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Saturday, December 12, 2015

O complexo Siegfried: porque "ela" vale a pena


Estava a ver Django Unchained (shame on me- é de Tarantino, passa-se no belo Sul, tem um enredo que me interessa...não sei como diabos ainda não me tinha debruçado sobre o filme) e reparei na cena em que o bom doutor/caçador de recompensas conta muito resumidamente ao seu novo companheiro de aventuras/escravo temporário a história de Brunilde e Siegfried.

E ainda bem que limitou o conto a duas ou três linhas,  porque isto da Mitologia Nórdica/Germânica não é certinha como a grega...tem tantas versões, (porque cada bardo a contava lá à sua maneira) todas interessantes mas com tal quantidade de detalhes, que é pior do que quando a avó desatava a tentar deslindar a parentela, e a explicar que fulano de tal ainda era nosso primo porque a tetravó dele era prima direita da minha, que casara com não sei quem no tempo da outra senhora, uffffff.

 Ora vamos ao que nos trouxe aqui. O Dr. Schultz sumariza então a história de amor de proporções literalmente Wagnerianas mais ou menos assim: a Brunilde é uma princesa prisioneira numa montanha, guardada por um dragão que cospe fogo. E Siegfried, o herói, decide salvá-la. Escala a montanha, porque não tem medo dela. Mata o dragão, porque não tem medo dele. E porque é que nada disso lhe mete medo? Porque Brunilde valia a pena.


Ora aí temos o clássico dos clássicos, o mito que resume o anseio feminino e muito natural de ser salva, de ser conquistada, e o desejo masculino de salvar o dia, arrebatar a donzela e ser recompensado por isso. Noutra versão igualmente interessante, mais ao gosto actual por mulheres "poderosas" (e não menos simbólica, pois vai dar exactamente ao mesmo) a valquíria Brunilde é uma guerreira indomável, que secretamente deseja ser vencida por um herói mais valoroso do que ela, a quem obviamente entregará o seu amor - porque uma mulher forte precisa sempre de um companheiro a condizer.


 Mas não divaguemos: o que importa aqui é a atitude de Siegfried. Que mais dragão menos dragão, com ou sem espada, com árias de Wagner como banda sonora ou não, é basicamente o arquétipo do homem verdadeiramente enamorado, mas também capaz de valorizar e apreciar  a mulher que deseja para si (porque as duas coisas às vezes não parecem andar juntas). Em alguma altura da sua vida, todas já terão visto um pretendente seu, ou de uma amiga, em modo Siegfried: é aquela história "quando se trata de amores, os rapazes perdem a vontade de comer, de dormir e são capazes de mil façanhas". 

Um homem realmente apaixonado, realmente interessado, mas sobretudo realmente homem, não se deixa abalar por nada. Manifesta o seu amor, mesmo que não seja de imediato ou (só) por palavras. Eles não são tão ardilosos nem tão tímidos como as mulheres: têm muito mais dificuldade em disfarçar o que sentem. Querem saber se um rapaz gosta de vocês ou não? Basta ver se ele vos trata como se vocês valessem a pena.

 Como se fossem dignas de pequenos ou grandes ajustes, esforços e sacrifícios. 


Quando ele não desanima à primeira, insiste dentro do razoável, se deixa entusiasmar pelo jogo da conquista em vez de se acobardar (ou seja, é másculo e cavalheiro que chegue para compreender quando uma mulher não faz logo uma festa ante os aos seus convites e declarações), se procura ser em tudo agradável e útil (tem uma dificuldade? Ele oferece ajuda. Houve uma má impressão? Ele esclarece o assunto sem mais aquelas) se mostra desejar a sua companhia acima de qualquer outra e faz tudo para que se sinta bem, então é porque se importa e tem boas intenções . 

Caso contrário, se há "mixed signals", se ele alimenta mal entendidos, se vive de indirectas...deixe-se de lado o wishful thinking ou o "ele adora-me, mas...".

