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Tuesday, March 22, 2016

Essa tristeza de "que o amor seja eterno enquanto dure"





E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


O poema é lindo, mas há muito quem o distorça sem remorso para caber na triste realidade das ligações casuais, das relações sem compromisso em modo "test drive" e dos "amorzecos à falta de melhor". Ou ainda, para justificar o fim dos entusiasmos fugazes que passam por "amor" - aqueles que até enganam, que arrancam uns "amo-tes" mas que passado o fogaréu da paixoneta, se vê que não era verdade. Até se podia ter alguma paixão, mera especiaria do amor, mas amor digno desse nome, viste-o

Tais proximidades, em maior ou menor grau, estão para o amor a sério como uma Birkin da Hermès falsa está para uma verdadeira: há imitações reles, umas melhorzinhas e outras que quase enganam os entendidos, mas nenhuma é o real deal.

E no entanto, vê-se bem que o pobre poeta estava apenas em modo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer". É bom ser realista, porque mesmo o amor mais genuíno, se tem a quantidade de paixão necessária para saber a alguma coisa e a dose de sacrifício que é precisa para funcionar, vai fazer rir e chorar, levar ao céu e tornar os envolvidos pessoas melhores, mas passá-los pelas brasas do inferno de vez em quando. Faz parte. 

Mas para desfazer esta ideia desconsolada, deixem-me contrapor a Vinicius de Moraes as palavras do Ven. Fulton Sheen: "como dizia Eurípides, aquele que não ama para sempre não é um verdadeiro amante"


Um amor real, genuíno, puro, não é uma chama: tem labaredas que luzem e queimam, mas não se consome nelas; é como o arbusto ardente de Moisés, que ardia sem desaparecer. O amor verdadeiro é imortal, ou seja, não se fina naturalmente como qualquer ser vivo. É preciso matá-lo de propósito e mesmo assim, só com um grande trabalhão. Pensemos no amor verdadeiro como nos imortais do filme Highlander: eram belos, jovens, fortes para sempre;  em teoria, não podiam morrer. O tempo não os matava, não os debilitava; a doença não os atingia, espadas e pistolas feriam mas o estrago não era grande. Sentiam dor, mas sobreviviam. Para os matar, só cortando-lhes a cabeça à espadeirada e ainda assim, convinha que outro imortal tentasse a tarefa, porque para outra pessoa seria praticamente impossível.

Ou seja, para assassinar um amor desses raros e puros, um dos "imortais" envolvidos tem de o decapitar deliberadamente: ferindo para o debilitar muitas vezes, e com um golpe certeiro depois. Se é amor, não morre de morte morrida; tem de ser morte matada, e olhem lá... 

Do infinito enquanto dure está bem livre. Para correr tudo pelo melhor, é só evitar os homicídios em primeiro grau.



Wednesday, June 24, 2015

Soror Juana Inés de la Cruz dixit: quando eles se queixam por sua própria culpa


Este poema lúcido e bem humorado de Soror Juana Inés de la Cruz é uma boa conclusão (ou resposta) para o post desta manhã

Que se saiba, a religiosa e intelectual mexicana do século XVII (que era uma leitora voraz, devorou todos os clássicos, aprendeu português e latim sozinha, levantou grande poeirada ao analisar um sermão de Padre António Vieira, coleccionava instrumentos científicos e deixou vasta obra literária, de versos a peças de teatro) nunca se terá apaixonado por homem algum antes de se tornar monja.   De facto, até foi autora de uma comédia chamada "O amor é mais confusão". 



 Mas tal como para conhecer os efeitos do vinho não é preciso prová-lo (bastando para ficar informada observar os borrachos que passam na rua) suponho que a Irmãzinha se baseasse no que via as outras mulheres sofrer para formar o seu juízo.

  Os versos podem adaptar-se a vários comportamentos masculinos disparatados. Porém, caem como uma luva aos cavalheiros que, esquecendo-se de que o são e da hombridade que se espera deles, se dão ao luxo de proceder com leviandade. Ou seja, acham-se no direito de fazer pouco caso da pessoa que lhes importa para gastarem tempo precioso com companhias indignas, "porque podem", por tradição, agir como galos na capoeira...

E em seguida, quando daí advêm algumas consequências menos felizes, lá se lembram dos "direitos" que não souberam cuidar, sentindo-se muito ofendidos,  com autoridade e moral para desfiar um rosário de acusações.

 Acho que a maioria julga que as mulheres são adivinhas e tem uma confiança infinita em si próprios, ou na tendência feminina para o heroísmo (que é bom e louvável, mas não inesgotável).






