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Saturday, August 22, 2015

Sabemos que temos excesso de roupa/livros/sapatos etc quando...

De casa dos horrores a casa dos armários


...estamos a ver este filme, em que um serial killer tem uma casa com dependências e recantos que nunca mais acabam, mais dois laboratórios bem grandes para estraçalhar pessoas e ainda uma cave enoooooooorme (onde vai emparedando as suas vítimas) e em vez de nos enervarmos com o thriller, só nos ocorre pensar "aquela casa é que me convinha; ali fazia um despenseiro, nos laboratórios criava um duplo walk in closet; aquela salinha secreta vinha mesmo a calhar para livraria" e assim por diante.

Resta o consolo de o espírito prático e o sangue frio estarem sempre presentes, o que pode vir a  dar jeito caso (o diabo seja surdo) nos encontremos alguma vez fechadas em casa de algum louco.

Quem é capaz de equacionar onde mandava fazer armários num cenário de terror, também é capaz de engendrar armas de auto defesa com o que estiver à mão e memorizar o covil todo para o descrever em detalhe às autoridades.

Cavalheiros, a culpa também é vossa.




"Se vós, os rapazes, com o vosso proceder mostrásseis que preferis as raparigas recatadas, elas mudariam sem dúvida. Mas como muitos preferem as desenvoltas, para poderem abusar, elas julgam que têm de ser umas cabeças no ar. E agora procurais uma rapariga digna e com dificuldade a encontrais".



Se é verdade que as mulheres são a espinha moral da sociedade, que "uma sociedade de mulheres imodestas é uma sociedade de homens sem compromisso" e que a elegância e a dignidade feminina começam em casa, também não é mentira que os homens têm uma quota parte de responsabilidade no assunto.

  Infelizmente, tem-se vindo a cair numa cultura de desresponsabilização para os dois lados: elas são tratadas como umas coitadinhas, que não têm qualquer tipo de controlo sobre as reacções que provocam (e.g: piropos desagradáveis) nem pelas consequências dos seus actos; por seu turno, aos homens são desculpadas todas as atitudes pouco varonis com o pretexto da "igualdade". Já "ninguém leva a mal" se um rapaz é pouco cortês ou se se aproveita da ingenuidade ou falta de juízo feminina, porque não é suposto um homem ser protector, cavalheiresco e racional.

O texto acima é do início dos anos 1950, mas aplica-se mais do que nunca numa época em que se incentiva as mulheres a vestir como artistas de cabaret e a serem predadoras, invertendo a ordem tradicional das coisas  (o que é muito conveniente para quem tem preguiça de assumir um papel realmente masculino, quer coleccionar conquistas fáceis ou não tem pejo de apresentar aos pais uma rapariga talvez demasiado "moderna").

 Em tempos idos, se um homem estava interessado numa rapariga que se mostrava demasiado desenvolta, era esperado dele que não se aproveitasse da sua tolice; havia uma grande separação entre o comportamento apropriado e o das raparigas que não eram "para tomar a sério". As pessoas sabiam melhor o seu papel.

Hoje as fronteiras esbateram-se tanto que são imensas as que - até sem má intenção - acham que precisam de se vestir e pintar com vulgaridade para estarem bonitas ou para chamar a atenção masculina. Em certos meios, há quase uma competição a ver quem dá mais nas vistas - porque afinal, há sempre quem não se importe de namorar com uma rapariga desse tipo.

Se o relacionamento será de qualidade, se há respeito numa relação dessas, isso já é outra história. Quando vejo um rapaz exibir por aí uma namorada em trajes pouco adequados, fico sempre na dúvida quanto à natureza desse "amor".

  Por sua vez, há homens fracos que, acostumados à lógica das relações "test drive" se sentem lisonjeados com a selfie provocante que lhe enviaram, ou com o assédio de determinada rapariga...não vendo que não há aí qualquer consideração especial pela sua pessoa: simplesmente, a jovem terá por hábito ser serigaita...agirá da mesma maneira com outro qualquer que lhe desperte o interesse.