Há que ser realista e objectiva: ou não está assim tão interessado, ou até está mas toma a mulher em causa por garantida, ou é um xoninhas que está longe de alguma vez vir a ser um homem a sério. Em qualquer dos casos, quem procede assim não interessa. Nenhuma mulher com sentido de dignidade pessoal deve aceitar menos do que ser tratada como "a rapariga dos sonhos dele". É claro que ninguém é perfeito e todas as relações têm esquisitices e "fases"; mas um homem que ama, e que é realmente masculino, tentará ser um Siegfried sempre que puder, nas grandes e pequenas coisas.

Se "ele" não age como Siegfried, se qualquer montanhazinha ou dragãozinho lhe mete medo...então, não.





Wednesday, January 7, 2015

Das mulheres com *outro* poder



O empowerment feminino - e já anda por aí uma tentativa de tradução disto assaz esquisita, "empoderamento" - é um termo muito na moda. Qualquer cantora que empunhe cartazes, abane as ancas num palco e diga meia dúzia de lugares comuns à imprensa, tem "poder" e está  a "empoderar" as mulheres,  é assim um Jedi de saias (o que não faz lá muito sentido porque todos os Jedi usavam uma espécie de saias, but you know what I mean). Qualquer mulher que berre contra o status quo ou a tradição só porque sim, nem que isso não contribua nada para a sua felicidade ou a felicidade das outras, é "poderosa".

  Como já discuti amplamente o assunto não vou por aí hoje, mas esse outro "poder" a que me refiro é muito mais antigo, muito mais subtil e muito mais comum do que parece. E ou uma mulher nasceu com ele, ou precisa de treinar bastante para o chamar a si, porque não é coisa que se exerça da boca para fora. Como dizia Margaret Thatcher, uma das mulheres mais verdadeiramente poderosas que nos foi dado ver, "ser poderosa é como ser uma senhora - se precisa de mostrar que o é, é porque não é".

  Não acompanho de perto a carreira de Queen Lafifah, mas sempre que um filme dela passa na televisão fico colada ao ecrã. Toda ela é uma mulher forte - na beleza, nos gestos, na voz, no sorriso doce, na forma desempenada como não atura tretas de ninguém e coloca as coisas e pessoas no seu lugar para se mostrar serena logo a seguir, com cara de quem já viu muita coisa e não se impressiona com duas lérias. Não escolheu o nome "Queen Latifah" por nada: é  fácil imaginá-la como uma Rainha Bíblica, a Raínha do Sabá, ou em qualquer papel mais modesto que exija liderança - como mãe de farta prole desinquieta, governanta ou patroa de um saloon, a atirar os borrachos para o bebedouro.

É, para empregar o piropo que Carlos da Maia achava detestável, "um mulherão".

  A Mammy de E tudo o Vento Levou, interpretada pela fantástica Hattie McDaniel é, apesar de uma simples escrava, tão forte como Scarlett e a verdadeira matriarca daquela casa. Sempre pensei se a resistência de Scarlett teria alguma coisa a ver com ter sido criada por aquela mulher autoritária e bondosa, que se gabava snobemente de saber distinguir uma senhora ou um cavalheiro com um simples golpe de vista. Apesar de personagem de ficção, Mammy foi inspirada em muitas figuras reais que governavam as casas de boas famílias no Sul daquele tempo e que apesar da sua condição, exerciam funções de autoridade. 


Numa versão portuguesa temos a Ana do Vedor, robusta camponesa, lavradora próspera com a voz de comando conferida pela sua posição de ama, que entra no celeiro ou no salão com o mesmo desembaraço, não se receia de ninguém e põe em pratos limpos as situações mais complicadas da trama.

"E, ao atravessarem o quinteiro, o doutor e o abade abraçaram, cada um por sua vez, uma das moças de Ana do Vedor, que voltava da fonte com o cântaro de água.— Olá, olá, fidalguinhos! — bradou da porta da cozinha a patroa. — Já disse que isto aqui não é terra do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote como as raposas do galinheiro!?E, quando a criada chegou ao pé dela, disse-lhe com aspereza:– Tu não sabias chimpar-lhes o cântaro pela cabeça abaixo, minha maluca? Sempre vocês não sei para que querem a esperteza. Os rapazes retiraram-se rindo".

