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Sunday, March 13, 2016

8 momentos para entrar em modo "que se dane"

A prudência é uma das virtudes cardeais (aliás, a mãe das virtudes cardeais)- infelizmente  confundida muitas vezes com passividade ou bananice.  Mas lá dizia Maquiavel que às vezes mais vale ser ousado do que prudente

Dentro do bom senso, há ocasiões em que se aplica um "que se dane", um "temos pena", um "perdido por um, perdido por mil", um "é para a desgraça, é para a desgraça" um "remember the Alamo" ou simplesmente, em que se entra em modo "Avé Maria e avante".

1- Quando se encontra "aquele" livro/vestido/peça de colecção/etc



Fazer aquisições "quando se pode e os bons negócios aparecem" não é o mesmo que cair em compras por impulso: é uma regra de smart shopping. Se por acaso se deparou com algo que costuma procurar e sabe que lhe dá sempre jeito, mais vale fazer o investimento agora do que andar à procura como uma barata tonta mais tarde - aí sim, fazendo compras apressadas e se calhar menos vantajosas.

2- Quando se apresenta uma ocasião única de "desatar o saco"



Ou seja, de dizer tudo o que tem entalado há imenso tempo a uma determinada pessoa - para o bem ou para o mal-  mas faltou a ocasião, o momento ou a coragem. Está bem que a flecha disparada ou palavra dita não voltam atrás, mas as oportunidades perdidas também não. Se um discurso está "gravado" na mente a passar em loop e a atormentar a alma é porque se calhar o verbo precisa mesmo de ser solto. Além disso, engolir em seco provoca doenças ruins. Caso sinta "se não disser das boas e das bonitas, rebento" ou pior, "se não falar agora, vou ficar na dúvida se fiz bem o resto da vida" siga o impulso ou o instinto, e seja o que Deus quiser. Pior do que está não fica e no mínimo, é um alívio.

3- Na TPM

Esta é exclusiva das mulheres, mas convém que face a ela os homens presentes também apliquem o bom e velho encolher de ombros. Por mais que se diga que é mito, ela existe. O papel das hormonas no organismo ainda fará correr muita tinta, mas ficar mais gulosa,  emocional ou sensível ou nesses dias é perfeitamente natural. É claro que o auto-domínio cabe em toda a parte, mas mais vale regalar-se com um sundae se o corpo pede ou desabafar se está mais capaz disso do que noutras alturas do que ficar com um humor pior ainda. Aplique-se a isso a regra "what happens in Vegas...".

4 - Quando não há outro remédio senão partir a louça toda



Esta é muito semelhante ao momento nº 2, mas aplica-se mais a circunstâncias em que os outros abusam da boa vontade/boa educação/timidez de cada um, fazendo dos bonzinhos capacho. Só que até os tapetes precisam de uma sacudidela de vez em quando e quem não se sente, não é filho de boa gente. Se o risco foi mesmo pisado, há que aproveitar aquele momento de indignação, de "não, chega, assim também é demais" e accionar o modo defesa ou contra-ataque de imediato. Com sorte, o oponente fica assarapantado e sem acção por ver que o "tapetinho" reagiu. Lá dizia Sun Tzu, há que surpreender o inimigo e atacá-lo quando ele menos espera, de uma forma contra a qual não lhe passaria pela cabeça prevenir-se. 

5- Quando se apaixona *mesmo*



O amor não é desculpa para tudo - muito menos para prejudicar terceiros. Mas é verdade que muda as pessoas e as faz reconsiderar muitos "nunca farei isto ou aquilo" que atiram para o ar no seu estado normal. Uma amiga bastante sensata disse-me uma vez, quando me ouviu comentar "gabo-lhe a pachorra" perante outra amiga que ia a correr para casa fazer um grande jantar para o marido que até cozinhava razoavelmente: "dizes isso porque ainda não te mordeu o bicho!". O bicho, claro, era o Cupido. Lá diz o povo, "quem pensa não casa". O amor verdadeiro não bate à porta todos os dias e embora a necessidade de ponderação não desapareça de todo (já se sabe, quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer) sem capacidade de arriscar, nada se faz.

6- Quando lhe aparece uma boa oportunidade (e assim como assim, não há uma alternativa melhor)



Muitas coisas boas (e outras tantas que dão para o torto) surgem quando até se está sem rumo certo, sob a forma de algo que quebra o tédio. Por exemplo, estar sem grandes perspectivas de carreira e cair do céu uma proposta apetecível mas temporária, ou mais desafiante do que seria desejável, ou que fica longe. É verdade que pode correr menos bem. Mas se não tem nada melhor para fazer, why not? Dizem os entendidos que a sorte também se fabrica e que uma das maneiras de a atrair pode ser, simplesmente, virar as rotinas do avesso. Nada de bom sai de águas paradas.

7- Quando algo não tem nada de errado...e a (o) faz MUITO feliz



Deus nos livre de seguir aquela filosofia indecente do "nada é errado se te faz feliz" (Bob Marley não era má pessoa, mas devia estar a fumá-las - como era seu hábito - quando disse tal). No entanto, há coisas que se adoraria fazer e que não são condenáveis (eticamente, moralmente...) nem indignas, nem reles, que não prejudicam ninguém (nem o próprio sequer) mas pronto, ou porque há medo que os outros pensem "nem parecem coisas tuas!", ou por falta de coragem/tempo/energia, ou para não perder a compostura, ou por *enunciar razão* vai-se adiando ou recusando essa alegria. Nada é eterno e embora seja de evitar a filosofia living la vida loca ou andar sempre a dar uma voltinha no wild side, convém viver um pouco.

