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Wednesday, December 10, 2014

Mais um "Othello" da vida real...e uma perfeita Desdémona.


Ontem foi noticiado o assassinato da bailarina e actriz Stephanie Moseley às mãos do marido, que se suicidou em seguida, perante um amigo que (coitado do pobre) assistiu a tudo via webcam, no melhor espírito de filme de terror.

 Segundo testemunhas o casal discutia constantemente porque a cara metade de Stephanie, Earl Hayes, não conseguia superar uma alegada traição (ou separação, não compreendi ao certo) do passado. Via infidelidades até numa mosca que zumbisse por perto e tornava a vida da mulher num inferno. Os dois estavam mesmo em vias de um afastamento definitivo à conta disso, mas dez tiros selaram a tragédia para ambos.
 Só falta saber-se que as suspeitas de Earl eram infundadas, causadas por uma intriga qualquer, para termos o enredo de Othello sem tirar nem pôr.

 Já muito se falou aqui dos Mouros de Veneza , dos ciumentos patológicos, e por mais que dê voltas não consigo perceber o mecanismo. Se alguém provoca ciúmes e dá motivos para desconfiar; se é preciso vigiar essa pessoa a toda a hora e ela é imatura que chegue para alimentar situações que deixem o outro desconfortável...o remédio é afastar-se, certo?

Isso pode ser doloroso, mas ao menos não coloca ninguém em risco.

 Se assim não é e as suspeitas nascem lá na cabeça do ciumento e ele não aceita a realidade por mais provas de dedicação que se lhe dê, então se calhar é hora de pensar mais na cara metade e no sofrimento injusto que está a provocar. E procurar tratamento especializado ou reconhecer que é uma pessoa com quem é impossível viver...porque é mesmo.

 Mas o problema do ciumento é que não é só desconfiado e inseguro: é possessivo, e a posse exagerada (pois o amor destituído de algum sentido de posse não tem graça, o mal está é nos extremos) nasce de um profundo egoísmo. De uma incapacidade para abrir mão do controlo total. Estilo se me afasto dois metros para reflectir e avaliar a situação alguém aparece imediatamente para me roubar a mulher.

 E como tal, em casos destes, o meio para pôr fim ao desconforto interior é resolver o caso a tiro ou coisa pior. O velho "se não me pertence não será de ninguém". Tenho para mim que os Othellos que chegam a actos dramáticos desses estão, na sua cabeça, a cometer não um crime, mas uma demonstração de romantismo mórbido.

 Para homens assim, se a a história de amor não pode ter um final feliz...que tenha um final trágico. Juntos a bem ou a mal. Nenhum ciumento sabe ser razoável - essa é a raiz do problema.

Thursday, October 2, 2014

Ciumento de uma figa.


O meu gato Farinelli anda a passar uma crise: não gosta nem um bocadinho de dividir as atenções com outro bichano de longa pelagem, e se me vê com o Maggie ao colo é notá-lo a aproximar-se sorrateiro, com ar inquisidor, como quem diz (sem cerimónia, que ele foi criado ao Deus dará e apanhou maus hábitos antes de vir cá para casa, logo é de "tu" para baixo) "tanta coisa que eu era o teu gato e não sei quê e agora dás mimos a este? Sua falsa, cínica, impostora, tudo te serve!".

 E não há carinhos que o convençam de que, embora o Maggie - é um gato com nome de gata porque o pêlo era de tal maneira grande que o veterinário se enganou nos primeiros meses- seja uma das coisas mais fofas à face da Terra e precise de atenção para se ajustar a uma nova família, um amor não tira o lugar do outro. Já tentei explicar-lhe que o pedigree do outro não faz diferença (quanto a beleza estão empatados e amo igualmente os felinos de raça indefinida que tenho) mas qual quê...

