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Tuesday, November 11, 2014

Três notas da semana: o belo e o feio.






1 - "Liv's inherent elegance and gentility make you want to be a gentleman in her presence." - dito pela Town & Country a propósito do editorial (e capa) deste mês com Liv Tyler.
 Não há muitas mulheres famosas de quem se possa dizer isto actualmente. A elegância, a discrição e a modéstia femininas (qualidades que convidam ao cavalheirismo e impõem um respeito que discursos inflamados jamais igualarão) são cada vez mais raras, e por isso ainda mais preciosas. É um alívio saber que sobrevivem publicações que realçam aquilo a que as mulheres devem aspirar e que colocam bons exemplos nas suas páginas, em vez de cederem ao status quo muito democrático e permissivo que tem manchado as melhores revistas.

2- Um esteta nunca se entedia demasiado. Basta ter um pouco de imaginação e olhar atento para encontrar coisas bonitas nas situações mais triviais. Hoje, numa paragem de autocarro, vi de uma assentada uma senhora de idade janotíssima, com o bâton laranja mais maravilhoso (precisei de me conter para não lhe perguntar de que marca era!) e uma jovem com uns olhos dourados incríveis, que merecia estar numa revista. É nestas alturas que tenho pena de este blog não ser do estilo Sartorialist e de não ter lata para andar por aí, a retratar certas pessoas que nos recordam que há beleza no mundo.

3- Acompanhei uma amiga às compras e foi necessário fazer uma troca de um artigo que ela tinha acabado de pagar. 
A gerente, rapariga com um estilo muito engraçado e bastante prestável, lá andou às voltas com a maquineta enquanto mostrava ao novo colega (um rapaz tímido com o típico ar de quem adora moda) como se faziam aquelas trocas e baldrocas. Não havia mais clientes ao balcão e a loja estava mais calma do que o costume - o cenário menos provável para clientes idiotas. Pois bem, chega atrás de nós uma senhoreca a pretender passar por benzoca (e estou como a Tia Pureza Teixeira da Cunha, há poucas coisas piores que uma "senhora" falsa) com a filha, a falar alto para quem queria ouvir com um ligeiríssimo sotaque de Terras de Vera Cruz. As duas com um ar muito cheio de si e muito satisfeito. Pois a mãe entendeu que o rapaz havia de lhe despachar a conta para ela se ir embora depressa, e a gerente explicou que a caixa já estava a ser usada para me fazer a troca por isso não podia ser.

 "Mas o seu colega está aqui parado sem fazer nada!" - disse a cliente, cada vez mais parecida com uma galinha da Índia. A funcionária lá lhe voltou a explicar que o procedimento não podia ser esse, que só levava um instantinho e que teria de esperar pela sua vez. E isto em coisa de três minutos, se era lá caso para alguém se impacientar. Mas a mulher, que devia ser daquelas que gostam de mandar em tudo - e quer-me parecer, que fazem justiça ao ditado nunca sirvas quem serviu -  não se calou: que era uma má gestão de recursos, uma falta de eficácia e outras palavras caras.
 Como ninguém ligou nenhuma às suas retóricas, acelerou e apesar da filha que lhe fazia sinais, já envergonhada, desata a falar como se as pessoas não estivessem lá, "que eram uma cambada de burros porque se fossem inteligentes não estavam atrás de um balcão" - o que com o panorama do país, só pode ser uma piada de mau gosto.

Pois apostava convosco que quando ela era nova há-de ter estado atrás de um balcão, e não há-de ter sido de modas e elegâncias...aquela linguagem não se aprende em casa a tocar piano e a falar francês...
 Continuou assim por um bom bocado, com a cobardia de quem acha que pode pisar alguém só porque essa pessoa não lhe pode responder e é obrigada a atendê-la- e o rapazinho cada vez mais pálido. Eu cá estava digo alguma coisa, não digo alguma coisa, com uma vontade imensa de lhe explicar que aquilo não eram atitudes dignas de uma senhora daquela idade, mas até me parecia indigno dirigir a palavra a tal criatura porque a avó sempre me ensinou que com mulheres descontroladas não se discute. Limitei-me a lançar-lhe uma cara de poucos amigos e a dizer ao moço, mal a hárpia virou costas "por favor faça ouvidos moucos que a senhora não sabe o que diz!". 

