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Saturday, December 19, 2015

8 erros de Natal a não cometer


Entre as modernices + consumismos + laicismos que dão cabo do significado à quadra, o stress dos presentes e os esforços para reunir a família (e infelizmente em muitos casos, para driblar certos constrangimentos de parentela que o espírito natalício não consegue aliviar)...o Natal pode ser uma carga de trabalhos. Ou para algumas pessoas, perder totalmente o propósito. Não nos deixemos enganar: a data não é uma festa comercial como muitos pensam, tão pouco "só para as crianças". Pode ser tão especial como desejemos que seja, desde que as pessoas não se afastem do seu verdadeiro sentido...e que fujam de alguns pecadilhos natalícios sem jeito nenhum. A ver:

1- Atormentar-se porque "vai engordar" com as Festas


Sem querer cair em falsos moralismos... nesta quadra, a existir alguma preocupação relacionada com guloseimas, devia ser a de partilhar os doces e os petiscos com quem não tem a mesma sorte. Se a ideia de ganhar umas gordurinhas é assim tão assustadora, uma forma simpática de a contrariar é convidar para a mesa alguém que ajude a fazê-los desaparecer, ajudar numa iniciativa para os sem abrigo ou simplesmente descer a rua para levar umas filhoses à D. Felismina, coitada, que é um pouco bisbilhoteira mas não é má pessoa e até tem os filhos todos no estrangeiro. De resto, com um pouco de cuidado é possível provar de tudo sem inchar como um balão. O stress dos preparativos trata de queimar o resto das calorias...

2- Arreliar-se com as musiquinhas de Natal



Já se sabe que são uma maçada, mas fazem parte. Mais vale cantar mentalmente as mais bonitas enquanto se corre as lojas...

3 - Não fazer presépio


Além de ser uma linda tradição iniciada por S. Francisco de Assis, tornou-se um encantador costume português, que lembra que o verdadeiro rei da festa não é o consumista Pai Natal à americana, mas o Menino Jesus. Sem falar que as crianças adoram comprar as figurinhas, procurar o musgo, montar o cenário...

4- Cortar árvores


A não ser que elas precisem de ser cortadas (e quem tem terrenos seus saberá o que deve ser desbastado). Não sendo assim, para quem faz questão de uma árvore "a sério", as Câmaras Municipais e os Bombeiros disponibilizam por vezes pinheiros cortados para prevenção de incêndios, e há sempre a alternativa de comprar, num viveiro, uma árvore em vaso que pode ser plantada depois. Senão, mais vale cingir-se às versões artificiais...

5- Querer que tudo seja perfeito


Ralar-se porque gatos e enfeites de Natal não combinam, ou porque as crianças também espatifam a árvore de Natal, ou porque quer uma consoada de anúncio mas a sua família arma uma batalha campal por qualquer coisa - tudo isso faz parte e Natal sem zaragata não é Natal, porque onde há confusão quer dizer que a família está reunida e isso é uma bênção. Ninguém quer um Grinch ou um Mr. Scrooge sem espírito de Natal, mas o excesso de zelo pode transformar a pessoa mais alegre numa Christmaszilla.


6- Pinderiquices que não lembram, literalmente, ao Menino Jesus

Da mesma forma que o Presépio saiu de cena, também há quem ache por bem actualizar o estilo aos enfeites de Natal...ou usar dessa bela coisa que são os enfeites natalícios "fashion" ou "tuning" (Credo!).

Há um motivo para existir uma coisa cheia de mofo que se chama "cumprir a tradição". É que caso se dê asas a certas pessoas mais...bom, criativas, cheias de modernices, o mau gosto instala-se com muiiita facilidade. De modo que em vez de bolas, maçãs, embrulhinhos e sininhos de cores sortidas; de tons branco, verde, encarnado, prateado e dourado...se vêem por aí horrores estilo árvores de Natal pretas, vulgo pinheiro zombie/ todo chamuscado (se o autor da obra for um pretensioso armado em decorador) ou pior um pouco (se o autor ou autora for deste género) árvores cor de rosa de alto a baixo, rosa-serigaita ou rosa nails, cheias de purpurinas e plumas, que mais parecem a árvore de Natal de um cabaret ou de uma casa de mau viver (o Natal é para todos, mas haja respeito hein?). Uma árvore com cara de quem foi enfeitada por uma stripper (ou vá, por uma Barbie de feira)  é tão mau como uma noiva com um decote vertiginoso. O mesmo vale para a partilha de piadas brejeiras com o Pai Natal, as figuras do Presépio ou o que seja. Haja respeito pela quadra, fazfavor.


7- Trazer preocupações para a mesa


O futuro profissional do filho, os preparativos do casório da filha que só dão dor de cabeça, o negócio que não há meio de desenvolver, a crise do país, etc. Confusão saudável é uma coisa - estragar os festejos com coisas sérias que se podem adiar para o ano, é outra.

