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Thursday, February 18, 2016

Abyssus abyssum invocat


Sabem aquele conto do Aprendiz de Feiticeiro (há inúmeras versões, só portuguesas são umas quantas) em que o bruxo avisa o seu pupilo para jamais abrir uma certa porta? Claro que ele acaba por fazer precisamente o contrário e depois sai de lá de dentro algo que ele não consegue controlar. Tão pouco é capaz de fechar a porta de novo, para que tudo voltasse ao que era e o feiticeiro não dê pela sua desobediência. Uma vez aberta essa passagem, nada fica igual.



Na história do Barba Azul, há um enredo semelhante: a última esposa tem autorização para abrir todos os quartos-  menos um, onde ele guarda os seus segredos mais terríveis. E ao transpor essa porta, não só ela percebe a monstruosidade do passado dele (neste caso era mesmo mau; Barba Azul era um assassino de mulheres em série, bem sabemos) como, ao trazer essas revelações para a luz, ele se enfurece e revela o seu lado pior.

É a velha história da Caixa de Pandora.


Obviamente, os segredos, esqueletos no armário ou simples particularidades das pessoas comuns raramente são tão maus - por negros que sejam- como os do Barba Azul. Nem as reacções tão horríveis como a dele. E dificilmente o conteúdo dos quartos fechados será tão destrutivo como a magia do Feiticeiro. O que não significa que não saiam da mão. Que não magoem, o que leva a devolver a afronta atirando com uma revelação igualmente desagradável. Ou que quem tinha a porta fechada não revele, face à confusão que de lá saiu, a sua faceta menos bela.



De vez em quando, numa discussão, numa de catarse, abrem-se estas portas. E ninguém fica igual: nem o aprendiz, nem o feiticeiro. Nem o Barba Azul, nem a mulher. Porque o abismo atrai o abismo. Quem olha para o monstro é fitado de volta.

Tudo se transforma e dificilmente volta à pureza inicial. A não ser que a destruição seja tão grande - e o elo entre os intervenientes tão forte - que a explosão revolva a terra e acabe por dar maior vigor às raízes. 

Não tendo a certeza disso, é melhor deitar fora a chave e passar longe desses corredores. Há portas que são trancadas a sete chaves por uma boa razão.



Thursday, February 4, 2016

"Os homens são uns diabos; não há mulher que o negue..."





..."mas todas elas procuram um diabo que as carregue". Bem fala o povo. Para sermos justos, também há mulheres de tal ordem que só se arranjarem um pobre diabo para as aturar, mas pronto.

Lembrei-me novamente deste estribilho porque me apeteceu ler qualquer coisa ao almoço e pegando nas Lendas de Portugal, de Gentil Marques, encontrei um conto com uma prosa engraçadíssima. Trata-se de uma história sobre a povoação de Quadrazais, perto da Guarda, onde em tempos a afilhada do Padre estava apaixonada por um homem belo, moreno, alto, de lindos olhos verdes, que descia a Serra ao pôr do sol para lhe falar.

O povo estranhou aquilo, pois não conhecia o rapaz, e foi avisar o Cura de que às tantas, a sua pupila andava a ser tentada pelo demo. Aflito, o bom do sacerdote chamou a rapariga para a advertir do perigo. Deu-se então este diálogo que achei delicioso:

"- Rosário! Já ouviste falar do demónio, das suas tentações, dos seus disfarces?...Vê lá se é ele que te aparece!

- Oh padrinho...

- Ele fala no Santo Nome de Deus?

- Não, padrinho...na verdade nunca falou em Deus...- e a desculpá-lo - talvez não calhasse...

O cura mostrou-se de novo exaltado. 

- É isso! É o diabo em figura de gente! Acautela-te, rapariga!

- Oh meu padrinho, isso não pode ser...Ele é tão bonito, tão bem falante...tem uma figura tão atraente!...

-Tanto pior! O Demónio é capaz de tudo, para roubar almas a Deus! E então...a pupila do Padre...sabia-lhe bem! 

- Não posso acreditar! Não quero acreditar que o Pedro seja o demónio a tentar-me! Que mal empregadinho! "

Que naquele tempo, além dos impedimentos sociais e morais para namorar, ainda havia mais esse: o risco de um pretendente ser o Tinhoso à paisana...



