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Saturday, October 17, 2015

Quando os corações partidos começam cedo


Lembram-se de quando eram pequenas e alguém dizia que este menino ou aquele actor/personagem de TV era vosso "namorado"? Eu não gostava nada dessas brincadeiras (que aliás, não eram encorajadas lá em casa pois podem dar muito maus resultados e fazer as pequenitas serem coquettes antes do tempo). Ficava capaz de me sumir pelo chão abaixo. 

Na primeira classe havia um pequeno amoroso, o Vasquinho, que tinha o hábito de me dar a mão e andar assim comigo todo o recreio. Era tudo na maior inocência, olhava para ele como para um primo (e porque era o único rapaz que não oferecia nem levava pancada) até que quando o resto da pequenada entendeu que éramos olha os namorados, primos e casados. Fiquei para morrer, a professora interveio e disse toda despachada "qual é o mal de andar de mão dada? Até eu ando, se quiser!"  mas vi-me tão atrapalhada que a "intimidade" acabou ali. 



Passadas umas semanas dei com uma pequena toda serigaita, a Luisinha, sentada ao colo do Vasquinho, declarando-se categoricamente sua namorada. Essa não se atrapalhava, não! Lá está o belo resultado da falta de chinelo e de cultivar esses ditos em casa: o atrevimento começa cedo, a copiar o que se vê nas novelas...não sabia bem que nome dar a isso, mas achei-a uma descaradona e cá comigo sentia que aquilo não parecia bem...quanto ao Vasquinho, pensei que era um maria vai com as outras mas ainda veio à minha festa de aniversário e tudo, que já se sabe:  "namoro" com serigaitas nunca é coisa séria, ou não convém que seja.



 Adiante: embora ache que nunca permitiria tais tonterias a filha ou sobrinha minha, achei muita graça a esta pequenita que se "apaixonou" pelo Adam Levine. Não tem mau gosto, não, porque o cantor dos Maroon 5, sem ser uma beleza de outro mundo  é um charme, com um sorriso encantador e até faz carinhas...um homem que faz carinhas, que é expressivo, é sempre perigoso. Ainda por cima canta bem que se farta e tem canções que pessoalmente adoro, como Misery e Moves like Jagger



Quando soube que o seu artista preferido era casado, Mila fez uma birra, a mãe gravou a birra (e como hoje em dia nada fica privado, tratou de a colocar no Youtube, tornando-a viral) e Mila- que um dia levará as mãos à cabeça se os coleguinhas se lembrarem disto, ou não - acabou por ir ao programa da Ellen conhecer o seu ídolo. Recebeu uma rosa e tudo, mas depois envergonhou-se...

Pobre Mila! Bem gostaria de lhe dizer que no futuro não vai choramingar por homem nenhum, e que mesmo que chore um bocadito tudo se resolverá como que por encanto ao tomar uma dose de realidade. Ao perceber que aquele rapaz incrível, visto com olhos de ver, não é um anjo caído do céu,mas um ser humano igual aos outros. E no fundo é assim, só não se aprende a lição tão cedo nem de uma forma tão pública nem tão "espectaculosa"...

O complexo Andrómeda: encontrar o amor, manter o amor


Crystalina Evert tem uma frase que considero muito sábia: "em vez de procurar o homem ideal, torne-se a mulher ideal e deixe que ele a encontre".

  É verdade que as mulheres de hoje procuram demasiado; deixaram de cultivar a ideia da princesa distante e prometida numa torre. Poucas mulheres actuais são Rapunzéis, Andrómedas ou Belas Adormecidas.  A princesa de hoje desencanta-se sozinha, salta da torre, monta no cavalo branco e vai em busca do príncipe. Sem perceber, se calhar, que o cavalo branco que levou não estava ali por obra das fadas -  era o do príncipe que fica apeado...

É claro que no caminho se depara com montes de aventureiros e cavaleiros andantes que fazem de príncipes, mas não são. Algumas - agora se saltarmos da fábula por uns  momentos e voltarmos à dura realidade - seduzem, ou deixam-se seduzir, para obterem amor. É claro que fazem tudo ao contrário e da maneira mais triste.