Tuesday, June 23, 2015

Bocage dixit: a estroinice é má conselheira. E a Natureza, às vezes, também.


O nosso poeta, famoso pela existência boémia e desvairada, "desordenada nos costumes" (de que os seus escritos nos deixaram uma ideia, e que lhe trouxe bastantes complicações) aprendeu - à sua custa, como é habitual - que isso de viver segundo os apetites e os impulsos tem o seu preço. 

Isso de viver à lei da natureza, que resultava tão bem em teoria e poesia, a rebeldia contra a "corrupção da sociedade" traduziu-se - como acontece quase sempre -  numa corrupção pior. A da saúde, a da alma, a dos relacionamentos verdadeiros. Afinal, se praticar o hedonismo fosse saudável e possível, há muito que a civilização o teria adoptado. Nem tudo o que sabe bem regradamente, dá bom resultado em excesso.

 Mas cada homem (ou cada mulher) que escolhe viver assim, muito livre, muito moderno, achando-se imortal, não considerando o amanhã...julga sempre que nunca ninguém o fez antes! Esquece que já está tudo inventado e que se foram criadas regras e tradições, por algum motivo foi; nem o novo é sempre novo, nem- quando o é realmente - se prova necessariamente melhor do que os usos testados e aprovados por séculos de tentativa e erro...


  Pessoas como o Bocage defendem o amor livre, o amor natural - fingindo ignorar que o ciúme e o desejo de segurança são igualmente naturais e instintivos, e que a sociedade, a Lei, a Religião, instituíram a monogamia precisamente a contar com isso. Outros revoltam-se contra o pudor, a moral, a ordem, a Fé, defendendo em tudo o vício, como que a desculpar a sua própria fraqueza...fazendo por ignorar que deste mundo nada se leva e que o ser humano, sendo dotado de alma, aspira a mais do que às alegrias imediatas e efémeras.

 E assim há tantos que desperdiçam os seus talentos, que deitam a perder o património de família, que trocam um grande amor pela ilusão de uma série de rostos que não deixam marca alguma, que fazem sofrer as pessoas que verdadeiramente os amam em benefício de outras indignas de lhes descalçar as sandálias- e que só ficam por perto nos bons momentos, claro.

Bocage, façamos-lhe justiça, era tão talentoso como azarado; muitas das suas aventuras foram uma reacção aos desgostos e desgraças que lhe sucederam sem culpa sua. E no fim da vida - cansado, desiludido, solitário, consumido por tantos excessos - o poeta procurou a redenção, como todos os rebeldes. A sua conclusão? Não soubera viver, e era tarde demais. Como tantos homens que acham "natural" proceder à moda dos bons selvagens pela vida fora...


Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.










Thursday, January 15, 2015

Victor Hugo dixit: guerra dos sexos? Not!


Já vos tenho dito que a poesia, para mim, é coisa criteriosa e espinhosa; entre a má poesia (ou a poesia sofrível) e nenhuma, prefiro a ausência total desse luxo. Má poesia é como uma carteira contrafeita: o ridículo percebe-se à distância. Ou como a bijutaria barata: totalmente dispensável. Materiais nobres, ou nada! 


A prosa é mais honesta; se não for sublime é pelo menos directa, desde que não se abuse de pretensões, floreados e palavrões caros na tentativa pateta de parecer "profundo" ou pior um pouco, muito culto.

Mas por vezes, os poetas - especialmente os mortos e enterrados - lá resumem ou explicam ideias de uma forma que à prosa é quase impossível. 


 Como por aqui se tem falado bastante dos papéis masculinos e femininos, lembrei-me deste poema de Victor Hugo e como nenhuma versão disponível em português me agradasse, atrevi-me a uma tradução livre.
 Acho-o um belíssimo sumário de muito do que tenho analisado (ou procurado lembrar) cá no blog: o homem força, acção, guia, protecção, Fogo (ou Yang, se preferirem) a mulher apoio, sabedoria, subtileza, astúcia, receptividade, delicadeza, Água (Ying). O que se tem procurado contrariar socialmente, de modo forçado, são apenas os  princípios elementares de fertilidade, de complementaridade.

 O feminino e masculino nunca serão opostos; complementam-se pela mais  primordial ordem das coisas. Se o homem domina formalmente pela força, a mulher subjuga pelo engenho e a meiguice; reinam ora à vez, num jogo mais velho que o tempo, em que só se vence sendo vencido, ora juntos, mas cada um à sua maneira. Tudo encaixa perfeitamente, quanto mais não seja porque o Criador os fez para os braços um do outro...


