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Wednesday, December 16, 2015

Papás: não é desta protecção que as vossas filhas precisam


O Expresso noticiou, com um grande artigo num dos seus blogs, um vídeo institucional criado por uma organização Norueguesa, visando alertar os homens para o respeito pelas mulheres. Até aí, fantástico. O vídeo é bem feito, bonito e comovente.

 Mas se olharmos para além do texto bonitinho e da musiquinha melancólica, percebem-se duas coisas: primeiro, o quanto a premissa é redutora (segundo os autores, todos os males das raparigas se resumem ao facto de os rapazes não acharem nada de grave dirigirem piadinhas sexistas, ou chamarem p*** e galdérias às meninas) e segundo, o tom vitimista da coisa, roubando às mulheres toda a responsabilidade pelos seus actos e pela sua segurança. Basta começar pelo título "Papá, protege-me porque nasci mulher". 



Calma aí.

Deixem-me começar pelo argumento com que concordo no anúncio, embora a meu ver tenha sido mal explicado porque isto da "igualdade" baralha sempre tudo: é obrigação de qualquer homem com H, de um Senhor que se preze, de um homem honrado, criar os seus filhos rapazes para essa velha instituição que se chama ser um CAVALHEIRO.

Há um dever moral de ensinar o seu filho a respeitar todas as meninas e senhoras como se fossem suas mães ou irmãs. A evitar certo palavreado dirigido a, ou na presença de, meninas ou senhoras. A não bater numa menina nem com uma flor (embora seja justo afastá-la com mais veemência se ela lhe bater primeiro).

A não invadir o espaço físico alheio sem ser convidado e - caso seja um rapaz muito popular - a jamais descer ao ponto de se aproveitar das fraquezas (e da falta de juízo) do sexo oposto. Mesmo que se trate de raparigas alteradas por uns copos a mais, logo fora da posse das suas faculdades; ou até "daquelas" jovens "oferecidas" com baixa auto estima iludidas e desmioladas, que oferecem este mundo e o outro não numa perspectiva modernaça e casual, sem compromisso, "get mine,  get yours e no fim cada um vai à sua vida" mas na tentativa patética de obter umas migalhas de amor e atenção. Um cavalheiro evita brincar com os sentimentos alheios, ainda que possa dizer, em sã consciência, "eu nunca a enganei, nunca lhe prometi nada". Não precisa disso.




Um homem ensinará os seus filhos que um homem, como mais forte, deve ter cuidado com o que é delicado e frágil - e isso pode incluir ser compassivo com a "galdéria da escola", protegendo-a de si própria. E por fim, a respeitar que um não é um não. Ainda que pareça quase um sim, a própria hesitação alheia é sagrada. Se vier a ser sim não faltará oportunidade de o confirmar, if you know what I mean.

 Tudo isto é muito simples: é dizer a um rapazinho "não cresças para ser um cobarde e um canalha". Depois o resto passa por dar o exemplo, pois os meninos tendem a tratar as futuras mulheres na sua vida conforme vêem o pai tratar a mãe e as irmãs. A fidelidade, o carinho, o cuidado, o respeito, a firmeza e a delicadeza de atitudes  são coisas hereditárias.

E por aqui me fico quanto à ala masculina; agora vamos ao lado feminino da questão. O vídeo é todo narrado com frases que fariam chorar as pedras da calçada...se não as ouvirmos realmente bem.

"Querido papá. um dia os meninos vão chamar-me vadia por causa do comprimento da minha saia";



"Querido papá. um dia eu vou estar perdida de bêbeda e um rapaz vai avançar demais embora eu diga que não, mas vou estar demasiado entornada para que ele acredite em mim";

Assim como cabe a um pai educar filhos respeitadores, cabe-lhe criar filhas prudentes, com noção do apropriado e conscientes de que este mundo está cheio de gente de má rês, e de que isso não muda por mais campanhas açucaradas que se façam.