É uma pena a educação não estar à venda nos centros comerciais, como os bâtons, as meias e o resto...


Ofensa em pó: you´re so vain.


Qualquer pessoa que tenha a sorte de se destacar (ou a pouca sorte, que isto é como na fábula chinesa, nunca se sabe ao certo se os favores ou partidas da Fortuna podem esconder outra coisa) arranja logo uma data de detractores.

Lá diz o tio Eça que uma pessoa deve ter apenas os inimigos necessários para confirmar uma superioridade, e o velho adágio que só os medíocres não têm antagonistas.

É preciso estar muito mal na vida para não ser invejado nem sofrer as implicâncias de ninguém - e olhem que é difícil, porque existem sempre os que não podem ver uma camisa lavada a um pobre. Por isso, se um ser irritante implica freneticamente convosco, sintam-se afortunados: há alguém que acha que a vossa vida parece glamourosa que chegue para se sentir incomodado (a) com isso.

 Só os medíocres são 100% populares, porque não ameaçam quem quer que seja e acabam por ser úteis: podem fazer de fantoches se colocados em posições de poder,servir os interesses deste ou daquele sem ofuscar e ser convenientemente retirados do caminho no momento certo.

 De resto, é inevitável não agradar a todos. Não é nada de pessoal e muitas vezes, isso não diz o que quer que seja do carácter de cada um. Se calha alguém ter algo ou estar numa posição que outros ambicionam, zás - de nada vale ser uma pessoa bondosa e honesta, comportar-se modestamente, ter um prémio de virtude ou até responder ao mal com o bem, na tentativa de mostrar que não é assim: simplesmente há casos em que não podem estar todos contentes e temos de saber viver com isso, evitando o mais possível picardias ridículas e deixando as atitudes feias com quem as pratica.

 Porém, às vezes não é fácil, e para uma mulher é particularmente complicado. Se uma mulher sobressai - ou pela carreira, ou pelo talento, ou pela beleza, ou pela cara metade que tem a seu lado ou por uma combinação de factores - há três insultos possíveis. Ou uma mistura dos três.

a) É uma sedutora implacável, uma Dalila perversa.

b) É uma megera, uma virago crudelíssima.

Mas se nada disto for plausível porque a pessoa em causa é discreta, não responde a provocações e não faz maldades que se vejam, never fear. Há sempre o bom, velho, instantâneo e superficial insulto da vaidade, especialmente se a rapariga em causa for direitinha e arranjadinha:

c) É uma peneirenta muito cheia de si mesma, que não gosta de ninguém a não ser dela própria. 

Touché, basta abrir o pacote e juntar água, nunca falha. 

É que chamar vaidoso a alguém não exige conhecer o carácter do alvo, nem o seu percurso, nem sequer os seus pecadilhos ou a ausência deles. A vaidade em excesso não deixa de ser um pecado e se o alvo do insulto tem boa apresentação,  quem ofende não cai numa mentira completa - afinal, está à vista. Depois é só inventar um bocadinho, esticar dali, acrescentar um ponto acoli, e uma mulher que apenas se preocupa com a cara que mostra ao mundo é pintada como um Narciso de saias. Uma egocêntrica de primeira, uma egoísta, uma Rainha do Gelo que nem sequer se rebaixa a retribuir as baixarias - passe o pleonasmo - porque está demasiado ocupada a olhar para o espelho.

 Se calhar, se se desse à canseira de descer dos saltos para devolver a gentileza, uma mulher vaidosa recorria àquele insulto que agora dizem que havia de ser abolido: you basic b****!

Porque realmente, chamar vaidoso a alguém é um insulto mesmo básico, a tender para o infantil. Mas fazer isso seria básico demais.

E no fim das contas, há coisas piores que se podem atirar a alguém. Ser insultado de vaidoso é tão insignificante que nem vale uma pessoa interromper-se.





