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Wednesday, December 9, 2015

Parem lá de dizer que isto nos representa (manifesto anti mulheres histéricas, parte não sei quê)


A mulher é complexa. A mulher pode ser temperamental, como a Lua. Pode ter várias facetas. A vaidade faz parte da sua natureza. É frágil às vezes e isso contribui para o seu encanto. É mais emocional do que o homem, ou pelo menos demonstra-o mais abertamente/com maior frequência - também era o que faltava que eles fossem tão mariquinhas como nós, onde estava a graça? Mesmo a mulher mais linda tem dores, incómodos físicos e funções orgânicas tal como os homens- certo. Não é sempre perfeita. Com os diabos, toda a gente sabe disto. Mas a todas essas realidades perfeitamente naturais e razoáveis contrapõe-se algo que as avós ensinavam, que era o domínio sobre as coisas menos bonitas. Ou seja, a arte de ser uma Senhora. Tal como os excessos dos homens eram atenuados e controlados pela nobre arte de ser um Cavalheiro.

Porém, os média actuais parecem comprazer-se numa certa auto-depreciação feminina.




 Não faltam filmes, memes, crónicas, livros e outros formatos que adoram representar as mulheres (ou todas as mulheres, ainda por cima) como Bridget Jones da vida: neuróticas, desleixadas  com a sua aparência, preguiçosas, financeiramente descontroladas, incapazes de resistir a comprar e comer porcarias, nervosinhas, promíscuas (se estão solteiras) ou frias e pouco cumpridoras dos deveres conjugais, if you know what I mean (se estão num relacionamento) invejosas, paranóicas, inseguras, farristas, malcriadas e bebedolas - isto quando não as mostram sempre ansiosas por estar no seu pior (pijama todo o dia, cabelo despenteado e nada de soutiens) ou a fazer piadinhas com coisas que acontecem a qualquer ser humano, mas são desagradáveis (graçolas de casa de banho e cenas repugnantes do género que não me apetece reproduzir aqui, mas podem seguir o link para contemplar o disparate em toda a sua glória). 




Cartoons como estes são uma desgraça para as mulheres.



Pergunto-me se estas autoras (pois muitas são mulheres) tiveram pais e avós em casa que as ensinassem que não se brinca com tais assuntos e que quebrar esse tabu não é uma vitória feminina: é só ser mais bruta do que os homens e serve apenas para chocar ou provocar nojo, perdão, impressão às pessoas mais sensíveis. 




Mais grave ainda: isto leva-me a pensar se realmente há assim tantas tantas mulheres batoteiras: desesperadas por agradar, dispostas a relacionar-se intimamente com tudo o que aparece sem o mínimo pudor, e nem sequer é por serem de sangue vigoroso, umas Afrodites muito  modernas e independentes... mas apenas com o objectivo de arranjarem um diabo incauto que as carregue, depois de uma relação casual que vai ficando. Depois, apanhando-se seguras com quem as ature, é a desgraça e não servem rigorosamente para nada, nem como diversão. Tornam-se na vergonhaça que se vê. 

Bem podem dizer "estes cartoons não representam as mulheres o tempo todo, só momentos que todas têm" mas poupem-me. A boca (neste caso, o lápis) fala daquilo de que o coração está cheio. De certeza que há momentos trapalhões, mas mais edificantes a realçar. E certos pecadilhos ou fracassos são para esconder, que os outros (e os homens) nunca os sonhem sequer. Às vezes apetece-me apanhar um autocarro para os anos 1950 e ficar por lá, alegre e feliz, a fazer tartes em modo "honey, I´m home".


 Ai acham exagero? Vejam em detalhe e pensem com os vossos botões. I rest my case.



Florbela: mulher, demasiado mulher.




"É pensando nos homens que eu perdoo
 aos tigres as garras que dilaceram".


Ontem foi dia de Florbela Espanca, que entrou e saiu deste mundo num 8 de Dezembro.

Embora com o passar dos anos o meu fascínio pela poesia declinasse bastante, foi uma das autoras que adorava na adolescência. Admirava-lhe o rasgo e o facto de, enquanto mulher sem grandes meios no início do sec. XX, ter procurado um percurso académico. Além disso, foi jornalista numa das melhores publicações portuguesas de sempre voltadas para o público feminino- a revista/suplemento Modas & Bordados, de que temos falado aqui.

