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Friday, September 11, 2015

O complexo dos homens "Athos" e dos homens "D´Artagnan"


A personagem Milady, de Os Três Mosqueteiros, sempre me fascinou. Era bela, misteriosa, cosmopolita e uma espia com um estilo impecável. Aprendia directamente com o Cardeal Richelieu, um mestre nas artes do possível. Fazia a cabeça em água aos Mosqueteiros e tinha uma relação de amor-ódio com dois deles. Na versão anime, usava uma máscara preta quando era preciso e tinha um macaquinho, o Pepe. 


Como sempre gostei de personagens ambíguas - e de saias com anquinhas - na primária não descansei até me mascarar de Milady. As anquinhas 
espatifaram-se logo porque tive a pouca sorte de levar o vestido a uma festa de angariação de fundos e ser empurrada por uma multidão que queria ver de perto um actor qualquer. Era cor de rosa (já que era para a desgraça, era para a desgraça) e bastante fechado no decote, ao contrário dos da Milady porque enfim, havia a noção do apropriado e em Fevereiro faz frio, mas fez as minhas alegrias e as primas ainda o usaram também, literalmente noutros carnavais.

Um dia hei-de repetir a façanha mais a rigor. Mas voltemos a Milady e ao tema do texto: ela não é um anjo. Mas tem uma péssima pontaria para os homens da sua vida.

                        

A perturbante anti-heroína começa por ser uma freirinha que foge de um convento. Como castigo, é marcada a ferros. Então encontra Athos, que é um grande senhor, mas cheio de ideias românticas: sem a conhecer bem nem nada, fascinado pela sua beleza, decide que quer casar com ela e casa mesmo. Igualmente encantada pelo porte dele e acreditando que apesar das suas desventuras, vai finalmente ser feliz, a jovem Anne - nome que usava então - aceita. Tudo corre às mil maravilhas e a noiva revela-se - palavras dele - "uma esposa perfeita". 

 Mas, azar dos Távoras, numa caçada cai do cavalo abaixo, desmaia e o marido, para lhe acudir, rasga-lhe o vestido e vê a infamante marca no ombro da mais -que-tudo (o que nos leva a pensar que além de a idealizar demasiado, andava a relacionar-se com ela às escuras, no mínimo).

E assim como não se deu ao trabalho de lhe perguntar nada antes de casar, pois meteu na ideia que ela não era um ser humano mas um querubim caído do céu, também não se maça a indagar o que vem a ser aquilo, nem que contra ordenação leve ou grave é que ela cometeu. Acha-se ultrajado por ter dado o seu nome a uma suposta vigarista, parte do princípio que casou com a pior criminosa à face da terra, fica doido de fúria e como tem o direito de exercer a justiça nos seus domínios, zás: enforca-a numa árvore no melhor estilo Barba-Azul. 


Depois, julgando-a morta, vai à sua vida e embora sofra, faz por não pensar mais no caso porque se acha cheio de razão. Athos é um homem do seu tempo, que peca pelo orgulho: possui sentido de honra, mas mal guiado. Acha que ama, quando o que faz é querer por força moldar a pessoa que deseja à imagem perfeita que tem dela e se ela não corresponde, há problemas. Não se enganem, no entanto: este tipo de comportamento masculino é comum ainda hoje.

 Claro que Anne sobrevive, mas se já não era certa, nunca mais fica boa da cabeça e passa a usar a sua inteligência e encanto para as façanhas imortalizadas no romance. 

 Anos depois, quando ela já é uma agente secreta de gabarito, volta a cruzar-se com o marido (a início, sem saberem da identidade um do outro) e com D´ Artagnan, que sendo o rapaz intempestivo que é, se deixa encantar por ela. Ora, D´Artagnan tem outro problema: também é um teimoso, mas de uma classe diferente. 


Fica inflamado pelos encantos de Milady, agarra uma paixoneta por ela - sem ver que não fazem, de todo, o estilo um do outro - e em vez de tentar ir com calma, não descansa até conseguir o que quer. Chega a "seduzi-la" (tenho dúvidas em usar a palavra aqui) contra a vontade dela duas vezes, ora com recurso ao engano, encoberto pela noite (tenho para mim que a luz eléctrica veio descomplicar muitos relacionamentos) ora usando a força.

 E como ele há imensos hoje em dia - embora felizmente tais extremos sejam raros: vêem uma mulher que lhes agrada e ainda que não tenham muito a ver com ela (nem procurem adaptar-se) não esperam para a conhecer melhor, nem querem dar-lhe tempo para eventualmente os ver numa luz mais positiva e mudar de ideias. Acham-se umas dádivas do céu e que ela tem de lhes corresponder no momento em que lhes dá jeito. 