 Depois o conto até acaba bem (foi-se a ver e o tal Pedro não era um diabo pior que outro homem qualquer) a Rosário casa-se e vive feliz para sempre; mas dá que pensar. Se o diabo tenta as mulheres em disfarce de homem ( para quem crê em tentações demoníacas no sentido literal do termo) terá deixado de o fazer em pessoa, talvez porque hoje em dia já pouca gente acredita nele ou lhe mostra medo. É muito mais prático
 servir-se de mortais bem apessoados para juntar algumas almas femininas ao seu séquito.

De todo o modo, se pensarmos em tentação ou danação no sentido figurado, o provérbio não deixa de se aplicar na mesma: uns porque, sendo valdevinos, tentam as desmioladas
 tornando-as piores do que já são; outros atrevidos procuram conquistar as mais virtuosas; os diabretes que até sendo sérios nessas coisas, torram a paciência a uma santa por motivos de vária ordem; e ainda há os mal empregadinhos porque têm certas qualidades mas estragam tudo com outros defeitos; sem falar nos que não são maus diabos mas também têm os seus quês. 

Talvez haja um diabo em cada homem, e o destino de uma mulher seja o de anjo-da-guarda ou de santa, se quiser entender-se com eles e puxar pelo seu lado bom...





Saturday, December 12, 2015

O complexo Siegfried: porque "ela" vale a pena


Estava a ver Django Unchained (shame on me- é de Tarantino, passa-se no belo Sul, tem um enredo que me interessa...não sei como diabos ainda não me tinha debruçado sobre o filme) e reparei na cena em que o bom doutor/caçador de recompensas conta muito resumidamente ao seu novo companheiro de aventuras/escravo temporário a história de Brunilde e Siegfried.

E ainda bem que limitou o conto a duas ou três linhas,  porque isto da Mitologia Nórdica/Germânica não é certinha como a grega...tem tantas versões, (porque cada bardo a contava lá à sua maneira) todas interessantes mas com tal quantidade de detalhes, que é pior do que quando a avó desatava a tentar deslindar a parentela, e a explicar que fulano de tal ainda era nosso primo porque a tetravó dele era prima direita da minha, que casara com não sei quem no tempo da outra senhora, uffffff.

 Ora vamos ao que nos trouxe aqui. O Dr. Schultz sumariza então a história de amor de proporções literalmente Wagnerianas mais ou menos assim: a Brunilde é uma princesa prisioneira numa montanha, guardada por um dragão que cospe fogo. E Siegfried, o herói, decide salvá-la. Escala a montanha, porque não tem medo dela. Mata o dragão, porque não tem medo dele. E porque é que nada disso lhe mete medo? Porque Brunilde valia a pena.


Ora aí temos o clássico dos clássicos, o mito que resume o anseio feminino e muito natural de ser salva, de ser conquistada, e o desejo masculino de salvar o dia, arrebatar a donzela e ser recompensado por isso. Noutra versão igualmente interessante, mais ao gosto actual por mulheres "poderosas" (e não menos simbólica, pois vai dar exactamente ao mesmo) a valquíria Brunilde é uma guerreira indomável, que secretamente deseja ser vencida por um herói mais valoroso do que ela, a quem obviamente entregará o seu amor - porque uma mulher forte precisa sempre de um companheiro a condizer.


 Mas não divaguemos: o que importa aqui é a atitude de Siegfried. Que mais dragão menos dragão, com ou sem espada, com árias de Wagner como banda sonora ou não, é basicamente o arquétipo do homem verdadeiramente enamorado, mas também capaz de valorizar e apreciar  a mulher que deseja para si (porque as duas coisas às vezes não parecem andar juntas). Em alguma altura da sua vida, todas já terão visto um pretendente seu, ou de uma amiga, em modo Siegfried: é aquela história "quando se trata de amores, os rapazes perdem a vontade de comer, de dormir e são capazes de mil façanhas". 

Um homem realmente apaixonado, realmente interessado, mas sobretudo realmente homem, não se deixa abalar por nada. Manifesta o seu amor, mesmo que não seja de imediato ou (só) por palavras. Eles não são tão ardilosos nem tão tímidos como as mulheres: têm muito mais dificuldade em disfarçar o que sentem. Querem saber se um rapaz gosta de vocês ou não? Basta ver se ele vos trata como se vocês valessem a pena.

 Como se fossem dignas de pequenos ou grandes ajustes, esforços e sacrifícios. 


