiro com perguntas, a tentar entender o incompreensível e com os malfadados "e se?", que acordam mais coisa menos coisa para sempre para o mesmo lado, sem mudanças radicais de humor,confiança ou opinião, que não cansam, não dão demasiado trabalho, que são leais e constantes e...normais.

Tudo o resto é maluqueira, por muito que o malandro do wishful thinking tente convencer-vos do contrário. 

Monday, June 23, 2014

Quem ama o torto, perfeito lhe parece.


Alguém no seu perfeito juízo queria que o "Grumpy Cat"  tivesse outra cara?

   Quando gostamos de alguém, gostamos completamente. Tudo nos parece um encanto, até os defeitos.

Um dos gatos cá de casa - todos adoptados, bem entendido - saiu-me melhor que a encomenda, coitadinho. Deixaram-no à beira da estrada e ele (um siamês pequenino, vesgo e magricelas)  ficou, muito compenetrado e com ar de quem sabe o que é bom para ele, à espera de socorro. Levámo-lo connosco com a intenção de arranjar dono que lhe conviesse, pois por cá a lotação estava esgotada, mas rapidamente perdemos a ideia -  o bichinho vinha com todos os achaques, além de ter a cauda e a coluna tortas. E se já é difícil desencantar adopção responsável para gatos abandonados sãos e escorreitos, quanto mais para um com "defeito de fabrico", todo ranhoso ainda por cima.

     O facto de ser um animal super bem disposto e carismático também fez com que ficasse, porque ninguém, nem gatos nem pessoas, se quis separar dele. O Farinelli apadrinhou-o logo e teria um grande desgosto se ele se fosse embora. 
   E um ano depois, graças a muito antibiótico e muita água benta,  o Saca Rolhinhas cá anda, feito menino na mão das bruxas: caminha torto e move-se como uma cobra, mexe a cabeça como o Stevie Wonder quando lhe falamos (o veterinário desconfia de não sei quê a nível neurológico, mas como não o afecta e até lhe dá graça, paciência). Se lhe ralham, fica desnorteado que só visto, triste que dá dó.
 Ainda houve quem me dissesse "mas para que queres um gato todo torto? Ao menos manda cortar-lhe o rabo para ficar mais bonito!" - olhem que grande disparate. O rabo em saca rolhas dá-lhe imensa piada, é o que o torna diferente. Siameses é o que mais há - siameses com um nó na cauda é outra história.

 Faz mais ele com dificuldades de locomoção e nó na cauda do que muito boa gente saudável que conheço, que não ata coisa com coisa e não dá ponto sem nó. Eu não mudava uma vírgula no Saca Rolhinhas.

 E com as pessoas passa-se outro tanto. Já aqui o disse: devemos escolher para estar ao nosso lado não só quem tem as qualidades, valores e gostos compatíveis com os nossos, mas defeitos e ódios de estimação que combinem connosco- que sejamos capazes de apoiar ou pelo menos tolerar.
  É fácil achar graça a alguém - mas se nos desesperamos a tentar mudar isto ou aquilo porque não suportamos essas características, nada feito. Não é necessário que dois amigos ou os elementos de um casal sejam iguais como gotas de água, mas convém que sejam como o mata e o esfola.

 Se gostamos de cada detalhe, cada tolice, cada micro expressão de uma pessoa, se até as suas explosões nos fazem rir e não mudaríamos nadinha nela, isso é muito bom sinal.
  Se aceitamos a cauda torta (ou o feitio torcido) do outro e não trocaríamos a sua companhia por alguém com uma cauda exemplar, está tudo dito.

Tuesday, May 6, 2014

Princesa de Lamballe: a mais fiel das amigas.




Quando uma amiga nos diz "punha a cabeça no cepo por ti" é geralmente em sentido figurado - ou, se não conhecermos a tal amiga assim tão bem, caso para desconfiar, porque quando a esmola é muita...
 Mas a trágica Rainha Maria Antonieta, tanto nas maiores alegrias como no meio de todos os seus infortúnios, pôde contar com os tesouros do verdadeiro amor e da verdadeira amizade: amor, o do Conde de Fersen, que até ao fim tentou todos os esforços ao seu alcance para a resgatar; amizade, a da meiga Princesa de Lamballe, a mais fiel e leal das companheiras.



   A lealdade da Princesa é tanto mais valiosa se pensarmos que nem sempre Maria Antonieta pagou na mesma moeda, já que por vezes preferia a companhia da alegre mas estouvada Duquesa de Polignac, a quem favorecia largamente (o que causava a  inveja das maiores famílias do Reino) e que nem sempre a incentivava ao caminho mais sensato. 



Será talvez injusto acusar Madame de Polignac de não ser dedicada -  quando se percebeu que era demasiado perigoso para o círculo íntimo da Rainha permanecer em França, ela ordenou às duas amigas que partissem para o exílio. Ambas obedeceram, contrafeitas. Madame de Polignac adoeceu em Viena e diz-se que foi a notícia do fim de Maria Antonieta na guilhotina que apressou a sua própria morte.


Yolande de Polignac

 Mas enquanto a Condessa (e depois Duquesa) de Polignac tinha algo a ganhar com a amizade da Rainha, já que vinha de uma boa, mas empobrecida família, a Princesa de Lamballe - nascida Maria Luísa de Saboia, filha dos Príncipes de Hesse-Rheinfels-Rothenburg e de Carignano e escolhida pela sua educação virtuosa para casar com o Príncipe de Lamballe, herdeiro da maior fortuna de França - brilhava por direito próprio. 



Se Madame de Polignac encantava pela sua sofisticação e beleza, a Princesa de Lamballe era admirada por todos graças à sua elegância, piedade e simplicidade.
 Aos 19 anos já era viúva do seu devasso marido, que a deixou riquíssima. Quando a preferência da Delfina - e entretanto jovem Rainha - esmoreceu, por achar a Princesa demasiado séria e discreta para os seus passatempos frívolos, Madame de Lamballe 
voltou-se para as suas obras de caridade ao lado do sogro, mas manteve-se fiel.


 Ao compreender que os seus divertimentos tinham contribuído para manchar irremediavelmente a sua imagem junto do povo francês, a Rainha voltou-se novamente para a velha amiga.
 Infelizmente, era demasiado tarde para as duas: Madame de Lamballe escapou para Bath, no Reino Unido, onde tentou obter ajuda para a Família Real. Lá, temendo voltar a Paris, escreveu o seu testamento. Mas apesar dos pedidos de Maria Antonieta para que não regressasse a França, a Princesa retomou o seu serviço junto da Rainha. Ficou ao seu lado até ao ataque às Tulherias, em 1772. 



 Quando foi presa, quiseram obrigá-a a jurar lealdade à liberdade e igualdade, e ódio à Monarquia, ao Rei e à Rainha. A Princesa aceitou a primeira exigência, mas recusou-se a trair o seu sangue e os seus amigos. Então entregaram-na a uma multidão furiosa, que a linchou. Os detalhes da sua morte horrível e violenta nunca ficaram bem claros, mas é certo que a populaça levou a sua cabeça num espeto e tentou mostrá-la à Rainha, que desmaiou ao saber o que se passava lá fora.
 Pudéssemos todos nós contar com uma amiga tão leal como a bondosa Princesa de Lamballe, ou ser capazes de tal dedicação aos nossos amigos...

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