Isto porque embora o comprimento da saia não dê a ninguém o direito de insultar ou atacar outrem, não seja um convite e até possa não ser estatisticamente proporcional às agressões (se assim fosse, as mulheres em certos países muçulmanos nunca tinham problemas) é sim, em certos sítios, horas e circunstâncias, um factor de risco. Em todo o caso, há locais e situações para tudo e uma rapariga bem formada, educada de forma direita pelos pais, sabe que não precisa de vestir como a Nicki Minaj para ser bonita. Ensinem as vossas filhas a procurar a elegância, e não tanto a sensualidade, e a zelar por uma boa reputação, incluindo nas redes sociais. Expliquem-lhes que se uma roupa parece duvidosa, se calhar vai levantar ideias duvidosas nos outros. E que não convém dar aos outros uma ideia errada e injusta de si mesma.



Mostrem-lhes que os homens apreciam as mulheres elegantes e modestas, que são essas que eles querem, mais tarde, apresentar aos pais; que a feminilidade, ao contrário da vulgaridade, nunca cai mal....e dificilmente elas serão insultadas injustamente por causa da roupa. Poderão arreliá-las com outras coisas (a miudagem arranja sempre por onde implicar) mas para isso, aposto que lhes faltarão argumentos. Vestir como uma stripper sem ser incomodada pode até ser um direito, mas não devia ver-se como uma "vitória feminina".

Igualmente, convém martelar, ad nauseam, indo buscar testemunhos de parentes ou amigas mais velhas se preciso for, que uma rapariga alterada por álcool ou drogas não pensa bem, não vê bem, não mede o que faz.  Assim como um rapaz alcoolizado pode perder a noção dos limites. Rapaz bêbedo, rapariga bêbeda, o resultado nunca é famoso. Isso é facto e depois do mal feito culpar o rapaz aproveitador e o machismo serve pouco de consolo.




E depois o vídeo continua visando casos mais dramáticos:

"Querido papá, um dia um rapaz aparentemente inofensivo não vai entender que não é não". 

Isto já é mais complicado. Pode acontecer à rapariga mais independente, mais forte - ou porque teve azar, ou porque é ingénua, está apaixonada, dali não espera violências e o imbecil não soube conter o seu "entusiasmo" (ou não lhe ensinaram isso de respeitar a tal hesitação sagrada, que pode surgir- com toda a legitimidade- mesmo que as reservas pareçam ter caído).  O remédio contra isto é preventivo, porque uma sova à moda antiga após o mal feito também não desfaz o mal nem cura o trauma. Ensiná-la a ser assertiva quando necessário, a não ter medo de verbalizar nem de ser desagradável com quem é desagradável. 


As mulheres são educadas para ser encantadoras, mas isso nem sempre funciona no mundo em que vivemos. E acima de tudo, convém dar-lhe uma forte noção de respeito próprio e mostrar-lhe como ler os sinais e saltar fora ao primeiro pisar de risco: um namorado que abusa não o faz de um momento para o outro. A falta de respeito, o descaso pelos sentimentos dela, o amesquinhar da auto estima, a pressão está lá sempre antes de o mais grave acontecer.

"Querido papá, um dia o homem perfeito vai deixar de ser perfeito e agredir-me".

Outra de que infelizmente nenhuma mulher está livre (nem homem, mas vamos aqui pela lei da força física). Também aqui nenhuma agressão surge do nada e só há uma vacina: treinar cada menina para nunca tolerar, desculpar ou relativizar a falta de respeito, o ciúme patológico, a crueldade psicológica, íntima ou física. O papel de um pai é avisar sobre os maus rapazes, sem estender essa ideia assustadora a todos os rapazes; dar a uma rapariga a consciência do seu real valor; frisar que nunca deve isolar-se nem guardar esses segredos, que pode contar com a família para ouvi-la sem julgamentos. 



Muitas mulheres têm medo de confidenciar com o pai - e/ou os irmãos rapazes- temendo reacções extremas. Podia estar o dia todo a relatar casos de mulheres maltratadas que recearam pedir ajuda à família por essa razão, agravando o problema quando podia ser remédio santo (pois infelizmente, os cobardes só respeitam a força bruta).

