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Saturday, November 7, 2015

"See me, feel me, touch me, heal me".


Ter pais apaixonados por música e que decidiram apresentar aos filhos os filmes e discos da sua juventude o mais cedo possível, dá nisto:  a "trindade" Tommy, Jesus Christ Superstar e Hair acompanhou a minha infância quase toda, e eu e o meu irmão não tardámos a contagiar primos e amigos. Aos sete ou oito anos, Tommy, a rock opera dos The Who, a delirante versão de Ken Russel, era um dos meus filmes preferidos e continua a sê-lo hoje (a par com os outros dois da trindade...). 

Revi Tommy ontem, de fio a pavio (arreliada comigo própria por não andar a ouvir tanta música como de costume, de não saber do CD do Tommy de e ultimamente desprezar o piano, que qualquer dia embrulham-se-me os dedos). E continua a emocionar-me como sempre emocionou, com o seu simbolismo louco a levantar sempre novas questões. É um filme que nos faz pensar de forma diferente consoante o estado em que o vemos.



Para quem não conhece (recomendo que o vejam de mente, mas sobretudo, ouvidos abertos) o menino Tommy perde, após um trauma, o uso da visão, da audição e da fala. Aparentemente, pelo menos - vive fechado em si próprio, no seu mundo interior (o que desespera a sua mãe que se sente horrivelmente culpada do sucedido) até se libertar e alcançar a iluminação ou coisa que o valha (uma ideia muito em voga na época) . Com isso torna-se uma espécie de figura messiânica em versão rock & roll, cheia de paralelismos com Jesus Cristo que qualquer pessoa baptizada percebe.

 Além dos elementos dos The Who, de um figurino e cenografia icónicos, o filme está cheio de celebridades nos principais papéis, como Tina Turner, Eric Clapton, Elton John e um jovem (e muito atraente) Jack Nicholson que pasme-se, canta realmente bem!


   Ora, voltemos à realidade: já se sabe que um choque pode fazer com que se perca o uso dos sentidos ou de outras faculdades - ou simplesmente, que se desligue sentimentalmente. Mas nem sempre isso acontece de forma tão literal como sucede com o Tommy. 

É muito fácil alguém fechar-se sobre si próprio depois de um desgosto, experiência de medo intensa ou por qualquer convulsão interior, perdendo a capacidade de se expressar ou de deixar que lhe toquem, emocionalmente falando. Vemos isso em muitas mulheres que querem ser amadas, mas não conseguem libertar-se das feridas do passado e por isso congelam ou sabotam sempre tudo- é matéria que enche consultórios. Em jovens inadaptados, que acumulam depressões e desajustes aparentemente sem causa, para desespero da família. 



Vê-mo-lo em homens incapazes de se explicar e em inúmeros casais que criam autênticas cortinas de ferro que os separam. Por vezes, torna-se impossível chegar a certas pessoas- e certas pessoas nem a si mesmas conseguem chegar. De um momento para o outro há um Muro de Berlim emocional que inviabiliza o toque, a comunicação. A alma fechada vê, ouve, sente, tem boca para falar, mas é como se fosse teimosa e voluntariamente cega, surda e muda. No filme, há este apelo constante e aflitivo: see me, feel me, touch me, heal me. Sem sucesso, até se dar o clique ou um momento que inexplicavelmente varre tudo isso. No caso do Tommy, que só conseguia 
manifestar-se de alguma forma perante os espelhos, trancado consigo, essa  libertação acontece quando o espelho se estilhaça. Para muita gente, tal como ele, pode ser preciso esse empurrão, que alguém quebre o vidro em mil pedacinhos. Mas quem se calafetou a sete chaves e deseja sair da prisão interior que criou sem querer, também tem de fazer a sua parte: ouvir, deixar-se guiar, seguir. Só assim é possível sentir o outro, ver a glória reflectida nele, abandonar a cela gelada em que se entrou, encontrar calor humano, compreender, amar, situar as emoções, entender a história, partilhar a glória dos pequenos momentos que tornam a vida plena. Porque é impossível fazer música sozinho, sendo cego, surdo e mudo, ou ser livre atrás de grades.






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