O homem é a mais elevada das criaturas
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono e para a mulher, um altar.
O trono exalta; o altar santifica.

O homem é o cérebro
A mulher, o coração.

O cérebro produz a luz; 
o coração, o amor.

A luz fecunda, o amor ressuscita.

O homem é forte pela razão.
A mulher é invencível pelas lágrimas.

A razão convence, as lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos.
A mulher, de todos os martírios.

O heroísmo enobrece; o martírio sublima. 

O homem tem supremacia.
 A mulher, primazia.

A supremacia é força; a primazia legitima.

O homem é um génio.
A mulher, um anjo.


O génio é imensurável; o anjo indefinível. 


O homem aspira à extrema glória.
A mulher, à extrema virtude.

A glória engrandece tudo; a virtude diviniza tudo.

O homem é um código.
A mulher, um evangelho.

O código corrige, o evangelho aperfeiçoa.

O homem pensa.
 Ela sonha.

Pensar é ter uma larva no crânio; sonhar é ter um halo na fronte.


O homem é um oceano.
A mulher é um lago.


O oceano possui a pérola que adorna; o lago, poesia deslumbrante.


O homem é a águia em voo.
A mulher, o rouxinol que canta.


Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma.

O homem é um Templo;
 a mulher é o Tabernáculo.


Ante o Templo descobrimo-nos, ante o Tabernáculo ajoelhamos.


Em suma, o homem é colocado onde a Terra termina; a mulher, onde começa o céu.

Sunday, February 24, 2013

W.B Yeats dixit: a poesia relativa

File:William Butler Yeat by George Charles Beresford.jpg
"Poetry makes nothing happen"

Gosto de poesia; mas tal como a beleza, a poesia é uma das coisas mais relativas que há - e muitas vezes esconde-se em registos que nada têm a ver com poemas

Parece-me demasiado grande para ser contida num formato; faz parte da vida e pode manifestar-se com mais autenticidade em obras da natureza, ou noutras formas de arte, do que em algo criado de propósito para ser poesia.

 A poesia pela poesia, quanto a mim, perde a graça toda salvo quando é escrita de forma visceral por alguém que é, de raiz e sem querer, um poeta - outra das coisas mais complicadas de classificar por este mundo de Deus. Parece-me que mesmo os grandes poetas, os poetas confirmados, os poetas que a gente pedante cita quando quer mencionar um livro de cabeceira que fique bem no retrato, tiveram rasgos - nem todos seriam poetas vinte e quatro horas por dia, o que não é necessariamente mau. 

Creio que já o disse por aqui: se há coisas que respeito são a poesia, o cinema e o teatro (e muitas vezes, de propósito ou não, as três caminham próximas). Respeito-as tanto que quando ouço alguém intitular-se actor ou poeta me arrepio imediatamente. Porque das das duas, uma: ou a pessoa tem provas dadas do seu ofício (ou arte...) e nesse caso, não precisa de o alardear, ou estamos perante um poseur da pior espécie ...um poseur que não sabe sequer o que diz. Tremo quando ouço alguém dar a si mesmo o título de poeta só porque tem o hábito - e sem ofensa a ninguém, frequentemente o péssimo hábito -  de compor versos.

 Numa comparação mais que redutora posso apreciar sushi, posso saber fazer um sushi razoável para os meus amigos, mas não me intitulo mestre no assunto.  É o mesmo que alguém se denominar artista só porque borra umas telas ao fim de semana. Tais títulos são atribuídos naturalmente, pelo talento, e vêem de dentro - reconhecidos e confirmados por quem entende do assunto, ou pelas lágrimas e aplausos do público. (Nos nossos dias, poucos se sentam em roda numa sala, a ouvir declamar versos - e caso sentem, os versos poucas vezes ultrapassam as paredes desse edifício, por isso a verdade é que já não há público...). Pior ainda, podemos formar um pintor sem talento, se não um artista,  numa escola cara de Belas Artes - mas vão lá dar diplomas de poesia.

  E depois, eu que não pretendo saber nada disto e partilho convosco apenas as minhas impressões, considero a poesia pela poesia, na época que atravessamos pelo menos, uma forma de arte diletante e ociosa, um luxo interior, um adorno sem grande aplicação prática. Parte da beleza da boa poesia sempre veio disso mesmo (sendo criada por um rasgo de génio, servir apenas para inspirar almas) mas por vezes, quando era realmente arrebatadora ou aparecia no lugar certo, transcendia a sua condição  de arrebique para fazer parte de algo maior. A música é uma das mais naturais, espontâneas e intemporais aplicações da poesia que não quer ser poesia pela poesia: vejamos Sérgio Godinho, Gabriel o Pensador, Zeca Afonso, Chico Buarque, só para nomear alguns na Língua de Camões.