Porém, à medida que fui crescendo, comecei a ver Florbela com olhos diferentes. Não necessariamente com desencanto - alguns dos seus sonetos são de facto sublimes, de grande intensidade, como soluços que rasgam a alma - mas sob um prisma um bocadinho mais analítico.

A meu ver, Florbela tinha o melhor da Mulher em muitas coisas....e o pior da Mulher em tantas outras. Era uma jovem talentosa, sensível, com uma intrincada vida familiar (para usar um eufemismo) vitimada por uma série de tragédias pessoais, desgostos amorosos e problemas de saúde, nomeadamente no que concernia à possibilidade de ser mãe - um sofrimento a que nenhuma mulher fica insensível- e com a cabeça cheia de romances de Balzac e Dumas. 


E o que faz uma mulher de alma artística, bafejada pelas musas, dotada de grande imaginação, face aos pequenos e grandes dramas da vida? Tende a romanceá-los, a exagerá-los, a ver-se como a trágica heroína de uma novela. Creio que todas as mulheres são um pouco romanescas de vez em quando. É um dom que nos assiste e que atire a primeira pedra a que nunca usou esta forma de escapismo para não acabar maluquinha nem se entediar de morte. 


"E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!"


 Graças à exaltada sensibilidade feminina, o namorado parvalhão (a que qualquer pessoa isenta aplicaria um eficaz pontapé no traseiro sem pensar duas vezes... e problema resolvido) torna-se num anti-herói byroniano de uma saga que se arrasta anos a fio; o facto de não se ter encontrado o Mr. Right deixa de ser visto como uma pouca sorte, coisas da vida, mas uma maldição dos deuses de qualquer tragédia grega; as arrelias diárias ganham a dimensão do drama de Medeia...; a mais singela história de amor toma os ares dramáticos de uma produção de Romeu e Julieta....



"E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando..."


Nada disto é mau per se: mascarar a vulnerabilidade feminina, condená-la, fazer pouco da fragilidade que nos assiste, negar o desejo que todas as mulheres têm (de forma mais ou menos evidente) de serem amadas, conquistadas e protegidas, de ter a seu lado um homem forte o suficiente para as arrebatar e defender, de gerar vida, de cuidar e nutrir, é a causa de muitas neuroses e conflitos ainda hoje. Nunca poderemos sentir e agir exactamente como os homens, nem convém. Mas esse fogo interior, esse excesso das labaredas feminis, convém que seja, como o lume doméstico, mantido sob o nosso controlo, não vá cair-se num bovarismo que deita tudo a perder.

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada...".


A autora possuía o potencial das grandes mulheres: a capacidade de amar ardorosa e sinceramente, a inteligência, o génio, a graça, a ternura maternal...mas também era, como diria Eça de Queiroz "mulher! muito mulher!"...ou seja, em demasia. Ser "muito mulher" nem sempre quer dizer ser uma mulher a sério. Ou uma mulher forte no bom sentido da palavra. 

Florbela Espanca tinha alguns dos maiores dotes femininos, mas faltavam-lhe outros dos mais importantes: a temperança, a serenidade, o auto domínio, a coragem, o espírito de altruísmo que permite não pensar nos próprios problemas para tomar o fardo dos outros, a capacidade de lidar com o sacrifício e o sofrimento sem entrar em parafuso, o sangue frio. Tudo isto também são dons da mulher, sem os quais a sensibilidade só serve para incendiar descontroladamente tudo o resto. 


Faltou-lhe também, talvez (e isso já sou eu a especular, mas os anseios das mulheres, todos se parecem em muita coisa) encontrar o amor certo; a própria dizia que "um homem sem coragem, sem energia, sem vontade, nunca pode ser verdadeiramente amado". E os homens fracos, já se sabe, vingam-se sendo cruéis...a sua comparação aos tigres que dilaceram era bem acertada.

Florbela nunca terá encontrado o seu "Prince Charmant", um marialva no bom sentido, homem paciente mas firme que chegasse para lidar com tanto requinte de sensibilidade, com uma alma tão apaixonada e complexa.  E permitam-me voltar a Eça de Queiroz, "um ente meio príncipe meio facínora que possuísse, acima de tudo, a força". Talvez esse amor fosse a sua salvação, se tivesse existido.


