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Thursday, November 19, 2015

"Quando se é amada (o), até a simples água fria tem um doce sabor"


Aqui há tempos, uma conhecida minha ficou muito zangada com um velho amigo que, tendo um fraquinho por ela, lhe disse "ao lado desse homem serás sempre uma mulher troféu...farias bem melhor em encontrar um tipo normal que te amasse verdadeiramente e te tratasse bem". Isto porque a menina em causa era *mal* amada por um cavalheiro sofisticado, bem colocado, elegante, mas que enfim...a tratava de facto como uma boneca, e com a possessividade que se emprega numa boneca.

Ela zangou-se com certa razão: primeiro, a opinião dele- embora não faltasse à verdade - não era desinteressada; já se sabe como são muitos "amiguinhos" homens. Segundo, porque as pessoas acham sempre que dizer, sem grande respeito pelas dores dos outros; e terceiro porque ser uma "mulher troféu" não é necessariamente uma coisa *100%* má.

 Tudo na vida tem nuances. Para ser encarada como um troféu é preciso ter certas qualidades, ser admirada, vista com orgulho, posta num pedestal pelo homem que se tem ao lado. E que mulher apaixonada não se sente envaidecida por isso?

 Essa dinâmica das pessoas bonitas e bafejadas pela sorte que têm tudo, até o amor... só se torna negativa se as ruins paixões transbordarem, se levarem tudo à frente, substituindo os bons sentimentos, como a estima, a confiança, o respeito....tudo o que é a base de um relacionamento saudável e feliz.

 Quando isso acontece, então dou razão ao nosso amigo metediço: não há elegância, conforto, estatuto, sofisticação ou requinte que paguem os alicerces do amor.

 Porque ter tudo isso, mas carecer de um olhar de meiguice, das palavras doces, do amparo, das borboletas no estômago, dos momentos apaixonados, da confiança cega, da verdadeira união entre um casal... é a mais fria miséria. É viver num túmulo, e isto na melhor (e mais sossegada) das hipóteses, pois não faltam casas confortáveis que são um inferno de Dante lá por dentro. Nem senhoras elegantes a morrer aos bocadinhos, lutando para conservar - quando não é para fugir de -  uma vida de pesadelo.

O que me lembra o sábio provérbio chinês "quando se é amada (o), até a simples água fria tem um doce sabor".



 De nada serve ser a mulher mais bela e bem vestida da sala, se o homem para quem se fez esse esforço não tem uma palavra de apreço, nem tenciona esboçar o mínimo gesto romântico a respeito disso ou pior, se ainda por cima se enraivece de ciúmes: bem dizia Yves Saint Laurent "a roupa mais bela para uma mulher são os braços do homem que ela ama; para as que não têm essa felicidade, estou cá eu". 

É inútil uma linda mesa, regada com o melhor champagne, que ninguém aprecia porque há um permanente nó na garganta. Olhar para paisagens de conto, cada um para seu lado; deitar-se em lençóis de algodão egípcio apenas para os puxar por cima da cabeça e pensar nas mágoas, rezando que o dia seguinte seja menos cinzento ou pelo menos, que não traga mais nenhum desgosto; ser -se alvo de inveja e admiração, mas estar, na realidade, a solo.

Se o mal-amar consegue destruir todas as alegrias, ver defeitos em tudo, tornar um ambiente maravilhoso num suplício, fazer dos momentos juntos, que deviam ser felizes, um esforço, uma prova ou (a longo prazo) uma obrigação... o amor bom é capaz do inverso: de tornar possível o impensável, de vencer as dificuldades com um sorriso no rosto, de transformar os desafios mais angustiantes numa aventura empolgante, de trazer à superfície o melhor de cada um, de tonar cada instante belo, ou mesmo luxuoso. Afinal, não há nada tão raro como um amor puro, e luxo é raridade...o resto vem por acréscimo, ou é vaidade fátua...