Monday, November 10, 2014

10 problemas que só louras e ruivas entendem



Rezam os ditados que as louras são mais divertidas e as ruivas têm um temperamento a condizer com o cabelo, para o bem e para o mal - mas quem vê de fora não sonha a canseira que isso é. Mulheres  de cabelos (e olhos/pele) naturalmente claros, do louro escuro ao auburn, têm uma agenda própria para lidar com isso, porque nem sempre é fácil. Aqui ficam os 10 pequenos dramas mais comuns:

1- Qualquer castanho inofensivo se transforma em preto ou beringela no vosso cabelo



Mudanças de visual exigem sempre cautela quando o cabelo é claro - porque a cor adere mais facilmente e "abre" em todo o seu esplendor... ou antes, em todo o seu exagero. Uma loura que pretenda escurecer para um tom avelã pode ficar com o cabelo quase asa de corvo, enquanto uma ruiva que tente o look "boneca de porcelana" com um castanho rico e frio como o da Penelope Cruz se arrisca a acabar com um acajou horroroso, tipo beringela. 
 Um colorista experiente (e num país de morenas, convém consultar o seu portefolio antes de avançar) e/ou bastante prática são os únicos remédios: louro escuro acinzentado é a melhor pista para obter um castanho bonito sem reflexos quentes e o castanho médio, a receita mais acertada para conseguir um castanho muito escuro, quase preto. Fazer durar o efeito já é outro rosário...

2- Perguntas patetas



Voltar de férias e perguntarem "então não foi à praia este ano?" porque apesar dos esforços, não bronzeou nadinha. Pior ainda, "porque não faz solário?" (resposta: porque não me apetece ficar parecida com uma passa ou coisa pior). Ou o muito frequente "essa cor é natural?" que é uma maçada principalmente quando se deu brilho ou reflexos para realçar a lourice ou ruiveza com que se nasceu mas não apetece estar com detalhes.

3-Pele de cera...e/ou sardas

A pele de porcelana é um grande trunfo, mas...como a maioria das coisas belas, é frágil. Qualquer pele requer cuidados para se manter bonita, mas as caras pálidas precisam de extra hidratação, extra protecção solar e em muitos casos, produtos específicos para peles reactivas, anti manchas, contra vermelhidão, contra o frio, o calor, etc. Já as sardas são um amor e o melhor é assumi-las...com as devidas cautelas porque sem isso, onde há sardas podem surgir marcas do sol. Ou da neve. Ou do vento. Muita protecção sempre, sim?



4-Não haver base do vosso tom em lado nenhum

Quem diz base diz pó, BB Cream,e assim por diante. Em muitas marcas o tom mais claro que fazem é uma piada, outras nem se dão ao trabalho de vender essas nuances nos países do Sul da Europa porque assumem, vá-se lá saber porquê, que por estas bandas todas as mulheres são morenas ou fazem por isso. Encontrar os tons neutros (nem rosado, nem amarelado) tão necessários às ruivas é o pior desafio de todos. Felizmente o cenário está a mudar e não só têm surgido marcas ou produtos novos atentos a esse nicho de mercado para todas as bolsas (como a Sleek e a Essence) como agora temos a internet, por isso se for necessário podemos encomendar cosméticos da Coreia, país onde brancura é formosura.

5- Sensibilidade ao Sol

Já não falo só do vulgar e perigoso escaldão. Em temperaturas muito altas (ou em dias em que os média avisam "cuidado que os raios UV enlouqueceram!") enquanto os vossos amigos se queixam "ai que calor das Arábias" vocês já se fecharam num bunker em modo vampiro, com receio da urticária horrorosa que inevitavelmente vos assalta nessas circunstâncias.

6- Escolher o blush é uma complicação

Supostamente as louras ficam bem com tons rosados e as ruivas com pêssego, laranja e encarnado. O mais mau é encontrar a textura certa, especialmente para usar durante o dia. Enquanto numa pele mate qualquer blush baratinho do momento realça as maçãs do rosto com um aspecto encantador, nas pálidas o menor deslize pode dar a aparência de se estar com um ataque de febre ou pior...com os copos, Deus nos livre. Em relação ao bronzer (que se tiver juízo, só usará para esculpir e contornar o rosto) passa-se o mesmo: um descuido e parece que se está com a cara suja. Enfim, cada um com os seus problemas e o melhor amigo de uma rapariga branquinha é um bom espelho com muita luz natural.