                                   "E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas 
Virá, talvez, nas névoas da manhã!" 


Para uma poetisa (desculpem, mas não compro a ideia de Sophia de Mello Breyner de chamar "poeta" a uma mulher), para uma poetisa o destino de Florbela Espanca foi excelente. Para Florbela Espanca, a autora, veio a calhar ter uma vida trágica, uma alma em ferida e morrer cedo. É assim que os mitos são feitos e para uma grande artista não há final melhor. Mas para Florbela, a mulher...já não foi tão conveniente.

Miremo-nos no exemplo, que fala uma linguagem bem diferente dos poemas...

Tuesday, December 8, 2015

Brilhante conclusão de ontem: contra pestes, nem viajando no tempo




Estava-se ontem ao serão a cozinhar com a TV ligada a pasmar só porque sim para Sleepy Hollow (sinceramente, acho que a história - aliás baseada numa verdadeira lenda local, contou-me uma pessoa que era dessas bandas- é fantástica mas é daquelas que funcionam em filme, faz-se uma vez e está feito; em série não resulta) e as personagens, por culpa de um feitiço, vão parar ao século XVIII.

E eu, que sempre fui fascinada por viagens no tempo (por mim ia passar férias a outras épocas, como já vos contei) lembrei-me de dizer: "não seria bom poder pegar nas pessoas aborrecidas e mandá-las para o passado, onde não maçassem ninguém?".

Pois sim, cortaram-me logo o  brilhante raciocínio com um "irra, não! Haviam de arranjar maneira de dar cabo do futuro!".

E é verdade. Pensem na pessoa mais incómoda e malvada que conhecem. Agora imaginem que a enviavam para uma época mais recuada, achando que longe da vista, longe do coração e que a alminha penada (sem telemóveis, sem facebooks, sem meios para regressar ou contactar) nunca mais causaria distúrbios.



 Erro crasso. A não ser que a criatura fosse totalmente burrinha e desmemoriada (e mesmo assim não juro, que para o mal dá o diabo habilidade) havia de estar na posse de algumas informações sobre o futuro, perdão, o presente. 

Claro que sendo má rês, arranjaria maneira de as utilizar a seu favor, associando-se às piores personagens do tempo, quanto mais não fosse para subir na vida e atormentar os pobres coitados com quem se cruzasse. Muito provavelmente, mudaria o curso da História e ainda que o fizesse de forma que não tivesse directamente a ver connosco, de certezinha absoluta que ia dar asneira na mesma e acabaríamos por pagar as favas.

Moral da história: há que lidar com os problemas aqui e agora, porque  a ruindade é resistente como as baratas e conserva-se como o vinho do Porto...

O que tem a Imaculada Conceição a ver connosco (para além de ser feriado?)

Hoje, a Santa Madre Igreja celebra o dogma da Imaculada Conceição (proclamado a 8 de Dezembro de 1854 por Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, pouco antes das aparições em Lourdes)- o que faz deste mais do que um "feriado qualquer", mas um dia de preceito ou de guarda, a ser observado por todos os Católicos (ou seja, nada de passeatas sem cumprir as obrigações primeiro!).

Porém, a festa da Imaculada Conceição (reconhecendo que a mãe de Jesus não era uma donzela qualquer, mas, conforme as profecias, seria uma jovem perfeita, escolhida desde o início dos tempos, preservada por privilégio especial da mancha do pecado original ainda no ventre da sua mãe, Santa Ana, e pela sua sensatez e obediência, a antítese de Eva) já fora incluída no Calendário Romano em 1476 e tornada obrigatória a toda a Cristandade pelo papa Clemente XI em 1708.

O lindíssimo verso "Tu és toda formosa, meu amor, não há mancha em ti" ( "Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te" ), do Cântico dos Cânticos (4,7) foi um dos argumentos bíblicos utilizados na defesa da Imaculada Conceição.