8- Quando há motivos para festejar



 Muitas vezes cai-se no péssimo hábito de não assinalar as coisas boas. Não celebrar datas especiais ou boas notícias, por exemplo. Há uma razão para se chamarem "datas especiais" e "boas notícias": é que não acontecem todos os dias. Deixar de assinalá-las porque "não dá jeito" é o mesmo que dizer - conforme as crenças de cada um - ao Céu, ao Universo ou à Sorte "não me tragas mais nada disto porque eu não aprecio". Dentro das possibilidades de cada um, agradecer e festejar devia ser obrigatório. Até porque ninguém gosta do chato ou da chata a quem Deus dá nozes, mas não tem dentes. Um dia não são dias, que diabo.




Thursday, December 3, 2015

As coisas que eu ouço: a linguagem universal das lágrimas


O meu grande amigo Paulo Ilharco, poeta a sério (que nisto de poesia eu sou um pouco embirrenta) e um formosíssimo talento daqueles que não nascem nas árvores, teve esta semana o emocionante lançamento do seu livro, "Raio X à Alma", num dos espaços mais emblemáticos de Coimbra, com luzida assistência e melhor música.

E, comovidíssimo, desculpou-se citando uma frase que eu já tinha ouvido, mas não recordava onde, nem o autor: "só os corações de pedra não entendem a linguagem das lágrimas". Cá me ficou, porque falámos nisso recentemente, a propósito daqueles instantes em que se descobre que há pessoas que se podem amar, até se descobrir, ipsis verbis, que não são boas pessoas.

Fui ver e as bonitas palavras são do autor espanhol Severo Catalina: a linguagem das lágrimas não pode ser entendida pelos corações de pedra. 




Veritas est...nas relações pode haver diferentes formas de comunicar e de sentir; uns são mais emocionais e expressivos, outros menos; cada pessoa é um universo e às vezes, mesmo a cara metade com quem se partilha tudo pode não entender o que o outro sente, ou reagir com naturalidade a coisas que deixam o outro em parafuso. Até as almas gémeas (se é que existem, que eu acho o conceito um pouco piegas, com pouco de romântico e nada desafiante) têm os seus diferendos.

Mas lágrimas? Poupem-me.Transcendem diferenças, nuances, línguas e culturas. E olhem que eu não defendo a lagriminha fácil. Mas quem chora é porque sente. É porque está dorido. Quem não entende isso, quem não se comove ao ver o outro que parece um chafariz, destroçado, é um coração de pedra sim senhor, indiscutivelmente. 


Daqueles que não merecem que se fungue por eles, quanto mais choraminguices, soluços e desperdiçar de lenços de papel (perfumados e extra fofinhos, ainda por cima). Ná.

Saturday, November 14, 2015

A cura para os males do passado: não fazer como Orfeu


A cura para os males do passado- sejam os traumas, os ciúmes do que lá vai (e que se ressucitaram por abrir a Caixa de Pandora) as más memórias, os maus reflexos que impedem cada um de avançar e evoluir- é só uma.

 E bem simples: trata-se de ter paciência, aceitar que o que passou (seja grave ou menos relevante, mas incómodo) não pode ser mudado. Porém, a boa notícia é que pode ser substituído: basta ir criando memórias novas

Cada alegria apaga uma tristeza; cada instante de realização e segurança destrói uma má recordação; a cada êxito, desaparecem os reflexos do fracasso; cada momento em que um casal se aproxima e cimenta a sua relação passa uma borracha sobre os erros idos, ou sobre os fantasmas que todos carregam. 

Sobre este aspecto, há que reconhecer que infelizmente, por muito jeito que isso desse, não se pode exilar toda a gente que passou pela vida de cada um para a divertida, deserta, remota e incomunicável "ilha dos ex-amores" - perdida algures no Triângulo das Bermudas - onde os "defuntos" se poderiam infernizar alegremente entre si, lá todos juntos sem aborrecer os vivos... logo há que lidar com isso como adultos. E deixar de olhar para trás, porque isso já na  Antiguidade Clássica dava problemas.

Camões não cantou a ilha dos ex amores, mas lá que era útil...

Nos mitos gregos, o genial poeta Orfeu quis descer ao Inferno para ressuscitar a sua amada Eurídice. Hades, Senhor do Outro Mundo, concedeu-lhe a mercê de levar a mulher consigo para a terra dos vivos, com a condição de nunca olhar para trás. Mas Orfeu, tentado e duvidando da sua boa sorte, no último momento não resistiu...deu uma espreitadela fatal - "because when we are in love it´s our hearts that guide us, and betray us everytime".

E zás, Eurídice ficou para sempre no Submundo (podem recordar a história aqui:). 




Não se pode fazer como ele: seja para reconstruir alicerces, para devolver as coisas ao seu lugar de direito ou para erguer algo de inteiramente novo e maravilhoso, o caminho é para diante, sempre para diante, fechando os olhos e correndo mais depressa em direcção à luz se for preciso...