 Recentemente foi-me dado ver um triste exemplo. Um rapaz honesto e trabalhador, mas algo ingénuo, casou com uma mulher a tender para o vulgar, que se prezava de ser muito moderna e poderosa- mas só no que lhe convinha. Ele mourejava dia e noite para lhe dar os luxos que ela não dispensava...ela durante o dia não fazia nenhum e à noite saía com as amigas, como se fosse solteira. Tiveram uma criança, mas isso não fez com que a tola acalmasse: a sua alegria era vestir como uma bailarina funk, apesar de estar algo fora de forma. Quando passeavam juntos, ela recebia piropos grosseiros...ele sorria e encolhia os ombros. "Gosta de se embonecar!" (como se não fosse possível embonecar-se sem cair no ridículo) "os outros olham, mas eu é que vou com ela para casa!". Enfim, o rapaz era um paspalho. Podem imaginar como a história acabou...mal ele se ausentou em trabalho, ela tratou de fugir com o Carlão do ginásio...

O semelhante atrai o semelhante. O que me lembra um velho conto que li há tempos: numa certa terra, era costume libertar-se um condenado à morte se alguma moça se prontificasse a casar com ele. Ora, estava para ser fuzilado um soldado e uma rapariga lá do burgo, muito produzida e atiradiça, vendo-o jovem e bonito teve pena e voluntariou-se. O rapaz olhou para ela, endireitou-se e disse: senhor carrasco, ande lá com isso! É uma descaradona, vestida de bailarina...antes a morte!

 Se um homem não é um fraco, um tolo ou um dissoluto, evitará encorajar tais comportamentos na hora de escolher um relacionamento sério.

Quanto às meninas e senhoras, cabe-nos a todas zelar para que não seja um certo tipo de "homem", o que não conhece a hombridade, a firmeza nem o cavalheirismo, a determinar as escolhas femininas. Se as mulheres se apresentarem e agirem a pensar na sua dignidade pessoal, nas atitudes que desejam convidar e nas companhias que pretendem atrair com isso, evitarão trazer para a sua vida um brutal, um grosseirão, um mulherengo...ou um paspalho. Entre os dois, não sei qual será pior!


Friday, August 21, 2015

A alegoria de Nicki Minaj no Madame Tussauds




Nicki Minaj tem uma réplica no Madame Tussauds de Las Vegas. Como é óbvio, a figura de cera foi aprovada pela própria, que até posou para as as medidas e adorou o resultado (nas suas palavras, "icónico"). 

 Como costuma acontecer, a cantora foi retratada na sua pose mais famosa. Já se sabe, espera-se que um  boneco de Freddie Mercury apareça de braço erguido e de microfone na mão, que o de Michael Jackson esboce um moonwalk, que o de Sua Majestade a Rainha Isabel II esteja numa postura de tranquila dignidade e que Nicki Minaj, enfim...esteja nos preparos de Nicki Minaj.

Se calhar o museu exagerou no mau gosto (em Las Vegas vale tudo...) pois tomou o costume ao pé da letra e colocou-a enfim, de gatas e derrièrre em evidência. E o que é que os visitantes fazem sempre no Madame Tussauds? Interagem com  as figuras para mais tarde recordar e publicar nas redes sociais. E às vezes fazem-lhes judiarias, algumas menos apropriadas. Podem por isso imaginar o tipo de brincadeiras a que a Nicki Minaj de cera se sujeita. Houve mesmo um indivíduo mais brutamontes que esqueceu que podia haver crianças por perto e se divertiu a partilhar isto no Instagram.

Face a tais cenas, os responsáveis do Madame Tussauds decidiram reforçar a segurança e colocar a instalação de forma diferente, para impedir exageros. 



 Até aí, nada de estranho. O que me parece disparatado é que a revista Marie Claire se indigne e escreva, literalmente "Que horror!As pessoas estão a ser tão malcriadas para o boneco de Nicki Minaj! Que maneira horrível de tratar uma rapper tão bem sucedida!". 