Por sua vez o príncipe, embora a sociedade o vá habituando ao contrário, pode tropeçar nesta ou naquela donzela em apuros, mas inconscientemente - e agora a pé - vai levantando os olhos para todas as torres que se lhe deparam na estrada. À procura de uma mulher que é especial porque não anda à procura dele. A mulher dos seus sonhos está na sua torre, senhora do seu castelo, dona da sua própria vida e é vulnerável que chegue para se deixar salvar- o que não quer dizer que não o ajude se necessário, mas que lhe deixa o protagonismo, o orgulho masculino intacto. Que o deixa conquistá-la. Que se torna a sua maior façanha e o seu melhor galardão. Os homens querem encontrar e as mulheres, ser encontradas. Eles querem salvar e elas, ser resgatadas.

Mas o resultado das mixórdias modernas - que baralham os guiões e os contos -  é que os nossos heróis se desencontram, ou é o cabo dos trabalhos para se encontrarem. 

Para que o amor apareça, é preciso antes de mais tornar-se passível de ser amada; embelezar a alma e o corpo, ter uma vida em que apeteça entrar. Não encerrada numa torre - afinal, a torre é geralmente parte de todo um castelo com vida, e pessoas a circular - mas dona dela, com as chaves na mão e as emoções sob controlo. Ser a donzela sobre a qual os trovadores cantam e que os cavaleiros de valor das redondezas querem conhecer, não uma andarilha ou peregrina procurando desesperada o que devia ser seu por direito, ou oferecendo ao desbarato o que devia ser o prémio máximo para o mais valente. Escolher, em vez de ser escolhida. O que é elevado atrai pessoas elevadas.


 Porém, quando os dois protagonistas da história se encontram enfim, há outro desafio dos nossos tempos: o viveram felizes para sempre já não está tão acessível. Por um lado, porque se raciocina demais. As opções são tantas que o conto raramente acaba com o herói a levar a donzela para a sua fortaleza. Há tantas modalidades de relacionamento! Tantas pessoas disponíveis! E se aparece uma opção mais especial ainda? Como o sequioso no deserto que sai do seu oásis em busca da miragem que lhe parece melhor...apenas para se desiludir mais adiante.

Se calhar, o cavaleiro convida-a a viver uns tempos juntos na casa dos sete anões a meio caminho, "a ver". Zás, lá se vai a imagem romântica. E aí o raciocínio acaba, pois está-se mesmo a ver que não perdem esse tempo a conhecer a alma um do outro, a virar-se do avesso para perceber se não há ali a mínima coisa de insuportável, que possa inviabilizar a convivência. Tratam de tirar partido de todas as alegrias que deveriam vir mais tarde, sem perceber se são realmente compatíveis. E se no início essa comunicação não verbal supre todas as outras, quando tudo acalma pela ordem natural das paixões da vida, pouco ou nada resta. 


Se o ideal romântico de "levou-a para o seu castelo e viveram felizes para sempre" é exagerado e repentino mas ao menos ficava salva a honra do convento, a pobre princesa de hoje aceita - contente da vida - ser tratada como uma rapariga da taberna (ou barregã, se quisermos ser mesmo medievais!) a ver no que dá. Lá se vai a dignidade do conto...até porque hoje em dia já não há juramentos inquebráveis sem notário, como no Amadis de Gaula, em que Perion beijava a espada, prometia vir buscar a Elisena, sua única amada para todo o sempre demorasse o que demorasse, e isso valia um escrito...

Então, haverá meio termo entre o idealismo dos contos de fadas e o romantismo encapotado dos nossos dias? 

Ora, simples - seria entre o salvamento e o vitória, vitória, acabou-se a história, conversar bastante, passear bastante, testar os limites um do outro, ver a pessoa por todos os ângulos sabendo que quem se aventura a amar aventura-se a sofrer e que nada é garantido - tudo isso antes de o caso se tornar demasiado sério. E só caso valha a pena, quando o amor é sólido e seguro, quando se viu o melhor e o pior, abrir as portas da torre, do coração, do sentido que quiserem dar à metáfora. Esse é o amor que dura, que não se baseia nem no capricho nem no egoísmo, nem nos lindos olhos.

Isto de modernizarem tudo, até os paradigmas, só arranja complicações...






Friday, October 16, 2015

A triste sina de um homem banana.