E por estranho que pareça,  as coisas encantadoras que se vão encontrando a cada légua começam a ocupar, aos poucos, cada vez mais espaço - tanto, que a dada altura não há lugar para mais nada. Nada de mau. Nada que não esteja vivo e pulsante, a ter utilidade e função real na existência de quem caminha. Como um balde de água suja que é lentamente purificado à medida que se goteja água límpida lá para dentro, até que toda seja pura e transparente. Practice makes perfect. Nem que ao início seja em modo "fake it ´till you make it" - não vão os espectros e as almas penadas deitar a mão e arrastar os Orfeus e as Eurídices para o abismo...

Saturday, October 5, 2013

De risos e rodeios


"What happens when presented with

 circumstance


you cannot laugh or fight your way clear of?"



Há pessoas de tal maneira raras (ou bicho raro, para ser mais justo) que se costuma dizer que "quem as fez partiu o molde". 
 E ainda bem, porque se houvesse muitas o mundo estava pior do que já está. Os exemplos são imensos, mas pessoalmente, tenho dificuldade em
 entender-me com aquelas que brincam demasiado, ou são incapazes de expressar, preto no branco, o que pretendem.

 O sentido de humor e o espírito são das qualidades que mais me cativam, e uma certa aura misteriosa não pode ter mais apelo. Mas há sempre um momento em que é preciso falar a sério, deixar os jogos, o orgulho, os rodeios e as fanfarronadas de lado. Ou simplesmente arriscar dizer claramente o que se deseja, pôr as cartas na mesa e desmistificar as nuances da situação. Nem sempre o quebrar do gelo, ou uma aproximação informal, brincalhona, resolvem seja o que for. Há circunstâncias que são graves e que devem ser tratadas sem contornar, sem andar em círculos, sem abordagens fáceis, sem jogo de cintura, preto no branco. 

 Ir ao dentista é desagradável (por mais modernices que se inventem para tornar a  experiência menos penosa) mas uma vez sanado o problema, o alívio é enorme. Uma casa nunca estará limpa se passarmos a vida a varrer o lixo para debaixo do tapete. 

 Uma situação pendente, uma mágoa guardada, uma confissão por fazer dissimuladas sob camadas de simpatia, de brincadeiras ou de remendos, acabarão mais cedo ou mais tarde por explodir. 
 Tendo sido educada para encarar os problemas de frente em vez de fugir deles e para chamar as coisas pelos nomes, não me é fácil lidar diplomaticamente com meios termos, com áreas cinzentas que só complicam a comunicação. Gosto de rir descansada, depois de ter o problema solucionado de forma permanente - em vez de rir uma vez, sempre a olhar por cima do ombro com medo de uma nova tempestade.
 Muito riso, pouco siso, lá diz o povo. Ou de repente ficou na moda fazer piadas de tudo, arranjar restauros mal feitos para todos os males e ninguém me avisou?
          Mania de tapar o sol com a peneira. Não tem outro nome.

Wednesday, September 12, 2012

Don´t go for second best, baby.

Por vezes há a tentação de uma pessoa se contentar com o que tem, com o que lhe é dado de bandeja, sem esforço, ou até impingido. Eu defendo que se dê graças por cada pequena bênção e que nem tudo precisa de ser terrivelmente difícil e doloroso nesta vida para ter valor. Mas quando o que vem de borla, a rastejar, com um laçarote por cima, é de má qualidade ou com intenções/origens duvidosas, não compreendo quem se limita a aceitá-lo, sem se bater por algo melhor, devido à preguiça, comodismo ou orgulho. Como quem diz " se tenho tanta coisa que me desenrasca à mão de semear, sem custos nem canseiras, para que me hei-de chatear com o que dá trabalho?". Bom, uma pessoa deve chatear-se porque...as coisas boas têm o seu preço. Uma carteira Birkin é feita à mão e leva o seu tempo a estar pronta. Claro que podemos usar outra carteira qualquer - também serve para levar as coisas, certo?  Na faculdade, obtinha-se um 10 sem esforço. Mas para ter um 18, já era preciso algum empenho. Para ter um penteado fantástico é preciso perder tempo a elaborá-lo, ou pagar a um bom profissional que o faça. Também podemos sair de casa despenteados - cabelo desgrenhado também é cabelo, afinal é só algo que anda ali em cima da cabeça, não é? Podemos ir à praia e exibir uma pancinha, ou  um six-pack de cair para a banda. É tudo barriga, serve para o mesmo...mas os abdominais bonitos dão trabalho. Se não nos quisermos chatear, arranjamos um cargo da treta que pague as contas, mas se desejarmos brilhar temos de assumir responsabilidades maiores. Podemos ficar pela zona de conforto e juntar os trapinhos com uma pessoa apagada, que não puxa por nós, que não nos desafia, que não corre o risco de nos trocar por alguém melhor, que aceita tudo e não vai a lado nenhum - mas escolher alguém que nos faça tirar os pés do chão, sentir-nos vivos, já exige correr riscos, entregar pontos, ficar vulnerável. Grande nau, grande tormenta, lá diz o povo. Tudo na vida - na carreira, nas relações, em todos os aspectos da existência - serve algum propósito, mas há que escolher o que nos completa e nos dá asas para sermos o que realmente somos, o que nos faz vibrar de emoção, de entusiasmo, de paixão, de felicidade. Easy comes, easy goes. O que vale a pena é sempre uma Demanda do Velo de Ouro e exige algum investimento, coragem;  o resto é batatas...e tal como as batatas, desenrasca.