Tuesday, October 13, 2015

Mulher poderosa: a "mãe Chao"



Numa revista de 1944, encontrei a imagem desta frágil senhora chinesa, simples mulher do campo que "astuta e enérgica, apesar da idade avançada" representou um perigo para os japoneses. Movida pelo seu grande coração e coragem, organizou, desde o início da horrorosa invasão nipónica, um exército de muitos milhares de franco atiradores. Neste retrato, a mãe Chao, já então considerada um símbolo da resistência chinesa, era homenageada por várias compatriotas ilustres, que trabalhavam também para o esforço de guerra em prol da sua maltratada pátria. 

Com muita pena minha, não consegui encontrar mais nada sobre a Mãe Chao (ainda vou procurar melhor) mas quem conhecer um pouquinho de história chinesa sabe que as mulheres de então tinham uma vida bastante limitada. Na época em que veio ao mundo, só o facto de ter nascido camponesa terá salvo esta heroína da terrível vaidade de ter os pés ligados em "flor de Lótus" ( uma tortura que as meninas de boa família suportavam para encontrar um casamento adequado) o que teria limitado consideravelmente o seu campo de acção durante a guerra. E mesmo assim, na China cria-se no velho ditado "as mulheres têm cabelos compridos e inteligências curtas".


 Embora houvesse senhoras que davam a volta ao seu destino, gozando de uma razoável independência, como sempre houve em toda a parte, não se tratava propriamente da sociedade mais fértil para feitos femininos.

Mas a Mãe Chao, como tantas mulheres de acção e miolos que não precisaram de movimentos para se fazerem respeitar, não ficou a lamuriar-se. E olhem que se houve altura em que se justificava ter fanicos e chiliques, era essa. Nem esperou que os japoneses viessem atacar selvaticamente as raparigas da sua cidade, não. Tão pouco protestou "ai que eu sou uma mulher, ai tanta opressão do patriarcado, ai que eu não posso fazer nada, e agora? Se eu fosse homem...". 

Feminina e delicada, mas forte - porque uma mulher deve ser delicada mas inquebrável como uma corda de piano - fez uso do seu respeitável estatuto de avozinha e vai de movimentar o mulherio para ajudar ao combate, armar os homens (e muito provavelmente, algumas mocetonas valentes) e montar um exército enorme para receber o inimigo como ele merecia.

O que faz justiça a uma ideia que se tem visto por aí na internet, e que eu subscrevo:


Quando uma mulher tem que fazer e capacidade para o fazer, vai lá e faz e pronto.

Tuesday, May 5, 2015

Met Gala: quando o politicamente correcto dificulta o dress code

Um dos vestidos presentes na exposição que
 deu o mote para a gala (Alexander McQueen, 2006)

A gala Met (Costume Institute Gala) é sempre muito aguardada. Mas este ano, como o tema para o dress code era a exposição "China: through the Looking Glass" (que celebra, precisamente, a estética chinesa e a sua influência na moda ocidental) houve logo quem lembrasse que havia de se ter cuidado "para não ofender" e para evitar qualquer "apropriação cultural" (como?) usando algo que fosse vagamente uma caricatura.


Outra imagem promocional da exposição (vestido John Galliano)

  Ora, qualquer pessoa de gosto e não completamente ignorante concordaria com os argumentos óbvios "não vão para lá de traje de carnaval comprado no bazar chinês da esquina nem com pauzinhos na cabeça pois enfim, é a Met Gala e não o entrudo no club Sonero Caliente nem vestidas de geisha, porque, nota bene, as geishas e os kimonos não sêle chinês, sêle japonês" (Jesus,  Duarte e Companhia seria crucificado nos tempos que correm). 

Mas quando a  premissa de uma festa é, passo a citar, "explore the impact of Chinese aesthetics on Western fashion, and how China has fueled the fashionable imagination for centuries" 
torna-se um bocadinho ridículo falar de apropriação cultural, esse modismo paranóico que de repente está por todo o lado. 