"Uma mulher, que teria tido estofo para governar uma nação, casou-se com um rapaz novo, empregado dos correios. No seu serviço ele era muito apreciado, mas na família perdia terreno de ano para ano. A educação dos filhos, etc...tudo era obra só da mãe. Quanto mais independente e seguro se tornava pela sua profissão, mais dependente se tornava no sector doméstico. Quando no princípio do matrimónio podia cultivar sozinho um pedacito de terra, como ocupação dos tempos livres, depois de 40 anos de casado já não sabia onde nem quando se arava, se ceifava, se semeava. A mulher tantas vezes lhe mostrara que «tudo fazia mal» que o homem perdeu toda e qualquer segurança e agora era simples executor de ordens".


Ernst Ell, 1972

Casos destes há aos montes. Recordo-me em particular de um jovem casal de médicos que estava noivo- ele um amor de pessoa, honesto, claramente bem educado, mas fraco em tudo. Pequenino, magrinho e lourinho, menino da cidade, fazia um amplo contraste com a futura mulher, mocetona do campo feita doutora, morena e roliça, trapaceira que Deus nos livre (com aquela cupidez aldeã que dá mau nome à honrada gente da aldeia) muito vaidosa da sua nova posição sem ter refinado as maneiras. Um verdadeiro "nunca sirvas quem serviu"...uma megera! O pobre não era tido nem achado em nada e àquela bruxa, só faltava berrar ao futuro marido que se calasse.  

 Ao que sei o rapaz, que devia ter um bom anjo da guarda, uma família muito atenta que lhe puxou as orelhas ou um macho alfa escondido algures naquele cabedalinho de periquito, não chegou a casar. E seria uma pena se tivesse ido para a frente com tal ideia, porque me pareceu de facto ser boa pessoa...

 Ora, a bananice, a passividade, a fraqueza, a indolência que conduz à falta de dignidade - tal como o autoritarismo, o despotismo e a impertinência que tornam a convivência impossível-  não são defeitos exclusivos de um sexo ou do outro. 

Sempre houve homens beta (vulgo paspalhos) e mulheres excessivamente gentis (vulgo tapete); sempre houve homens tiranos (a julgar que são alfa) e mulheres mandonas (vulgo generalas). O excesso de uma coisa ou de outra nunca foi bom, assinale-se...e para além de haver tantas preferências como pessoas, quem é muito autoritário, seja homem ou mulher, tende a escolher quem pode manobrar ou dominar. 

Simplesmente, os papéis tradicionais de género eram mais vincados o que (pondo de parte os tais exageros que nunca dão bom resultado) fazia com que a sociedade lá fosse funcionando. Os homens eram encorajados a ser homens e as mulheres, mulheres - o que contentava a tradição e a natureza...

 Hoje, mercê de uma igualdade descompensada em termos de comportamento (que nada tem a ver com a justa igualdade de direitos e deveres) tornou-se muito menos estigmatizante - é até encorajado - que um homem seja comodamente banana e ameninado. Todo pela igualdade...para o que pensa que lhe convém, como já vimos.




Há dias um blog que até aprecio, apesar da sua maneira brusca de pôr as coisas - pois é escrito por um homem que não se ensaia de dizer o que é politicamente incorrecto - saiu-se com um texto que a brincar (e cá com os meus botões, espero que seja a brincar) explica como a igualdade matou o cavalheirismo. E tristemente, é verdade. 

O blogger - honra lhe seja feita - teve a coragem de pôr, preto no branco, o que pensava, que é o que muitos pensam hoje em dia: "É eu apanhar-me num naufrágio a ver se cedo o lugar na fila dos botes salva-vidas. Até passo à frente, se for preciso! Derrubo duas ou três velhas e mando uma grávida borda fora". 

E que tem isto a ver com ser banana, já que mandar uma grávida borda fora parece bastante assertivo (mau, mas assertivo?). É que quando se fala de hombridade, força e delicadeza andam juntas. O homem que é masculino que chegue para impor respeito nunca se colocaria em pé de igualdade com quem é fisicamente mais fraco. Para essa capacidade de auto domínio, de noção da própria força, de sacrifício- que é a essência do cavalheirismo - é preciso coragem. É preciso...ser homem. 

E o homem paspalho é, por muito valentão que até pareça, um cobardolas e um egoísta. Atenção, que nem todos os homens bananas pecam por ser demasiado bonzinhos. Há quase sempre um fundo de velhacaria nisso tudo.