Claro que isso não é importar-se com ninguém, a não ser com eles mesmos.  Não abona nada a seu favor. Nem revela bom coração ou boas intenções. Uma coisa é ser decidido, outra é não ter noção. Uma mulher que ceda a tais avanços a ver no que dá, ou porque está frágil e ele até é bonito e simpático, ou porque, enfim, ele não lhe desagrada e ela não é muito boa a desfazer ilusões e não quer magoá-lo, sujeita-se a que ele desapareça mal consiga o seu objectivo, porque quem promete mundos e fundos sem pensar, não tenciona de todo cumprir.

 Moral do conto: cuidado com os "Mosqueteiros" da vida real - ou com os que se acham Mosqueteiros, muito perfeitos, muito impetuosos, quando na verdade são uns brutamontes e /ou imaturos. A vida é demasiado curta para passar o tempo a descortinar maneiras de lhes dar o troco, como a Milady...








Thursday, September 10, 2015

Presunção e água benta...


Ontem chegou-me um texto publicado pela Cosmopolitan americana, que pelos vistos está a dar muito que falar. Comecei a ler porque enfim, é mais um artigo na onda do beauty shaming, mas daqueles "tenham pena de mim que sou tão linda, ai que a beleza só traz complicações". Quase sempre essas argumentações vêm tingidas de muita hipocrisia: embora seja verdade que a beleza nem sempre facilita, antes pelo contrário, está provado que dar nas vistas pela fealdade é mais aborrecido. Não faltam por aí mulheres que se portam pessimamente para compensar a falta de auto estima e de atenção do sexo oposto. A formosura é tida como obrigação feminina (e acho que esforçar-se para estar apresentável é mesmo um dever da mulher) e a sua completa ausência, diz um ditado cruel, é um pecado mortal. Mas depois, voltamos ao mesmo: a beleza tem muito que se lhe diga; embora possua aspectos/padrões universais e intemporais, também é relativa e depende muito dos gostos de quem olha...


De modo que abri o artigo, sem olhar bem para a autora que coitadinha, descrevia que com o seu longo cabelo claro, estilo feminino, busto volumoso q.b e silhueta tonificada não pode andar sossegada nas ruas de Nova Iorque sem ouvir piropos ou que olhem para ela como um bicho raro, e que por causa disso os seus outros dons (segundo ela, habilidades atléticas, inteligência e ambições académicas) não são tidos em conta. O rosário de queixas até dizia que a pobrezita ficava a pensar "será que a minha saia é demasiado curta?" (quando uma mulher pergunta isso a si própria, é porque se calhar é mesmo) e que, para atenuar esse efeito tão arrasador da sua ofuscante beleza, passou fases em que vestiu roupa largueirona e sem graça.



Fiquei então convencida de que quem assinou o texto devia ser uma Helena de Tróia. Ou maluquinha. Porque para dar assim nas vistas numa cidade com tanta gente como a Grande Maçã, onde todos os dias chegam beldades das mais distantes paragens em busca de uma oportunidade no mundo da moda ou do espectáculo, é preciso ter algo de muito invulgar.

 Sei lá, ser uma beldade exótica estilo Angelina Jolie, uma modelo vistosa do tipo Adriana Lima, uma bomba sexy do género Kate Upton, uma bonequinha com curvas  à la Brigitte Bardot, uma beleza dramática e romântica como Elizabeth Taylor ou uma daquelas belezas discretas, mas de traços tão correctos que é preciso olhar duas ou três vezes, como Keira Knightley.

 Depois, não há beleza que não se disfarce: as mais famosas manequins, no seu dia a dia, são raparigas bonitinhas, delgadas, mas não espampanantes como se apresentam num desfile da
Victoria´s Secret.

Marilyn Monroe tinha das caras mais lindas e das silhuetas mais impecáveis que este mundo já viu (e era bonita mesmo sem maquilhagem) mas  vestida e pintada com simplicidade, não creio que fosse incomodada na rua a não ser pela fama.


 Voltemos à menina Felicia, a autora. Vai-se a ver e bom, feia a rapariga não será, se calhar até há quem a ache muito bonita mas duvido que alguém a  considere algo tão espectacular que assombre. Tem um corpo normal, que nem sequer é particularmente esculpido, e um rosto normal.

Regra de beleza nº1: esconder as etiquetas do bikini, menina!

Claro que os olhos femininos e masculinos vêem coisas diferentes - para eles, às vezes o sex appeal, o je-ne -sais-quoi pode contar mais que a beleza plástica. Mas segundo os rapazes que conheço até costumo ser muito generosa com as outras mulheres (talvez por ossos do ofício que me fazem procurar o que há de bonito em toda a gente) e as minhas amigas sempre disseram que sou boa a levantar a auto estima alheia, por isso vou fiar-me no meu julgamento: não acho Felicia nada de outro mundo.