8 -  Ser um maluquinho dos presentes


Ou porque se entra em modo "não dou nadinha a ninguém!" (o que é um bocadinho triste e de evitar a não ser em caso extremo) ou porque se exagera com medo de melindrar e
 traz-se este mundo e o outro, gastando horrores em bugigangas, ou porque se é preconceituoso em relação a presentes que têm má fama, mas que escolhidos com bom gosto dão excelentes ofertas, ou ainda porque se compra inflaccionado. Na dúvida, antes correr tudo a vales-presente que se poderão gastar mais sensatamente logo a seguir. E em todo o caso, o gesto é que conta e isto não é uma competição...

O "Benza Deus" e o "Mash´Allah!"




Nunca por nunca ser ouvi a avó elogiar algo de alguém, principalmente uma criança, nem felicitar fosse quem fosse por uma boa notícia, que não se seguisse, acto contínuo, um "benza-o (a) Deus!". 

Se fulano tinha um bonito carro novo, já se sabia: foi uma boa compra, benza-o Deus. Se sicrana tivesse acabado de ser mãe, que lindo bebé, benza-o Deus!; se a filha de beltrano fosse uma rapariga assim guapa, "é muito linda, benza-a Deus!"....e por aí fora.

Não se tratava com isto de "invocar o nome do Senhor em vão", mas de uma forma de delicadeza, a que se misturava um certo medo supersticioso de demonstrar alguma inveja disfarçada (pois muita gente, quando inveja o alheio, trata de elogiar em modo "peçonha e mel") e pior: de deixar escapar, ainda que sem querer, algum tipo de quebranto ou mau olhado que lesasse a pessoa visada. 





Com um "benza Deus" estava feita uma declaração de boa vontade, como quem diz "estou contente por ti e só te desejo o melhor". Vestígios de um tempo em que as pessoas não diziam à vontadinha tudo o que lhes apetecia, sem consideração pelos sentimentos dos outros.

Ora, estando uma pessoa de família nos Emirados Árabes, achou muita graça ao ver que, mostrando aos amigos os retratos de casa, lhe disseram bem dos filhos, não sem adicionar logo um "benza Deus" à sua maneira. Que isto nós até podemos andar zangados com certos muçulmanos, achar que não podem fazer da Europa um califado e que na nossa casa mandamos nós e os convidados que se portem de acordo, mas dos árabes que conheci só tenho bem a dizer...gente generosa ao extremo, de quem -acho eu- os portugueses terão herdado a tradição da hospitalidade...



A crença no mau olhado (e nas várias orações não oficiais visando livrar as pessoas dele, assentes num certo "Catolicismo Popular" mas relativamente bem toleradas mesmo nos tempos da Inquisição por serem inofensivas, apesar de caírem na categoria de folk magic ou crendice supersticiosa) é mais antiga que do que o tempo na  Europa. Os romanos acreditavam nele, mas os judeus - e em particular, os mouros - terão tido forte influência no espalhar dessa ideia que criou raízes profundas na Península Ibérica, Itália e Grécia. Recentemente, ao ler sobre as tradições sicilianas que me são tão caras num blog dedicado ao assunto, achei muito curioso como a tradição cá e lá é praticamente igual. E alguém lembrou que ainda hoje os muçulmanos, além de se defenderem com a "Mão de Fátima" contra tal maleita, têm também o hábito de acrescentar "Mash´Allah!" ("foi a vontade de Deus") quando felicitam alguém. É essa a sua forma de "benza Deus!".



"Que lindo bebé - Mash´Allah!" é como quem diz "que a sua alegria se mantenha" ou "Deus, por Sua Divina vontade, concedeu-lhe esta bênção e o que Ele fez ninguém pode desfazer".  É uma garantia de boas intenções e de desejar que aquilo que é bom ou bonito, assim permaneça. 

Pena é que por cá a cortesia do "benza-te Deus" se vá perdendo, como de resto, se tem desvanecido tanta tradição e o significado espiritual de muitas coisas da nossa cultura...

Friday, December 18, 2015

O complexo "não sou o único a olhar o céu"




Embora respeite o percurso dos Xutos & Pontapés, esta canção nunca foi muito o meu cup of tea (talvez porque era uma das poucas que toda a gente sabia arranhar na guitarra, logo calhava invariavelmente em qualquer visita de estudo, dando-se a síndroma de karaoke).

 Mas a letra tem que se lhe diga: há muita gente que vive a ver os sonhos partirem à espera que algo aconteça, a desejar o que não teve e agarrado ao que não tem, a ouvir os conselhos dos outros e a cair nos buracos. E que não sabe que excepcionalmente, desistir é uma virtude; que há batalhas que não merecem o esforço; em suma, almas casmurras que desconhecem os benefícios de passar a outra coisa, do para a frente que atrás vem gente, de um belo siga a marinha, moving on, ou siga para bingo!

Mas enfim, isso é lá com cada um- se querem acreditar que quando as nuvens partirem o céu azul ficará e quando as trevas se abrirem o sol brilhará, fantástico. Ter uma mente positiva é meio caminho andado para chegar a qualquer objectivo. E há quem seja feliz assim. 