Ou a Brites de Almeida, que em Aljubarrota matou sete de uma vez.

 Mas não é preciso ser tão obviamente forte, de postura imponente, arquétipo de Mãe Primordial, Vénus de Willendorf reencarnada, ou uma Boudica, a Rainha dos Icenos que aterrorizou as tropas de Nero, para ter uma personalidade poderosa.




 A força feminina pode ser mais delicada, mais subtil e pasme-se - discreta, modesta, prudente, até obediente quando é justo dar razão aos outros. Porque uma mulher verdadeiramente feminina, que sabe fazer uso da sua feminilidade, é tão delicada mas tão forte como uma corda de piano.

 Conheço muitas mulheres destas: esposas que eram mimadas até os maridos darem à sola deixando-as a braços com contas para pagar, filhos para criar e que não tiveram outro remédio senão deitar mãos aos trabalho, até trabalho humilde, sem perderem a classe nem a beleza. Beldades que não deixam homem nenhum - ou ser nenhum - fazer delas tolas, com uma habilidade, uma calma e uma discrição que quem vê se pergunta como aquilo aconteceu. Senhoras elegantes cujas famílias perderam tudo mas não deixaram de ser quem eram e muito menos de se comportar como quem eram - com elegância, porte, delicadeza - depois de resistirem sabe Deus a quê.

E mesmo as senhoras elegantes de outros tempos aparentemente já frágeis, já velhinhas, que por mais que a Terra pule e vire não se conformam com nada disso e continuam a viver no seu próprio universo, fazendo frente a um batalhão se for preciso, como as Scorpioni imortalizadas no filme Chá com Mussolini. Para muitos, serão velhas malucas, mas é por velhas malucas dessas que o mundo não desaba mais do que já desabou...

 Em comum, todas têm um traço vincado: o de não tolerarem disparates. A capacidade de colocar os pontos nos ii e a coragem de, face à necessidade, descalçarem as luvas. Sem bravatas e sem grande alarido.




Thursday, October 9, 2014

Viscondessa Astor dixit: o coração de uma mulher é um oceano de segredos.


Devem ter reparado que roubei o título a uma frase do Titanic, o filme, mas foi de propósito: afinal a autora da frase acima, Nancy Astor, era cunhada do infeliz John Jacob Astor, o magnata que morreu a bordo do "navio inafundável".

 Nancy vinha de uma família americana mais notável pela beleza das suas filhas do que pela constância da sorte aos negócios: a sua irmã Irene casou com o artista Charles Dana Gibson, servindo de modelo para as famosas "Gibson Girls".
 Ainda assim, com engenho e trabalho, o pai conseguiu colocar-se bem o suficiente para que Nancy, após um casamento falhado, procurasse um futuro brilhante na sociedade do Reino Unido, à semelhança de tantas herdeiras americanas do tempo.

E isso não tardou a acontecer: a beldade sulista encantou Londres com o seu espírito picante, temperado por uma modéstia encantadora - combinação que a tornava popular junto dos cavalheiros, mas também lhe granjeava a admiração das senhoras mais respeitáveis.


 Quando numa festa uma dama inglesa se virou para ela e lhe perguntou "veio roubar os nossos maridos?", Nancy fez sucesso ao responder "se soubesse a trabalheira que foi livrar-me do meu!". No entanto, casaria em breve com Waldorf Astor, americano naturalizado inglês, tornando-se Lady Astor. Os dois eram almas gémeas: tinham a mesma moral, os mesmos gostos e até partilhavam o aniversário: 19 de Maio de 1879.

 Além de se ter celebrizado pelas festas esplendorosas que dava e por um percurso político algo controverso, Lady Astor é lembrada por ser uma senhora espirituosa. Várias frases suas, que revelavam uma auto confiança à prova de bala, ficaram para a posteridade. Quando era confrontada com a sua ascensão social graças ao marido, dizia coisas como "casei abaixo do meu nível. Todas as mulheres o fazem" ou "o aborrecimento de ter sucesso é ser maçada por pessoas que antes desdenhavam de mim".