Os portugueses, em particular, devem-lhe especial devoção por ser Nossa Senhora da Imaculada Conceição a Padroeira de Portugal, uma vez que o Reino e todos os seus domínios de aquém e além mar lhe foi consagrado por El-Rei D.João IV em Março de 1646, com grande entusiasmo do povo. Em Junho desse ano, a Universidade de Coimbra fez o juramento da Imaculada Conceição, que obrigaria todos os admitidos a graus académicos a declarar "defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem a mancha do pecado original". Esse juramento só foi abolido por desnecessário depois de estabelecido o dogma, pois estava implícito a partir daí.

El-Rei D.João IV
Por ser Nossa Senhora "a verdadeira Rainha de Portugal", desde o senhor D.João IV que a Coroa deixou de ser usada na cabeça pelos nossos Reis, mas delicadamente pousada a seu lado na cerimónia de aclamação, uma particularidade única na Europa.

Pessoalmente, tenho particular carinho por esta devoção, já que do lado materno todas as mulheres recebiam "da Conceição" como segundo nome de baptismo - havia uma embirraçãozita com chamar Maria às filhas, vá-se lá saber porquê, e assim ficava a tradição salva.
Estas curiosidades para contextualizar, já que desde ontem à noite vi muita gente em modo "iupi, amanhã é feriado" sem a mínima referência ao motivo do dia santo...paradoxos de quem se diz "ateu, graças a Deus!" ou pelo menos de um país que procede como tal, que isto um dia santo muito grande em que não se pode trabalhar, como dizia o conto, dá sempre jeito.

 Mas pensemos fora do contexto puramente religioso para encarar a questão sob o ângulo cultural e sobretudo, numa perspectiva feminina.


A Virgem Maria, a rapariga bem comportada mais famosa de sempre, prova provada de que nem só as mulheres rebeldes fazem História, significa muito para as Católicas praticantes. É venerada como a mãe de Deus, Dei Genitrix, co-redentora da Humanidade, Rainha dos Anjos, inimiga - e terror- dos demónios, que fogem dela a bom fugir (arquétipo da mulher poderosa por excelência!) entre muitos outros títulos. Tem a posição mas elevada, abaixo só de Deus e acima dos próprios anjos. 


Provavelmente, significará bastante também para outras mulheres cristãs e mesmo para as devotas de demais religiões que respeitam Cristo como profeta, bem como para as adeptas de uma espiritualidade mais universalista centrada nas figuras femininas.

 Mas culturalmente, por herança, como modelo de comportamento feminino, a sua influência é imensa, especialmente num país como o nosso. Até para as mulheres que não querem nada com a espiritualidade ou que se afastaram da fé dos seus antepassados.

 O modelo mariano de comportamento - pureza, modéstia, temperança, prudência, sobriedade, obediência, graciosidade, feminilidade, doçura, força discreta- pode parecer desactualizado ou contra a norma nos dias de hoje, em que as mulheres têm um protagonismo cada vez maior na vida pública, logo espera-se (de uma forma algo equivocada) que sejam muito assertivas, ruidosas e declaradamente "poderosas".

Mas esse tipo de "poder" não nos convém necessariamente, nem é forçosamente mais eficaz para a "causa" feminina. Há poder no silêncio, na cooperação, na aceitação, na maternidade. 

Senão, pensemos: Maria podia ter dito "não, obrigada!" ao Arcanjo Gabriel. Se calhar de uma forma mais cerimoniosa, mas um "não" mesmo assim. A honra de ser a mãe do filho de Deus era imensa, mas os perigos e inconvenientes de ser mãe solteira em tal época eram suficientes para aterrorizar qualquer uma, quanto mais uma jovem sem experiência da vida e com um noivo a quem dar explicações. 


S.José era um homem verdadeiro em todos os sentidos, um perfeito cavalheiro, mas gostemos ou não, nessa altura Nossa Senhora não podia ter a certeza absoluta de que ele era santo. No entanto, a donzela foi sábia o suficiente para se deixar guiar por um poder maior, para não achar que ela é que sabia tudo.

 Às vezes, em diferentes aspectos da existência, temos de saber dizer "sim", ser receptivas. E a natureza feminina é em si mesma receptiva e cooperante, mas aceitar e deixar-se ir requer coragem. Maria foi corajosa não só nesse momento, mas ao longo de toda a sua vida: um parto arriscadíssimo, a fuga para o Egipto, a vida de um filho que para todos os efeitos era diferente dos outros jovens da sua idade (que mãe não teria um colapso se o filho andasse sumido três dias para conversar com os doutores do Templo?) e finalmente, o pavoroso suplício de Jesus, nada disto podia ser enfrentado com serenidade por uma mulher que não tivesse um coração de leão. Perante aquela tortura atroz ela não fugiu, não desmaiou, não soltou brados: sofreu com dignidade, dando aos seus inimigos a imagem da força magnânima e ao filho, um apoio inestimável. 