A imbatível Fan Bingbing durante a festa

 Seria o mesmo que chamar racista a um vestido com padrão de Lenços dos Namorados do Minho, criado por um designer francês para uma festa cujo tema fosse A Influência Portuguesa no Mundo na Moda (que com muita pena minha, acho que não tem bases para acontecer). Ou uma actriz americana inspirar-se no look de Amália Rodrigues para aparecer na dita festa, e os lusitanos vaiarem-na por estar "a fazer pouco de nós". 

Há uma linha que separa a fantasia e celebrar uma determinada cultura de não fazer a devida pesquisa aos seus elementos antes de se inspirar nela. Chama-se bom gosto - tudo o resto cai no modismo paranóico da apropriação cultural, do pânico de ofender.

  Voltemos a imaginar a tal festa A Influência Portuguesa no Mundo na Moda: ofensivo seria as convidadas aparecerem vestidas de sevilhana.  Tudo o resto - saias da Nazaré, vestidos de noiva do Minho, xailes de Tricana...era uma homenagem bem vinda. 

Do mesmo modo, se num evento dedicado à moda chinesa não aparecer seda bordada, encarnado e amarelo imperial, peónias, jade, salgueiros, dragões, fénix, brocado, veludo dévoré, borlas e outros elementos à mandarina nem cheongsams ou qipaos...mais vale não haver tema e pronto. 


Rihanna, em Guo Pei - espampanante mas a condizer: couture chinesa, amarelo Imperial, bordados e seda

Ao pensar no dress code para tal ocasião, as linhas de orientação são indiscutíveis: a dinastia Tang, Xangai nos anos 30 e os filmes de Zhang Yimou.  Marcas de luxo e designers chineses, como Yang Li ou a maravilhosa Shanghai Tang.



Fei Fei Sun, de Michael Kors e brincos de jade

 Mas com todo esse receio presente, caiu-se numa confusão ainda maior do que a costumeira neste tipo de eventos. Houve looks muito bonitos, mas podia ter sido bem melhor se as convidadas não sentissem tanto medo de errar. Ora vejamos:

Quem acertou:
Emily Ratajkowski (Topshop), Georgia May Jagger (Gucci), Emily Blunt (Prada) a lendária Gong Li (com uma abordagem clássica em Cavalli) Irina Shayk (Atelier Versace) Diana Agron (Tori Burch) Joan Smalls (Roberto Cavalli) Bee Shaffer (Alexander McQueen)

Anna Ewers optou pelos adornos de cabelo em forma de ramo de salgueiro; Bella Hadid; Karolina Kurkova; Kate Hudson (Michael Kors) Liya Kebede de e com Philip Lim; Lizzy Caplan (Donna Karan Atelier).

Sienna Miller (Thakoon) Wendi Murdoch (Oscar de la Renta) e Zendaya (Fausto Puglisi)


Lauren Santo Domingo (Proenza Schouler)

Quem não fez o trabalho de casa:
Karen Elson, como outras personalidades presentes, optou por um magnífico Dolce & Gabbana: o único problema é que o look teve mais inspiração bizantina do que chinesa (embora o toucado pudesse adaptar-se, com outro vestido). Já Lady Gaga (Balenciaga) deixa algum lugar a dúvidas: com o obi, a escolha de cores e as mangas totalmente largas, recorda mais uma oiran ou tayu (cortesã  japonesa) do que uma concubina do Imperador (que me parece ter sido a ideia aqui). 

Quem ao menos fez o esforço:


Alexa Chung (Erdem)
Jessica Hart (Valentino)

Lizzie Tisch

Amal Clooney (Margiela) o encarnado majestoso sempre dá o toque;  Justin Bieber (Balmain) Janelle Monae, Chloe Sevigny (J.W. Anderson) emma Roberts (na dúvida, usou seda verde e um dragão na clutch) Hailey Baldwin (Topshop) Naomi Campbell, com um Burberry em dévoré.