Quando ele não desanima à primeira, insiste dentro do razoável, se deixa entusiasmar pelo jogo da conquista em vez de se acobardar (ou seja, é másculo e cavalheiro que chegue para compreender quando uma mulher não faz logo uma festa ante os aos seus convites e declarações), se procura ser em tudo agradável e útil (tem uma dificuldade? Ele oferece ajuda. Houve uma má impressão? Ele esclarece o assunto sem mais aquelas) se mostra desejar a sua companhia acima de qualquer outra e faz tudo para que se sinta bem, então é porque se importa e tem boas intenções . 

Caso contrário, se há "mixed signals", se ele alimenta mal entendidos, se vive de indirectas...deixe-se de lado o wishful thinking ou o "ele adora-me, mas...".

Há que ser realista e objectiva: ou não está assim tão interessado, ou até está mas toma a mulher em causa por garantida, ou é um xoninhas que está longe de alguma vez vir a ser um homem a sério. Em qualquer dos casos, quem procede assim não interessa. Nenhuma mulher com sentido de dignidade pessoal deve aceitar menos do que ser tratada como "a rapariga dos sonhos dele". É claro que ninguém é perfeito e todas as relações têm esquisitices e "fases"; mas um homem que ama, e que é realmente masculino, tentará ser um Siegfried sempre que puder, nas grandes e pequenas coisas.

Se "ele" não age como Siegfried, se qualquer montanhazinha ou dragãozinho lhe mete medo...então, não.





Wednesday, April 1, 2015

Malcriados com obrigação para mais - a explicação em forma de conto.


Há pessoas que são malcriadas porque enfim, coitadas, basta olhar para quem as educou para terem direito a desconto. Dessas não se espera muito, a não ser distância.

 Depois, existe a outra classe de malcriadões (e ressalvo - todos nós somos capazes de proceder assim uma vez por outra, mas há limites). Meninos e meninas que tiveram a mais esmerada educação mas escolhem não lhe dar ouvidos, abusando da velha regra "quem é super bem criado pode dar-se ao luxo de ignorar as regras de vez em quando". Sou toda pela ausência de afectação, sinceridade e modos desempenados, mas lá dizia Confúcio: franqueza sem delicadeza é grosseria...

 Quando encontro casos desses, só me lembra uma pergunta retórica - será que este ser foi mesmo educado em sua casa?

Mas é melhor ilustrar a ideia com uma parabolazinha.

 Em pequenas estas pessoas já eram reguilas que se fartavam, e um dia fintaram a vigilância dos adultos e fugiram para a carrinha do peixeiro que estava por perto. O homenzinho, que andava honestamente a tratar da sua vida, não deu por nada e lá os levou, entre as espinhas de peixe e as conchas de moluscos, para o Mercado da Ribeira ou do Bolhão (conforme a proveniência da criança malcriada, vá). 

 Lá chegados, o peixeiro largou as cestas sem reparar no "brinde"que deixava e abalou. Só mais tarde, quando as senhoras peixeiras iam tirar a mercadoria, é que viram o (a) infeliz e desataram num berreiro "ai que linda criancinha!", apesar de a criancinha não cheirar exactamente a água de colónia...



E no meio do rebuliço, ninguém se lembrou de indagar de onde tinha vindo tal anjinho: ainda apareceu um polícia mas o espalhafato era tanto que não percebeu patavina e o caso passou em branca nuvem.

 A criança foi adoptada, salvo seja porque ninguém tratou dos papéis, pela senhora Aninhas Peixeira, crescendo alegremente entre as escamas e tripas de faneca e aprendendo os modos que o ofício da sua mãe de criação exigia. Entretanto a família verdadeira procurava-a desesperada, temendo que tivesse caído a um poço ou coisa pior -  mas claro, nunca lhe ocorreria que tivesse ido parar a um local tão improvável. O tempo foi passando e quando a criança já sabia ler, amanhar peixe e dar trocos às freguesas que dava gosto, e estava rechonchudinha de tanto enfardar proteínas e Omega 3, eis que a cozinheira lá de casa foi às compras e deu com o mistério.

Houve muita gritaria porque a Aninhas Peixeira bradava "acudam que me querem levar o meu anjinho, ai esta ordinária!", acompanhando os uivos com lançamento de carapaus, e a Sra. Juliana, respeitável matrona que servira nas melhores casas e não gostava de desaforos, se defendia à chapelada. Quanto ao falso enjeitadinho...esse pôs-se no alto da banca a dizer palavrões de fazer corar um carroceiro na sua engraçada voz infantil.


 Chamaram-se as autoridades, veio a família, comprovou-se a real identidade da criança peixeira, recompensou-se largamente a boa Aninhas que ficou inconsolável mesmo assim... e só havia que levar o "tesouro" para casa, dar-lhe um banho enorme e prepará-lo para a sua verdadeira missão na vida, que não era exactamente fazer cataplanas de comer e chorar por mais.