E se há coisa que me enerva é ver "belezas" inflaccionadas, onde às vezes elas nem sequer existem.


 Quando se louva insistentemente, exageradamente, uma beleza que obviamente não está lá, há sempre marosca: ou os media querem impingir uma celebridade, ou alguém quer irritar alguém com isso, ou a família e os amigos da pessoa querem promovê-la junto de um cavalheiro em quem ela está interessada mas que não lhe liga nenhuma, ou a rapariga é tonta e os conquistadores baratos querem insuflar-lhe a vaidade para conseguir conquista fácil. Vemos isso nas redes sociais todos os dias: a rapariga mais desengraçada muda a imagem de perfil, por vezes com um aspecto ridículo, e logo as amigas escrevem "liiinda". 

Mas que seja a própria a escrever isso, a dizer isso, já sai um pouco da norma. Não sei se isto é desespero por atenção, pescar elogios ou ambos, mas é sinal de fraca inteligência - e modéstia zero-  com certeza. Há quem sofra de anorexia invertida (fatorexia) - pessoas que se vêem magras por mais que engordem. Talvez Felicia sofra de algum distúrbio primo deste, alguma coisa confusa lá na sua cabeça. Porque só quem não está bem se sujeita a comentários "consoladores" do tipo que recebeu, vulgo "não fiques triste, não és assim tão linda" ou "é mesmo difícil ser bonita- até hoje ainda não conseguiste". Cada pessoa mais "original" que aparece...




Não se pode confiar em ninguém, é o que é.


Aqui há tempos algumas habitués cá do salão disseram-me algo que me deixou a pensar com os meus botões: que convém ir mudando de manicura/cabeleireiro de tempos a tempos, porque uma vez habituando-se aos clientes começam a fazer pouca cerimónia, a ganhar confiança, a ficar demasiado à vontade, a apanhar as fraquezas,  a piorar o serviço e a só dar atenção à freguesia mais recente.

Entretanto pus-me a cogitar se isto também não será verdade quando se trata de alfaiates, costureiras, modistas e afins. O que me traumatiza só de imaginar, pois é-me muito querida a ideia do "alfaiate de confiança". É bom ter à mão quem conhece os nossos gostos, hábitos e medidas. Não ter de explicar tudo vezes sem conta e, passe a onomatopeia, saber com o que se conta.

Pois aí está uma ideia que vai contra todas as teorias de marketing que nos impingem na faculdade, mas já se sabe: nos bancos da escola não se aprende da Missa a metade. É preciso ir lá para fora, para saber como o jogo realmente funciona.  Houve imensas coisas que aprendi "oficialmente" de uma maneira mas, uma vez atirada aos lobos no mundo real, vi que se resolviam de forma inteiramente diferente.

 Ora, segundo os compêndios o mais difícil não é captar consumidores (ou seguidores, ou fãs, etc). Isso consegue-se chamando a atenção através da publicidade ou de outros meios. Complicado é fidelizar as pessoas, manter o interesse do público alvo no meio de muita oferta. Correcto? Supostamente. 


Mas talvez isso não se aplique quando se trata de quem tem na mão - ou acha que tem - um ponto fraco do cliente. Esteticistas, cabeleireiros, costureiras (e em menor escala, sapateiros e profissionais da lavandaria) têm de algum modo reféns as coisas que os clientes mais prezam. Isto para não falar nas vulnerabilidades que cabeleireiros e esteticistas encontram, ou em quem, sem querer, vai fazendo delas psicólogas ou confessoras, embora em pequena escala.

 O certo é que não convém dar demasiado poder a quem tem nas mãos o vestido preferido, aquelas calças de griffe, a saia que é precisa para o evento no dia tal - e que se, nos tempos de "Lua de Mel"   ficavam prontas num ápice, uma vez apanhada muita confiança começam a ser relegadas, adiadas para as calendas gregas, enquanto os sacos e porta fatos de novas clientes vão continuando a chegar! Desespero autêntico para quem detesta ter as suas "preciosidades" fora de casa. É que é fácil perder-lhes o norte à medida que as semanas vão passando.

 Não custava nada - e não fazia perder consumidores, creio - dizer a quem chega de novo que se aceita o trabalho, sim senhora, na semana que vem. E despachar o que já lá está há que tempos. Assim, o que se consegue é uma valente rotatividade de fregueses (não necessariamente melhores, fora os que deixam lá a roupa e nunca mais voltam) enquanto se perdem os bons. Pode haver muita gente a precisar desses serviços, mas também não faltam ateliers, salões, lavandarias que querem fazer negócio - é quase porta sim porta sim!