Mais do que tudo, para prevenir ambos os casos - estranhos ou namorados que abusam e agridem -   as artes marciais e as aulas de auto defesa fazem mais pela auto estima e segurança feminina do que todo o feminismo junto.

Reduzir tudo ao sexismo -até o que depende da auto-responsabilidade - é  míope, perigoso, cheio de wishful thinking e de um idealismo que só lembra aos nórdicos, obcecados pelas questões de género.

"Querido papá, ENSINA-ME A TOMAR BEM CONTA DE MIM PRÓPRIA...porque sou mulher" é uma mensagem bem mais sensata, porque é ilusão tentar educar toda uma sociedade de forma perfeita para a tornar livre de agressores. Afinal, ou somos fortes e independentes ou não somos. Decidam-se.

Assino por baixo (e as memórias dolorosas não me deixam mentir)


Eu não quero pensar no futuro das novas gerações, tanto adoçam a vida e os factos às crianças (menos quando as sobrecarregam de actividades extra curriculares daquelas fúteis, as chamam índigo e ridicularias dessas, as fazem levar uma vida de monge, mas em mau, em frente a ecrãs e não as deixam comer doces nem sal...aí tenho pena delas, que tortura!). Os pequenos da minha geração eram badass. Circulam pela web incontáveis textos nostálgicos sobre o assunto e eu própria já escrevi um aqui, por isso não vou elaborar. Arrumo apenas com meia dúzia de argumentos de peso: reguadas na escola, lamparinas correctivas quando necessário, óleo de fígado de bacalhau à colherada (continuo grande fã, nada ilumina tanto a pele e o cabelo; mas usem-no em cápsulas, que o sofrimento molda o carácter mas não exageremos) mercúrio nos termómetros, mercurocromo nas feridas para andar pintalgado dias a fio (em casa foram mais benevolentes: passaram a usar betadine para essas "feridas de guerra"), e...mertiolato.



O nome "mertiolato" ou "merthiolate" pode parecer estranho na era do politicamente correcto e do ai-Jesus-não-traumatizem-as-flores-de-estufa, mas era todo um ritual darwinista de iniciação, uma autêntica operação de eugenia, uma agogê de meter medo aos espartanos, no melhor modo só os fortes sobrevivem. Ao pé de um frasco daquela mixórdia, o pior bully (no meu tempo eram "rufias") da escola era pêra doce.

Digo-vos já que, tanto quanto sei, nunca ninguém morreu por ser *mal* tratado com esse líquido esverdeado ou rosado, whatever, com cheiro a hospital e que parecia esfolar uma pessoa viva; mas que dava vontade de bater as botas ou desmaiar para acabar com a dor, isso dava.

Que me lembre, só tomei contacto umas duas vezes com tal poção mágica, e uma delas ficou-me gravada a ferros na memória. Era o Dia da Unidade, ou outro evento militar solene, e eu teria uns três anos. Os Oficiais tinham por hábito levar os filhos a essas festas e eu adorava assistir às paradas e observar os cavalheiros nas suas fardas de gala, acompanhados por elegantes senhoras (quem nasce torto, nunca se endireita). Nem protestava perante os longos discursos e refeições que pareciam durar hooooras. Foi uma boa escola.


 Depois deixavam a pequenada andar à solta por ali entre tanques e canhões e eu, sempre traquinas, decidi começar às corridas numa via enorme com casernas, ou garagens, não estou certa, de ambos os lados. Mas ai- os meus sapatinhos de cerimónia não combinavam com o pavimento e escorreguei de cara no chão por ali fora. E o vestidinho de mangas curtas não me protegeu os braços, que foram a primeira coisa a assentar - ou antes, a ir de rojo - no betão ou lá o que era. Zás, fiquei com um braço em carne viva e desatei a choramingar...só um pouco, nunca fui muito piegas.

Levaram-me para a enfermaria e um jovem soldado simpático, julgando decerto que a recruta quanto mais cedo melhor (ou confundindo o frasco de mertiolato com o de água oxigenada, que teria mais lógica usar) aproximou da minha pele um algodão bem embebido naquela porcaria.