Então analisemos o homem banana, o homem paspalho, o homem beta todo a favor da igualdade absoluta (porque a igualdade lhe dá jeito). 

O homem beta toda a vida preferiu as mulheres ultra independentes e mandonas: as que o convidam, tomam a iniciativa toda e se arranjar uma que o sustente, tanto melhor, porque orgulho masculino é uma coisa ultrapassada e arcaica. Atenção: não digo que uma mulher não tome sobre os ombros todo o sustento da casa se a situação o exigir, mas a longo prazo...se a total dependência feminina não é desejável, não há nada mais decadente do que um homem sentado no sofá enquanto a esposa se esfalfa! E não se enganem, muitos lá por serem pela igualdade não tomam o caso a sério quando se trata de lavar a louça e mudar fraldas...

Pois bem, lá no fundo o homem banana gostava era de não fazer nenhum. De não se responsabilizar por nada, nem pelo relacionamento, para poder "safar-se" de fininho quando bem entender. É o tipo que, caso haja guerra, dá um tiro no pé para não se arriscar e se manifesta pela paz enquanto os homens - e até mulheres -  dão o sangue.  Em boa verdade, não se ralaria minimamente de ser sustentado, paparicado e trazido ao colo por mulheres. Então, como é demasiado passivo para conquistar raparigas, escolhe uma mulher da luta que ande atrás dele, a que estiver mais à mão, mesmo que não esteja muito apaixonado. Ainda que profissionalmente se comporte como um macho alfa e um brutamontes (e não faltam por aí homens de autoridade que no fundo são uns pés-de-salsa) na realidade gosta que façam tudo por ele. Ter palavra, proteger o clã, dar o peito às balas, ser firme...não é com ele. Só terá uma atitude aparentemente masculina- que na realidade é bruta e selvagem - se o seu conforto for ameaçado. Por isso, instala-se confortavelmente com uma mulher mandona, para poder continuar a proceder como o capacho que na realidade gosta de ser. Ou que lhe dá menos trabalho ser. 

                                          

E está-se mesmo a longo prazo isso não resulta. Bem lá no fundo, o homem banana acaba por se ressentir. Aceita essa realidade porque é demasiado preguiçoso, porque lhe falta dignidade, mas às vezes gostava de dispor também, de ter um papel mais masculino, de ver a mulher rendida. Alguns vingam-se fazendo tropelias pelas costas e arranjando complicações financeiras do arco da velha em caso de divórcio.

Por sua vez, por muito autoritária que seja - e às vezes, quanto mais forte a personalidade dela, melhor lhe faria um homem a condizer - a mulher gostaria de ter um companheiro em quem confiar, que a apoiasse, que lhe tirasse o fôlego no bom sentido, que decidisse por ela ao menos de vez em quando para lhe aliviar o trabalho dos ombros, que a defendesse, que pusesse ordem na capoeira quando a pequenada está toda aos guinchos, enfim...

Chega a lamentar não ter fugido com o bad boy do liceu, que esse era mau caminho, mas ao menos fingia ser masculino! E frustrada, se for realmente uma generala, acaba por desprezar o companheiro, esborrachá-lo, acachapá-lo, deitar o desgraçado abaixo sempre que pode, usá-lo como um trapo vil.

 Como alguém disse, "as mulheres tentam que os homens se tornem iguais a elas, mas quando isso sucede, já não gostam deles". Eis a sina dos bananas, a quem o excesso de igualdade e de facilidade parece tão conveniente...








E ser discreta, não?


Uma estudante de 20 anos ficou extremamente em baixo porque os retratos que tirou antes e depois da maquilhagem se transformarem em memes cruéis. Ashley, que sofre de alguns problemas de acne e estava com um severo ataque de alergia que piorou tudo, pediu a uma amiga maquilhadora que a ajudasse a disfarçar o desastre. E a amiga, boa profissional mas imprudente (ou amiga da onça) captou o before and after para o seu portfolio online.

Entretanto alguém, não se lembrando que a rapariga que serviu de modelo para a makeover era uma pessoa normal com sentimentos como toda a gente, fez o meme relativamente inocente acima: "há pessoas que conseguem este resultadão e eu não sou capaz de disfarçar uma simples borbulha". Daí à imagem se tornar viral foi um pulinho e a pobre coitada recebeu tantos comentários cruéis que perdeu a vontade de sair de casa.