 E claro, falou lindamente ao afirmar que as mulheres podem tagarelar muito, mas dificilmente entornam os feijões ou despejam o saco como os homens fazem. Uma mulher só revela um segredo se não se importar com ele. As mulheres tendem a ser discretas principalmente quando são inteligentes, ainda que disfarcem essa capacidade por verbalizarem muito. Lá diz o ditado, "não contes tudo o que sabes"...e Lady Astor sabia aplicá-lo na perfeição.



Sunday, February 9, 2014

Quem sai aos seus não degenera.


Eu não sou exactamente uma fã de Beyoncé Knowles. Agradeço-lhe os bons momentos passados com as minhas amigas ao som das Destiny´s Child (ladies leave your men at home and the club is jumping-jumping, etc, etc...) gosto de algumas canções dela ("All the single ladies" é uma sátira fenomenal) e quanto ao estilo, acho admirável a forma como consegue quase sempre estar na fronteira exacta entre o sexy e o vulgar, entre o chic e o trashy sem desastres de maior. Se por causa dela vemos montes de raparigas-da-coxa-grossa semi despidas na rua, em figuras tristes de alternadeira ...bom, a culpa não é da Beyoncé - eu diria que será mais de Rihannas e Ritas Oras e outras, porque há coisas com que só Beyoncé consegue escapar ilesa. E se as pessoas não têm noção de que há roupas que são para usar em palco e não na vida real, então temos pena.


 Mas há um facto incontestável: Beyoncé Knowles é muito bonita, com a pele dourada, a estrutura óssea impecável e o ar altivo tão típico das french creoules. É que a sua família materna era de Nova Orleães, uma bela mistura de franceses, africanos e nativos americanos.
 O que eu ainda não tinha reparado é que a cantora não tem mesmo a quem sair feia. A mãe, Tina Knowles, é encantadora, com traços finos, uma silhueta poderosa e impressionantes olhos verdes rasgados. 



 Além disso, tanto a avó como a mãe eram modistas - o que explica outras coisas, como o afamado sentido de estilo da irmã, Solange Knowles
 Realmente, a genética determina *quase* tudo, como dizia o outro.

Wednesday, November 27, 2013

Marie Laveau: it girl e Voodoo queen

                                 
Em American Horror Story: Coven, Marie Laveau está a ficar *um bocadinho* má demais para o meu gosto. Não tenho nada contra uma vingança justa, mas há que não descer ao mesmo nível; depois, é impossível não torcer pela Suprema, Fiona, a bruxa socialite em Chanel, por mais maldades que ela faça. Em boa verdade as personagens são todas adoráveis e o que eu queria mesmo era que se entendessem numa bruxaria grande e feliz.

  Mas a verdadeira Marie Laveau também era um pouco assim: santa e pecadora, anjo e D. Corleone de saias, benfeitora, mulher de negócios ou protectora dos desvalidos, consoante a época da vida ou a perspectiva de quem contava o conto: um poço de mistérios e ambiguidades que permanece envolto em lendas 132 anos depois da sua morte...se é que morreu mesmo.

 Os relatos mais consistentes dizem que, tal como na série, a Voodoo Queen nunca envelheceu  (embora haja a possibilidade de ter sido confundida com a sua filha, Marie Laveau II, que morava na mesma casa e continuou a sua obra, com menos poderes mágicos mas maior sentido do mediatismo).
Um aspecto é, porém, incontestável: Marie Laveau era uma beldade crioula de imponente presença e apesar de iletrada, senhora de grande espírito, capaz de se impor na sociedade pelos melhores e piores motivos.
                      