7-Dar nas vistas sem querer
Enquanto uma morena pode escapar com toilettes vistosas, louras e ruivas precisam de ser um pouco mais discretas porque o cabelo já chama bastante a atenção (especialmente no caso das platinadas e cenoura vivo). Quando se trata de ruivas, cores ricas e quentes como o verde esmeralda, o encarnado e o laranja até são aconselháveis, mas é preferível usá-las em peças de corte e padrão simples, para não criar muita confusão visual.
  Nas louras um look preto com um acessório dourado faz imensa vista, mas não convém juntar outras bijutarias ou texturas brilhantes.

8- Cabelos delicados

Com algumas excepções, os cabelos claros tendem a ser mais sedosos mas menos espessos - é por isso que a sua amiga morena-que-pinta-de-louro tem uma juba invejável mas que parece muito mais baça do que a sua, que é loura natural e só precisa de umas madeixas para ficar platinada. Tudo na vida tem vantagens e desvantagens. Produtos para fortalecer, hidratar, proteger e dar volume são grandes aliados dos cabelos cor de ouro e cor de cobre.

9- Mitos de personalidade

Embora as coisas já não sejam como no tempo dos Tudor - em que se acreditava piamente que as louras tinham um carácter mais dócil e submisso e as ruivas tinham pacto com poderes do outro mundo - as pessoas ainda fazem associações de ideias: o louro comunica uma ideia de juventude e por isso é mais apelativo, uma loura não é lá muito esperta, uma ruiva é apaixonada e tem mau feitio, etc,etc. Muitas vezes isso é um processo inconsciente e só resta brincar com esses estereótipos ou se possível, tirar partido deles. Fazer-se menos brilhante do que na realidade é pode ter utilidade em algumas áreas (política, indústria e outras que agora não me ocorrem). Assim como assim, é só a primeira impressão e não vale a pena aborrecer-se por causa disso: todos os mitos se desfazem rapidamente quando se aposta num visual sério e atitudes a condizer.

10 - "Rímel" para que te quero

Ter umas pestanas longas e espessas...que não se vêem. Cílios quase brancos (ou mesmo dourados/prateados) são muito comuns em ruivas e louras. Pessoalmente, vejo isso como uma vantagem: com umas camadas de máscara escura está o problema resolvido e se pelo contrário se quiser um ar high fashion, estilo Tilda Swinton, é só não as pintar - ou realçá-las com máscara dourada, por exemplo. O mesmo vale para as sobrancelhas: sendo louras e finas podem ser aumentadas com maquilhagem quando está na moda usá-las mais fortes (como actualmente). E quando se usam finas, é fácil torná-las quase invisíveis - algo que as morenas têm mais dificuldade em fazer!





Sunday, November 9, 2014

Brilhante Conclusão Expresso do dia: lógica da banana verde.


Pior que ser banana...só ser banana e não amadurecer toda a vida.

Isto de viver no campo tem destas coisas: permite-nos brilhantes filosofias destas que nos ocorrem ao reparar, no regresso de um saudável passeio pela floresta, que a bananeira da nossa vizinha até dá bananas, mas os cachos nunca deixam de ser verdes.

 Ser banana é um defeito muito aborrecido (e num homem, então, é feíssimo) porque uma coisa é ser gentil... outra é ser fraco, manipulável e influenciável.
Quem é assim não se faz respeitar, não toma decisões (e quando toma, é geralmente por influência de quem menos devia ter voto na matéria) é sensível à bajulação de pessoas com segundas intenções e à força de muito querer ser bom, ou de muito querer mandar sendo ao mesmo tempo amigo de toda a gente, acaba por prejudicar-se a si mesmo e às pessoas que devia proteger. É o velho caso que as nossas avós contavam, de cavalheiros que até seriam bons maridos se não dessem ouvidos a amigos da onça, e que com isso acabavam por lesar a mulher e os filhos. Ou dos patrões que à custa de querer agradar a gregos e troianos, acabam por afundar a casa, deixando funcionários leais de mãos a abanar.

Mas pior que ser banana, só ser um (ou uma) banana verde. Porque de banana todos temos um pouco, ou pelo menos momentos: ou por bom coração, ou por causa da idade, ou por ingenuidade, ou por vaidade, ou por timidez...mas mau, realmente mau, é nunca amadurecer na bananice.