Friday, August 3, 2012

Pensamento do dia

                                              
As regras existem para serem quebradas. Principalmente as regras parvas. 

Tuesday, July 24, 2012

Guerra e paz irmãs são*


Há pouco, uma roda de pessoas minhas conhecidas discutia Sun Tsu no Facebook, e daí houve quem partisse para uma perspectiva idealista da humanidade - " com a guerra não se consegue a paz", e por aí fora, versus "é preciso reconhecer que o conflito é inerente ao ser humano, e só admitindo a realidade se consegue contornar as consequências desses maus instintos". A conversa veio ao encontro de uma ideia que me tem ocupado o espírito por estes dias, e que já foi abordada aqui, em vários posts. Para o bem e para o mal, eu sou tudo menos uma idealista. O realismo, uma perspectiva racional e desencantada, foram-me necessários desde muito cedo. Uma coisa é pugnar pelo que gostaríamos que a sociedade fosse - e creio firmemente que devemos deixar este mundo melhor do que o encontrámos - outra é partir do princípio de que tudo é lindo, de que todos nascem bonzinhos e amiguinhos, que devemos dar a outra face indefinidamente, e ideias deste jaez. Apesar de todas as áreas cinzentas, de toda a elasticidade de perspectivas, de toda a tolerância, o mal existe. E é feio de ver, em todas as suas formas. Ganância desmedida, desonestidade, roubo, ultraje, crime, calúnia, sensação de impunidade, cobiça do alheio, atrevimento ilimitado, ignorância perigosa,  sadismo, violência gratuita, ódio sem causa justa, tudo isso é real. Demasiado real.
E muitas das vezes, por muito bem que fique pregar, não se vence "matando por excesso de gentileza" com conversas olhos nos olhos,  bofetadas de luva brancasermões moralistas  e bonitinhos nem bons exemplos. A realpolitiks é um mal necessário. Para quem tem de facto maus fígados, atitudes magnânimas só servem de incentivo para continuar a escalada de agressões. Aos olhos de um predador - seja o bully da escola primária, o rival doido, o criminoso, o patrão sádico ou o patife empedernido - uma atitude "superior" de "nem mereces resposta" ou aparentemente passiva só tem um nome: convite. Vulgo, "sou um xoninhas. Uma vítima mesmo a jeito. Anda cá fazer-me pior, que eu deixo". 


Como ouvi a um padre, quem dá sempre a face acaba com um torcicolo! Jesus mandou voltar a outra face, mas não disse quantas vezes!


 Infelizmente, por vezes é preciso combater fogo com fogo. Quem é maldoso e/ou agressivo só entende a sua própria linguagem  (o uso que se faz da mesma e os modos de controlar os estragos já são outra história). Quem é deliberadamente mau para os outros só respeita pessoas capazes de lhe fazer frente. A História, a experiência - e atrevo-me a atirar, a estatística - comprovam-no. Basta procurar.
 Dizia a avó Celeste, uma das senhoras mais piedosas e praticantes do mais puro ideal cristão que já me foi dado ver, "Nosso Senhor também não gosta que sejamos palermas!".  Usando o Bom Livro como referência, chego a uma conclusão: se todo o mundo seguisse as regras do Novo Testamento (um dos melhores manuais de boas maneiras alguma vez escritos) era uma alegria. Este planeta era o Paraíso. Mas a humanidade não é assim, venham à Terra os Deuses e os dilúvios que vierem. É caso para dizer que Deus Nosso Senhor bem se esforça, mas toda a gente faz orelhas moucas. E partindo desse princípio, o Deus do Velho Testamento - belicoso, orgulhoso, combativo - é muito mais plausível, razoável do que o Novo, que incita à vigilância constante, ao aperfeiçoamento, a um ideal quase impossível -  bom de tentar, mas difícil de preencher. O Deus do Velho Testamento é mauzinho, mas justo. E não nos castiga por estarmos furiosos com razão.
Por vezes, por muito correcto, iluminado ou cheio de fé que se seja, não há divindade que nos valha se não nos valermos a nós mesmos.
 Descer do salto, mandar dois berros ou retribuir uma "gentileza" segundo a lei de Talião é muito mais eficaz do que adiar, por medo ou bondade, um confronto inevitável - e em última análise, uma receita mais rápida para a libertação...e o sossego. E há sempre modo de o fazer com classe. 


*Sérgio Godinho, na sua lindíssima canção Guerra e Paz.















Monday, July 16, 2012

Palavras que poupam muitas chatices

Ava Gardner

Conselho de amiga: se em certas ocasiões eu tivesse empregado o discurso seguinte, mais coisa menos coisa, pouparia meses e meses de aborrecimentos:


Deixemo-nos de fantochadas e de criancices e falemos em concreto sobre o que se passa aqui. Mas andamos aqui a brincar aos cowboys, ou quê? Se sim muito bem, se não vamos a desamparar a loja e para a frente, que atrás vem gente.


E a vontadinha que uma pessoa tem de dizer coisas assim e depois morde a língua, hein? 
Evitai como a peste essa receita para o atraso de vida.

Memoirs of a closet


Eva Longoria
"Ajustar roupas à medida está a revelar-se um desporto muito caro."