                                  
Marie Laveau nasceu no final do sec. XVIII/ inícios de XIX, com o estatuto de "mulher livre de cor" , filha do dono de uma plantação e de uma linda crioula. Em 1819 casou com Jacques Paris, um emigrante do Haiti que se refugiara na antiga colónia francesa: a cerimónia foi celebrada pelo famoso Père Antoine, de quem Marie viria a ser muito amiga e com quem realizaria grandes obras de caridade. Católica devota, mulher piedosa, a voodoo queen manteve sempre o sincretismo entre as crenças dos escravos e as regras da Santa Madre Igreja, como é comum em tantas práticas mágicas da Diáspora africana: no voodoo, tudo advém do "Bon Dieu" (o "bom Deus) e os Loas (Deuses) dão-se pelo nome dos santos do calendário...
 Com o desaparecimento do marido, assumiu o nome de Viúva Paris e  uma união de facto ("plaçage") com um branco, com quem teria vasta prole.

Por volta de 1830, Marie Laveau já era considerada a Voodoo Queen de Nova Orleães. Até hoje discute-se se o seu êxito, que cativava brancos e negros, se devia aos seus feitiços (ficaram famosas as suas cerimónias na noite de S.João, onde dançava com cobras e que atraiam milhares de curiosos) ou à sua entrada privilegiada nas casas de boa sociedade: Marie Laveau era cabeleireira de profissão e uma espécie de Robin dos Bosques de criados e escravos, que por medo ou necessidade lhe contavam os segredos dos patrões.

 O mais provável é que fosse uma combinação de tudo isso, associado a um enorme carisma e aguçada inteligência. O certo é que enriqueceu: dizia-se à boca pequena que tinha um bordel, entre outros negócios; que pelo menos um Governador morreu graças aos seus feitiços; que conseguiu impedir várias execuções injustas, ora manipulando o juiz (com recurso à chantagem ou à magia, nunca saberemos) ora encantando a língua das testemunhas, ora provocando tempestades. Atribuíam- lhe a glória ou a culpa por tudo o que era espectacular e inexplicável naquela cidade tão cheia de magia. Se era um anjo para os oprimidos, a sua ira contra aqueles que odiava não tinha quartel.

 Vaidosa, os sapateiros contavam-na entre os seus melhores clientes. Era recebida em toda a parte. Durante um surto de febre amarela em 1853, trabalhou incansavelmente como enfermeira e femme traiteur (curandeira). O seu suposto enterro, em 1881, teve uma assistência nunca vista - pobres e ricos de todas as cores, os mais desfavorecidos e as melhores famílias, ninguém quis deixar de se despedir da mulher mais famosa da cidade. Diz-se, porém, que continuou a aparecer - e que ainda por lá vagueia. O túmulo que lhe é atribuído (pois ninguém sabe ao certo se e onde foi sepultada...) dá imenso trabalho aos zeladores do cemitério de St. Louis: turistas e devotos insistem em deixar oferendas ou marcar três cruzes para que a Rainha do Voodoo lhes conceda um desejo, apesar das advertências das autoridades...
                    

Sunday, October 13, 2013

W(B)itch please! Pretty please!


Juntem um coven de bruxas como deve ser (já lá vamos) Nova Orleães (com a presença de Marie Laveau, a mais célebre e estilosa Voodoo Queen de todos os tempos, e da famosa Madame Lalaurie) hoodoo, um grande elenco, voodoo,  o século XIX, a Jessica Lange no clássico papel de anti-heroína e um figurino fabuloso. E o que temos?

 Temos esta menina outra vez viciada em American Horror Story, pois claro.

 Bastava a história passar-se no Sul, na Dixieland,  para isso
 acontecer ( aquela confusão de temporada no asilo não me seduziu muito) mas parece que os criadores da série leram os meus pensamentos -adoro quando essas coisas sucedem - e decidiram colocar no enredo um bom punhado dos meus temas preferidos.