Depois, Maria era doce e subtil, conseguindo tudo do filho não com ordens, mas com meiguice. Não é por acaso que lhe chamam "medianeira" e "intercessora". Nas bodas de Canaã, Maria sabia que o filho lhe era obediente. Tendo ficado com pena dos noivos e sabendo aquilo de que Jesus era capaz, bastaria dizer "filho, resolva o problema do vinho por favor" que ordens de mãe não se discutem. 

Qualquer alma que soubesse fazer habilidades em pequeno sabe que muito provavelmente, a mãe insistia para as demonstrar quando havia visitas no melhor modo macaquinho do circo, certo? 

Mas Maria disse só algo do tipo "eles não têm vinho, coitados, que embaraçoso" e Jesus, apesar de responder "que tenho eu com isso?" lá transformou a água em vinho para salvar a festa. Uma mulher sensata não precisa de ser mandona, basta-lhe usar discretamente a sua influência para conseguir o mesmo resultado ou melhor.

E de resto, toda a sua passagem por este mundo foi cheia de paciência, cheia de classe na adversidade, cheia de serenidade...cheia de Graça e dessa graça feminil que todas, cristãs ou não, podem empregar porque é inata na mulher. Hoje é o dia perfeito para recordar e invocar esse dom tão feminino, tão desprezado...mas surpreendentemente actual e útil,se pensarmos bem.




Monday, December 7, 2015

O calendário Pirelli que levanta muitas questões: quem mandou a Amy despir-se??


Quando se pensa em "Calendário Pirelli", o que acorre imediatamente à ideia? As beldades mais célebres à face da terra - Sophia Loren, Claudia Schiffer, Kate Moss, Helena Christensen, Laetitia Casta, Julianne Moore e assim por diante, sem falar de alguns homens que embelezaram as páginas em certas edições. Em poses reveladoras, certo, mas retratadas nos mais exóticos cenários pelos melhores fotógrafos do mundo (Herb Ritts, Karl Lagerfeld, Patrick Demarchelier, Mario Sorrenti, Steven Meisel e tantos outros). 


Como Afrodite: Helena Christensen retratada por Herb Ritts
 para a página de Julho de 1994 do calendário Pirelli

O calendário Pirelli é uma instituição, é arte, é quase um mito (como é que um calendário de pneus, daqueles soft core que se colocam em garagens abrutalhadas, alcança tal aura de sofisticação foi coisa que me escapou sempre, e é mesmo objecto de análise; then again, também às primeiras, não se percebe o que têm pneus Michelin a ver com restaurantes) e isso atenua muita coisa. Os maiores profissionais de moda, de stylists a fotógrafos sem esquecer as modelos pagas a peso de ouro e tratadas como rainhas,  chamam-lhe mesmo "o melhor trabalho do mundo" e ser convidado a fotografá-lo equivale, para muitos, a ser "ordenado Cavaleiro".


Julianne Moore como a deusa Hera,
 retratada por Karl Lagerfeld em 2011

Muita honra para um conteúdo que - embora, é justo recordar, nem sempre envolve nudez -é imediatamente associado à sensualidade feminina (e fantasia masculina, claro).

Desta feita - e depois de no ano passado ter apresentado a primeira modelo plus size- a edição para 2016, a cargo da lendária Annie Leibovitz (que na edição de 2000 já tinha feito um trabalho fabuloso, basta lembrar esta imagem de Laetitia Casta) centrou-se não tanto na beleza física ou no erotismo, mas em ícones; mulheres marcantes e de sucesso: atletas, filantropas, bloggers, cantoras, artistas...

Quebra a tradição, sem dúvida. Sexy não será. Não sei se é muito requintado, se capta a essência do calendário Pirelli, mas não deixa de ser interessante pois beleza é mais do que aquilo que está à vista. A alma também conta. Logo, percebe-se a ideia...