 O último número que faz é vir com miados (ele que raramente abre a boca) turrinhas e ronrons, a pedir colo e carinhos e, ao fim de uma sessão de abracinho do gato, beijinho do gato, quem é o Fofinho? Onde ´tá o Fofinho? e melosices do género, ferrar-me uma boa dentada. Morde-me com evidente prazer e retira-se com a maior dignidade que pode, com ar de muito obrigada por cima.




Assim como quem diz "estúpida, partiste o meu coração e como não sou capaz de deixar de gostar de ti  tenho de te castigar, sua leviana que dá confiança a qualquer um!".

E eu, fazer o quê? Aguento a afronta e desculpo, pois.

 São coisas de macho Alfa e de macho alfa estragado com mimos, mas como é um gato dá-se o desconto, coitadinho. Sempre achei que o mais inteligente dos gatos terá, mais ou menos, o intelecto de uma criança muito esperta de 4/5 anos. São bichos muito sensíveis, muito inteligentes, mas eternos bebés. 

 O que é curioso notar é que o Farinelli é um gato, um bicharoco *considerado* não racional; além disso, mal ou bem tem realmente competição e razões, se não para questionar o amor eterno que se lhe dedica, para ficar aborrecido com a concorrência. Ele não quer dividir atenções mas coitado, tem de viver com isso.

 Porém há Alfas humanos, igualmente estragados com mimos, sem concorrência e sem razão para desconfiar que se comportam exactamente na mesma. Não mordem, se calhar (também era o que faltava!) mas fazem bem pior. É para onde é que ela estava a olhar, porque olhou para aquele, porque deu troco ao outro, porque ia vestida assim ou disse assado, e insultos, e desconfianças - quando na maioria das vezes, o sentimento que uma mulher lhes vota é daqueles tão profundos, tão avassaladores que consomem tudo o resto e não deixam espaço sequer a um pensamento rápido dedicado a outra pessoa. Só um amor desses explica que elas aturem cenas assim, de outro mundo e de outro tempo.

 O gato ao menos é gato, e tem razões de queixa, e sempre se pode amassar e encher de abracinhos ou fechar de castigo, se não se fizer nada dele. Soubesse eu e tinha chamado Othello ao gato, em vez de Farinelli. 

Monday, July 9, 2012

Othello, outra vez: o “honesto” Iago



Laurence Fishburne e Kenneth Branagh

“Trabalha, meu veneno! Trabalha!”
(Iago, Acto IV, Cena I)

Esta imortal obra de Shakespeare foi referida aqui recentemente, mas volto a trazê-la à baila porque se mantém tão actual. O público de hoje pode facilmente rever-se no enredo de inveja, intriga e ciúme. Demasiado, infelizmente – em especial se atentarmos aos casos tétricos de “Desdémonas modernas” que aparecem nos jornais portugueses dia sim dia sim…
Para quem está esquecido, a tragédia (baseada num conto italiano escrito por um discípulo de Boccaccio e publicado alguns anos antes, possivelmente inspirado em factos reais) conta a história do general mouro ao serviço do exército de Veneza, Othello. Apesar da sua integridade, e dos seus feitos nobres e valorosos, o guerreiro é olhado de lado pela sociedade veneziana. Não obstante, conquista a linda filha do Senador Brabâncio, Desdémona, que foge para casar com ele, contrariando a família.
A trama é lançada quando Othello promove o seu confidente, o belo Cássio, a tenente em detrimento do seu alferes, o malvado Iago. Iago tem inveja de Othello e embora aparentemente lhe lamba as botas, no fundo odeia-o; considera-o um verdadeiro palerma e detesta estar às ordens dele. Ressabiado, urde um plano terrível para destruir Cássio e vingar-se de Othello, com a ajuda de vários comparsas – uns voluntários, outros levados ao engano. Conhecedor das fraquezas humanas, Iago manipula toda a gente sem nunca dar a cara, fazendo os outros apanhar as culpas pelas suas tramoias (e eliminando assim habilmente os cúmplices que poderiam denunciá-lo) enquanto passa por servo fiel e imprescindível, acima de qualquer suspeita. É a personagem maquiavélica por excelência, mas encobre tão bem as suas manobras que todos lhe chamam “o honesto Iago”.
O vilão instala a dúvida na mente do mouro, persuadindo-o gradualmente de que Desdémona o engana com Cássio, orquestrando artimanhas, pessoas e circunstâncias para que as suas mentiras pareçam apoiadas em factos e simulando sempre zelar pelo “amigo”. Chega ao cúmulo de avisar Othello contra os perigos do ciúme, dando uma no cravo, outra na ferradura. Por fim, planta a prova do crime: consegue subtrair a Desdémona um lenço oferecido pelo marido, uma herança de família com poderes de magia amorosa, e coloca-o nos aposentos de Cássio.