A lealdade tem de ser recíproca, que diabo. Bem dizem os anglo saxónicos, a familiaridade gera desrespeito...


Wednesday, September 9, 2015

Um elogio às mulheres portuguesas.



Luís Onofre


Uma portuguesa que seja bonita, bondosa e bem educada é um tesouro.

 Quem encontrou uma pode não saber disso, mas tem ali uma mulher que, como diz o povo, nunca se atrapalha. É que uma mulher capaz de caminhar de saltos na calçada portuguesa sem cair, sem se magoar, sem espatifar o calçado que tanto preza e com um mínimo de tropeços, queixas e suspiros, é capaz de resistir a tudo. Eis uma manifestação superficial -  mas nem por isso de desprezar - das melhores qualidades femininas: discrição face ao sofrimento, equilíbrio, coragem, elegância,  capacidade de sacrifício, graciosidade e flexibilidade. 

Para ter essa prática, essa destreza, é preciso ser nascida e criada cá - e descender de gerações de mulheres que descalças, de tamancas ou de sapatinhos de veludo (cada uma das quais com as suas dores!) se habituaram a driblar o terreno acidentado. É um dom. Uma arte.



Claro que isto se aplica à menina ou senhora que sabe escolher as circunstâncias: usar sapatos demasiado altos, extravagantes, vulgares ou na hora/situação errada é prova de tonteria e garridice, vontade de dar nas vistas. Não há nenhuma virtude nisso. Escolher os sapatos é tão importante como saber escolher as palavras. Poucas coisas são tão cómicas e ao mesmo tempo, tão dignas de pena, como uma tola a tentar equilibrar-se num relvado de salto agulha porque não se inteirou dos detalhes do convite ou simplesmente, quis parecer mais sexy que as raparigas prudentes que se ataviaram para passear no campo como deve ser.

Porém, uma mulher capaz de se aguentar valentemente num scarpin com um simples salto de 6 cm, caminhando como uma gazela entre os paralelos para chegar a horas a uma reunião sem esfolar os tacões nem torcer um tornozelo; uma mulher que numa recepção horrivelmente longa apresenta uma postura de rainha sobre uns Jimmy Choo de 10 cm, embora a alcatifa a sugue desgraçadamente para o solo,  é da raça da nossa Imperatriz Isabel: morrerei, mas não gritarei!




É a antítese da criaturinha cheia de chiliques, nervosinha, reivindicativa, que se acha com direito a tudo. Quem se atreve a pisar as sinuosas ruas lusitanas de saltos porque precisa de se apresentar elegante numa situação profissional, numa festa, para sair com o homem que ela ama ou simplesmente para ditar o tom junto das amigas, tem grande noção das prioridades. Como as bailarinas profissionais, sabe que não se pode ter tudo, que nada vem grátis: quem deseja algo, sacrifica-se por isso e paga o preço. Sem queixas, sem desculpas. Também tem um certo sentido de humildade e respeito pelas circunstâncias: não se acha tão maravilhosa que se dê ao luxo de simplesmente aparecer de rasos quando a ocasião pede outra coisa. Não se considera privilegiada, não toma nada por garantido.



Há por aí um ditado destes modernos da internet que diz que uma mulher forte, quando sofre, usa a sua dor como se fosse um par de stilettos: ninguém dá por nada, só vê a beleza. Há uma grande verdade aqui: uma mulher de classe, mesmo se está triste, nunca se torna ridícula. Quando muito, pode haver nela uma doce melancolia que lhe dá um certo ar de figura romântica.

 Se uma it girl é considerada um ícone de elegância mundial, ponham-na à prova. Desafiem-na a viver cá durante uns meses, a ostentar os seus bonitos sapatos nos nossos terríveis paralelos, na nossa encantadora calçadinha cujas pedras adoram soltar-se. Se ela passar esse teste, é um verdadeiro ás. Um exterminador implacável de saias. Mas duvido.



Dress code profissional: os 6 erros mais comuns


Observar eventos de negócios, conferências ou provas de acesso com muita gente é um exercício interessante: em alguns casos, quase se pode fazer o jogo "descubra quem está adequadamente vestido" (o que é uma maneira curiosa de matar o tempo e descontrair enquanto se aguarda pela próxima reunião ou entrevista, por exemplo, mas também útil para tirar inspiração ou aprender, pelo mau exemplo, o que evitar). 
 Neste post já se discutiram linhas de orientação sobre o visual apropriado a adoptar em diversos ambientes organizacionais, e aqui vimos algumas ideias para eventos corporativos.

