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Tuesday, December 15, 2015
Tim Gunn diz que Kim Kardashian é "vulgar" (alguém dê uma coroa de louros ao cavalheiro!)
Já se sabe que -por uma mistura entre o triste esprit du temps e o poder dos social media - Kim Kardashian e companhia conseguiram um lugar cativo no seio da indústria de moda, com os mais elitistas editores e designers a vergar-se (não há outro termo) perante a estrela de reality shows (que ficou famosa da forma pouco abonatória que todos estamos fartos de conhecer).
Basta abrir a caixa de comentários de qualquer notícia referente ao clã Kardashian nas mais vetustas publicações de Moda para notar as ameaças que os leitores deixam *em vão*, dizendo que vão deixar de seguir a dita revista a quem fugiu o pé para o chinelo, se continuarem a referir tais pessoas a torto e a direito, e "isto mais parece um tablóide", etc. Debalde. Hão-de falar em Kim e sua seita até se cansarem da novidade, nada a fazer. E todos os stakeholders parecem ter entrado em modo "se não podes vencê-los, junta-te a eles" fazendo coro que sim senhor, Kim Kardashian é um ícone de moda.
Pessoalmente o "fenómeno" (nem todo o fenómeno é bom; uma catástrofe também é um fenómeno) fere-me um bocadinho, como a qualquer mente mais old-fashioned. Não gosto de ver maus exemplos glorificados nem o luxo e a arte desvirtuados desta maneira, no firme propósito de captar um certo tipo de público. Mas se Kim realmente se vestisse fabulosamente bem, enfim, personagens extravagantes sempre houve e qualquer um tem o direito de se reinventar. O problema é que não veste - particularmente, desde que o marido sabichão que arranjou decidiu mandar nela e ataviá-la com roupas mais luxuosas, certo, mas totalmente inadequadas à sua silhueta.
E atrevo-me a especular: se Eça de Queiroz fosse vivo, diria ser um dever de bom senso dar bengalada nos Kardashians.
Mas à falta disso, eis que no melhor modo aldeia gaulesa, duas vozes resistentes se levantam: Tim Gunn, o célebre (e adorável) consultor de moda, atreveu-se a dizer ao New York Daily News que o melhor conselho de estilo que pode dar é "façam uma recolha de looks das Kardashians e usem exactamente o oposto". E elaborou "não me importa o que usem, desde que não se vistam como uma Kardashian. É vulgar - ponto". Eis um momento de puro snobismo positivo. E seguiu chamando às roupas criadas por Kanye West "burras e básicas" e dizendo que Kendall Jenner pode ser uma bonita rapariga, mas "está contaminada pela aura "blhec" da família". Que tareia!
Melhor do que isso só o tom de satisfação com que a Town & Country, publicação assumidamente da velha guarda, passou a boa nova adiante no Facebook: "
Este mundo não está *totalmente* perdido: ainda vão restando "Asterix" de gosto, de luxo e de siso, que não estão à venda nem batem palminhas a qualquer pato-bravo...como diriam os evangélicos, é para glorificar de pé, Igreja!
Friday, October 2, 2015
Homem bonito...mas sem cabeça.
Olhem para este rosto: feições cinzeladas e masculinas, um nariz bem modelado, cabelo bonito e escuro...tem um ar muito elegante, não tem? Pelo menos eu acho. Parece um protagonista de romance, do tipo que fazia as donzelas concordarem com um rapto consentido. E como os retratos em desenho podem ser um pouco enganadores, vamos já chegar ao fim da história, para terem uma ideia. Desculpem a imagem tétrica, mas é que o rapaz perdeu a cabeça (em todos os sentidos) durante a Revolução Francesa.
E se não estou em erro, teve o molde ou "máscara da morte" feito pela própria Madame Tussaud, na altura em que a pobre coitada foi obrigada a trabalhar para os malvados sans-culottes (para não marchar também para a guilhotina, destino a que escapou por um triz. Ficou sem cabelo porque já lho tinham cortado à escovinha para a execução, mas salvou o pescoço).
Voltemos ao nosso herói, salvo seja. Reparei nele - ou no que restava dele - há anos, na Câmara dos Horrores, mas só há dias voltei a pensar nisso ao ler um artigo numa velha revista. Como podem ver, o maroto do homem era mesmo bem parecido. Não há melhor indicador de beleza do que parecer bonito mesmo no seu pior, e dificilmente há piorio que supere ser guilhotinado, principalmente tendo em conta que a cabeça geralmente andava aos tombos por ali antes de cair no cesto, e depois era passeada aos pulinhos numa estaca para gáudio do populacho. Estes franceses andavam doidos.
Recordo-me de ter muita pena quando vi a cabeça de cera- não li a legenda logo e pensei que se tratava de um pobre jovem fidalgo apanhado no meio daquela confusão e assassinado só por ser quem era. Mas não - Jacques René Hébert, que morreu com 37 anos, era um chefe da facção ultra revolucionária da extrema-esquerda jacobina (ufff), muito influente na Comuna Francesa, fundador de um jornal super agressivo, o Le Père Duchesne, e antes disso, de um folhetim alcunhado de "flagelo dos aristocratas". Filho de uma família de classe média, estudou Direito e tinha assinalável talento para a escrita - que lhe granjeou fama e seguidores. No entanto, era uma alma fundamentalmente desonesta, ou pelo menos dúbia: vivia de esquemas e chegou a ser despedido por roubo.
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| O jornal de Jacques vivia obcecado com os "abusos e injustiças", que denunciava da forma mais violenta |
Embora ao início os seus textos não fossem demasiado virulentos contra a Rainha Maria Antonieta (criticando-a de forma agressiva, mas no sentido de lhe chamar a atenção para a forma como o povo a via, incitando-a a arrepiar caminho) foi subindo de tom contra a Coroa e a Igreja. A sua embirração com a Religião era tanta, que casou com uma freira fugida de um convento (compreensível- já se viu que o Jacquito tinha encanto; o pior é que a mulher também iria parar ao cadafalso).
Nessa altura, entregou-se a uma vida luxuosa, com recurso sabe-se lá a que estratagemas - suspeita-se que às custas de uma amante rica - e nada condizente com o que pregava. Gostava de se vestir com elegância e de se rodear de belos objectos. E ao mesmo tempo, ia espalhando um discurso cada vez mais odiento contra os privilégios que tanto invejava. A dada altura, ser denunciado pelo seu pasquim como "inimigo da República" era morte certa.
No julgamento da Rainha Maria Antonieta foi Hébert que a condenou definitivamente, ao fazer a horrorosa acusação de incesto que a perdeu aos olhos do público.
Mas como nada dura para sempre e quem semeia ventos, colhe tempestades, Hébert acabou por se desentender com Robespierre. Foi julgado (salvo seja- toda a gente sabe como eram feitos esses teatrinhos sumários) mais como um ladrãozeco do que como conspirador. Todos os seus esquemas e pecadilhos foram publicitados e não contentes com isso, antes de o guilhotinarem fizeram descer a lâmina umas três vezes, para diversão do povão, antes de o mandarem para o outro mundo.
E assim acabou o sedutor intrujão, como acabaria o seu amiguinho Robespierre. Quem não tem cabeça por dentro, não vale a pena ter um belo rosto por fora...e assim se provou que se pode levar ao extremo ou mais além o ditado "quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga".
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