( Mamã dixit, esta manhã)

Como tenho vindo a partilhar convosco, ando a levar muito a sério a minha Missão Armário. Não me enganei ao dizer que ia ser um processo longo e minucioso, até porque não disponho de tempo para o fazer de uma vez. Os procedimentos de selecção e separação têm consumido a maior parte das minhas sessões. Depois há a fase de mandar ajustar/reformar o que fica, sim senhor, mas tem andado perdido pelas estantes e caixotes.
  No todo, há momentos cansativos, angustiantes até, mas acima de tudo, é um processo divertido, gratificante e libertador.
Nestas duas semanas, boa parte das calças de tecido e jeans que vão ficar foi definitivamente arrumada. Só pares denim que ficam no meu closet...prefiro não revelar, mas é um número muito apreciável. Conclusão: tenho calças lindas de morrer, griffé, de todos os modelos que uso. Não vale a pena comprar tão cedo. Isto implicou longas horas a experimentar um par a seguir ao outro ( é uma ginástica que não imaginam) e vários sacos que já seguiram para fazer outras pessoas felizes. Tudo o que não cai na perfeição, não desejava vestir outra vez ou arquivar foi oferecido a amigas ou doado. É surpreendente como  as coisas podem assentar de forma tão diferente em pessoas que vestem o mesmo tamanho. 
É um pecado, numa altura destas, deixar roupas bonitas a ganhar mofo! Ou comprar outra vez coisas que já tenho, que os tempos não estão para prodigalidades.
 E há outro tanto para fazer. Os casacos já levaram a primeira volta mas precisam de outra, ainda há caixas na cave e na lavandaria...

  Nisto, foi inevitável encontrar peças com história: o vestido preto decotado que já acompanhou alguns momentos chave da minha vida, e que é uma espécie de talismã. As extravagâncias, como aquele sobretudo faux fur magenta de uma designer portuguesa, que continua como novo e que ainda consigo usar com roupa preta; as skinny Levi´s, mínimas e de cintura baixa que fiz olhos de Bambi para o pai me comprar e que usei naquele encontro. E os jeans franceses  com aplicações que ele adorava ver-me e que vesti na noite em que as coisas deram para o torto (ainda deve haver estilhaços de corações partidos naquela ganga);  a T-Shirt Moschino com animal print a que não resisti, nem um bocadinho o meu estilo mas que me ficava a matar e que tantos elogios me trouxe. 

A Camisola Maravilhástica, uma simples blusa com decote Bardot e manga 3/4, do tempo em que a Bershka fazia coisas giras: tinha duas iguais, uma delas não sei que destino levou. Comprei-as em Lisboa e a minha prima também trouxe uma. Pusemos-lhe essa alcunha porque era uma peça-milagre. Ficava maravilhosa com calças, com saias, sem o mínimo esforço. Fazíamos turnos para não irmos de igual e era sempre um sucesso. Foi das roupas que mais vezes vesti e continua aí para as curvas, com muitas private jokes e memórias associadas.
 Ou as peças tendência que são recorrentes, como o vestido longo com papoilas que usei num dia importante da minha carreira - e que regressa agora ao armário - comprado na extinta Infinito, uma das lojas referência na cidade antes da invasão dos Dolce e Fóruns, altura em que eu aproveitava cada pequena viagem para trazer roupa (hábito que nunca cheguei a perder).


 Há coisas de que não consigo separar-me, mesmo que não as volte a pôr nunca mais, pelas memórias que evocam..




Wednesday, July 11, 2012

"Os malandros dos políticos"



Arsene Lupin                                                         
Estou cansada de ver reportagens, posts no Facebook, posts em blogs, anedotas, tiras de banda desenhada e sabe-se lá o que mais à volta do mesmo tema: os políticos portugueses são todos uns gatunos. Sem excepção, todos trazem alguma na manga e em vez de servirem o país, servem-se dele. E a culpa é de quem? Dos partidos. Esses papões que é preciso abater à cacetada e substituir por um qualquer movimento anti partidos o qual, milagrosamente, conseguirá governar o país e conduzi-lo à prosperidade que todos merecemos - proeza inaudita, com os seus apoiantes a remar cada um para seu lado.
Meus caros amigos, Portugal é um país corrupto, devorado pelo enriquecimento ilícito? Infelizmente assim parece. Temos uma cultura de desenrascanço e compadrio? Sem dúvida, é da praxe. Devemos pugnar para que esses males façam parte do passado com legislação adequada? Pois devemos.
 Mas esta atitude é lamentável por duas razões: primeiro (embora a consciencialização dos “podres” tenha inegavelmente o seu papel) não é a bater no ceguinho, nem no mal que já está feito, que se resolve nada - muito menos na conjuntura que vivemos. Veicular constantemente as trafulhices de A, B ou C serve para desmoralizar a população e aumentar o ressentimento, mas não vai, por si, trazer soluções. Segundo, traduz uma certa imaturidade e desorientação dos cidadãos portugueses, que ainda não parecem ter percebido que a democracia dá trabalho. E é um trabalho que compete a todos, não só aos políticos, sejam  “de carreira” ou “amadores”. Não é sentado ao computador, a espalhar más novas e a resmungar que se muda o país ou se força uma credibilização da classe política, lamento dizer-vos; se isso vos faz sentir mais inteligentes, mais interventivos, mais “com o povo”, força. Se o português empregasse tanta energia nas urnas como nas redes sociais, estaríamos muito melhor. (Proponho que possamos cumprir o nosso dever eleitoral através do Facebook! Ia ser uma adesão como nunca vista).
  Segundo, porque na atitude “ anti partidos”, aparentemente cínica e desencantada, há muito de idealista e utópico - e basta olhar para trás para perceber onde o idealismo, os entusiasmos e as utopias nos levaram. Como sempre, neste país não se faz por melhorar o que temos: deita-se abaixo e constrói-se novo, esperando que tudo seja maravilhoso, para dali a nada termos precisamente os mesmos problemas. Vejo toda a gente a queixar-se de que “os actores são sempre os mesmos”, “que os partidos não prestam”, and so on. Não gostam da actuação dos partidos? Fácil: escolham um mais de acordo com as vossas ideias, vão para lá trabalhar, intervir na escolha dos “actores” e fazer as propostas que tão diligentemente partilham com os vossos amigos. Os partidos têm sempre as mesmas pessoas? E porque será? Não são organizações secretas e estanques. Se na linha da frente estão sempre os elementos da juventude de 68 e 74,  fortemente politizada, é porque a dada altura, não se cultivou consciência política “nos jovens de amanhã”.  E sem sangue novo, sem a participação das pessoas que no seu dia a dia conhecem os problemas e anseios dos portugueses, é impossível evoluir. Não concordam mesmo com nenhum partido? Juntem-se e criem um novo. Ou então expliquem-me como é que uma coisa qualquer anti partidos, que pretende agregar pessoas com percepções semelhantes, pode actuar sem se tornar, mais cedo ou mais tarde, num partido. Indignem-se à vontade, mas não brinquem com coisas sérias.