 Em todo o caso - principalmente quando não se sabe ao certo qual será a tónica do dress code - é bom dominar os conceitos de "business attire" (mais formal e alinhado) e "business casual" (polido e profissional, mas menos rígido). Por vezes a fronteira entre os dois pode ser subtil, nomeadamente em certas ocasiões e em meios como a área editorial, a publicidade, as artes visuais, multimédia ou indústria de moda.  A esse assunto voltaremos em detalhe noutro artigo.

 Porém, independentemente de tudo isso, há erros flagrantes e detalhes que estragam o conjunto. Apresentar-se de acordo não é tudo, mas revela cuidado, respeito pelos outros e responsabilidade - além de elevar a auto confiança. Vamos então aos 6 erros mais comuns:


1 - Não se esforçar de todo



  Salvo em ambientes totalmente à vontade, é sempre estranho ver alguém comparecer a uma reunião de negócios ou entrevista de jeans claros, sandálias e um top ou t-shirt que se usaria para ir ao supermercado.
À partida, manter a agenda organizada ajuda a que se planeiem os visuais para uma reunião que exija maior aprumo, uma entrevista ou um almoço de trabalho. Convém pensar neles e experimentá-los com a devida antecedência, porque o stress é o pior conselheiro: há sempre umas calças que misteriosamente não assentam como é costume, uma camisa que afinal não combina, um botão que não estava bem fixo ou um salto que fica sem capas. Porém, quem está sujeito a situações de última hora (por exemplo, se está a tentar mudar de emprego para uma área diferente e pode ser chamada para entrevista a qualquer momento, ou se o dress code da sua empresa é bastante descontraído MENOS quando precisa de receber um cliente ou parceiro que decide aparecer de surpresa) deve estar sempre de prevenção. Adoptar um look simples, mas polido (calças escuras de bom corte, cabelo bem penteado, unhas neutras e arranjadas, etc) e ter à mão um blazer e um par de sapatos mais elegantes para mudar em caso de necessidade, evita quaisquer situações embaraçosas.

2- Too sexy (ou festivo)



Há quem, vá-se lá saber porquê, não distinga "vestir-se bem" para uma ocasião social de "vestir-se bem" para qualquer circunstância profissional. E quando isso acontece sem ser numa festa da empresa (aí o erro existe, mas é menos flagrante) mais constrangedor se torna. Tenho uma teoria sobre isso: certas pessoas só têm dois tipos de roupa. A do dia-a-dia, jeans, t-shirts e afins, e as toilettes que usam igualmente para um baptizado, uma noite na discoteca ou uma entrevista de trabalho. Ora, há peças (como certos vestidos pretos) que se prestam a isso, mas são poucas; e mesmo assim, a maquilhagem, o calçado e os acessórios devem variar de acordo com a situação.
 Recordo-me de ver uma professora usar um vestido-tubo muito curto e decotado, sandálias de salto agulha em verniz, unhas das mãos e dos pés rosa choque e cabelo volumoso solto pelas costas (nuas) abaixo. Estava muito bem...para dançar toda a noite num clube pouco selecto. Qualquer situação profissional exige certa sobriedade, ainda que o código de vestuário não seja rígido. Grandes decotes, saias mais do que um palmo acima do joelho, muita bijutaria, maquilhagem brilhante e sapatos espampanantes são uma distracção escusada. 

3 - Calçado demasiado descontraído



Apresentar-se com roupa relativamente "formal" mas combinada com calçado de aspecto muito desportivo ou prático é quase pior do que não se esforçar de todo. Além de os sapatos dizerem muito sobre os homens e mulheres que os usam, esteticamente falando um tailleur escuro e estruturado não vai bem com sandálias rasas de ar campestre, por exemplo. Quem por qualquer motivo privilegia o conforto ou prefere não investir demasiado em sapatos de ar sofisticado, convém que adopte modelos neutro, adaptáveis a diferentes ocasiões. Umas bailarinas elegantes de boa qualidade (para  elas) e certos loafers discretos (para eles) passam incólumes na maioria dos casos.

4 - Acessórios muito casuais, espampanantes, desleixados ou de má qualidade


O mesmo vale para a carteira e acessórios. Um visual composto exige uma carteira ligeiramente estruturada, não demasiado grande, numa cor que se harmonize e acima de tudo, que não dê nas vistas por apresentar pontos a ceder ou um material duvidoso. De igual modo, é de esquecer o excesso de penduricalhos, brilhinhos, grandes brincos, bijutaria de artesanato urbano em lã, and so on. Seria escusado dizer isto, mas mal não faz porque é algo que se vê imenso- até em pivots de noticiários (que as regras mandavam não usar nada que distraisse o espectador). 