Aí é que berrei e chorei a sério. A dor foi tão forte que parecia que me tinham atingido com um taco de baseball na cabeça. Julguei que o coração me ia parar e que ia ter uma coisinha má...sem exagero, foi esse tipo de dor. Não morri. Volto a dizer, acho que ninguém morreu do mertiolato: só se tornou mais forte graças a ele.

Mas embora leis que controlem casos mais graves de bullying possam fazer falta, é inegável que as crianças de hoje são muito fraquinhas...não aguenta mertiolato, não está preparado para enfrentar a selva da vida. Ponto.

Tuesday, December 15, 2015

Tim Gunn diz que Kim Kardashian é "vulgar" (alguém dê uma coroa de louros ao cavalheiro!)


Já se sabe que -por uma mistura entre o triste esprit du temps e o poder dos social media - Kim Kardashian e companhia conseguiram um lugar cativo no seio da indústria de moda, com os mais elitistas editores e designers a vergar-se (não há outro termo) perante a estrela de reality shows (que ficou famosa da forma pouco abonatória que todos estamos fartos de conhecer). 

Basta abrir a caixa de comentários de qualquer notícia referente ao clã Kardashian nas mais vetustas publicações de Moda  para notar as ameaças que os leitores deixam *em vão*, dizendo que vão deixar de seguir a dita revista a quem fugiu o pé para o chinelo, se continuarem a referir tais pessoas a torto e a direito, e "isto mais parece um tablóide", etc. Debalde. Hão-de falar em Kim e sua seita até se cansarem da novidade, nada a fazer. E todos os stakeholders parecem ter entrado em modo "se não podes vencê-los, junta-te a eles" fazendo coro que sim senhor, Kim Kardashian é um ícone de moda.

Pessoalmente o "fenómeno" (nem todo o fenómeno é bom; uma catástrofe também é um fenómeno) fere-me um bocadinho, como a qualquer mente mais old-fashioned. Não gosto de ver maus exemplos glorificados nem o luxo e a arte desvirtuados desta maneira, no firme propósito de captar um certo tipo de público. Mas se Kim realmente se vestisse fabulosamente bem, enfim, personagens extravagantes sempre houve e qualquer um tem o direito de se reinventar. O problema é que não veste - particularmente, desde que o marido sabichão que arranjou decidiu mandar nela e ataviá-la com roupas mais luxuosas, certo, mas totalmente inadequadas à sua silhueta. 




E atrevo-me a especular: se Eça de Queiroz fosse vivo, diria ser um dever de bom senso dar bengalada nos Kardashians.

 Mas à falta disso, eis que no melhor modo aldeia gaulesa, duas vozes resistentes se levantam: Tim Gunn, o célebre (e adorável) consultor de moda, atreveu-se a dizer ao New York Daily News que o melhor conselho de estilo que pode dar é "façam uma recolha de looks das Kardashians e usem exactamente o oposto". E elaborou "não me importa o que usem, desde que não se vistam como uma Kardashian. É vulgar - ponto". Eis um momento de puro snobismo positivo. E seguiu chamando às roupas criadas por Kanye West "burras e básicas" e dizendo que Kendall Jenner pode ser uma bonita rapariga, mas "está contaminada pela aura "blhec" da família". Que tareia!

Melhor do que isso só o tom de satisfação com que a Town & Country, publicação assumidamente da velha guarda, passou a boa nova adiante no Facebook: "Tim Gunn Fires Off About How "Vulgar" Kim Kardashian is".

Este mundo não está *totalmente* perdido: ainda vão restando "Asterix" de gosto, de luxo e de siso, que não estão à venda nem batem palminhas a qualquer pato-bravo...como diriam os evangélicos, é para glorificar de pé, Igreja!