Pondo de lado que o museu devia ter antecipado as consequências (pois já se sabe que parte da humanidade tem uma propensão inata para a ordinarice e nenhum auto domínio) é muito wishful thinking dizer tal coisa. É certo que há pessoas tão mal educadas que até com a figura da Rainha abusam (tal como na vida real há loucos para tudo) mas são casos isolados. 

 Eis mais um artigo a retirar às mulheres todo o sentido de responsabilidade; a defender a ideia utópica e perigosa de que as pessoas são essencialmente boas e que, se forem doutrinadas o suficiente, nenhuma mulher será incomodada se andar por aí vestida e a mexer-se como Nicki Minaj. Ainda que isso venha a ser possível no futuro (eu não tenho tanta fé no ser humano; andamos há mais de dois mil anos a dizer "não matarás" e o resultado está à vista) há outro aspecto, este positivo, que convém sempre ter em conta: o sentido do decoro e do ridículo.

 Se a escultura de Nicki Minaj é apresentada em poses pouco decentes, está a convidar a quê? Ao beija mão? A que os rapazes se ajoelhem a fingir que a pedem em casamento?

 Lá está: as atitudes, gestos e apresentação de cada um(a) comunicam ao mundo como se deseja ser tratado (a). É a velha máxima "se quer que sejam cavalheiros consigo, 
porte-se como uma senhora". 

O exemplo é de cera, mas convém que se aplique à vida real...










Wednesday, August 19, 2015

As coisas que eu ouço: o conciliábulo das redondinhas


Numa mesa de café, três mulheres bastante novas a conversar. Podiam passar por irmãs, tão parecidas eram: todas da mesma altura, vestidas da mesma maneira, com o mesmo penteado (um rabo de cavalo feito à pressa e bastante puxado para trás). Supus no entanto que fossem amigas, já que cada uma contava em pormenor como ia a sua dieta e o que andava a comer ao almoço e ao jantar...

Dizia uma: eu já perdi três quilos, não notas? E outra: eu estou mesmo contente, já perdi quatro...

E isto bem alto, para quem queria (ou não) ouvir, todas animadas, seguido pelos detalhes do regime milagreiro...

Ora, longe de mim fazer pouco de quem quer que seja por ser gordo ou magro, já que nem sempre está na mão de cada um (a) o engordar e o emagrecer, nem a maior top model está livre de, sei lá, ver-se obrigada a tomar uma medicação que provoque um inchaço terrível. O que é mau é o desleixo: vejo por aí raparigas muito jovens, que ainda nem tiveram filhos, que não têm o menor cuidado, tratando de cultivar e exibir um barrigão como se tivessem tido três ou quatro e bebido muita cerveja toda a vida...

Não era no entanto - ou deixara de ser por enquanto - o caso destas, todas empenhadas na beleza e na saúde. O que me fez rir foi a sua indiscrição, já que sempre me ensinaram que estas coisas de dietas não são para berrar ao mundo, muito menos enquanto se come ou bebe. No mínimo, até ter dado mesmo resultado! E aquelas três, segundo ouvi e vi (e ouvi tudo, porque não podia evitar) ainda estavam muito longe do objectivo final...

 Mas o pior não era isso: com a sua avantajada figura, cada uma mais rolicinha que a  outra, rechonchudinhas que dava gosto, estavam vestidas com um à vontade que ninguém diria que se preocupavam com o seu aspecto: tank tops de cava americana, a realçar umas costas capazes de rebater toda a maledicência e uns braços de pôr em sentido a Padeira de Aljubarrota; calças de algodão justas, a revelar todas as redondezas...enfim, uma flagrante mostra de abundâncias. Com tanta roupa adequada a curvas de tamanho maior, e elas naqueles preparos.

Nem quero imaginar o que (não) vestirão caso venham mesmo a emagrecer...com o entusiasmo, são capazes de se juntar ao exército das leggings, mini vestidos e por aí.



O complexo "Senhor, faz-me bom, mas não já"



Esta conhecida frase de Santo Agostinho - que na sua juventude se debatia entre os apelos da estroinice e o desejo de se emendar - é das mais eloquentes a resumir o comportamento humano, mas sobretudo um certo tipo de atitude masculina. O desabafo do Santo continua tão actual que Robbie Williams se baseou nele para escrever uma canção, Make me pure.

