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Thursday, March 3, 2016

Dizer a verdade sem ofender, à moda d´Os Maias



A boa literatura é a segunda melhor escola desta vida para ganhar um bocadinho de espírito mundano. Basta prestar atenção às obras imortais  para tirar óptimas lições de bem viver...incluindo algumas que nos livram de apuros sociais.

 Já aqui vimos a fórmula de Jane Austen para mudar de assunto sem parecer malcriada quando alguém menciona uma rapariga ou senhora com quem não se simpatiza nem um bocadinho. 

E n´Os Maias podemos tirar ideias do diálogo abaixo, para quando não nos é permitido responder com sinceridade a perguntas do tipo "gosta do meu vestido/carro/relógio/artigo para o jornal?" (que é medonho mas é da sua chefe super melindrosa...).

De maneira que é jantar de cerimónia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas que vá de casaca?...
- Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapela.
O Dâmaso olhou-o, pensativo.
- A mim tinha-me lembrado o hábito de Cristo.
- O hábito de Cristo... Sim, põe o hábito de Cristo ao pescoço, e põe a rosa na botoeira.
- Será talvez de mais, Carlos!
- Não, fica bem ao teu tipo.

"Fica bem ao seu/teu tipo"ou "vai bem ao seu/teu tipo" é a resposta perfeita, que salvaguarda tudo. Pode ser usada de forma mordaz, de elogio invertido, como o Carlinhos a disse (pois estava arreliado com o arrivista Dâmaso e dava-lhe jeito que ele parecesse ainda mais ridículo do que já era). 

Porém,também pode empregar-se sem maldade alguma, para não cair na complicada indelicadeza de balbuciar "eu não usaria nem que me pagassem, mas não te está mal".

Também serve para dizer a mais pura das verdades sem insultar,como se fosse : com o mau gosto que tu tens, está mesmo perfeito para ti.

Ou ainda, para explicar sem elaborar muito, quando uma toilette, atitude ou frase não faz de facto o nosso estilo, mas naquela pessoa até funciona.

E mais algumas aplicações que agora não me ocorrem: "fica bem ao seu/teu tipo" é um básico. É o creme Nívea, os blue jeans, a vaselina, a camisa branca das frases. Mais prática e versátil não há; convém estar sempre na ponta da língua...




Thursday, March 26, 2015

Sensibilidade ou bom senso?


Essa é a grande questão do imortal romance de Jane Austen. A propósito deste tema, já tenho dito que lessem as mulheres de hoje mais Jane Austen e menos disparates... evitar-se-ia muito coração partido e muitas tristes figuras (porque se um coração partido pode acontecer à mais sensata, dar nas vistas já está na mão de cada uma).

 É verdade que as opções das meninas e senhoras dos nossos dias são muito mais amplas do que as das mulheres em inícios do século XIX - mas no que toca ao aspecto pessoal, às emoções e à dinâmica entre os sexos as coisas não mudaram tanto como se prega por aí.

A dignidade feminina de uma Lizzie Bennet cabe em qualquer época. E também podemos aprender bastante com as irmãs de Sensibilidade e Bom Senso: a expansiva Marianne e a discreta Elinor.

 Marianne é romântica, sonhadora e mostra sempre o que lhe vai na alma. A sua meiguice conquista rapidamente dois pretendentes- o íntegro Coronel Brandon e o galã John Willoughby. Ora, ser carinhosa e doce é uma das maiores qualidades femininas. É difícil levar qualquer relacionamento a bom porto se uma mulher esconder demasiado os seus sentimentos; porém, a tradição manda que uma mulher retribua os afectos com subtileza e cautela, o que tem razão de ser...

 Pois Marianne - como tantas mulheres actualmente - considera isso uma hipocrisia e manipulação desnecessária. Gosta tanto de John que não disfarça o seu entusiasmo, alimentando o relacionamento com demasiada rapidez, mesmo antes de estar certa do carácter ou das intenções dele. Mais tarde, quando John se desinteressa e procura outra mulher que sirva melhor os seus propósitos egoístas, Marianne tenta desesperadamente recuperar o seu afecto (o que como todo o mundo sabe ou devia saber, nunca serviu para nada em século algum) tornando-se alvo de chacota. Faz o equivalente a inundá-lo de SMS, mas por cartinhas e lembrancinhas. O que não resulta, claro, porque quando um homem não está assim tão interessado...sabem o resto.


 Só depois de adoecer de desgosto é que Marianne decide tomar juízo e ser mais como Elinor- que é sensata, reservada, racional e põe sempre a lógica mundana e as necessidades dos outros à frente dos impulsos superficiais. Porém, a ponderação de Elinor e a forma como guarda os seus sentimentos para si fazem-na passar injustamente por ser uma pessoa fria e desapaixonada.

 O final feliz só acontece quando as duas irmãs conseguem equilibrar a sensibilidade e o bom senso. 