Monday, December 14, 2015

Serendipidade do dia: os "walking dead" de cada um



"É isto, nada além: um dia as pessoas morrem na gente. Pode ser um amigo que parece não se importar mais ou então aquele que telefona só quando quer ajuda, um amor que gastou todas as chances que tinha, um primo de longe, qualquer um. Um dia as pessoas simplesmente morrem na gente, e a gente esquece as tardes divertidas que passou, a esperança que alimenta quando ainda não viveu muito, a promessa de nunca esquecer; a gente esquece que um dia quis ficar junto pra sempre, que jurou um monte de coisas, que registou em fotografias uma quantidade de momentos bonitos. É isto, nada além: um dia as pessoas morrem na gente, embora continuem vivinhas da silva". 


     Ana Laura Nahas

É curioso como certos factos insignificantes se juntam para pequenas e grandes conclusões ou descobertas inesperadas: é o chamado serendipismo. Numa destas manhãs ouvi na rádio essa cantiguinha de Selena Gomez (cuja música, confesso, desconhecia de todo) e pensei "olha uma canção pop que parece outra coisa e que até tem significado":


E logo a seguir, aparece o texto citado acima, desses de novos autores que andam pela internet em partilhas inconsequentes mas dão que pensar. E que por sua vez, me lembra outro sucesso pop que adorei e que foi analisado aqui...


É verdade que há pessoas que morrem em cada um, embora continuem vivinhas da silva.

 Toda a gente tem os seus "defuntos vivos", os seus "walking dead" - pessoas que passam de ser indispensáveis, a companhia e o cuidado de todas as horas, o grande amigo ou o grande amor... a ser "somebody that I used to know". Continuam vivas e de saúde mas noutra dimensão, noutro tempo, noutro espaço. Vê-se a pessoa passar na rua, sabem-se até notícias dela, mas é como se fosse personagem de ficção ou um quase estranho. Já nem se aplica a fórmula: "a tragédia é a diferença entre o que foi e o que podia ter sido". Só resta o vácuo.

 Há-de vir o dia em que a física quântica explicará isto e aí todos ficaremos esclarecidos. 
Mas por enquanto é um mistério. Uma categoria muito esquisita e desconfortável para se atribuir a quem significou muito...e no entanto, esse pequeno drama acontece a alguém todos os dias, em todos os cantos da terra. 


Até ver, nada de descoberta aqui; é uma simples constatação de uma das realidades menos fáceis da vida.

 O que fez click na equação das duas canções + texto foi a causa-consequência: é que para morrer para alguém, para se tornar "somebody that I used to know"..é preciso muito Same Old Love. Ou seja, muito Same Old, Same Old. Muito "mais do mesmo". Ziliões de encores e bis e "só mais um!só mais um!" dos mesmos *maus* comportamentos de sempre, dos mesmos erros, das mesmas palavras gastas, das "mais uma oportunidade", dos cansaços e desilusões repetidos ad nauseam

Como a autora supra-citada é brasileira, permitam-me usar uma expressão brasileira também, e novelesca (porque nestas coisas há sempre um sabor a telenovela das oito): nenhuma ligação forte morre de morte morrida, sem mais aquelas, foi-um-ar-que-lhe-deu. Para desaparecer, para morrer para a vida, é preciso que morra de morte matada. E até pode não morrer solteira, mas há sempre um que toma a iniciativa de puxar o gatilho. O outro limita-se a fazer-lhe as exéquias...

Só me faltava cá esta: Smarties que sabem a perfume


Cada dia, uma novidade. E há novidades que só servem para nos arreliar. Eu cá não sou muito de Smarties, aliás- cá entre nós gosto muito de chocolate, mas nem tanto de chocolates. Mais facilmente aprecio um brownie ou uma mousse ao lanche (se é para comer doces, que seja quando é preciso consumir calorias) do que me deixo tentar por bombons ou tabletes, excepção feita ao chocolate preto para petiscar entre refeições. Mas pronto, se houver Smarties, Maltesers, Pintarolas ou qualquer outra coisa também não digo que não, que torcer o nariz a tudo torna as pessoas amargas e maçadoras, cheias de "não me toques que me desafinas".