A actriz e embaixadora da ONU Yao Chen e a cantora Patti Smith na edição de 2016




Mas como no melhor pano cai a nódoa, Annie Leibovitz lembrou-se de incluir a comediante Amy Schumer, de quem já falámos aqui. A tal que tem alguns momentos engraçados mas não consegue lidar com a própria imagem corporal e cultiva a persona de feminista confusa, que faz por ser ser toda modernaça, farrista, comilona, desleixada e galdéria sem no entanto querer que a tratem como tal. E segundo a própria Annie, "Amy não recebeu o recado de que não era preciso despir-se". Aliás, ainda ninguém lhe tinha pedido nada disso, já Amy atirava com um "está a brincar?adoro o meu corpo!" e zás, vai de ficar em calcinhas e desconstruir a imagem da pin up. 

Porque ninguém entende estas mulheres liberais: se uma modelo ou actriz lindíssima se despe é objectificação da mulher e abaixo o patriarcado opressor, mas se ninguém as quiser despir a elas, mulheres "reais" e "comuns" já é uma ofensa. De modo que só ela e a tenista Serena Williams posaram em trajes menores...



O retrato não saiu mau, atenção. É a interpretação menos glamourosa e mais natural, em modo viva-a -beleza-real-ter-umas-gordurinhas-não-mata-ninguém,  que agora está na moda e a que se espera de uma comediante; Amy podia estar apenas a brincar com o assunto à sua maneira. Parece que não ultrapassa o facto de, não sendo feia, ter cara de bolacha e barriguinha (ei, cada uma é como cada qual) e há muito mulherio que se identifica com essa postura complexada, um nadinha passivo-agressiva.  Mas eu cá preferia que, já que despir as protagonistas não fazia parte do guião, que Amy mantivesse a roupa no lugar. Dava outra seriedade à coisa, mesmo tratando-se de quem faz comédia. A credibilidade cabe em todo o lado e se é para alguém se descascar, prefiro que as modelos o façam- ou que mesmo mulheres "normais" sejam retratadas de forma menos crua. Se é para se constiparem, se é para perder a vergonha, tentem ao menos embonecar-se o mais possível para um dia mostrar aos netinhos "vejam como a avó era gira!". E isto vale para beldades perfeitas ou mulheres "comuns", whatever that means.








Andrea Corr: a verdadeira beleza dificilmente desbota


Um artigo sobre as pessoas mais belas da Irlanda lembrou-me de Andrea Corr, da famosa banda dos anos 90 que - apesar de eu preferir música irlandesa em estado mais puro-teve álbuns que ainda se ouvem bem de fio a pavio.

 A vocalista do grupo de maninhos que misturava a sonoridade celta ao pop sempre foi uma linda irish lass, mas de um encanto suave como o da sua voz (que sendo competente, nunca foi a de uma soprano irlandesa como Lisa Kelly nem um vozeirão de uma deusa do easy listening como, por exemplo, Chistina Aguilera). Uma beleza discreta de traços correctos, cabelo tão naturalmente preto como só uma irlandesa pode ter e pele de porcelana. Todas as irmãs davam nas vistas pela formosura do conjunto mas Andrea era constantemente elogiada pelos media apesar de nunca ter caído na sensualidade óbvia - porque quem é mesmo bonita não precisa disso, claro.



 Ela tinha classe... e classe e beleza são duas coisas que *infelizmente* nem sempre caminham juntas.

Nos últimos tempos a cantora, de 41 anos, decidiu desaparecer um pouco mais do olhar público, apesar de ter lançado um álbum a solo. E a razão é das mais nobres: casou bem, tem o marido perfeito e quer dedicar-se a ser esposa e mãe de dois pequenos adoráveis, fazendo o que compete a qualquer verdadeira Senhora dotada de talento artístico: cantar só e apenas quando lhe der na gana, fazendo música genuína e inspirada nos intervalos que criar uma família lhe deixa.  



Afirmava então o  Irish Central que o passar dos anos não beliscou nem um bocadinho a pulcritude de Andrea e eu fui confirmar: lá continua formosa e esguia, com a pele luminosa e a carinha laroca de sempre, mesmo de esperanças e sem maquilhagem, vide esta imagem de há dois anos:



A alegria e serenidade de ser amada contribuíram decerto para isso (não há melhor tratamento de beleza do que o verdadeiro amor e uma vida tranquila; já a avó me dizia que "se vê no rosto de uma mulher a forma como o marido a trata"). E os cuidados (entre os quais fugir do sol, algo que ela obviamente fará) também ajudam a boa genética a manifestar-se passem os anos que passarem.