Ora, dois pontos aqui: pessoalmente, apesar de adorar a arte da maquilhagem, não sou a favor da makeup exagerada que recentemente saltou dos estúdios para a rua. Há lugares para tudo e se algo torna a pessoa irreconhecível, bem...se calhar é demasiado.



 Mais grave, uma pele estragada não se resolve com maquilhagem, mas com boa limpeza e um bom médico (começando pela clínica geral, pois muitas vezes o dermatologista não cura tudo sozinho). Ou se tem uma pele bonita ou não se tem, e embora correctores e bases sejam uma preciosa ajuda para uniformizar (e cobrir emergências que acontecem a qualquer uma) é ilusão pensar que a maleita não se nota. Volumes e altinhos, não há nada que disfarce!

  O hábito de colocar filtros em tudo e mais alguma coisa, de alterar os traços até à caricatura, é tão mau como o oposto - a obsessão pela beleza real que manda exibir acne, celulite e estrias nas redes sociais.

Importa encontrar um meio termo - beleza realçada, polida pelas artes femininas, pela arte subtil do disfarce se necessário, mas sempre com bom senso, acompanhada do melhor enfeite que a formosura pode ter: a discrição.

Mas acima de tudo, nada disto aconteceria se fosse aplicada hoje a regra que muitas avós ensinavam, mas que se vai perdendo: nunca deixe que a vejam no seu pior. O que actualizando para os nossos dias, tem forçosamente de contemplar a cláusula: as fragilidades e disparates, se existem, são para esconder  - e principalmente, para passar longe, muito longe, de uma câmara.













Thursday, October 15, 2015

Frase do dia: os males da experiência

"Gostava que a experiência tivesse alma e se lembrasse das lágrimas que tem custado"

Jules Sandeau


Todos dizemos que a experiência ensina, que o sofrimento purifica, é um "abre olhos" e um excelente professor, que põe à prova, que é caindo que se aprende... e inúmeras frases do género. É dito em muitas culturas e muitos credos; dizemos isso porque é mesmo verdade, não há como negar, e porque, que remédio...depois do mal feito, mais vale aprender alguma coisa com a expiação e não repetir a graça. A erros qualquer um está sujeito; não aprender com isso e cair no mesmo é que já é ser pateta ou obtuso. O que, bem observado, nos leva à conclusão de que há muita gente obtusa...


 Mas já o disse algures por aqui: o sofrimento, se é um daqueles mestres mauzões tipo kung fu que ensinam com palmatória (e toda a gente precisa de um desses de vez em quando) não é o único meio de aprender. Hoje em dia, a palavra de ordem é "vive! a vida são dois dias!" mas não é preciso experimentar tudo para saber que algumas coisas são profundamente erradas; nem é boa ideia orgulhar-se de ter uma mente "muito aberta" onde cabe tudo, até o que é mau. Certas "experiências", a que se cedeu em nome do "nunca se sabe", do desejo de vingança, do "deixar andar", da diplomacia, do respeito humano ou por simples ingenuidade causam aborrecimentos que demoram muito a limpar.

Se o valor do sofrimento enquanto mestre é overrated, o valor da experiência (ou do acumular de experiências) como factor de felicidade tem muitíssimo que se lhe diga...


Wednesday, October 14, 2015

O mal da "toleima" (e o que "eles" pensam disso)


Numa revista juvenil do início dos anos 1950, encontrei este engraçado texto: "O que eles pensam da toleima". O termo, aqui empregue no sentido de garridice, fez-me sorrir, pois era usado pelas minhas avós a torto e a direito. Uma rapariga ser "atoleimada" era um mal a combater a todo o custo. Nenhuma menina de juízo devia encorajar namoricos com um rapaz "atoleimado" (em boa verdade, pronunciava-se "atolaimado"). Quando éramos pequenos, se a avó achava que aquela menina ou menino não era boa companhia, zás: "parece que é atoleimado!". E pimba, estava apresentado e avaliado...

Depois, a "toleima" era palavra muito abrangente: podia significar frivolidade, mania de contar mentiras, atrevimento, hiperactividade, atitudes barulhentas, risotas excessivas ou em suma, o terrível mal da "falta de propósito". Não ter propósito era uma coisa muito feia...