Esta semana alguém se lembrou de trazer esses comprimidinhos coloridos e, apetecendo-me um com o café, ia a estender a mão para a caixa...eis que me avisam: "olha que já provámos e essas Smarties sabem a perfume". Say what? Está bem que agora andam na moda umas maluquices exóticas: flores comestíveis (não tão exótico para quem cresceu no campo, conheço umas quantas que se podem comer sem cair para o lado) água tónica com sabor a violetas ou coisa que o valha... e por aí. Mas Smarties a saber a perfume pareceu-me um exagero. É certo que agora já tentam impingir às crianças lanchinhos biológicos e que se tira o açúcar e o sal a tudo, mas daí a acrescentar burguesices e hipsterzices às pobres das Smarties, uma coisa tão infantil, tão inócua, tão cuti-cuti...seria um crime contra a nostalgia da nossa infância. 



Assumi que quem provou devia ter comido pastilhas ou bebido chá de menta antes, criando essa estranha impressão. E aventureira como de costume, lá provei uma Smartie amarela - porque com essa cor não podia ter sabores esquisitos, pois não? Lá que fosse violeta ou azul, ainda vá; esses tons costumam encerrar algumas surpresas. Mas com o amarelo é impossível errar...achava eu.



Pois, meus ricos amigos: rompida a barreira de corante que dá acesso ao chocolate tão característico que todos conhecemos, eis que aquela bodega sabia mesmo a perfume! Ou a sabonete (que atire a primeira pedra quem nunca provou sabonete em pequeno, acidentalmente ou não), ou a creme extra perfumado -  a produto de higiene, em suma. Foi assim um momento à feijões de mil sabores do Harry Potter.

 Não sei se houve erro na fábrica ou se a marca perdeu totalmente o juízo, o certo é que não toco em tal coisa tão cedo. Gosto muito de cosméticos, mas não para os consumir desta maneira...a não ser que a Smarties venha garantir, por A+B, que a novidade se destina a lavar a alma, a dar aqueles "banhos por dentro" de que falava o João da Ega.





Sunday, December 13, 2015

Era uma vez uma linda maquilhagem (não fosse por dois detalhezinhos que dão ar de serigaita)


De quando em quando gosto de aprender novos truques de maquilhagem, em particular no que se refere aos "desenhos" para os olhos. É que as possibilidades são infinitas e há sempre algo de novo que se pode fazer com aquele pincel ou aquela sombra que ainda usámos pouco. E ando mais entusiasmada desde que me rendi à táctica do arquivador que partilhei aqui, porque ter tudo à mão é meio caminho andado para poder dar largas à criatividade.

Ora, a Cosmopolitan britânica publicou duas sugestões de looks de festa para quando se está com pressa (uma com destaque para os lábios, outra a realçar os olhos)- e posso atestar que funcionam, pois são do género que costumo usar quando preciso de estar pronta para um evento em pouco tempo.

  Este esfumado com brilho em tons de bronze seria lindíssimo - tenho visto e usado visuais semelhantes com bons resultados - se não fossem duas coisinhas que, quando as vejo noutras mulheres, me parecem sempre tornar o look imediatamente menos sofisticado.

Primeiro, a cor do contorno (aqui foi usado eyeliner gel, mas consegue-se o mesmo com sombra) - estas cores irisadas que nem são preto, nem azul, nem cinzento, soam-me imediatamente a maquilhagem de qualidade inferior, menos pigmentada, com uma cor pouco definida
 (ou lembram-me as mulheres que não sabendo pintar-se, usam uma sombra azulada e pronto). Para isto um antracite opaco, preto ou castanho escuro, esfumado junto às pestanas inferiores para não ter aquele aspecto de "Emeralda, a vidente de feira" dá logo um aspecto mais definido e dispendioso. Mas este cor-de-burro-quando-foge devia ser baptizado de "cinza serigaita", pois é esse o ar que dá...