5 - Rosto deslavado

Preferir um look natural é legítimo e passar bem sem maquilhagem é um direito de cada uma. Mas olheiras de meio metro, cavadas pela cara abaixo, manchas ou sobrancelhas desalinhadas dão um ar de desleixo -  pior ainda, podem aparentar que passou a noite a festejar como se não houvesse amanhã ou dar a ilusão de algum problema de saúde. Um corrector (até há homens que os usam, em caso de emergência) e um bálsamo labial não fazem mal a ninguém.

6 - Declarar a sua "tribo" através da roupa


Ainda que trabalhe ou procure emprego em indústrias mais avant garde em termos de vestuário (como música, televisão, moda ou design) reuniões ou entrevistas importantes talvez não sejam o melhor momento de gritar ao mundo que é uma hippie empedernida, um eterno rebelde, um MC de gabarito nas horas vagas, um activista desta ou daquela causa, uma gótica de último grau, fã da Barbie ou fanático de determinada banda. É que além de não ser o look mais profissional, há sempre hipótese de se deparar com alguém que embirre com o que você adora e não só as primeiras impressões contam, como as pessoas- mesmo em cargos de relevo - podem ser bastante infantis e recusar-se a ver para além disso. Volto a dizer, há ocasiões para tudo. Embora o estilo de cada um (a) possa estar sempre presente no vestuário, convém fazê-lo de forma subtil. Por exemplo, as rendas pretas podem ser substituídas por um top de manga comprida inofensivo, que assente bem, ou por uma camisa dessa cor, e assim por diante. Não traga para a mesa informações pessoais ou acessórias, que não são para ali chamadas.














Tuesday, September 8, 2015

As pessoas-traça.


Há algumas noites atrás tive um sonho mesmo estranho: uma pessoa vil e infame estava a fazer negaças a outra, que, com a melhor cara número três, lhe dava o desprezo mais nítido do mundo. Mas eis que a criatura malvada, que não sabia o que era bom para ela (coisa muito vulgar em sonhos, mas igualmente nas pessoas vis e infames) se transforma numa traça e desata a esvoaçar por ali. 

Eu avisei que o sonho era esquisito!

E que faz a outra pessoa?

 Olha para um lado e para o outro, para se certificar que ninguém via e acto contínuo, zás. Esborracha a traça, e eu aflita a assistir a tudo! Comecei a ter dilemas de consciência. "Calma, Sissi, não se cometeu nenhum crime...mesmo que alguém tivesse visto, era só uma pessoa a matar uma traça, que de resto nem sentiu o que lhe aconteceu...oficialmente não morreu ninguém"...dizia eu para mim própria, tentando convencer-me de que tinha apenas assistido a um tracicídio e não um homicídio. E continuei assim pelo que me pareceu um bom bocado, a pensar "boa, agora se não aviso a Polícia vou para o Inferno" e "vai ser bonito quando a pessoa for dada como desaparecida e desatar a ter o retrato divulgado por aí...ainda vão dizer às autoridades que fui a última testemunha do seu paradeiro...por outro lado, não tenho culpa se oficialmente a criatura desapareceu diante dos olhos...para todos os efeitos, só vi uma traça. E mesmo que eu fosse à polícia, ia acusar quem de quê? Levo o que resta do bicho num frasco para análise? Internam-me no manicómio de certeza".

Torturada com tal crise de consciência - e a possibilidade de longos anos de burocracia, entrevistas na TVI e processos em tribunal -  acordei.

O mais estranho é que felizmente, há anos que não sofro com as traças, nem vejo nenhuma. Nem pensei em tal ou vi algo sobre o assunto. Não sei onde fui buscar tal coisa; por isso, embora evite dar muito crédito a sonhos, convenci-me de que só podia ser uma metáfora lá do meu inconsciente.

E eureka, cheguei à conclusão de que as pessoas-traça me incomodam. Aliás, são um aborrecimento para a sociedade. 



Não confundir pessoas-traça com o "Homem Traça", uma criatura sinistra que alegadamente andou a assustar as almas durante a década de 1960 no Sul dos E.U.A. e que continua a fascinar os apaixonados da criptozoologia.

As pessoas-traça não são tão famosas nem fora do comum como o Homem Traça: nem assunto para os criptozoólogos; antes fossem! Antes, são vulgares como as traças, em todos os sentidos do vulgar. Não têm nada de extraordinário, e por isso mesmo ninguém dá por elas até ser tarde demais, o que facilita que se instalem como uma verdadeira praga.