Tuesday, July 10, 2012

Assim se conquista o inexpugnável


                                  

Num registo épico e operático, uma das minhas bandas favoritas, Blind Guardian, relata uma extraordinária história de Tolkien: quando tudo está perdido, o valente Rei élfico Fingolfin enfrenta o impossível e desafia o malvado Morgoth. O líder Noldor, louro e valoroso, belo e resplandecente de justiça, é dotado de heroísmo mas não passa de um mosquito aos pés de um Deus determinado a contaminar a terra; sabe que por mais que faça, mesmo que dê até à última gota de sangue, a guerra não pode ser ganha - por agora. Mas escolhe partir mesmo assim, deixar o seu povo, o seu trono e o leito conjugal para se aventurar nas terras negras do inimigo odiado. Avança quando seria prudente recuar; sacrifica-se por uma causa perdida porque sabe que cada semente lançada, cada abalo sofrido pelo adversário ajudará a empurrá-lo, pouco a pouco, para as trevas onde pertence. 


Pode não ser já, leva o tempo que levar; o que interessa é que podemos ir, mas vamos a lutar. Se tivermos de perder, que a ruína seja completa e em grande, que a derrota seja de tal maneira espectacular que se torne gloriosa e ecoe pelos séculos. O mais difícil não é vencer um obstáculo – é não ter por onde investir. Não saber o que se combate, nem como, é a situação mais desesperada que existe. Nem assim Fingolfin se acobarda. Se nada se move, façamo-lo dançar. É como golpear o invisível – se atirarmos a lâmina às cegas em todas as direcções acabaremos por atingir o alvo. Não importa tanto o resultado final, mas os estragos que se puderem causar. Sobranceiro e altivo, o deus cruel ri-se do seu minúsculo adversário: que dano lhe pode causar um ser tão pequeno? Porque não ficou quieto, amedrontado e prudente, gozando os seus verdes domínios enquanto podia, cada um no seu sítio e ninguém incomodava ninguém? Porque cedeu ele a esse pequenino fogo que arde dentro dele, que ameaça, como uma faísca, provocar um incêndio que só o destruirá a ele mesmo? Incauto, ciente da sua dimensão e poder, Melkor sorri e ataca, levando o seu tempo: quer brincar ao gato e ao rato, gozar o inesperado divertimento que o insolente lhe veio proporcionar. Uma e outra vez, o noldo esquiva-se aos golpes pesados e cruéis: um bastaria para o esmigalhar. Rápido, ágil, animado pelo ódio que luz dentro do seu peito como uma chama negra, parece guiado pelos Deuses. Já irritado, surpreendido pela insistência do insecto, o gigante soberbo decide pôr fim à batalha – e dar ao atrevido um fim a condizer com o seu tamanho. Põe o seu grande pé, revestido a aço, sobre o inimigo…mas eis que uma dor lancinante o atira por terra. Mesmo esmagado por aquela montanha de ferro, Fingolfin apontou o fio da sua espada, trespassando-o onde doía mais. E pelos séculos dos séculos, Morgoth manquejou…
Posso não dar cabo de ti, mas deixo-te coxinho para o resto da vida! Moral da história: se não podes vencer um obstáculo imediatamente, magoa-o o mais que puderes, causa-lhe todos os danos de que fores capaz; enfraquece-lhe o espírito, priva-o da sua essência, derrota-lhe a confiança; a derrocada começa discretamente e por dentro – não há estrutura que se desmorone se o seu interior não estiver irremediavelmente deteriorado. Quando assim é, a torre pode parecer sólida à vista, mas mais dia, menos dia, abate-se com estrondo, desfaz-se em migalhas. Ou como dizem os americanos, Remember the Alamo!