E depois zás, rematam-lhe com um gloss (sou suspeita, embirro com gloss) que também é rosa-serigaita. Aquele rosinha azulado que nem é bem bubblegum, nem é bem nude, nem é bem coral e que todas as flausinas usam, vá-se lá saber porquê. Um bálsamo em lápis num rosa discreto, mas mais aberto, faria outro panache.

E pronto, nestas coisas de ser e parecer convém ter atenção a coisas tão subtis como o tom errado...alguma dessas youtubers especialistas na matéria podia mandar à revista uma versão melhorada e mais elegante da sugestão. Fica o desafio.




Frase para Domingo:o bom gosto, um dom feminino (?)


"Deus dotou as mulheres, mais do que os homens, com um sentido da graça e do bom gosto, com o dom de tornar aprazíveis as coisas mais simples..."

                                                                 
                                                Papa Pio XII


Isto no geral, digo eu: há homens bem masculinos com um bom gosto extremo e mulheres que...bem. Mas quando o gosto está ausente na alma feminina, o caso é mais grave, se entendermos as mulheres como arbiter elegantiarum de um casal ou de uma família ou num sentido mais amplo, enquanto espinha moral e estética da sociedade.

Já vos contei que a avó dizia mil vezes "vê-se na cara da mulher o tipo de marido que ela tem", ou o tratamento que ele lhe dá. E reza o povo: "a mulher faz o marido". O vice-versa também se aplica, como é óbvio, pois um casal é sempre uma equipa, e "junta-te aos bons...". Porém, a subtil influência feminina é fortíssima, para o bem ou para o mal. 

Bem dizia Anna Jameson que uma mulher delicada casada com um homem algo rough around the edges poderá enfrentar muitos desafios, mas dificilmente se vulgariza; e se ele a amar verdadeiramente (e tiver bom carácter, atenção; sem isso nada feito) acabará por refinar-se - ou se for em essência bem educado, voltará a sê-lo por amor dela. O contrário já não é bem assim. Um homem superior que ou por solidão, ou por insegurança, caia no erro de se unir a uma mulher vulgar e boçal, descarada e ambiciosa, quase sempre acaba por descer ao nível dela, em vez de a elevar ao seu. Isto porque as mulheres. menos impulsivas, têm uma visão aguçada, mais capaz de deslindar um diamante em bruto entre as zircónias comuns. Depois, porque o diabo está nos detalhes...e os detalhes são território feminino.

E isto não ficou enterrado nos anos 1950, quando "elas" reinavam quase exclusivamente sobre os assuntos domésticos e tinham a última palavra nos arranjos do lar e na educação dos filhos...continua bem presente, nos mais ínfimos pormenores. Uma namorada ou esposa elegante, de bom gosto, com bons hábitos, estará vigilante - ainda que de forma instintiva e sem imposições- quanto à linguagem, modos, companhias, apresentação pessoal, vestuário...e quer pelo exemplo quer por experimentação, os bons hábitos ganham-se, as arestas limam-se. 


Um rapaz que tenha ganho costumes menos desejáveis à custa de viver sozinho, por exemplo, rapidamente se habitua a melhorias, desde que contribuam para o seu conforto e bem estar: é todo um agradável mundo novo, proporcionado por esse dom feminil de tornar aprazíveis as coisas do dia a dia.

 Mas se o mesmo rapaz, bem intencionado e ainda que bem formado, se prende a uma mulher desmiolada e de hábitos duvidosos...a influência desta é igualmente forte, mas perniciosa. Lentamente, os gostos dela vão ganhando terreno, e ele achará que não há mal em usar na sua presença uma linguagem grosseira, pois ela própria o faz; em imitar, nos usos e nos trajes, os heróis dos reality shows que ela admira; e por mais que resista, pois haverá sempre coisas que lá no seu íntimo considera excessivas e fronteiras que não atravessa, acabam a puxar pelo pior lado um do outro.

Bem se vê, o poder de influenciar é um dos atributos mais fortes da mulher, embora seja um dom muito discreto.  E o "jeitinho feminino" faz muita falta...desde que bem direccionado, e sendo o "jeito" ou o "toque" da mulher certa...








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