 Then again, para que isso aconteça, para que a poesia faça bons hinos, boas máximas, boas peças, boas canções e em última análise, boas canções de protesto, tem de ser realmente poesia e nunca versos escritos a martelo. Pessoas sensatas com queda para a poesia, no meu entender,  não escrevem versos - fazem exercícios.  E desses poderá sair algo de belo. Um verdadeiro poeta é essencialmente modesto, ou antes distraído. Está demasiado ocupado a colocar cá para fora o que lhe vai pela ideia para gritar por aí "olhem para mim, sou um POETA! Onde estão os meus louros?". 

E há também outro ângulo da questão, que lamentavelmente se vê muito por aí: o poeta que até é verdadeiro, que até é genuíno, que ainda por cima escreve bem, mas que se apercebeu de que é poeta e se sente contaminado por essa noção (mau caminho!). Aí começa a derrocada, o que é de lastimar num indivíduo de talento: a condição de poeta injustiçado, de artista frustrado, de escritor ressabiado que substitui o espírito e rebeldia natural por um inconformismo pateta, a  inspiração por queixinhas permanentes, a veia por ataques gratuitos ao sistema (esse papão que lhe nega a devida glória...) e desata a publicar cada exercício que rascunha - a maioria dos quais não devia passar do desabafo, e por isso mesmo, da gaveta. Infelizmente as redes sociais, os blogs e o acesso fácil à edição de livros (que pouco lidos serão, para o bem ou para o mal, mas isso já é outra história) retiram tanto aos pseudo poetas como a alguns bons poetas desviados a possibilidade de seleccionar e reflectir. A poesia pode tomar aspectos práticos mas não é uma actividade funcional e se alguém pensou em fazer da poesia profissão, se calhar pensou mal desde o início. Quando se mistura poesia com política só porque sim, está tudo estragado.


 Existe ainda outro perigo real: é quando tanto o trovador como o público deixam que o poeta se torne um porta-estandarte de uma ideia, de uma ala, de um acontecimento, e não nos tiramos disso. Ontem ocorreu-me  este pensamento novamente, a propósito do aniversário da morte de José Afonso. Já perdi a conta às vezes que tentei dizer a quem lhe chama "o poeta da liberdade": o seu trabalho, tanto a nível de música como das letras, foi muito maior do que isso e transcende ideias de liberdade, de cravos, de esquerda ou de direita. Foi inovador em termos de arranjos, profundo na recolha de elementos quase esquecidos na música e lírica folk portuguesa, impressionante pela beleza pura e simples, pela mistura de complexidade e simplicidade, com a marca, a ferros, de algo de genial. Pode apreciar-se José Afonso mesmo que se discorde absolutamente das ideias políticas do Zeca. Colocá-lo na prateleira de uma certa mitologia da Liberdade, do 25/4, é redutor, é desmerecer o trabalho do poeta em prol da sua biografia, é impedir a sua voz de ser ouvida por quem  não se revê na Esquerda, ou naquilo que se associou à Esquerda. Eu bem falo e insisto na mesma tecla. 

Pois sim: atiram-me sempre com está bem, mas foi o cantor da Liberdade!
 E não nos tiramos mesmo disto. Um poeta precisa de ser cuidadoso: se a celebridade o apanha, fazem dele o que querem. E há sempre o risco da imortalidade, que é uma coisa ainda mais complicada.

Tuesday, September 11, 2012

Eça de Queirós dixit: dos amores sem cura





Tive outros amores talvez
 Mas sem fé e sem coragem 
Guardo passes de estalagem
 Onde se dorme uma vez.

 Nos olhos mais cativantes 
É ainda a ti que te vejo
 E as asas do meu desejo 
Voam para ti, como dantes. 
Nos plainos de Jericó
 Assim o Rei Mago ia
Em cada estrela que via
Seguindo uma estrela só.
E na posse mais demente 
Do corpo mais desejado,
 Basta voltar-me para o lado, 
P'ra te ver ali presente.

(in A Tragédia da Rua das Flores)

Monday, August 13, 2012

Veronica Franco, it girl do século XVI


File:VeronicaFranco.jpg
Retrato de Veronica Franco, atribuído a Tintoretto
"Quando nós (mulheres) somos dotadas de treino e armas, podemos convencer os homens de que temos mãos, pés e um coração como o deles; e embora sejamos delicadas e frágeis, alguns homens delicados também são fortes; e outros, bruscos e grosseiros, são cobardes.  As mulheres ainda não se aperceberam disto (...) E para o provar, eu própria começarei por dar o exemplo".