 Uma vez reeducada como se pôde, porque não há milagres, rapidamente esqueceu as receitas de caldeirada e de feijoada de chocos, actualmente nem sonha como se amanha um peixe (não há nada de mal nisso, não se pode ser bom em tudo) mas o hábito de dizer disparates e barbaridades lá ficou, bem como a mania de levar tudo à bruta...

 Fica tudo esclarecido e é dar-se o desconto, como aos mais.


Friday, December 26, 2014

A única lição de moral de "Frozen": bad boys, no thanks.



Confesso que resisti bastante ao último mega sucesso da Disney, muito badalado em blogs e sites femininos por ter, supostamente *mais uma enjoativa* "lição feminista".
 Mas a curiosidade levou a melhor e lá acabei por ver: é um filme engraçadinho, com a sua magia -  a única coisa a apontar é a música pop desenxabida, que podia ser bem melhor.
 De feminista não vi nada (talvez por isso chegasse ao fim sem me arreliar; estava a imaginar duas princesas totalmente serigaitas, destas que estão na moda e foi um alívio perceber que não era bem assim): lá porque a Rainha Elsa não arranja par, isso não quer dizer batatas; simplesmente não era importante para a história.

 Mas com a Princesa Anna já podemos todas aprender alguma coisa...e que tem mais de dignidade feminina do que de modernices.

* Alerta spoilers* para quem ainda não viu: a ingénua Princesa Anna, criada sem muitos amigos, apaixona-se à primeira vista pelo Príncipe Hans, que parece perfeito para ela. Porém, ele revela-se muito má pessoa, um escroque desalmado. E a Princesa Anna, logo que percebe que ele é má pessoa e um escroque desalmado, deixa imediatamente de gostar dele.

É certo que para tão rápida decisão também conta o facto de entretanto ter conhecido um rapaz mais bonito e muito mais bem formado, apesar de não ser príncipe, mas isso é secundário. O que importa é que a Princesa Anna não fica a lamentar-se que o Príncipe Hans seja mau para ela, ou a dar voltas à cabeça porque é que ele fez isto ou aquilo, ou a pensar no que pode fazer para mudar o comportamento dele, nem a torturar-se se voltará a vê-lo ou se farão as pazes.

No momento em que ele mostra maus fígados, é um arrefecer de sentimentos e um pontapé no real traseiro que dá gosto ver.

 Ora, não é isso que a maior parte das mulheres faz: mesmo quando um príncipe se revela um sapo de marca maior, quando um homem faz asneira atrás de asneira e não se importa minimamente de causar angústias ou sofrimentos, continuam feitas tolas a inquietar-se com ele, a gostar dele na mesma. Quem nunca caiu neste disparate em maior ou menor grau (e por menor, leia-se ficar a roer-se enquanto se finge indiferença perante o mundo e o visado) que atire a primeira pedra.

 E no entanto, a premissa é tão simples: se a pessoa por quem se apaixonou se revela completamente diferente daquilo que fazia crer, então é impossível estar apaixonada por alguém que não existe, quanto mais ralar-se com isso. Princesa esperta...








Wednesday, September 17, 2014

Coisas práticas que se encontram nos contos de fadas #1: a "it bag" da Pele-de-Burro


Em algumas versões mais obscuras da história A Princesa Pele de Burro de Perrault (que é, por sua vez, uma versão condensada de contos mais antigos, como é costume nestas coisas) aparecia um bruxedo espectacular. Claro que as Fadas Madrinhas, génios e companhia são sempre cheios de truques que nos davam muito jeito a todos, mas quando li este em pequena fiquei mesmo encantada: para quem está esquecido dos seus contos de fadas (o que é um erro, porque não se deve deixar morrer a imaginação e as histórias de encantar são cheias de lições valiosas) eu refresco a memória.

 A Princesa Pele de Burro é, de todas as princesas com pouca sorte, a mais infeliz, com problemas familiares daqueles que nos chocam quando aparecem nas manchetes do Correio da Manhã. Aflita para fugir à desgraça do "amor violento [que] pouco liga à prata e ao ouro desde que possa satisfazer-se" a desventurada infanta pede ajuda à Fada Madrinha.