Porém,  o maior motivo para se conservar mais ou menos na mesma (como Julianne Moore, Monica Bellucci e outras beldades)  prende-se com o facto de a verdadeira formosura, a que se transmite à descendência e fica para a posteridade, não depender tanto da exuberância nem da frescura da primeira juventude.  Depende dos traços finos, da delicadeza e harmonia da silhueta, das formas, da elegância, das proporções. Isso não se desvanece, salvo por descuido completo ou algum problema de saúde sério, pois faz parte da própria estrutura física e apoia-se na elegância interior.



Ou seja, até aos early twenties qualquer jovem remotamente apresentável e minimamente esbelta -ainda que não tenha uma cara capaz de lançar uma armada nem uma figura de Afrodite - passa por atraente desde que se enfeite. O cabelo comprido, a maquilhagem, as roupas espampanantes e a energia característica da idade acrescentam muitos pontos, disfarçam muita coisa. Mas passados alguns anos, perdidos os resquícios da adolescência, com as responsabilidades, as arrelias, algum desleixo e as noites mal dormidas inerentes à vida adulta, o viço desaparece, revelando uma pele menos boa ou precocemente marcada, uns traços vulgares, uma figura banal. Diz-se então "coitada, está muito estragada...perdeu-se, descuidou-se, era tão engraçadinha"...mas o mais certo era Vénus não lhe ter sido muito propícia para começar.

Do mesmo modo, diz-se das mulheres que "se conservaram": qual será o segredo? No entanto, trata-se apenas de a beleza, quando é genuína, não ser tão efémera como alguns gostam de dizer...



Sunday, December 6, 2015

8 *pequenas* razões para muita gente não ter o estilo ideal (e como lhes dar a volta)


Há pessoas que fazem gosto em vestir bem, prezam a elegância e até não lhes falta sentido estético, mas...o resultado nunca é tão polido, favorecedor ou expressivo como gostariam. Esse "bocadinho a mais" pode estar ausente devido a 8 problemazinhos fáceis de identificar. Ora vejamos: 


1- Não conhece bem o conteúdo do seu armário




Para ter um guarda roupa completo e elegante, é preciso conhecer-se a si mesma (gostos, silhueta) e sobretudo, as próprias necessidades- por exemplo, quem vai regularmente a eventos precisará de mais peças adequadas a traje social do que quem eventualmente assiste a um ou dois casamentos e baptizados por ano. É necessário comprar de acordo com aquilo que usa mais. Mas mesmo quem tem tudo isto em atenção, precisa de estar em contacto regular com o conteúdo do seu armário. Se, digamos, criou o bom hábito de usar um "uniforme" com frequência (e.g:  skinny pretas+ um top básico + blazer +saltos) convém que conheça bem cada blazer e cada par de calças que tem em casa, que saiba como cada um lhe assenta e se cada exemplar está pronto a usar ou se pelo contrário, lhe falta um botão, etc.  

Em 3 casacos semelhantes da mesma cor, um pode ser o "justinho que dá com tudo", outro "o de corte masculino", um ser mais curto e adequado a vestidos, enquanto o do cabide ao lado, mais longo, fica melhor com calças cigarrette ou jeans. De nada vale ter muitas peças do estilo que aprecia se não sabe exactamente a utilidade de cada uma.


2- Tem alergia a agulhas e ferros de engomar



Comprar é muito tentador e algumas marcas de pronto a vestir têm evoluído na questão dos tamanhos, mas os velhos hábitos continuam a marcar pontos e o fitting é tudo: umas calças da Mango parecerão muito mais luxuosas se ajustar as bainhas à medida e levarem um pontinho aqui e ali, para assentarem devidamente na cintura e na zona dos joelhos. E escusado será dizer que nenhum achado, seja vintage ou nos saldos, valerá a pena se não servir devidamente. Faz-se melhor figura num tailleur da H&M que veste impecavelmene do que num Chanel que está largo, curto ou comprido onde não devia. 