A ideia ficou-me e ainda hoje repito muito a frase: "gosto pouco de gente atolaimada...".



Dizia então o texto, escrito pela mão de um rapaz chamado Ruy, a respeito das mocinhas que se tornavam ridículas com excesso de maquilhagem, de arrebiques ou de modos dengosos:

"Gosto de ver uma rapariga bem vestida, bem maquilhada, um tudo nada coquette. Não sou contra o bâton, nem contra o rouge...oh escândalo imenso! Serei eu pela vaidade? Por aquela vaidade natural (...) mas que é profunda inimiga do ridículo e do exagero?

 Os homens apreciam as mulheres bonitas e é natural que elas façam por parecerem assim (...). Muitos gostam que as raparigas se enfeitem para que, juntando à graça e à candura que as envolve um pouco de cor e arranjo exterior, assim se complete o encanto que os encanta.

 Eles sorriem de satisfação e com tolerância quando as coisas são feitas com medida, gosto e bom senso, mas facilmente passam a rir-se com desprezo quando observam o exagero em que vão caindo na maioria das vezes. Gosto, bom gosto na maneira de se vestir, de se arranjar e até no modo de falar-bom uso da inteligência até neste capítulo, que só se ocupa do figurino e da moda. Simplicidade na maneira de ser, mas não cair no desleixo. Ser bela não implica ser tola, e ser tola quase sempre implica diminuição da beleza...".

Fez-me lembrar outro aviso constante da avó: há raparigas tão doidas que até os rapazes se riem delas. E  ser alvo de troça dos rapazes, que supostamente eram mais tolos do que nós trinta vezes (ou que por serem homens, tinham menos obrigação de ter juízo) era o fim do mundo...

Pergunto-me se ainda há muitas avós a dar conselhos destes, ou rapazes que se ocupem a reflectir assim. Acredito que a maioria continua a pensar da mesma maneira, só o escreve menos vezes ou se o faz, é de uma forma mais abrutalhada. As razões para o apontar, essas vão de mal a pior - com tanta moda atoleimada que se vê às vezes!




O complexo Dorothy


Às vezes tudo o que uma rapariga precisa é de calçar uns sapatos encarnados - nem que sejam uns botins Hugo Boss encarnados, sem purpurinas e cuja única coisa mágica que fazem é não magoar os pés miraculosamente - bater os saltos três vezes e pensar com força  "there´s no place like home". 
Pode ser complicado definir o que "home" será realmente. Por vezes, a ideia de casa muda. Certos locais que significavam todo um sentimento de pertença deixam, de repente, de parecer um lar. O local/situação/pessoa que queria dizer segurança, serenidade, à vontade, certeza, missão, estabilidade, a causa pela qual se daria tudo pode de repente tornar-se um sítio frio onde só há julgamento e crispação. Quando se deixa de sorrir e já nem se sabe disso, se calhar já não é "casa". Quando não se tira a armadura sempre à espera de uma flecha mais minuto, menos minuto, então é uma cidade sitiada, mas nunca será "casa". E a casa poderá ser aquela de onde se saiu há muito tempo, antes de a demanda começar. 


A Dorothy julgava-se segura, pensava que estava no local para o qual tinha sido preparada,  mas às tantas estava só a seguir a estrada de tijolos amarelos. Tinha ido ali parar por artes mágicas, sem querer e já estava tão perdida na aventura em Oz que se deixava guiar pelos seus sapatinhos, pelo homem de lata sem coração, pelo leão sem coragem e todos os outros...mas não pela sua cabeça. 

E pedras falantes ou macacos voadores pareciam-lhe a coisa mais natural deste mundo, porque tinham passado a ser tudo o que ela conhecia. Muitas vezes embarca-se neste complexo Dorothy- e até a mais racional e menos romanesca das mulheres pode deixar-se levar por ele. Acredito mesmo que também haja homens que embarquem nele, porque os feiticeiros de Oz são realmente enganadores. Mas a verdade é que quem precisa de se esforçar demasiado, de seguir estradas com tijolos às cores demasiado fora do vulgar para se sentir feliz, de olhar constantemente à sua volta, não tem os pés nem a cabeça no lugar. O que vale, custa. Mas o que custa demasiado e por muito tempo, pode não ser mais do que um ciclone que ali passou.

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