 Graças ao engenho desta, a nossa heroína consegue três vestidos magníficos e impossíveis (um da cor do Tempo, outro da cor da Lua e um terceiro mais brilhante que o Sol) mais uma pele de burro. Vendo-se obrigada a fugir e a usar a pele do animal como disfarce, não se julgue que vai sem bagagem. A boa e esperta Fada arranja-lhe a it bag mais fabulosa de todos os tempos: um baú que segue a dona por baixo do chão enquanto ela viaja, e aparece quando é preciso com um toque de varinha mágica!


"«Eis», prosseguiu ela», uma arca onde vamos meter todos os vossos vestidos, o vosso espelho e produtos de beleza, assim como os vossos diamantes e rubis.  Dou-vos ainda a minha varinha; se a levardes na mão, a arca seguirá o vosso caminho escondida sob a terra.
 E se a quiserdes abrir, mal a varinha tenha tocado a terra, a arca abrir-se-á perante os vossos olhos".


 Já imaginaram viajar de mãozinhas a abanar, só com uma varinha, e ter uma mala mágica que transportasse o nécessaire com o secador e toda a tralha, os sapatos, os porta fatos, o computador e tudo o que quiséssemos meter lá dentro? Sem canseiras nem risco de roubo nem nada? Para não falar que sendo mágica devia adaptar-se a toda a tralha que nos lembrássemos. Isto resolvia-me uma data de problemas. Não sei onde anda essa Fada, mas a Louis Vuitton ou outra casa especializada precisa de a contratar urgentemente. Podia ser Samsonite para quem prefere uma versão prática, não interessa: quero essa arca!








Sunday, August 31, 2014

Os males do orgulho, segundo Oscar Wilde.


Um homem muito sábio disse que o orgulho pode ser legítimo, mas que não devemos ufanar-nos das coisas que só ao acaso se devem. 
 Os acidentes felizes de nascimento - ou seja, a beleza, os dons naturais, uma condição privilegiada, o talento e a inteligência...são motivos para levantar as mãos para o céu mas por isso mesmo, para que não se desperdicem é preciso temperá-los com uma dose maior de modéstia e de auto exigência.

 Quanto mais dotado se é, mais rigoroso se deve ser com a sua pessoa e mais indulgente para com os outros. Depois, há outro aspecto da soberba que convém corrigir: ter-se em tão alta conta que se veja cada falha alheia como pecado mortal e imperdoável, como crime de lesa majestade.A altivez nativa que caracteriza uma pessoa bela e bem adornada das prendas de espírito ou das felicidades mundanas transforma-se em arrogância se for mal direccionada.

 Pior ainda, o orgulho exacerbado pode deitar a perder as melhores coisas da vida: quantos grandes feitos, quantos grandes amores não deixaram de acontecer porque alguém foi demasiado orgulhoso? Às vezes espera-se tanto que um dia é tarde demais.

 Oscar Wilde - outro homem sábio - no seu conto "The Star Child", ilustra bem como o orgulho pode chegar a tal ponto que nem o arrependimento ou a expiação são suficientes para reparar os danos.

 Resumidamente, uma criança lindíssima é encontrada por pobres lenhadores na floresta, envolta em ricos panos que denunciam a sua alta linhagem. Apesar das dificuldades que a família atravessa, o casal decide criar o bebé como se fosse seu.

 Em vez de se mostrar agradecido, o menino cresce mau como as cobras; só está bem a torturar pedintes e animais e a desencaminhar as outras crianças. A única coisa que o faz feliz é a sua grande beleza e sonhar acordado com a sua nobre origem. Quando a mãe verdadeira lhe aparece, vestida como uma pobre mendiga, ele rejeita-a cruelmente por lhe desfazer as ilusões. 

Então, como acontece quase sempre nestas histórias, é transformado num monstro horroroso para se penitenciar .

 Só então, depois de muitos sofrimentos e maus tratos, aprende a lição. Torna-se realmente bom e após terríveis peripécias, recupera a sua verdadeira forma. Nessa altura descobre que a mãe estava apenas disfarçada para o testar, que é na realidade uma Rainha, e que o leproso que ajudou em várias ocasiões é o Rei seu pai. É recebido com todas as honras, redime-se das suas maldades, mas...vive somente três anos para reinar porque as penas que sofreu durante o seu castigo lhe destruíram a saúde. Ainda por cima é sucedido por um Rei muito cruel, que faz sofrer grandemente o seu povo.

 Eis um final bem estranho para um conto de fadas, mas que dá que pensar. Nem sempre o arrependimento, a compensação e a bondade são suficientes ou chegam a horas. Por vezes o destino atravessa-se no caminho das melhores intenções, logo não convém haver atrasos de vida que se podem evitar.