Se é para Hollywood contar estórias de bruxaria, que o faça com a devida graça: sem demonizar, mas sem transformar as feiticeiras em hippies fofinhas e fora deste mundo. The Craft e Practical Magic foram  das poucas produções a conseguir esse efeito - porque convenhamos, se há muita mentira no mito da "bruxa", a versão demasiado branqueada perde a piada toda. 
 Aqui temos a bruxa boazinha mas com mau feitio, Cordelia, que como é costume só quer fazer os seus feitiços e poções sossegada, e a Big Bad Witch  - ou antes bitch, mas bitch no sentido mais cool do termo - Fiona, a bruxa suprema, adepta glamourosa do Caminho da Mão Esquerda: Jessica Lange, comme il faut.

E aí é que o espectáculo começa: Fiona é a bruxa poderosa por excelência, sem complexos na hora de proteger a sua gente (já que a caça às bruxas voltou a ficar na moda) nem dúvidas quando se trata de perseguir os seus desejos: já obteve riqueza e todo o poder à face da terra, ou quase todo (não sabemos o que fez para lá chegar, mas parecer-se com Jessica Lange é meio caminho andado). Mas a sua Vontade - e eu gosto de personagens em contacto com a sua Verdadeira Vontade, embora possa não concordar com os seus métodos ou escolhas - não se fica por aqui. Ela também quer mais beleza ainda, imortalidade e... juventude eterna. 

            

Fora o resto que ainda não sabemos. Rapariga exigente! Claro que para isso ela vai manipular as jovens bruxinhas do colégio de elite que até aí era governado pela sua ingénua filha - a figura clássica que usa muito pouco do poder que realmente possui - e que ela desdenhosamente classifica de "Hogwarts" e muito possivelmente, lançar o terror

Que é exactamente o que nós queremos: terrorzinho do bom numa embalagem luxuosa, com falas cínicas cheias de cachet e ditas por uma senhora janotíssima. Uma verdadeira Head Witch in Charge, Sumo-Sacerdotisa com óptimo ar, Godmother, Patroa...you get my point. 

                    

Sempre com o ar de quem se está pouco marimbando, muito espírito e um fashion sense de fazer parar o trânsito. Aleister Crowley ficaria orgulhoso. 
 A julgar pela amostra, os figurinistas também se empenharam no seu trabalho, criando um guarda roupa que não só vai lindamente à atmosfera da série, como está de acordo com as tendências dos últimos três anos a esta parte: o ladylike, o punk, o gótico/witchy (lembram-se de Hedi Slimane no ano passado?)  e as misturas de padrões/ elementos que têm sido constantes tanto nas passerelles como no street chic. Por vezes não é com simpatias que se coloca ordem nas coisas. É preciso ser um bocadinho...bom, mandona, e ter muita segurança nos seus saltos altos. E Jessica Lange sabe como. Witch please!







Sunday, February 24, 2013

Mandamentos das Southern Belles...a seguir por raparigas de juízo.

                                     
As Southern Belles são o epíteto da menina de sociedade sulista, preservando os valores, a graça, a forma de estar dos bons tempos do antebellum. Embora a época seja outra, as Scarlett O ´Haras de hoje mantêm arte de bem receber, das boas maneiras, da astúcia feminina, do flirt inocente, da conversação cheia de duplo sentido. São uma espécie à parte, cultivando uma feminilidade sem reservas  - no modo de pensar, de vestir, de parecer - e seguindo os mandamentos das suas avós. Como as avós sabem sempre tudo, dos dois lados do oceano, acho que nós, mulheres europeias, não perdemos nada em recordar algumas máximas que por cá se vão perdendo:

Uma senhora nunca abre as hostilidades. Dá-las por encerradas sem descer do salto é outra conversa, e exige estilo.

Uma mulher realmente inteligente sabe que ninguém gosta de uma chica esperta. Dissimular a inteligência na altura certa pode ser muito útil. Lá dizem os árabes, não digas tudo o que pensas. E o silêncio é de ouro, dizemos nós.

Há lá tortura pior do que desprezo nítido e condescendência infinita?

Uma senhora só vê e ouve aquilo que quer, não se irrita, maça-se, não discute, argumenta, e espera pela altura certa para colocar as coisas nos devidos lugares, com graciosidade. Esta era uma das máximas da minha avozinha, que não tinha nada de sulista, mas era uma verdadeira senhora...