                                                                              Veronica Franco
Veronica
A Veneza do século XVI era uma cidade opulenta, cosmopolita e fervilhante de actividade, famosa pela beleza e estilo das suas mulheres. Como cidade chave para o comércio entre a Europa e o Oriente, a República de Veneza não só era bafejada pela fortuna como tinha acesso às novidades, influências e luxos de outras paragens. Abundavam os perfumes, as especiarias, os tecidos ricos, os cosméticos, as jóias e uma grande alegria de viver. A "jóia sobre as águas" era um paraíso de hedonismo, e nos seus palácios celebravam-se as artes, a cultura...e festas esplêndidas. Criadas como pérolas raras entre todos esses esplendores, as venezianas representavam o cúmulo do chic decadente: foram elas que criaram a moda de "lavar a cabeça" (leia-se, pintar o cabelo) ao sol, criando as famosas nuances acobreadas do louro veneziano. A sua elegância elaborada fez escola e vem desses tempos a célebre frase " um vestido veneziano não faz uma mulher veneziana". Entre elas, destacavam-se as suas reputadas cortegiane, mulheres deslumbrantes, de fina educação, que partilhavam o destino dos venezianos poderosos...e dos forasteiros privilegiados que pudessem pagar a sua companhia. As mulheres que se dedicavam à vida galante dividiam-se em duas classes: a  cortigiana oneste ("cortesã honesta" ou "honrada") e a cortigiana di lume, a prostituta comum. 
Entre as primeiras, versões renascentistas das hetairas  - Veronica Franco é talvez a mais famosa. 
Catherine Mc Cormack interpretou Veronica no filme "Dangerous Beauty"
 Nasceu em 1546, filha de uma cortesã reformada, Paola Fracassa. Mulher culta, Paola insistiu para que a filha recebesse educação igual à dos seus três irmãos. A pequena Veronica estudou assim com professores particulares, um privilégio vedado à maioria das meninas de boas famílias, educadas apenas para o casamento. No entanto, esse era o destino que inicialmente a esperava: na adolescência casou com um médico abastado, mas a união foi um fracasso e Veronica pediu o divórcio. A lei, no entanto, determinava que a mulher que tomasse tal iniciativa perdia o direito ao dote que trouxera. Sem recursos e com um filho para sustentar, a beldade decidiu seguir as passadas da progenitora, empregando a educação que recebera numa carreira de cortigiana onesta. Aos 20 anos, figurava no catálogo di tutte le principale e più honorate cortigiane di Venezia, um documento que apresentava os retratos, descrição e honorários das mais afamadas cortesãs de luxo. O seu êxito foi tão grande que pouco depois sustentava uma casa enorme incluindo vários sobrinhos, os filhos que foram surgindo (teve seis, mas apenas três sobreviveram) muitos criados e professores para as crianças. A sua graça e espírito renderam-lhe amantes - e protectores - poderosos. Um deles foi Henrique III de França  (irmão e amante da perturbante Rainha Margot e amado da Rainha Virgem, Elizabeth I). Aos 25 anos, no auge do sucesso, juntou-se ao salão literário do seu patrono Domenico Venier, poeta e magnata, tornando-se assim membro dos literati venezianos: participava em discussões e antologias - como poetisa e editora -  e em 1575 publicou Terze Rime, uma colecção que incluía 17 poemas da sua autoria...e os restantes, versos a ela dedicados. Muitos dos seus textos celebravam abertamente a sua condição de cortesã e tinham um conteúdo atrevido; outros defendiam os direitos da sua classe e das mulheres de modo geral, ou respondiam a tentativas de provocação a ela dirigidas. Era ainda uma intérprete talentosa: sabia música, tocando admiravelmente alaúde e spinetta (uma versão anterior do cravo). Uma mistura de sprezzatura, ousadia, inteligência e discrição, Veronica revelava-se - não obstante o seu estilo de vida - defensora de uma certa moral e modéstia femininas. Nas suas cartas, publicadas em 1580, admoesta uma mãe que pensa fazer da filha uma cortesã, e lamenta que certas modas demasiado provocantes sejam usadas pelas jovens. O seu triunfo, porém, seria toldado por várias desgraças. 
photo of 16th c. chopine held at the Brooklyn Museum (New York)
"Chopines"  usados pelas cortesãs e  fidalgas venezianas
Retrato de Veronica na capa do seu 1º volume de poesia, Terze Rime