Agostinho ansiava por atingir o seu máximo potencial, por ser bem comportado, por viver uma vida regrada, por deixar de dar desgostos à mãe, Santa Mónica. Sentia a atracção da Fé e sabia as obrigações que vinham com o caminho que o apaixonava e que queria abraçar. 


Nada disso o contrariava, ninguém o obrigava a mudar de comportamento, não havia pressão alguma para tal mudança a não ser a sua própria vontade. 

E no entanto, ele resistia a modificar-se com todas as forças. Preso a uma liberdade que ele não sabia bem para que servia e que em boa verdade, não lhe dava satisfação. Amarrado a um reflexo de rebeldia, de imaturidade. Agostinho não tinha coragem de agarrar aquilo que mais desejava, por isso lá ia fugindo à questão, adiando, rezando sempre o mesmo estribilho "Senhor, fazei-me bom, mas não tão cedo; dai-me castidade e continência, mas não já". E andou vários anos a rezá-lo...claro que a oração era eficaz, pois voltava sempre a cair no mesmo.

Talvez as rapaziadas, as farras, as más companhias e a irresponsabilidade já tivessem deixado de ter graça, mas custava-lhe muito abdicar da opção de voltar a elas, se quisesse. Não era pelas bebedeiras, os casos inconsequentes e a má vida em si: fazia-lhe mais confusão o acto de lhes virar as costas para sempre. 


De saber que a sua vida ia mudar por um amor verdadeiro e maior. Arrancar-se desse torpor foi algo que lhe custou imenso. Mas como tinha fé, inteligência e uma mãe extremosa a velar por ele, lá acabou por pensar  "se vives em pecado e Deus não te castiga, mau sinal é" e arrepiar caminho enquanto era tempo, deixando de desperdiçar os seus melhores anos e de magoar quem se preocupava com ele.


 Imensa gente age como o jovem Santo Agostinho. Aliás, todos somos um pouco assim às vezes: há quem queira emagrecer, deixar este ou aquele vício, libertar-se de um mau hábito qualquer, fazer aquilo que está certo, mas vai adiando. Pode até nunca rezar, ser de um ateísmo extremo, porém diz a mesma coisa: quero aperfeiçoar-me... mas mais tarde!". É normal ter medo da mudança e das maçadas que ela acarreta, mesmo quando se muda para melhor.

Porém, é entre os homens que se vê mais este estranho conflito. Muitos querem crescer, deixar para trás os disparates de rapazes para passarem a ser homens: o dever chama-os, encontram o amor, a vida obriga-os a assumir negócios de família e outras responsabilidades, despertam para a noção de que não estão neste mundo para agir como eternos estudantes, eternos meninos. Um dia olham-se ao espelho e percebem que está na hora de construírem um legado, de pensarem no futuro. Acabou-se a brincadeira.  E a ideia sensata de "vestir a toga viril", como diriam os romanos, parece-lhes tão aterradora como desejável. 


Na sua imaginação (como alguém que sonha ganhar o euromilhões, mas fica apavorado ao pensar como ia gerir uma alteração de vida tão repentina) vêem as correntes, os grilhões, o fardo sobre os ombros, a portas fechadas às criancices que em boa verdade, já perderam a vontade de fazer; imaginam que não serão mais senhores de si mesmos.

Quando na realidade, estão perto de finalmente, se tornarem senhores de si. A libertação das fraquezas e brincadeiras menos dignas da juventude é o primeiro sinal de poder.

Tradicionalmente, os estudantes de Coimbra, ao concluirem o curso, fazem o "rasganço". Despedaçam o traje que os acompanhou na vida boémia. Não vão mais precisar dele. Exorcizam o moço ingénuo e influenciável para deixar ficar o homem útil, capaz e responsável. Santo Agostinho não terá tido um "rasganço", mas fê-lo simbolicamente. Creio que imensos cavalheiros precisariam de um ritual parecido...


