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Saturday, September 19, 2015

Canções que me intrigam # 3: o carrapito da Dona Aurora



Acreditam que desde que publiquei este post , a cantiga d´O Carrapito da Dona Aurora não me sai da cabeça? Vou a fazer qualquer coisa e zás, lá me sai "o Carrapito da Dona Aurora/é tão bonito /fica-lhe bem". 



Sempre achei muita graça à canção, mas está a começar a entrar-me nos nervos: não só porque é aborrecido ter uma cantilena a passar-nos na mente non stop (estilo playlist irritante de rádio com os sucessos mais descartáveis do momento) mas porque O Carrapito da Dona Aurora é uma daquelas músicas que desde pequena me levanta montes de perguntas.

 Tal como a Moda das Tranças Pretas, o Lá em cima está o Tiro-liro-liro/ cá em baixo está o tiro liro ló (que nunca percebi quem ou o que eram), o Badun-badun -badero,  o Baile da Dona Ester ou o Malhão-malhão (estou para descobrir até hoje quem seria o bon vivant cuja vida era comer, beber e passear na rua) e outras. 

Na infância a Zumba na Caneca também me intrigava imenso mas enfim, mais tarde lá percebi que era alguém a beber para esquecer um amor que queria tanto e o angustiante dilema ficou resolvido.

What the hell? A nossa música parece especialista em letras estilo charada. 

Voltando ao  Carrapito da Dona Aurora, sempre me perguntei se este ode ao penteado da senhora seria o relato de uma peripécia local que aconteceu mesmo. E se é o caso, a letra é a fazer troça ou a lamentar o ocorrido? Os postiços estavam terrivelmente na moda no sec. XIX (semelhantes às extensões clip in que agora se usam) e o próprio Eça de Queiroz lamentava o seu excesso, que não só estragava a elegância como fazia pesar a cabeça e as ideias às mulheres; por isso, talvez a rima seja uma espécie de crítica social com origem nesse tempo.  

E de qualquer forma, como é que algo tão privado como as extensões de cabelo de uma mulher anda na boca do povo?

       "Ai dona Aurora/soube-se agora/que era postiço/e ninguém sabia"


 Mas a parte pior é que o episódio deu nas vistas porque o culpado do desaparecimento do precioso carrapito, que era tão bonito e tinha tanta graça, foi o próprio marido da D. Aurora


"O carrapito da Dona Aurora/quando dormia foi-lhe tirado/
foi o marido da Dona Aurora/ que o deitou fora incomodado." 


Porquê, homem, porquê uma maldade dessas? 

 É sabido que maridos e namorados, quando feridos no seu brio, no seu orgulho ou, mais comum, no seu mimo, podem ser umas criancinhas e vingar-se das maneiras mais infantis. Talvez quisesse retaliar por alguma afronta que a esposa lhe tivesse feito. Ficasse ciumento da atenção que a bela cabeleira da Aurorita provocava junto dos outros. Pensasse, como Eça, que os postiços eram ridículos. Ou andasse fartinho de que a mulher não tirasse o toutiço nem para dormir! Também não podemos pôr de parte a hipótese de a D. Aurora ter casado com um brincalhão, desses que adoram pregar partidas e não levam nada a sério. O certo é que se sentiu incomodado e nem teve hombridade de lho tirar na cara. Esperou que ela adormecesse e sorrateiramente, surripiou-lho.

 De todo o modo, fosse hoje e a D. Aurora podia fazer queixa da cara metade por violência doméstica: estragar objectos pessoais do outro conta como forma de intimidação. Havia de ter graça inventar-se outra estrofe com o marido a ser interrogado pelas autoridades na esquadra e o caso a acabar nas páginas do Correio da Manhã...


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