E não esquecer que os cavalheiros do Sul também têm muito encanto: são sempre precisos dois para dançar o tango...






Saturday, February 23, 2013

Vício do dia


                              
Ouvi a canção abaixo há pouco, num filme que está a passar, creio, no AXN White: The Passion Fish, que se passa na Louisiana - um dos lugares onde não me importava de viver, como já vos contei. Foi paixão imediata e desconfio que vou andar o fim de semana inteirinho a trautear isto. Se eu fosse americana, tinha de ser uma Southern Belle, não poderia nunca ser outra coisa...


Tuesday, June 12, 2012

Rednecks, sulistas e hillbillies




                                     
Confesso que sempre achei graça à scene dos campónios Norte- americanos. Sim, os rednecks e hillbillies, satirizados em comédias e filmes de terror. Gosto deles, gosto dos sulistas – then again, eu gosto dos sulistas em geral e de tudo o que lhes diz respeito, menos no horroroso hábito do racismo. Quando limitam o seu saudosismo pelos tempos do antebellum a isso mesmo e a bandeirita da Confederação serve só para enfeitar, por uma questão de tradição, são do mais adorável que há.                                                             
Por alguma razão séries como True Blod, The Walking Dead ou mesmo Bones retratam personagens deste tipo. Gosto da sua música, do costume enraizado da hospitalidade e do respeito pelos mais velhos, da valentia, das histórias de hoodoo e  voodoo, dos mistérios crioulos, do facto de serem gente que se desembaraça no mato sem problemas, que resolve tudo ao soco ou ao tiro se preciso for mas dali a pouco já não se passa nada, das Southern belles e do que elas representam. Gosto que não se importem de ser botas-de-elástico e tementes a Deus, que sejam sinceros ao ponto de admitir o quão conservadores são, que mesmo quando são uns brutamontes não procurem passar-se por outra coisa.
 Aprecio a sua candura e autenticidade, a ciência que empregam em serem encantadores, a forma como dizem “yes, Sir” ou “No, ma´am” a toda a gente, como conservam as velhas formas de tratamento, como ainda valorizam as antigas redes de parentesco até à 5ª geração e fazem o mesmo com as amizades. 
Admiro aqueles que perderam tudo o que possuíam na Guerra Civil e souberam reerguer-se, e acho extraordinária a altivez dos que apesar de terem ficado reduzidos a camponeses desde essa época nunca esqueceram (o que quando não se traduz em violência contra inocentes, é uma coisa boa) nem admitiram misturar-se ao white trash, embora materialmente já nada os distinguisse uns dos outros. Admiro as suas complexas hierarquias e códigos de honra, na mais arcaica tradição europeia que por cá se foi extinguindo. E não há nada tão encantador como o estilo de vida antigo que procuram, contra os sinais dos tempos, preservar. 
                                                          
É tudo muito confuso, único e estranho para um estrangeiro. Mas se os Nova Iorquinos são considerados o protótipo da sofisticação e os elementos WASP (White Anglo Saxon Protestant) das localidades Ivy League caracterizam a nata das tradições do Old Money Americano, é no Sul que podemos encontrar a mais exótica paleta de representantes da melhor aristocracia do Velho Mundo, que importaram para o outro lado do Atlântico aquilo que recordavam da sua pátria e não obstante as contrariedades, conservaram hermeticamente a sua essência. Quanto aos rednecks, são gente orgulhosa e genuína – quem me dera poder dizer o mesmo dos “parolos” de cá. Isto para dizer que se algum dia me der para fazer as malas e virar as costas ao velho e cada vez mais decrépito Continente, dificilmente me apanharão a viver na Big Apple ou em Los Angeles, que de repente se tornaram o dolce far niente para um certo tipo de portugueses citadinos à força de pulso.
Mais rápido me encontrarão num alpendre florido de magnólias a bebericar ice tea de pêssego, usando um sundress e com uma carabina à mão para o que der e vier, feita uma estranha mistura de dona de plantação com ladies who lunch.




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