 E o orgulho excessivo é isso mesmo: um grande atraso de vida, um desmancha prazeres e um empecilho à felicidade...


Friday, August 1, 2014

Conto da noite: as sonsas são as piores, lá diz o povo.


A elegância, como a virtude, é recusa: dispensa espaventos e alardes. Quanto mais uma mulher se esforça por andar na última moda, luzir grandes toilettes, mais a sua elegância fica comprometida. Bem reza a velha regra de estilo: antes de sair de casa, olhe para o espelho e retire um acessório! E o mesmo vale para a virtude: uma mulher honesta, bem comportada, não precisa de gritar que o é nem fazer de beata, mesmo que seja do mais devoto. A única desculpa para afirmar, como antigamente se fazia muito "eu sou uma mulher honrada" será perante uma acusação injusta (como Catarina de Aragão, pobrezita)  e mesmo assim...o silêncio desdenhoso é sempre a melhor resposta.

Uma mulher de bem pode ir a toda a parte sem que isso a corrompa (bom, a quase toda a parte: há que evitar certos antros porque não basta ser séria, convém parecê-lo). Mas mesmo que vá a uma festa mundana ou seja arrastada sem saber para uma despedida de solteira cheia de malucas aos gritos não haverá mancha no seu carácter nem nos seus actos porque uma senhora só vê e ouve aquilo que quer e quem é seria é-o de raiz, logo não vai agir de modo diferente nem atirar-se a um poço só porque toda a gente o faz. 

A elegância e a virtude são como todas as coisas boas da vida: a riqueza, o estatuto, a beleza, a bondade, a santidade, as alegrias...lá dizia D. Francisco Manuel de Melo, "quem as tem que as goze, mas não que as mostre".

 Ou como fala o povo desde que o mundo é mundo, as sonsas são as piores

Isto lembra-me um conto popular recolhido por Teófilo Braga que vou tentar reproduzir à minha maneira:

«Na corte havia dois cavaleiros: um não parava de gabar as suas três filhas, que eram do mais piedoso, umas santinhas que se estavam nas tintas para as vaidades do mundo. O outro tinha uma só filha, que era muito alegre e divertida. O príncipe ouvia tais conversas e decidiu pôr à prova a virtude das meninas.

Mascarou-se de velhota e foi bater à porta do primeiro fidalgo, o tal que tinha as filhas muito beatas, dizendo-se vendedora de jóias. Mas a mãe das meninas avisou logo o príncipe disfarçado que as filhas não faziam senão rezar, por isso não iriam querer comprar nada. Então ele pediu ao menos que lhe dessem abrigo, não fossem as jóias ser-lhe roubadas na rua.

 A mãe falou nisso às filhas e elas, "nós não queremos cá velhas, que temos muito que rezar". Porém, a senhora lá as obrigou a deixar ficar a "velha" a um canto do quarto e elas, que remédio...

 Às tantas da noite, quando o príncipe fingia dormir, entraram pela janela três marmanjos, que eram os namorados das três santinhas; fizeram o que lhes apeteceu e de madrugada, cada um se esqueceu de um objecto. O príncipe agarrou nas três coisas e abalou.

 Na noite seguinte, repetiu a façanha em casa do segundo fidalgo: a menina bem disposta recebeu a falsa velhota com a maior gentileza e como se fazia tarde, convidou.a a ficar no seu quarto. Penteou-se, rezou e deitou-se. O príncipe, logo que a viu adormecida, roubou-lhe uma camisa de noite e fugiu.

 Dali a dias, deu uma grande festa para todas as famílias da corte: chamou os três mancebos que tinha visto no quarto das sonsas e, mostrando-lhe os objectos, 
perguntou-lhes se os reconheciam. Cada um disse que sim, e que os tinha deixado no quarto de uma menina, e as sonsas a morrer de vergonha...

Depois chamou a filha do segundo fidalgo e perguntou-lhe se conhecia aquela camisa: ela não se conteve e (apesar dos avisos da mãe) desatou a rir, ao perceber que a velha que lhe tinha furtado a camisa era na realidade o príncipe.

  Reconhecendo a verdadeira virtude, ele devolveu a camisa furtada e casou com a menina risonha; quanto às beatas, deu-lhes a sentença de serem metidas num convento, onde sendo tão santas se haviam de se sentir muito bem...»

Foi um bocadinho mauzinho, mas não deixou de ter razão, ou de ser bem feito...







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