 Ser uma banana sempre verde, que não adoça nem evolui, de quem não se faz nada e que não tem esperanças de vir a ser outra coisa. Por isso, se vos chamarem bananas, não se lastimem: há quem consiga ser ainda pior.


Frau Merkel, detesto dar-lhe razão.



Vamos deixar aqui claríssimo que eu tenho a minha embirraçãozinha - como boa parte da Europa- com Frau  Merkel. 

Primeiro, porque depois de tantas tropelias acho incrível como permitem aos Alemães mandar em alguma coisa. Não acredito que haja ali imparcialidade alguma ao decidir os destinos desse mal necessário que é a UE: é vê-la toda contente a puxar pela glória (ou a brasa à sardinha) do Reich, salvo seja. Pelo menos é essa a impressão que eu tenho e se Frau Merkel tem o direito de dizer o que entende, eu não posso fazer grande coisa quanto à minha imaginação.

 Segundo, porque para Dama de Ferro falta-lhe muita coisa, nomeadamente a classe e encanto da Baronesa Thatcher: Frau Merkel pode ser uma cientista (tal como Thatcher) pode ser a segunda pessoa mais poderosa do Mundo segundo o Forbes e a primeira mulher a ter alcançado tanto poder, mas não nos confundamos.

Margaret Thatcher tinha um porte que provava que há mulheres capazes de ocupar grandes cargos em tempo de crise sem fanicos e sem ceder às emoções (vê-la trabalhar em equipa com Sua Majestade a Rainha Isabel II deve ter sido glorioso). Margaret Thatcher não puxava da cartada irritante nem da atitude da "mulher poderosa" - aliás, referia-se ao feminismo como "um veneno". Margaret Thatcher não seria apanhada nem morta com um decote monstruoso como Angela Merkel (acima). Nem com tailleurs estilo saco de batatas, idem.  I rest my case.

  Mas - a César o que é de César ou mais apropriadamente e em modo licença poética, a Kaiserin o que é de Kaiserin - concordo com o Público quando diz que Frau Merkel não deixou de ter uma certa razão ao afirmar na última semana que Portugal tem licenciados a mais (independentemente da intenção com que o possa ter dito).

 Podemos não gostar do discurso, podemos até argumentar que a senhora gostaria era de manter os portuguesitos humildes e ignorantes de todo, mas factos são factos: se não tivéssemos licenciados a mais, não andaríamos a "exportá-los". Infelizmente, basta olharmos para o nosso círculo de amigos e antigos colegas e fazer a contas a quantos estão a trabalhar no estrangeiro; não porque lhes apetece ou por espírito de aventura bué da jovem, mas por ser tão difícil evoluir na carreira, ter um ordenado decente ou pensar em constituir família em solo pátrio.

 Se a Alemanha pecou por uma aposta excessiva na qualificação de profissionais intermédios (e agora tem de vir "pescar" os licenciados que lhe faltam aos países do Sul da Europa) Portugal errou por ter feito o oposto.

 Só um cego é que não vê que após o 25/4 houve uma reviravolta no sentido de oferecer às famílias o "sonho português": ou seja, filhos doutores. 

Esta pequena vaidade - mistura de remorso, complexo de inferioridade e mania das grandezas -  foi levada tão a sério que se massificou o ensino (o que teria sido bom se feito de forma adequada) sem olhar à realidade das necessidades do país, nem à capacidade do mercado para acolher tantos diplomas. A isso juntou-se a ganância de muitas instituições, que criaram cursos cósmicos e fenomenais - para quem se pode dar ao luxo de estudar por carolice e desafio intelectual  - mas perfeitamente inúteis para quem pretende trabalhar e ter uma carreira estável na sua área de formação.

 As palavras de Frau Merkel podem ser escusadas e desagradáveis como as suas fatiotas - mas tal como estas, são um facto. Desagradável, mas facto.

Saturday, November 8, 2014

A sério, é preciso perguntar?




Um vídeo está a tornar-se viral por colocar a pergunta "do I look like a slut?" - ou seja, por pôr as mulheres a questionar-se o que é que a palavra "slut" (galdéria) realmente significa, pelo menos em termos de aparência. 

