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| Como Afrodite: Helena Christensen retratada por Herb Ritts para a página de Julho de 1994 do calendário Pirelli |
O calendário Pirelli é uma instituição, é arte, é quase um mito (como é que um calendário de pneus, daqueles soft core que se colocam em garagens abrutalhadas, alcança tal aura de sofisticação foi coisa que me escapou sempre, e é mesmo objecto de análise; then again, também às primeiras, não se percebe o que têm pneus Michelin a ver com restaurantes) e isso atenua muita coisa. Os maiores profissionais de moda, de stylists a fotógrafos sem esquecer as modelos pagas a peso de ouro e tratadas como rainhas, chamam-lhe mesmo "o melhor trabalho do mundo" e ser convidado a fotografá-lo equivale, para muitos, a ser "ordenado Cavaleiro".
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| Julianne Moore como a deusa Hera, retratada por Karl Lagerfeld em 2011 |
Muita honra para um conteúdo que - embora, é justo recordar, nem sempre envolve nudez -é imediatamente associado à sensualidade feminina (e fantasia masculina, claro).
Desta feita - e depois de no ano passado ter apresentado a primeira modelo plus size- a edição para 2016, a cargo da lendária Annie Leibovitz (que na edição de 2000 já tinha feito um trabalho fabuloso, basta lembrar esta imagem de Laetitia Casta) centrou-se não tanto na beleza física ou no erotismo, mas em ícones; mulheres marcantes e de sucesso: atletas, filantropas, bloggers, cantoras, artistas...
Quebra a tradição, sem dúvida. Sexy não será. Não sei se é muito requintado, se capta a essência do calendário Pirelli, mas não deixa de ser interessante pois beleza é mais do que aquilo que está à vista. A alma também conta. Logo, percebe-se a ideia...
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| A actriz e embaixadora da ONU Yao Chen e a cantora Patti Smith na edição de 2016
Mas como no melhor pano cai a nódoa, Annie Leibovitz lembrou-se de incluir a comediante Amy Schumer, de quem já falámos aqui. A tal que tem alguns momentos engraçados mas não consegue lidar com a própria imagem corporal e cultiva a persona de feminista confusa, que faz por ser ser toda modernaça, farrista, comilona, desleixada e galdéria sem no entanto querer que a tratem como tal. E segundo a própria Annie, "Amy não recebeu o recado de que não era preciso despir-se". Aliás, ainda ninguém lhe tinha pedido nada disso, já Amy atirava com um "está a brincar?adoro o meu corpo!" e zás, vai de ficar em calcinhas e desconstruir a imagem da pin up.
Porque ninguém entende estas mulheres liberais: se uma modelo ou actriz lindíssima se despe é objectificação da mulher e abaixo o patriarcado opressor, mas se ninguém as quiser despir a elas, mulheres "reais" e "comuns" já é uma ofensa. De modo que só ela e a tenista Serena Williams posaram em trajes menores...
O retrato não saiu mau, atenção. É a interpretação menos glamourosa e mais natural, em modo viva-a -beleza-real-ter-umas-gordurinhas-não-mata-ninguém, que agora está na moda e a que se espera de uma comediante; Amy podia estar apenas a brincar com o assunto à sua maneira. Parece que não ultrapassa o facto de, não sendo feia, ter cara de bolacha e barriguinha (ei, cada uma é como cada qual) e há muito mulherio que se identifica com essa postura complexada, um nadinha passivo-agressiva. Mas eu cá preferia que, já que despir as protagonistas não fazia parte do guião, que Amy mantivesse a roupa no lugar. Dava outra seriedade à coisa, mesmo tratando-se de quem faz comédia. A credibilidade cabe em todo o lado e se é para alguém se descascar, prefiro que as modelos o façam- ou que mesmo mulheres "normais" sejam retratadas de forma menos crua. Se é para se constiparem, se é para perder a vergonha, tentem ao menos embonecar-se o mais possível para um dia mostrar aos netinhos "vejam como a avó era gira!". E isto vale para beldades perfeitas ou mulheres "comuns", whatever that means.
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