 As pessoas-traça comportam-se em tudo como as traças verdadeiras: parecem insignificantes, inofensivas, mas estragam tudo; e embora sejam umas criaturas sem beleza e sem gosto, só querem alimentar-se do bom e do melhor.


 Já viram alguma traça roer, sei, lá, poliéster? Era óptimo que assim fosse, davam cabo de muita roupa feia que nos fere os olhos por aí, mas nem pó. Escolhem cuidadosamente os armários (e as bibliotecas) de gente com estilo, mas incauta e/ou que tenha encantadora mobília vintage, mas não desinfestada, e tratam de atacar tudo quanto é livros valiosos, seda, caxemira, veludos, lã, peles luxuosas, pergaminhos...como não são bonitas nem fazem coisas bonitas, tratam de as destruir. Se ninguém lhes atira naftalina nem chama o controlo de pragas, não resta um tecido sem buracos nem um documento intacto.

E vão-se fartando, enfardando, imiscuindo-se, incomodando, sem respeito por marcas, etiquetas, cerimónias, história, valor afectivo, antiguidades, custos, sacrifícios, sem contribuir para nada de útil, sem pensar "se calhar não fomos convidadas...estamos a mais...incomodamos toda a gente", tudo  para realizar a sua ambição suprema: tornarem-se mariposas.

 Pensam elas: se comermos caxemira, seremos lindas! Mas ai, quando chega o dia de ganhar asas...não as têm  gloriosas e coloridas como tanto cobiçavam. Nunca serão os seres elegantes, graciosos, de porte principesco que sonhavam, cruzando os ares, enchendo os olhos e beijando as flores. Continuam os mesmos bicharocos gorduchos, cinzentões, rapaces, de voo atabalhoado, escondidos pelos cantos escuros e húmidos.

 Não alegram a vista como as borboletas e as libelinhas, não fazem mel como as abelhas, não cantam como os grilos, nem sequer provocam medo e caçam moscas como as aranhas ...não têm dom algum a não ser encher tudo de pó, provocar repulsa e enfado.

 Pessoas traça são exactamente assim, mas sem asas. Acham que, apesar de não terem nada de especial, se se mantiverem caladinhas e se introduzirem neste ou naquele meio, se se apoderarem do brilho dos outros, se estiverem expostas à beleza, ao espírito, à abundância ou ao estatuto, perderão o ar de traças e acabarão por se transformar noutra coisa - o que nunca acontece pois para começar, têm o espírito parasita e usam métodos parasitas...

Acudam!!!

 E a não ser que lhes cortem as bases com uma boa naftalina psicológica , esburacam tudo o que tocam. A melhor pessoa, exposta a elas, torna-se como seda roída. O seu espírito fica tão danificado como um livro mordiscado de alto a baixo pela bicharada. Uma casa, família ou grupo atacado por elas nunca mais fica num estado apresentável. 

 As empresas de desinfestação andam a desperdiçar um negócio da China, não tenhamos disso a mínima dúvida...





Sunday, September 6, 2015

A nobre arte de lidar com dois extremos: pessimistas e patetas alegres

Nos triunfos romanos, havia sempre um grilo falante que repetia ao homenageado "memento mori!"(lembra-te de que és mortal) para lhe conservar os pés na terra. Um pessimista de serviço!


Em qualquer organização humana (equipa, família, exército, partido, grupo de amigos, banda, etc) é quase certo que haverá um pateta alegre ou uma Pollyanna (alguém que vê tudo cor de rosa, está sempre animado e só olha ao lado positivo das coisas) e um pessimista empedernido, para quem tudo é negro. Depois há os somewhere in between. Idealmente, todos devíamos saber
 ser optimistas sensatos ou pessimistas realistas consoante as circunstâncias.

Em certas ocasiões, é útil ser pessimista: considerar o pior cenário possível e estabelecer os necessários planos de contingência; mas uma vez isso feito, voltar a um optimismo razoável e determinado, em modo confia como se tudo dependesse de Deus, trabalha como se tudo dependesse de ti, sem se deter nos obstáculos, no diz-que-disse ou permitir que o excesso de informação nos tire os olhos do objectivo.

 Ora, Maquiavel disse que se deve fechar os ouvidos a toda a gente (limitando o tal ruído inútil ou excesso de informação) menos a um número muito pequeno de conselheiros cuidadosamente escolhidos a quem é permitido dizer a verdade -  mas só se lha pedirem, atenção.

  Atrevo-me a acrescentar que entre esses, o melhor é haver um pessimista e um optimista, estilo anjinho e diabinho. Mas que só falem quando os deixarem, para não que não coloquem desnecessários macaquinhos no sótão.

