Talvez esse homem cujo nome não é mencionado despertasse a minha curiosidade porque gosto de romanos e lá em casa havia vários livros de História Militar que falavam de legionários, que eu devorava quando era pequena. Talvez me identificasse com ele por vir de uma família de militares. Mas foi um episódio que imaginei imensas vezes na minha cabeça e hoje, olhando para ele com outros olhos, consigo precisar melhor o que me encantava tanto no
Centurião de Cafarnaum.
O seu cargo também indica que seria um homem sensato, pouco influenciável. E se havia multidões a seguir um humilde carpinteiro chamando-o mestre, filho de David, etc, não faltavam vozes que O acusavam de intrujão e agitador. Mas - crenças à parte - o Centurião teria forçosamente os olhos treinados para distinguir nos homens, mediante um simples golpe de vista, aquela chama especial. Um soldado necessita de confiar no seu instinto contra todas as vozes exteriores, de ser ousado, de agarrar as oportunidades, principalmente em momentos de crise. Tudo qualidades que convêm a um homem de bem, ainda que nunca tenha ido à guerra: confiar quando sente nas suas entranhas que é certo, mesmo que haja rumores em contrário; acreditar, por vezes contra toda a esperança; ser corajoso para fazer algo que o possa pôr em risco ou cobri-lo de ridículo, em nome do que é correcto.

Estas virtudes que imortalizaram um anónimo homem de armas continuam a ser indispensáveis aos homens de hoje, casados ou solteiros, de todas as profissões e quadrantes sociais. Profissionais, maridos, pais, quantos não há - mesmo com formação religiosa - que não se detêm no exemplo do Centurião? Quantos são exigentes a despropósito, indelicados com os outros por se ufanarem da sua posição, impacientes ou sem empatia com quem está abaixo deles na linha de comando, indecisos e cobardes mesmo quando a oportunidade se apresenta, desconfiados até dos que lhes são mais próximos mas prontos a crer em boatos perniciosos, demasiado orgulhosos para o seu próprio bem, e assim por diante?
Bondade, autoridade, firmeza, coragem, confiança, modéstia, valor, fé em si próprio e nos outros: devia haver um Centurião de Cafarnaum em cada homem, e cada mulher devia procurar essas qualidades no companheiro que escolher.