 

Tuesday, August 18, 2015

O que vamos calçar este Outono?


Como vimos há dias, as modas & elegâncias deste Outono-Inverno não vão trazer consigo novidades de espantar. Trata-se antes de acrescentar detalhes subtis àquilo que as mulheres se habituaram a usar em temporadas recentes. É como se, sabendo o que as consumidoras apreciam, os designers as tentassem a adicionar exemplares à sua colecção. Isto é mau? Não me parece. Quando se descobrem receitas que funcionam, é natural que se queira explorar essa fórmula, silhueta ou salto.

1- Pumps clássicos

Dolce & Gabbana

Regressaram para ficar nas últimas temporadas, as mulheres apaixonaram-se por eles porque dão um toque instantaneamente elegante ao coordenado mais simples e os designers deram ouvidos ao apelo das consumidoras. Fantásticos para saias e calças slim, skinny ou cigarrette, vamos vê-los pontiagudos (Nina Ricci, Fausto Puglisi) arredondados (Marni) e intermédios (Jimmy Choo) com saltos finos ou espessos de todas as alturas e numa variedade incrível de materiais.

A novidade: os mary janes de aspecto vintage ( (Nicholas Kirkwood, Prada, Dolce & Gabbana) de todas as cores e texturas, muito femininos ou de aspecto mais desportivo e edgy. Se tem saudades dos "sapatos de fivela" este é o momento certo para comprar uns ou reciclar os pares que possa ter guardado.


2 - Botins

Pucci

Tornaram-se um básico e rapidamente se percebeu que as mulheres não se cansam deles, com boas razões: bem escolhidos e usados adequadamente são de facto viciantes. Dos modelos simples e bicudos (Yves Saint Laurent) aos saltos espessos e fantasiosos (Cavalli) passando pelos sóbrios e elegantes (Pucci) as inspirações são tantas que não há motivo para os abandonar tão cedo.

A novidade: os saltos esculpidos com plataforma em materiais e cores extravagantes (Gucci) que lembram os anos 90 poderão agradar às mais jovens, ousadas ou que apreciem um look alternativo.


3 - Botas e Cuissardes

Dior

As botas clássicas apareceram de salto médio a alto e  pelo joelho (Dolce & Gabbana) ou de cano largo, em cores ricas e materiais luxuosos como a pele de cobra (Chloé, Lanvin).  Já as versões thigh high querem-se  realmente longas - pelas coxas, a fazer jus ao nome (Pucci, Alberta Ferretti, Christian Dior , McQueen, Aquazzura, Burberry, Calvin Klein) em camurça, veludo, verniz ou latex. A boa notícia é que modelos destes estarão mais disponíveis quer em versão luxuosa, quer nas marcas de fast fashion (vide Zara, com pelo menos três opções). Escusado será lembrar, no entanto, que estas botas exigem bom senso e um óptimo styling para favorecerem a figura e não parecerem vulgares (ver dicas aqui).

A novidade: o regresso das botas (pelo joelho ou mais longas) em tecido ou pele extra fina, que se calçam como se de meias se tratassem (Bottega Veneta): perfeitas para usar com saias! 



A paixão, instrumento do amor



"Imagino que se devia deixar de querer uma coisa que se pode ter. Mas não deixo de te desejar". 

"Era o meu companheiro. Éramos um só. Estávamos ligados um ao outro. Bastava eu tocar num dos seus ferimentos que logo sentia a dor no meu próprio corpo, pois esse era o meu ferimento. Não tínhamos segredos um para o outro. Nunca amou outra mulher que não eu e aconteça o que acontecer, nunca amarei outro homem. A primeira vez que me envolveu nos seus braços tive medo. Mas depois, uma sensação maravilhosa tomou conta de mim. Compreendi subitamente que jamais morreria. O meu amor era imortal. Nada mais me poderia ferir."

Howard Fast, Spartacus (1951)


É curioso como a maioria dos textos, filmes e imagens amorosas actuais exaltam a paixão, levando a que esta seja confundida com o próprio amor, ou com o amor verdadeiro, se quiserem. Não nos enganemos: não são a mesma coisa.