O Senhor D. Sebastião, um optimista ferrenho.
 Isto porquê?  Porque o optimista, o pateta alegre, a Pollyanna do grupo, é um tanto irresponsável. Só vê as vantagens, os louros e os pontos fortes de quem apoia; não considera os perigos nem os detalhes; olha aos fins, mas não os meios, nem aos obstáculos, nem ao caminho para lá chegar. Sobrestima a capacidade da equipa mas cai no erro de subestimar o adversário. Para o optimista nós somos os melhores, ninguém nos bate, as desvantagens são eliminadas com o fogo da determinação, a eles como San´Tiago aos mouros. É o herói doido dos filmes que se lança à escaramuça contra um grupo muito maior, achando que todas essas cenas acabam como nos filmes do Bruce Lee. É um D. Sebastião, que contra todas as possibilidades e maus augúrios leva a sua avante, diz o cometa que acometa, nem que se mate e arraste toda a gente com ele. E claro, há riscos em dar um aval cego a  estas pessoas com mais coragem do que miolos, que não pensam duas vezes.



 Porém, elas têm um papel necessário: são as cheerleaders de serviço. Cumprem o plano até ao fim sem discutir. São boas a levar estratégias adiante, sem parar para ver as manobras de diversão do adversário. Às vezes é mesmo preciso ter um pateta alegre por perto, que acredite em nós de olhos fechados, que nos contagie com o seu entusiasmo, que transmita confiança e serenidade ainda que o caso esteja muito preto.

Mas os pessimistas empedernidos têm o seu papel também: consideram todas as possibilidades. Procuram todas as fontes de informação, porque acreditam na máxima "conhecimento é poder". Sem os pessimistas, talvez os Aliados não tivessem ganho a guerra: os espiões são pessimistas por natureza; contam com o pior e não descansam enquanto não colhem provas de que o piorio pode mesmo acontecer. Estão sempre com um olho no burro, outro no cigano. Eles são os S. Tomés incrédulos de todas as organizações. Chamam-nos à terra, recordando as consequências de um possível fracasso, como os dignatários romanos que tinham a função de ir atrás de um herói levado em triunfo, dizendo "lembra-te de que és mortal" enquanto lhe seguravam a coroa de louros.

Mr. Crabb, na série Mr. Selfridge, é um contabilista
 sensato, mas eterna alma aflita.

 Mas embora sejam úteis, pecam por excesso de prudência; caem na demora, que só traz desvantagens. Nos momentos de crise em que é necessário levar um plano até ao fim (e já se sabe que a flexibilidade é precisa, mas que é um erro mudar constantemente de estratégia) são verdadeiras aves agoirentas, almas aflitas sempre com cara de quem comeu um limão sem açúcar. Em caso de um desafio maior, ou se as dificuldades apertarem, eis que para eles "está tudo perdido, isto não vai dar em nada, vê se és realista". Descontrolam-se, desarranjam-se, deixam-se intimidar com qualquer bluff, acreditam sempre que os maus é que vencem porque têm mais artimanhas, que a batota e a maldade podem mais do que um bom produto ou uma causa justa e acima de tudo, desrespeitam a máxima de Sun Tsu: se te conheceres a ti mesmo e ao adversário, não terás de temer o resultado de mil batalhas.

 Um pessimista esquece a estratégia que foi delineada, os pontos fracos e fortes seus e dos outros; é tão cauteloso que na sua ânsia de informação, esquece os sinais mais óbvios e que por vezes, há coisas que é melhor ignorar para não perturbar a moral das tropas; é preciso estar constantemente a recordá-lo "este é o plano", "já vimos que assim não resulta" e "não podemos dar-nos ao luxo de estar sempre a olhar para trás e para os lados".


 Em suma, se um pessimista tiver o papel de conselheiro, os papéis acabam por se inverter: é o líder (que tem outras preocupações em mente) que tem de o consolar, de o animar, de falar como se estivesse a convencer-se a si próprio. Isso acaba por danificar a confiança e já se sabe: nenhum homem está de facto derrotado até a sua confiança cair por terra. Testam a paciência, dá vontade de dispensar os seus serviços e se não os conhecêssemos, diríamos que estão a torcer pela equipa adversária ou a sabotar tudo.

 Quando penso nisto, acho que um líder em larga escala - seja de uma grande empresa, de um clube desportivo, de uma campanha militar - precisa mesmo de uma mente genial, nervos de aço e paciência de Job para aguentar os próprios aliados, quanto mais o inimigo. Tiro-lhes o meu chapéu...mas lidar com tais "ajudas" em micro organizações - amigos, projectos, famílias -  também é um teste à santidade, ó se é...









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