Quem exagerou e seja o que Deus quiser:


Grace Coddington com o mais simples e literal: um fato-pijama em seda
Sara Jessica Parker, com vestido H&M e acessórios Cindy Chao: um toucado menos espampanante e estaria belíssima; Solange Knowles, que levou demasiado a peito a inspiração nas porcelanas com este "vestido-jarrão" de Giles Deacon; Tabitha Simmons, também de Dolce & Gabbana,

Quem jogou pelo seguro e foi à ocidental e mais nada (ou seja, a maioria):


Cara Delevingne (Stella McCartney)


Jamie Bochert, Kate Beckingsale (Diane Von Furstenberg) Katy Perry (Moschino) Julianne Moore (Givenvchy Haute Couture) Caroline Trentini (Atelier Versace) Madonna (Moschino)


Quem, face a tanta baralhada, optou pela abordagem "vai nua que fazes um sucesso" ou "ir nua é menos ofensivo do que caricaturar a cultura dos outros" levando um naked dress a expor as abundâncias: 

Jennifer Lopez (Atelier Versace) Beyoncé (Givenchy) e Kim Kardashian ( Roberto Cavalli)


Sunday, August 12, 2012

"Casaquinhos" Bollywood

Regressada a casa - por uns dias, antes de abalar de novo para outras paragens - voltei às minhas andanças de desempacotar, arrumar e classificar os tesourinhos do meu guarda roupa. Já esteve mais longe o dia em que tudo funcionará como um relógio, e é surpreendente como "previ" tendências ou guardei coisas que agora voltam em força. Por exemplo, um mini vestido de cocktail chinoiserie que ali estava arquivado, novinho, vai-me fazer um jeito enorme na próxima temporada. É uma das várias peças orientais que vou utilizar para me divertir com o regresso dos brocados neste Outono.
    Como quero que haja uma e só uma arca das trapalhadas (a zona reservada a trajes exóticos, máscaras e fatiotas exuberantes que possam vir a ter uso) dei mais uma volta a um caixote com tecidos e roupas de paragens distantes, a ver o que lá havia, e deparei-me com vários tops de sari indianos de pura seda, bordados, lindíssimos. Para quem não está familiarizada com estas peças, os mais comuns têm manga pelo cotovelo e apertam à frente com colchetes. Para top são bastante curtos, uma vez que é suposto ficarem dissimulados pelo tecido do sari e mostrarem um vislumbre da barriga. Pouco práticos para o quotidiano (no Ocidente, pelo menos) o que é uma pena. Depois de os experimentar, decidi
usá-los como boleros a acompanhar vestidos ou coordenados de noite, cerimónia e cocktail. Nem sempre é fácil encontrar complementos a meu gosto, e assim já não limito o uso destas peças com cores e materiais tão ricos a Carnavais e afins. E vocês, costumam dar "emprego novo" a roupas inesperadas?

Thursday, July 26, 2012

Tendência: o regresso do Brocado

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Zara
Parece-vos familiar? Há muito que o brocado e o devoré, que nos abandonaram no início do milénio, não se viam abertamente nas colecções -  embora a chinoiserie tivesse feito uma tímida tentativa há dois anos atrás e surja em apontamentos de tempos a tempos. Depois das cores vibrantes, dos cintos orientais e dos kimono-jackets, este Outono regressam os casacos, blusas e calças nestes tecidos luxuosos - propostos por Proenza Schouler, Rochas e Stella McCartney, entre outros. A Zara já apresenta a tendência em versão skinny coordenada, imagine-se, com tweeds estilo Chanel. Não sei quanto a vós, mas eu vou à arca das trapalhadas buscar algumas peças iguaizinhas, iguaizinhas - parece que tiveram os tecidos enrolados no armazém estes anos todos para os ressuscitarem agora. Claro que é aconselhável actualizar o visual e não usar esta trend da mesma maneira - tirando partido das peças mais clássicas (como as capas e as saias lápis) das cinturas subidas, cintos e saltos chunky a que nos habituámos nas últimas temporadas. Pessoalmente não sou fã de clonar looks passados, e o da próxima estação vai decerto namorar com o glam e o barroco em vez de se ficar por um chinoiserie total.


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