Porém, a paixão tem o seu mérito; é mesmo essencial. Um grande amor destituído de paixão, se tal coisa pudesse existir, seria uma maçada insuportável. É fraca a teoria do amor profundo, mas morno: embora uma relação assim possa sobreviver com base na admiração, no respeito, no pragmatismo e no sentido do dever, falta-lhe o combustível para que seja de facto uma coisa viva. E é suposto o amor fazer viver, embora possa ser fatal às vezes: é precisamente essa dualidade que o torna especial. Um sentimento sólido, mas que se alimenta da fragilidade. Não se ama aquilo que não se teme perder.



 A própria origem da palavra paixão (do latim pati, "sofrer") explica tudo. É o desejo intenso por algo, o recear e ansiar por alguém, inquietação, um sentimento avassalador que só encontra repouso numa posse segura. Mas essa tranquilidade, desde que a paixão seja justificada por um amor verdadeiro, é apenas momentânea; a ansiedade é sempre renovada. Quem ama não consegue saciar-se da beleza que encontra no ser amado, beleza essa que parece de tal modo rara a seus olhos que não pode ser substituída por nenhuma outra. 

 Ora, sem o sofrimento da paixão, não existe a capacidade de sofrimento e de sacrifício que o verdadeiro amor exige. Ovídio dizia que o amor é uma coisa cheia de medos ansiosos, que não convive bem com a majestade, a arrogância e o auto domínio; um condutor feroz que arrasta consigo as suas vítimas e só se acalma quando elas cedem ao seu poder. Só favorece os audazes e não é missão para cobardes.


 Essa coragem de não pensar, de mostrar mútua vulnerabilidade e entrega, é motivada pelo impulso cego da paixão. Mas a paixão em si mesma não é o amor verdadeiro; é apenas uma das suas facetas, um seu instrumento, a sua motivação e ao mesmo tempo, resultado e recompensa do amor. Não o amor em si.

Pensemos no amor verdadeiro como uma grande cidade, uma coroa de civilização: tem raízes profundas, história, antepassados, alicerces, edifícios. É sustentada por água e alimentos, defendida por forças de segurança, por leis e por estruturas. É, portanto, um organismo complexo.

 A paixão está para o amor como a electricidade está para uma grande cidade: permite-nos apreciá-la, pô-la a funcionar, iluminá-la à noite quando tudo parece escuro, protegê-la do frio e ornamentá-la com bonitas luzes festivas em ocasiões especiais. Só por si, no entanto, não define nem sustenta uma cidade. 

Um "amor" baseado somente na paixão é como um navio que possui apenas a casa das caldeiras.



No entanto, essa é a ideia redutora que nos pintam tantas vezes nas actuais "histórias de amor". Um sentimento imediatista, pouco elevado, quase simplório, egoísta, que vive da gratificação fácil. A faceta instintiva, imediata, menos racional do amor é imprescindível, mas não constrói alicerces, não cria raízes. Não dura. Se não se apoiar em algo mais profundo, desaba como um castelo de cartas. O amor tem esses vulcões, mas não pode perdurar se depender só deles, porque os vulcões, como as emoções egoístas que compõem a paixão ou a electricidade mal usada, são incontroláveis. Ovídio também lembrou que o amor alimentado depressa demais, ou à base de ciúme, acaba mal. 

Quando é real, o amor é maior do que isso: inclui a paixão, o fogo, o ciúme e a posse que permitem todos os feitos extraordinários, toda a nobreza e que ao mesmo tempo, lhe dão magia e intensidade. Mas tem muitos outros requintes e detalhes: a telepatia que só os verdadeiros apaixonados conhecem. A profunda identificação e empatia com o outro, de tal forma que parecem uma só pessoa. Um respeito e veneração que não se desvanecem. O impulso de elevar e construir. A resistência a todos os embates, separações e adversidades. A imortalidade e a constante renovação - mesmo da paixão, que pode acalmar com o tempo mas se o amor é de raiz, nunca conhece verdadeiro descanso.

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