Ao investir numa peça, seja qual for o preço, convém pensar nuns cobres extra para lhe dar aquele "toque mágico". O mesmo vale para engomar, limpar a seco ou passar a vapor: roupa bem tratada parece sempre mais bonita e dispendiosa. Não é por acaso que os italianos passam tudo a ferro, até as t-shirts e jeans: consideram esse um hábito essencial para a "bella figura".

3- Arrisca demais...ou de menos



Nas modas e elegâncias, como nos investimentos, há que pensar em riscos calculados: se as suas toilettes lhe parecem aborrecidas e sempre iguais, é porque provavelmente são: tentar uns sapatos diferentes, usar o statement coat de peles que herdou da sua tia Capitolina sobre os jeans e a camisa do costume ou inspirar-se nos street styles da vida para introduzir pequenas inovações nos seus coordenados não mata ninguém. Mas se pelo contrário, antes de sair pensa "será que dou nas vistas?" ou lhe parece que o seu visual tem demasiada informação, então aplique-se a máxima "less is more".

4- Descuida os acessórios...ou abusa deles



Os acessórios são como os temperos na culinária e os ciúmes num relacionamento: em pequenas doses e estrategicamente aplicados, dão cor e sabor a um visual. Em excesso, tiram-lhe a expressividade, vulgarizam e poluem. Para os usar na medida certa, convém pensar em termos utilitários: se o clima já obriga a usar um bonito cachecol, tem o seu anel de estimação e uma carteira de que gosta, não precisa de mais nada. Mas caso tenha optado por um look "modelo à paisana" preto dos pés à cabeça, se calhar uma pulseira já fará falta.

5- Vai pelos "lindos olhos"



As roupas, como as pessoas e os livros, têm de ter conteúdo: se um formato é bonito mas o material não presta ou o corte é menos que sofrível, é melhor não arriscar. Uma peça pode ser barata, mas não convém que o pareça. Haverá outras ocasiões de ter um modelo parecido num tecido decente e que sirva como imaginou.


6- É muito poupadinha...ou demasiado exigente



Já falámos nisto vezes sem conta: há o barato bom e o barato que sai caro;  há o luxuoso que compensa o investimento (pela raridade, qualidade dos tecidos) e o caro que só vale pela etiqueta. Misturar e recorrer ao hi-lo fashion dá carácter a um visual, desde que saiba onde deve gastar mais e onde uma peça acessível presta o mesmo serviço.


7- Crises de identidade



Ou porque ainda não encontrou o estilo que comunica ao mundo a sua personalidade ou que mais lhe convém, ou por insegurança, ou porque engordou/emagreceu/teve bebé/mudou de estilo de vida/etc, muita gente perde o gosto por se vestir bem ou, numa tentativa desesperada de andar apresentável, copia chapa-4 o look de determinada amiga ou celebridade. Em casos assim, convém respirar fundo e abastecer-se de peças neutras, que cumpram uma única função: assentar impecavelmente. Assim terá uma tela em branco (e preto, azul marinho, nude...) para trabalhar. Partindo daí, convém ler e investigar referências (ícones de estilo, épocas, filmes) e integrar coisas novas, baseando-se em dois critérios: "é-me util?" e "gosto MESMO disto?".


8- Dúvidas quanto ao tamanho e silhueta



Sem vestir as proporções correctas, nem a figura mais elegante, o corpo mais perfeito, se favorecerá a 100%. Há que ser absolutamente honesta e identificar (possivelmente recorrendo a um stylist capaz) o seu tipo de corpo, cingindo-se aos cortes, bainhas e modelos que lhe assentam melhor. Assim não cometerá erros. Igualmente importante é não ter complexos quanto ao tamanho que vem na etiqueta: um 40 na Dolce & Gabbana pode ser um 36 da Zara, e há numerações ainda mais misteriosas; por isso importe-se apenas com a forma como lhe cai, corte o número (que assim como assim ninguém vê, right?)  com uma tesourinha se isso lhe faz confusão e vá ser feliz. O mantra " tem de ser o 34 porque sempre vesti o 34" é a causa de muita roupa que assenta mal e de muita lamuria inútil quanto ao sistema de tamanhos das marcas. Mas o que interessa de facto é estar bem vestida, certo?


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