O discurso da autora levantaria algumas questões relevantes - como o velho paradoxo se uma mulher rejeita um homem é insultada de "galdéria", mas se lhe cede aos avanços, é chamada da mesma coisa - se não fechasse, logo à partida, todas as discussões com a ideia "there is no such thing as a slut".

Seguem-se uma série de argumentos anti "slut shaming" do género "o hábito não faz o monge", "uma mulher pode vestir o que lhe apetecer que isso não diz nada sobre o seu comportamento"  e a culpar o Patriarcado (essa tal coisa que anda de noite e ninguém sabe o que é e que ao que parece é culpada de todos os desaires femininos desde a noite dos tempos). 

Tudo para levar ao mesmo argumento politicamente correcto "vamos parar de descrever certas roupas como ordinárias".

Perdão, meninas, mas em nome de um punhado de mulheres que gostam de pensar pela própria cabeça, permitam-me discordar: se uma roupa é excessivamente provocante, de mau gosto e aspecto reles, era o que me faltava não poder descrevê-la como ordinária. Querem privar-nos de um termo tão eloquente, o que não é justo.

 Isso diz que a pessoa que sai à rua vestida como uma stripper é necessariamente uma profissional da dança do varão? Não, diz apenas que está a vestir esse uniforme com as naturais consequências para a sua imagem. Como já disse aqui, a roupa não faz o carácter: o carácter faz a roupa. Quem se atavia assim até pode não ser uma serigaita, mas no mínimo tem mau gosto e falta de miolo.

 Diz que a pessoa está a pedir para ser atacada? Jamais, mas mostra que é no mínimo imprudente porque gente malvada não falta por aí.

Vou dizer isso na cara da pessoa? Não, isso seria uma indelicadeza (a não ser que a pessoa seja uma amiga minha que tenha um ataque temporário de insanidade e tente sair assim, nesse caso terá de se ver comigo) mas ninguém pode privar outrem de julgar, ainda que erradamente.

A liberdade é bilateral: cada um é livre de vestir como entender, e quem vê é igualmente livre para tirar as suas conclusões e para o descrever lá na sua cabeça, desde que não incomode ninguém.

O mais cómico no meio disto tudo é a hipocrisia da situação: se muitas destas meninas tão democráticas, com uma moral tão elástica, vissem uma rapariga pouco vestida a
 insinuar-se à sua cara metade, passava-lhes rapidamente a solidariedade feminina: ponho as mãos no fogo em como "galdéria!" era o insulto mais leve que lhes ocorria chamar. O mais provável era descarregarem na pindérica semi vestida e deixarem o namorado santinho sem um sermão sequer, a apreciar o panorama.

Solidariedade feminina será tentar ensinar quem não sabe apresentar-se a vestir melhor, quanto mais não seja pelo exemplo ou mostrando alternativas: não aplaudindo aquilo que é condenável, ou sendo conivente com modas de mau gosto em nome de uma "libertação" em que as próprias mulheres parecem não acreditar.

 E no fim de tudo, ainda gostava de perceber de onde vem a dúvida. Se uma rapariga precisa de indagar antes de sair de casa se parece isto ou aquilo, é porque se calhar parece. Quem não deve não teme e não faltam roupas atraentes que se podem vestir sem passar perto de tais rótulos. 

  Fomentar-se a classe, o raciocínio lógico e a modéstia entre as mulheres seria meio caminho andado para reduzir discussões patéticas destas, creio...


Uma história extraordinária- troçar da Fortuna na cara


"Breathe deeply. Refuse to be weak. Refuse to be sick. Refuse to die. Think strong and you will be."

Joseph Greenstein


Nem sempre subscrevo as estórias motivacionais que rezam "impossible is nothing" e "siga os seus sonhos" - isto porque há pessoas que insistem em objectivos muito fora do seu alcance sem olhar às circunstâncias. Por exemplo, não dão um Dó direito e querem por força ser cantoras, são baixinhas e morrem de desgosto por não desfilar nas passerelles...nem sempre querer é poder. Por vezes é preciso saber adaptar os sonhos para chegar a algum lado - e ser útil à sociedade - sem frustrações nem figuras de urso, até porque objectivos não são coisas estáticas.