Muito sangue e desgraças depois o estratagema é revelado e Iago punido, mas tarde demais: doido de ciúmes, Othello mata a sua amada e suicida-se quando percebe que foi vítima de um logro.
Neste drama Iago é o verdadeiro protagonista e a personagem que mais facilmente se encontra no mundo real: dissimulado, ganancioso, cobarde e chico esperto, encaixa no perfil do sociopata dos nossos dias. Uma pessoa comum, medíocre até, um “gajo porreiro” e aparentemente inofensivo, só revela genialidade na perfídia. Iago é uma serpente que se aproveita tanto da bondade e ingenuidade alheias como da malvadez (e imbecilidade) dos seus cúmplices para espalhar veneno, dividindo para reinar. Tal como os psicopatas, possui um instinto aguçado para captar as debilidades dos outros e usá-los como peões nos seus planos perversos – e assim como eles, não mede os seus actos: julga-se invencível e uma vez apanhado, não mostra sombra de arrependimento mesmo face a um castigo terrível.
O “ Honesto Iago”  prova que uma única erva daninha pode conspurcar o jardim inteiro.
Mas para que um vilão desta espécie cause danos são precisos espíritos fracos que o deixem trabalhar. E em Othello há vários. 
 Cássio é ingénuo por confiar num óbvio rival, com razões claras para o invejar; Desdémona é tola por ignorar os avisos da sociedade e do próprio pai, casando com Othello sem lhe conhecer bem o carácter: o marido não entende os sacrifícios que ela fez por ele como prova suficiente de lealdade. O Mouro demonstra ser, além de ciumento patológico (que procura em toda a parte confirmação para as suas paranoias) supersticioso - confia mais numa bugiganga com alegados poderes mágicos do que na própria mulher – impulsivo e influenciável, emprenhando pelos ouvidos à primeira insinuação que lhe fazem e agindo de acordo, sem considerar que o acusador só tinha a ganhar se os acusados caíssem em desgraça. Em resumo, apesar do seu prestígio e experiência de vida, Othello não age como um homem lá muito esperto: deixa-se manipular pelas pessoas abaixo dele – subalternos a quem não devia permitir mexericos em primeiro lugar. Vê o mal em tudo, menos onde ele realmente está.
Há sempre que desconfiar dos “honestos Iagos” - portadores de más notícias que vêm a toda a pressa contar coisas desagradáveis, supostamente no nosso melhor interesse. Vivemos num mundo tão egoísta que é prudente estranhar quando alguém dedica demasiado tempo a cuidar da vida alheia, sob uma capa melíflua de honestidade e dedicação:

“ Se eu fosse o Mouro, não quereria um Iago sob as minhas ordens, pois seguindo-o, apenas me sigo a mim próprio: não me move o dever nem a amizade, mas apenas o interesse (…). Ficai certo: eu não sou o que sou”
(Iago, Acto I, Cena I)

Thursday, July 5, 2012

Do ciúme



 DESDEMONAAlas the day! I never gave him cause.

  EMILIA: But jealous souls will not be answer'd so; 

         They are not ever jealous for the cause, 

         But jealous for they are jealous. It is a monster 
         Begot upon itself, born on itself.


                                 (William Shakespeare, Othello: Act 3, Scene 4)

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