Durante  um surto de peste foi obrigada a deixar a cidade por dois anos. Quando regressou, viu os seus bens saqueados. Mais tarde, um pretendente despeitado denunciou-a à Inquisição com falsos testemunhos de bruxaria- um problema comum para as cortesãs venezianas, frequentemente acusadas de corromper os bons costumes. Eloquente, defendeu-se com graça e habilidade, ganhando a causa. Na contenda, não lhe faltou o apoio dos seus amigos poderosos. Mas a sua fortuna e reputação nunca recuperariam deste revés e por morte dos seus patronos, os seus meios diminuíram substancialmente. Até à morte levou uma existência relativamente obscura, pouco facilitada pelos seus conterrâneos: viu recusado o seu projecto de criar um lar para mulheres desvalidas, cortesãs retiradas e seus filhos. Para a história, ficaram os seus belíssimos poemas e os retratos que inspirou:


(Um desafio colocado a um amante)


Non piú parole: ai fatti, in campo, a l' armi. 

ch' io voglio, risoluta di morire, 
da si grave molestia liberarmi. 
Non so se' l mio « cartel » si debba dire, 
in quanto do risposta provocata: 
ma perché in rissa de' nomi venire? 


Mais conversa não! À liça, ao campo de batalha, às armas!
Pois resolvida a morrer, de grave mal me libertarei.
Não sei se lhe chame desafio, pois respondo a uma provocação
Mas porquê duelar  por causa de palavras?


 












Wednesday, July 18, 2012

Frase da noite: My fearless one






"My fearless one,   
My holy statue,   
My statue outfitted with sword and lapis lazuli diadem,   
How sweet was your allure...."

(Hino Sumério a Inanna e Dumuzi)

Porque há amores assim: perfeitos, imaculados.



Sunday, May 27, 2012

Ode a um banana

Hans Matheson
Este post gerou uma série de reacções e conversas privadas, de ditos estilo "sua anti feminista!" a manifestações de apreço. E pus-me a pensar com os meus botões, a meditar nos textos que tenho escrito à volta dessa temática: o papel do homem e da mulher nos dias que correm, os desafios que os dois géneros enfrentam, o que se espera actualmente de um homem e de uma mulher, o papel tradicional de cada um e de que forma esse se entrelaça na dinâmica actual dos eternos jogos de poder entre os sexos. 
 Não convém que a equação os homens são de Marte, as mulheres de Vénus venha a ser  decifrada por completo- isso seria quebrar o mistério e o encanto. No entanto, com tantas mudanças, e a banalização de alguns dos comportamentos que aqui têm sido tratados, não se sabe bem para que lado está Marte, nem quem realmente é de Vénus. 
Porque aquilo que se quer é honestidade, firmeza e sinceridade - de parte a parte. As mulheres que não prometam ligeireza quando querem coisas sérias, eles que não enrolem nem prometam mundos e fundos se o que lhes apetece é esvoaçar por aí. 
 Tudo aquilo que muitas vezes é apontado como "defeito" no sexo oposto não é uma falha, é falta de jogo de cintura. De compreensão. E de sentido prático. O resultado de muitos anos a jogar com os pontos fracos uns dos outros. E no caso das mulheres, das "mulheres que lutam", que competem abertamente, que se matam e esfolam para obter de forma egoísta e obcecada aquilo que julgam ser o amor de fulano ou beltrano, o que lhes falta é uma educação para a auto estima, para o amor próprio.
   Um homem feito que se comporta como se fosse um bilhete premiado do Euromilhões, que se deixa disputar, que entra em circos e se sente feliz com isso, merece um bilhete só de ida para a creche. Claro que há que reparar no tipo de mulheres que concorrem pela honra da sua presença - e se forem de ar duvidoso, teremos um rápido cálculo da sua "cotação no mercado", o que por sua vez nos dará uma ideia clara do valor da preciosidade. Na maioria dos casos, se está deslumbrado pela atenção de "senhoras" pouco dignas de admiração, a coisa está preta para ele.  Tudo ilusão, que cada um se auto promove como pode e alguns gostam de fazer de James Bond nem que o orçamento para Bond Girls seja paupérrimo. E vai uma mulher enervar-se com isso, ou juntar-se a tais elencos? Não creio que valha a pena. Adeus, cresce e aparece, um dia em que te faças homem pode ser que eu cá esteja, ou não.
 Este foi o ponto de vista em que fui educada, nunca tive outro. Graças a ele, pude observar esses espécimes sem me aproximar muito. Mas como até o mais intrépido explorador corre o risco de se deixar influenciar pelos selvagens que estuda, não me livrei de ver de perto um ou dois exemplares do homem-que-é-banana-e-gosta-de-o ser: fraco, influenciável, inseguro, que adora rodear-se de atenção venha ela de onde vier, o homem não - me - responsabilizo, incapaz de ser claro, de se explicar preto no branco e de ter uma palavra só, que adora que decidam por ele, com um ego frágil a precisar de constantes massagens, indeciso de todo, um dia é do Benfica e noutro do Sporting, desleal mas a exigir uma lealdade a toda a prova - e se lhe pagam na mesma moeda, aqui D´el Rei que esta mulher é o diabo, sua má, sua bruxa, sua falsa e sua judas! A culpa é tua, tu é que estragaste tudo!
Uma pessoa só pode rir destas coisas e em tempos, compus uma cantiga de escárnio e mal dizer a propósito de alguém assim (com as pessoas que tenho conhecido, não preciso de imaginação...). É impressionante como continua actual, a julgar pelas estórias que tenho visto e ouvido. 