 Os contos do Patinho Feio e da Cinderela não se adaptam a toda a gente: tanto o Patinho Feio como a Cinderela tinham um bom avanço, só não estavam conscientes disso. Às vezes contos como o Pequeno Polegar (que jogava com o que tinha) ou Ali Babá e os 40 Ladrões (a sorte aliada ao engenho) são bem mais democráticos. 


Afinal, Maquiavel descrevia a virtù como a capacidade de lidar com a Fortuna caprichosa, seduzi-la e conservá-la fiel e amiga, nem que seja à bofetada. Há quem faça o seu destino, simplesmente porque sabe jogar com as variáveis.


 De qualquer maneira, existem de facto casos em que uma vontade de ferro e o mind-over-matter permitem ultrapassar os cenários mais desfavoráveis: Joseph Greenstein, a Bomba Humana, é um grande exemplo de quem não só seduz a Fortuna, como ainda se dá ao luxo de escarnecer dela.

O pequeno Josezito nasceu em 1893 na Polónia, prematuro e minúsculo- um verdadeiro Polegarzinho -  na família mais pobre das redondezas. Sobreviver à primeira infância já foi uma sorte...e talvez por isso, tornou-se muito determinado.

 Quando Joseph tinha 14 anos, um famoso circo russo chegou à cidade e o nosso herói ficou fascinado com os feitos do grande campeão Volanko, o "homem forte" da trupe. Os "Homens Fortes" eram um número importante em todos os circos de aberrações (e não só) desse tempo, como podemos ver em American Horror Story-freakshow.

 Sem dinheiro para o bilhete, o lingrinhas mas intrépido rapaz tentou esgueirar-se para assistir ao espectáculo de graça. Mas teve tanto azar que foi apanhado pelo pessoal do circo. Gente dura e habituada a levar a vida a pontapé, pouco acostumada a receber e dar compaixão, os seguranças da trupe não tiveram dó nem piedade pelo infeliz: deram-lhe uma tareia monumental e deixaram o coitadinho para morrer a um canto.

 Sovado, esfarrapado e mais morto do que vivo, Joseph arrastou-se até casa, e foi então que aconteceu uma espécie de milagre: o próprio campeão Volanko cruzou-se no seu caminho, sentiu pena dele e salvou-o. Depois de cuidar pessoalmente do jovem, decidiu treiná-lo para ultrapassar as suas limitações físicas.



Dois anos mais tarde, Joseph era tão forte de corpo como sempre tinha sido de espírito, tornando-se ele próprio num grande "Homem Forte" que encantava as plateias dobrando barras de ferro com os dentes ou partindo correntes com as mãos. Com o crescente anti-semitismo na Europa, Joseph decidiu tentar a sorte nos Estados Unidos e fez tanto sucesso..que um fã obcecado lhe deu um tiro na cabeça. 


Mais uma vez a Fortuna estava do seu lado: saiu do hospital no mesmo dia, convencido de que a sua incrível condição física lhe salvara a vida; continuou a sua carreira com feitos cada vez mais espantosos...e envolvendo-se ocasionalmente em brigas. Joseph detestava lutar, mas tinha um grande sentido de justiça e por mais do que uma vez fez manchetes de jornal por derrotar (e hospitalizar) vários homens sozinho, no melhor espírito Mata Sete. Os triibunais soltaram-no imediatamente; primeiro, porque ele tinha batido em vários simpatizantes nazis (que estavam demasiado maltratados para falar, tal fora a tareia) e depois, porque não acreditavam que ele pudesse ter agido sozinho...

 Durante a II Guerra Mundial, ajudou a angariar dinheiro (e a promover o recrutamento de soldados) para contribuir para o esforço de Guerra americano, trabalhando como voluntário e actuando para angariar fundos. O seu número de puxar um camião cheio de passageiros para esse fim foi muito publicitado. Também ajudou a treinar as autoridades em artes marciais, o que lhe valeu ser condecorado pela cidade de Nova Iorque.

 Greenstein continuou a ser artista de circo até aos seus oitentas, e a espalhar a sua mensagem espiritual de mente sobre a matéria. Já bisavô, ainda andava à noite pelas ruas, pronto a sovar qualquer meliante que ousasse assaltar velhinhos indefesos. Um verdadeiro superavozinho com vontade de ferro...








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