Sunday, July 8, 2012

Letras que estragam o nosso país

"Andei eu a sovar mouros para isto?"
 Venham as mudanças e os regimes que vierem, há características culturais dos Portugueses que nunca mudam. Algumas têm vindo a acentuar-se mercê das circunstâncias e mal dirigidas, são extremamente perniciosas para o bem estar e o futuro do nosso País. Outras, que eram positivas, diluiram-se na poeira dos tempos, mas podem ser recuperadas e adaptadas à época que se vive: não é possível correr invasores à espadeirada, mas podemos perfeitamente encarnar a mesma atitude valorosa, de independência mental e auto estima: basta que nos demos ao trabalho de observar e reflectir...entenda-se que isto não pretende retratar todos os portugueses, mas uma certa (e abundante) percentagem da população.
                               
A: de Atrevimento
O português associa "respeito" a "medo" ou seja, respeita apenas quem é mais forte do que ele. Se lhe derem uma boa desculpa para atacar impunemente quem costumava estar "acima" fá-lo com todo o prazer, para se vingar de eventuais sapos que tivesse de engolir no passado, ou mesmo de sapos imaginários. É ressabiamento, trauma. É cortês enquanto está tudo bem e é suposto respeitar o status quo, incapaz de levantar a lebre para se defender - mas se lhe derem asas vai de atirar pedras a tudo o que possa significar autoridade: foi o Rei, depois a Igreja, a classe política ( gritam "são uns ladrões" mas votar e intervir, está quieto) os professores (trauma da reguada), uma lista infinita. A cada revolução a primeira coisa a ser abolida é a boa educação, que o povo quer liberdade para dizer/fazer os disparates que lhe apetece. No fundo,  relaciona cortesia  com ditadura e por isso, adora ter uma chance de extravasar e ser malcriado -só não é se não o deixarem. Falta-lhe um mecanismo de auto regulação, de respeito por si próprio e pelos outros.


A: de Arrivismo
O mais triste é que, apesar de barafustar contra supostas elites, o português queria estar no lugar delas e fica furioso se lhe negam o direito à fatia que acha que lhe compete. E assim que tem oportunidade de realizar, não o saudável sonho de ter êxito, mas a quimera de "subir na vida" de modo a "fazer de ver aos outros" age pior do que os que o precederam. A obsessão de subir na vida é tanta que para isso vale a pena ser corrupto e espertalhão. O português "safa-se" e os outros, mesmo que achem mal, dão o desconto: "eu faria o mesmo; uma pessoa tem de se safar!"  Tem de ser "doutor" à força, mesmo que não haja mercado para tanto doutor, e o carro tem de ser topo de gama, por mais dívidas que se façam: porque afinal, ele não é menos que ninguém. O complexo de inferioridade rege todas as suas atitudes: o português não "tem sucesso" como os outros, "safa-se". E quando lá chega, espezinha os que estão abaixo porque sonhou fazer aquilo desde que era pequenino...




D: de Desenrascanço, Desleixo e (falta de) Disciplina
É bom ser flexível e ter soluções para tudo, mas isso não substitui a preparação prévia, nem um planeamento detalhado. Diz quem sabe que os soldados portugueses sempre foram conhecidos pela valentia, mas também pela falta de aprumo e disciplina - e sem disciplina não há coragem que valha. É triste sermos eternamente olhados de cima pelos alemães e ingleses como um bando de selvagens, incapazes de organização e pontualidade. Ser espontâneo, caloroso e criativo são qualidades excelentes, mas é preciso ver que as aparências contam e que soa reles estar sempre a dar desculpas esfarrapadas para atrasos, incumprimentos, etc. Desenrascar é bom em momentos caóticos, mas é impossível viver num caos permanente. E o resultado está à vista.


H: de "Humildade"
Perguntem ao português o que é que ele aprecia numa figura pública e ele dirá inevitavelmente "a humildade". Mas se repararmos em muitas personalidades a quem atribuem essa qualidade, por vezes vemos que não é assim: o português confunde modéstia e amabilidade com pobreza e parolice, porque não gosta de apoiar quem parece demasiado brilhante, distinto ou seguro de si - e que é, portanto, uma ameaça. A única saída para quem não é considerado humilde (mesmo que seja a modéstia e bondade personificada) é ser aplaudido no estrangeiro. Porque nesse caso, pode ser a pior besta de que há memória, mas tem decerto a devoção cega do público nacional. O que vence "lá fora" é bom, porque a confirmação "lá de fora" é a alegria, o sonho, a meta suprema  do lusitano, incapaz de avaliar seja o que for sozinho.


I: de Invertebrado
Muitos males do português advêm da falta de espinha dorsal: atura todos os abusos com um vago receio, nem sabe de quê. Se um dia chegar a chefe, fará exactamente o mesmo.  É incapaz de dizer da sua justiça com dignidade: um simples "o senhor está equivocado; isto não é justo/ético/legal" é demais para ele.  E como ninguém admira quem se rebaixa, instala-se um ciclo vicioso. Se por outro lado tiver um superior/professor genial, mas que seja bondoso e justo, poderá, por sua vez, abusar, porque se julga diante de "um palerma" e só não aproveita quem é parvo. Uma vez que lhe meteram na cabeça que o país é pobre e pequenino, acha que se deve sujeitar a tudo. Como associa o orgulho nacional ao tempo da outra senhora, acha-se no dever de reclamar, mas sempre em surdina e de uma perspectiva de impotência, atado com guitas imaginárias. Em maior escala, parte sempre do princípio que " o estrangeiro é que sabe" e acata como coisa sagrada tudo o que vem de Bruxelas, nem que seja o pior disparate.