Para Páris, ou o seu homónimo

Dizer que te amei, seria pouco,
Pois se a palavra “amor” é tão banal
Que a devassam no ciberespaço oco
Sem as brasas do fogo passional
Amei-te, pois, à boa moda antiga
Com tragédia, catarse e vendaval
Amei-te com noites mal dormidas
Como se deve amar- ponto final.

Quis chamar a mim as tuas feridas
Quis abrasar-te de pecado venial
Trair e magoar, sair dorida
Como em qualquer combate, afinal.
Amei como se amava em Corinto
Sem gentileza alguma, puro instinto
Fui pira, e Medeia e temporal
Beijei cada pequeno espaço e defeito
E tu, meu grande asno, meu eleito!
Foste como um Páris em pleno Carnaval.
Fizeste da tua força Efialteza;
Fizeste-me troçar da minha reza
À Deusa dourada de Citera.
Pois não é então, que de Odisseu
Me sai um vendido Filisteu
Vergado ao vil metal- que ainda impera?
E eu que já me via em vapores de Hamã
Nos braços de um homem com H
Achei à minha frente…um pudim flã!

Mas não me arrependo deste meu embrulho
Pois aprendi que nem o próprio Zeus
Pode tirar néctar de simples sarrabulho.
Amei-te mesmo assim…simples e fero
Fraco e imoral, mas bom no fundo.
E a lição que me ensinaste, ó Macedónio
Não a perderei jamais, nem que o demónio
Venha mil vezes para ganhar o mundo!



Thursday, April 26, 2012

Somebody that I used to know



Já vos contei no Facebook: estou ligeiramente viciada nesta canção. Há muito tempo que um tema pop (a não ser talvez Video Games, de Lana Del Rey , mas esse versa sobre um amor obsessivo e doentio) não me intrigava tanto. É incrível como numa letra tão curta se resume o grande e complexo drama de muitos relacionamentos. A voz é maravilhosa, uma mistura de Sting com Peter Gabriel. A canção é belíssima, no seu espírito de melancólica resignação. Ali estão duas pessoas que se adoram, encurraladas na sua própria teia de culpa e orgulho.
In a nutshell: rapaz ama rapariga, rapariga ama rapaz. Juntos, sentiam-se capazes de morrer de felicidade, conta ele. A meio do caminho, o doce torna-se amargo, a relação é sufocante e cada um vai para seu lado jurando, por descargo de consciência, "continuar amigos". Claro que não há nada mais triste nem menos sincero do que permanecer amigo de alguém por quem ainda se é apaixonado...
De repente, a rapariga muda de ideias, manda recolher os souvenirs que continuavam amontoados em casa do ex e troca o número de telefone. E o ex, que até ali andava a saborear a liberdade com a consciência tranquila, repara que algo lhe falta. Começam as trocas de acusações (ansiedade e culpa, culpa, culpa): "não é que precise disto, nem do teu amor, mas escusavas de ser tão bruta e de me tratar como um estranho...é horrível como agora és apenas alguém que eu conheci".
É então que nos é revelada a outra face da moeda, ou a perspectiva da ex namorada ( despeito, mágoa, raiva):
"Quando me lembro das vezes que me fizeste mal fazendo-me crer que a culpa era minha...chego à conclusão de que não quero viver assim, a tentar decifrar cada palavra que tu dizes - e vai dar uma valente curva, porque se eu fosse só "alguém que tu conhecias" não estavas tão ralado"!
A música deixa-nos um final em aberto. Fica o tom passivo agressivo e magoado da história. A conclusão triste, mas verdadeira, de que por vezes, as pessoas que foram importantes para nós se reduzem a "somebody that I used to know"  ou pior, não chegámos a conhecê-las de todo. Em alguns casos, os danos que causam são tão grandes que não chegar a conhecê-las profundamente é uma benção. Ou como dizia o outro, "I love you and you love me, but some times we must let it be".