 Se refrearmos totalmente a nossa sensibilidade e delicadeza femininas, é impossível viver e sentir verdadeiramente. Mas nenhuma felicidade durará se não aplicarmos bom senso, calma e racionalidade ao que sentimos. Sem o uso da razão, não se pode usufruir daquilo que o coração, a energia e o entusiasmo conquistam - seja a nível profissional ou afectivo.

 Em cada mulher há uma Elinor e uma Marianne: resta descobrir qual delas fala mais alto, e invocar a outra para temperar a frieza ou o excesso...


Wednesday, February 5, 2014

Como vestiam as fashionistas do sec. XVIII? Nada como ver de perto‏.

Fonte: Madame Guillotine



A cidade inglesa de Bath é famosa pelas suas águas quentes, muito apreciadas desde o tempo dos romanos. Mas foi no período Georgiano (1714-1837) que ficou no auge da moda, sendo frequentada pela mais distinta sociedade britânica - e europeia, de resto.

 Personagens célebres  não dispensavam uns dias de descanso na encantadora comunidade (descanso seguido de festas esplendorosas) e it girls como a 5ª Duquesa de Cavendish tornaram Bath um centro cultural, artístico e de moda - estatuto que fez da cidade  uma jóia da arquitectura, acrescentando aos vestígios romanos belíssimos edifícios dos séculos XVIII e XIX. 

Georgiana, Duquesa de Cavendish
                                             
(Jane Austen também por lá viveu vários anos e hoje existe mesmo um Jane Austen Centre, mas como amante da vida simples do campo  a autora detestava morar ali: tantos bailes, bulício, mexericos e métier social faziam-lhe muita impressão e ficou satisfeitíssima quando a família se mudou).

 É claro que uma estância de veraneio do mundo elegante não podia deixar de ser testemunho de alguns dos momentos mais icónicos da História da Moda - e isso justificava a existência de um museu. O Fashion Museum de Bath, aberto desde 1963, colabora regularmente com os maiores designers, incorporando um vestido de griffe por ano na sua colecção ( de nomes tão sonantes como Armani, McQueen ou Versace) e organiza regularmente exposições. Ora, avisa o fantástico blog Madame Guillotine que está patente uma que vale mesmo a pena. Georgians: dress for polite society permite ver de perto uma panóplia assombrosa de toilettes desse período feliz e estouvado, caracterizada por muitas anquinhas, corpetes, rendas, padrões florais, brocados e outros tecidos luxuosos, meias bordadas, leques e chapéus, vestidos pelo valor de propriedades...tudo muito extravagante, muito alegre e cheio da joi de vivre que reinava antes de vir a  Revolução Francesa para mudar as ideias, simplificar as modas e basicamente, acabar com a festa.

A quem está no Reino Unido ou tenciona por lá passar, não pode haver passeio que se recomende mais.

Monday, November 11, 2013

Jane Austen dixit: juízo. E noção.

                    
Sendo a Rainha do bom senso, reafirmo que Jane Austen devia fazer parte obrigatória da educação de todas as raparigas, bonitas ou feias, ricas ou pobres. Se assim fosse, evitavam-se muitas figuras tristes, muitas cenas desnecessárias e muita vergonha alheia. Pois se é verdade que a autora disse, e muito bem "to love is to burn, to be on fire", também escreveu o seguinte - aspecto a ter em conta antes de mais nada:

“No young lady can be justified in falling in love before the gentleman's love is declared; it must be very improper that a young lady should dream of a gentleman before the gentleman is first known to have dreamt of her.” 

Em tradução livre, "nenhuma jovem tem desculpa para se apaixonar por um homem antes de ele lhe declarar o seu amor; é muito impróprio pôr-se a sonhar com um cavalheiro sem saber antes se o cavalheiro sonha com ela". Além da questão antropológica que já tenho mencionado por aqui (uma coisa é encorajar, dar um empurrãozinho e outra é inverter os papéis e tirar ao cavalheiro a função de caçador, correndo desesperada atrás dele e fazendo as investidas como uma tonta que nunca foi cortejada na vida) pede-se noção da realidade qualquer ser humano.
 Para começo de conversa, sempre me fizeram impressão as pessoas (homens ou mulheres) que apanham paixões assolapadas sem qualquer encorajamento, e sofrem por quem nunca olhou para elas duas vezes como se tivessem perdido uma relação a sério. Para nascer, o amor precisa de flirt, de sedução - se surge na cabeça de alguém sem que haja nada disso, se além de tudo cria uma obsessão unilateral, algo de errado se passa. Isso é normal na pré adolescência, quando as rapariguinhas se apaixonam por posters e choram por causa de ídolos que nunca viram. Em adultos, é patético e inaceitável. 
Depois, há que ter sentido dos factos: e vejo muitas mulheres com idade para ter juízo a oferecer-se (nem que seja por feijões) a quem nunca olhou na sua direcção, caindo mesmo no papelão de perseguidoras. Espelho, palmatória e Jane Austen fizeram falta a muitos pais e muitas filhas...mas quê, acha-se que é no ensino obrigatório e no ensino superior gratuito e aberto a qualquer desmiolada que se aprende tudo. Depois, é o que temos.


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