I: de Inveja e Inglês- ver
Com tudo isto, o português fica frustrado e dá largas ao defeito por excelência, a Inveja. Em vez de apoiar  quem é brilhante e pode beneficiar todos, prefere sufocá-lo para que não lhe retire o precioso protagonismo. O tuga inveja quem é mais bonito, mais bem sucedido e sobretudo, mais rico do que ele, sem se perguntar se teria qualidades para estar no mesmo lugar nem considerar as exigências do papel que inveja. Mas não o diz na cara: insinua-o como quem não quer a coisa, porque sempre dá jeito ser amigo de quem está "bem na vida". Pelas costas, rosna contra todos a quem tira o chapéu. Alguns dizem-se muito "de esquerda" só pela possibilidade de cortar na casaca aos supostos ricos que tanto detestam. Curiosamente, uma vez no poder rodeiam-se dos criticados "luxos capitalistas", porque a lusa gente  não perde uma chance de ostentar a sua riqueza. Nem que seja a bem do "para inglês ver", essa instituição nacional.




M: de Medo e Miúfa
Medo do chefe, medo de intervir, medo de ser despedido, medo de se defender, medo de se meter, medo de que sobre para ele, medo  de fazer o que é justo, medo de Bruxelas, medo do Sr. Presidente, medo dos mercados, medo da crise,  medo de reclamar...o português leva em média 50 anos para perder a transmontana e lutar pelos seus interesses. Poucos povos haverá que tenham conquistado a sua independência a pulso, aberto novos mundos ao mundo, sobrevivido a um terramoto como nunca se viu, e mesmo assim, tenham medo de tanta coisa. Só se atrevem quando vêem os outros ir primeiro: aí imitam-no todos, porque quando acorda um português...vão logo dois ou três. E pensar pela própria cabeça, não? Não é que sejam cobardes: são cheios de hesitações e temem coisas parvas, é tudo.


P: de Parvenu e Pantomineiro
Fomos "o último país rural da Europa", mas o português quer por força ser urbano (juro que li recentemente alguém que disse "estou cada vez mais urbano", como se isso fosse qualidade a adquirir a todo o custo) e faz tudo para parecer cosmopolita, da maneira mais postiça e superficial que pode haver. Falta-nos autenticidade: o português tem horror ao genuíno, adora esquecer de onde veio. Temos um país de jipes na cidade e Mercedes no campo, um país apaixonado por bombas topo de gama para inglês ver. Cortam-se as árvores à porta das moradias para não tapar a vista da "vivenda" e ostentar a "beleza" da mesma, não vão os ladrões não saber onde é a porta. Privacidade e os encantos do campo, tão apreciados por povos mais sofisticados, não satisfazem o desejo de ostentação do portuguesinho, eterno pseudo novo rico (que às vezes, nem a isso chega...). Afinal, para que serve estourar o plafond do Visa em coisas boas e de marca se ninguém perceber que as têm e não servirem para "fazer de ver"  nem para fazer inveja? É que tira a graça toda e não se é menos que os outros, pois então.


S: de Servilismo e Submissão
 Vide Invertebrado.




T: de Treta
As telenovelas, os "artistas",  a admiração por alpinistas sociais, o pão e circo, os reality shows, exibir cupcakes, brunch e sushi, o "ser fashion", a obsessão com o "in", o "trendy", os jogadores da bola, as ex dos jogadores da bola, os Dâmasos Salcede da vida,  as que querem casar com um jogador da bola ou outro ricaço que apareça, o silicone, as pessoas que escrevem "celicone", anunciar na imprensa que se colocou silicone, a tolerância com o pimba, o pimba que ficou mainstream, as pimbalhadas chic, entusiasmar-se com os Globos de Ouro, o abuso da palavra "chic" e seus superlativos, a logomania, a loucura pelas marcas "tendência", a pelintrice, o pseudo jet-set, o abuso do termo "tendência", esperar na fila de uma loja, mesmo que seja de luxo, andar à pancada numa promoção do supermercado, dizer " Fátima é um covil de ladrões" mas fazer uma promessa à Nossa Senhora assim que a coisa fica preta, não votar porque é dia de ir à praia e "assim como assim é tudo o mesmo" mas reclamar depois, os ginásios da moda, as cristas no cabelo, a adoração por lojas normalíssimas, as carteiras contrafeitas ou qualquer tipo de contrafacção, os cabeleireiros de centro comercial com montra para todo o mundo ver a lavagem de cabeças, debitar na blogosfera que se foi à depilação, tratar mal a senhora da limpeza, a literatura light, cuspir para o chão, olhar fixamente para os outros e ainda ser malcriado se reclamam, mandar piropos ordinários, as praias da moda para ver e ser visto, o não estar à vontade, o querer ser o que não se é, o uso de vocabulário que não se conhece só porque "é cool", o querer parecer cool, o acordo ortográfico, as pessoas que escrevem "então, trabalhasse?" em vez de "então, trabalha-se?", and so on, and so on...

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