Wednesday, March 21, 2012

Dicionário

Hans Matheson, Bathory

Se o meu coração tivesse
Um tradutor simultâneo
Pouparia tanto tempo
Muito mais que um dicionário
De português - mandarim
Online, completo, instantâneo.

E nem andaria às voltas
Com gestos simplificados
Evitando o dilema
De te fazer um desenho.

 (Feliz dia da poesia, minha gente...)

Thursday, September 22, 2011

Poema mais-que-perfeito




Existem aqueles textos e aquelas canções que eu queria ter escrito. Porque definem pedaços da minha alma, rasgos que me acompanham e que gostaria de retratar em poucas palavras. Como alguém o fez antes de mim, de forma tão perfeita, não há necessidade de tentar uma pálida imitação. Se pudesse salvar meia dúzia de textos antes de um ataque de amnésia, este seria um deles. Alegadamente, foi escrito pela Rainha Isabel I, quando as negociações de casamento com Francisco de Valois, Duque de Alençon e Anjou (e irmão/amante da infame Margot) falharam - por pressão do povo de Inglaterra, com pouca vontade de ver a sua soberana casada com um senhor de um país rival, católico e filho de uma Medici responsável pelo massacre de protestantes na noite de S.Bartolomeu. Isabel era um prodígio de cultura e talento entre as mulheres da sua época e se analisarmos outros escritos seus, não é surpreendente que seja realmente a autora deste poema. As traduções raramente valem a pena e não são a minha especialidade, mas coloco aqui uma versão à minha maneira:

ON MONSIEUR'S DEPARTURE                PELA PARTIDA DE MONSIEUR (ou "pela partida do meu senhor")

I grieve and dare not show my discontent;       Eu sofro, e não ouso mostrar o meu desgosto;

I love, and yet am forced to seem to hate;   Eu amo, e sou forçada a fingir ódio;

I do, yet dare not say I ever meant;         Eu quero, e não me atrevo a mostrar que o intentasse;


I seem stark mute, but inwardly do prate.         Pareço muda, mas por dentro tagarelo

I am, and not; I freeze and yet am burned,    Eu sou e não sou; enregelo, mas ardo.

Since from myself another self I turned.           Pois de mim mesma, noutra me tornei.



My care is like my shadow in the sun—         A minha dor é como a minha sombra ao sol-


Follows me flying, flies when I pursue it,      Segue-me voando, voa se a persigo,                  

Stands, and lies by me, doth what I have done;  Fica, e deita-se comigo, pelo que fiz;

His too familiar care doth make me rue it.     A sua dor próxima demais faz-me arrepender

No means I find to rid him from my breastNão tenho como arrancá-lo do meu peito 
Till by the end of things it be supprest.           Até que seja suprimido pelo fim das coisas
Some gentler passion slide into my mind,     Uma paixão mais suave desliza para a minha mente
For I am soft, and made of melting snow;    Pois sou frágil, feita de neve a derreter;
Or be more cruel, Love, and so be kind.       Sê mais cruel, amor, e então gentil.
Let me or float or sink, be high or low;         Deixa-me flutuar ou afundar, subir ou cair
Or let me live with some more sweet content,      Deixa-me viver num contentamento mais doce
Or die, and so forget what love e'er meant.       Ou morrer e esquecer o que o amor significou.


 



Wednesday, July 20, 2011

Mad Love (Se tu della mia morte)


Se tu della mia morte

a questa destra forte

la gloria non vuoi dar, dalla a'tuoi lumi,

e il dardo - del tuo sguardo

sia quello che m'uccida e mi consumi
 
 
Se tu, pela tua forte direita mão direita, não queres dar-me a glória da minha morte, fulmina-me com o teu olhar....(ária de Alessandro Scarlatti baseada em poema anónimo, sec XVII)








Monday, October 11, 2010

Um momento de reflexão e parvalheira....

Livre sou por nascimento,
Em vários pontos passando,
Cada vez, sempre buscando
Determinada corrente.

Aquela que me prendesse
Me mostrasse o meu lugar
Me fizesse ali ficar
Segura e eternamente.

Mas sigo sempre com as águas!
Sou terra que se desfaz!
Nunca encontro a minha paz
Sigo sempre com o vento...

Nem o fogo me consome
Nem há força que me vença...
E não tenho quem me prenda!
Não tenho quem me convença!

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