O pior é quando as pessoas que "olham o céu" se fincam em ideias que não são boas, ou exequíveis, ou que mesmo que corressem pelo melhor se calhar não eram tão convenientes como elas acham que são...e não se tiram daí, por mais que sofram e que arreliem quem está à volta com isso. Nem tudo o que se quer é necessariamente bom...




Viver desejando o que não se tem, agarrado àquilo que não é seu, já é mau que chegue: mas quando se está mesmo a ver que, ainda que se venha a ter essa coisa/relacionamento/desejo realizado... o resultado não vai ser famoso; ou quando no processo de alcançar esse desejo, só se atrai o piorio...alto. 

Há muito quem pareça comprazer-se em situações que geram permanente confusão, conflito e auto-destruição. Mas mesmo assim teimam, achando que vai valer a pena o esforço...ficando cada vez mais frustradas e infelizes, incapazes de explorar outras possibilidades, sem ver que por vezes, na vida, temos de ser como a água e fuir, fazer limonada com os limões que aparecem, tentar outras avenidas ao invés de controlar tudo e dizer "é assim!". E frequentemente parece que o Céu zomba dessas pessoas, dando-lhes exactamente o oposto como castigo pela sua teimosia.

Porém, ainda há uma categoria mais aborrecida das "pessoas que olham o céu": são as que tentam impor as suas fixações a quem as rodeia. Se uma ideia pareceu boa há cinco anos mas não tem dado em nada - só em disparate - há que continuar a empurrar quem está a jeito ou sob o seu comando (sejam os funcionários da empresa, os filhos, os membros de uma banda) sempre na mesma direcção, mais um esforçozinho que está quase, concordem que não concordem. Este tipo de pessoas que "olham o céu" não só cai nos buracos, como quer obrigar toda a gente a ser como elas: a andar de nariz no ar e sem ter os pés no chão, a viver agarrado ao que não tem, a ouvir os conselhos dos outros e a atirar-se para os ditos buracos. É como um cego a querer guiar à força quem até pode ser míope, mas ao menos tem o bom senso de usar óculos...


Thursday, December 17, 2015

Cinderela e o Ano da Misericórdia


“What is a bowl of milk? Nothing, but kindness is everything"


Finalmente consegui deitar a pestana à Cinderela em live action, com realização de Kenneth Branagh, actrizes do Downton Abbey e dos Borgias, além de duas das minhas senhoras preferidas: a belíssima Cate Blanchett a fazer uma fantástica madrasta e a maravilhosa Helena Bonham Carter de fada madrinha.

Ainda não acabei de ver (o tempo é realmente um luxo) mas de facto, as meninas deste mundo precisam de contos à moda antiga (sem modernices relativistas nem princesas serigaitas) que lhes lembrem quanto poder há na bondade. 

Já tenho dito várias vezes que a bondade anda muito fora de moda, que deixou de ser uma qualidade a que se deva aspirar. Particularmente no caso das mulheres: é desejável que sejam bonitas, bem sucedidas, poderosas, realizadas em todos os campos, intelectualmente capazes...mas bondosas, nem por isso.

 Ser bondosa, gentil, caridosa, é quase o mesmo que ser uma valente palerma, uma ingénua que se deixa enganar por toda a gente, que não se sabe defender e nunca chegará a lado nenhum. Confunde-se bondade com fraqueza, esquecendo a velha máxima ''nada é tão forte como a gentileza e nada é tão suave como a verdadeira força". Bondade e gentileza traduzem-se sempre em nobreza, em verdadeira elegância, na capacidade de enfrentar com classe e dignidade até as piores afrontas.

Mesmo nos dias ultra materialistas e arrivistas de hoje, do "salve-se quem puder" a magnanimidade, a caridade (que por vezes passa por simples delicadezas como "dar o desconto" aos outros) e um coração generoso podem muito e cabem em todo o lado. A História está cheia de exemplos de boas pessoas que singraram na vida e de batoteiros que receberam a justa recompensa. Como diz o povo, o mundo não é dos chicos espertos: um espertalhão até pode almoçar, mas não janta.

Apesar da crença popular ter mais fé no poder da esperteza do que no da bondade, há que recordar uma ideia enraizada na nossa cultura essencialmente Católica, mas que anda às vezes esquecida: Deus nunca permitiria o mal no mundo se não fosse poderoso o suficiente para tirar o bem do mal.

Logo, não há que ter pena ou medo de *tentar* ser bondosa (a) e gentil sempre que possível, nem de transmitir às novas gerações esses valores.

O Papa Francisco proclamou um "jubileu extraordinário" centrado na Misericórdia, que começou no passado dia 8, solenidade da Imaculada Conceição, e que percorrerá todo o ano de 2016. Esta mensagem é importante mesmo para quem não é religioso. Afinal, o mundo não pode precisar mais de misericórdia e das obras da dita: não só as mais tangíveis como visitar os doentes e socorrer os necessitados, mas aquelas que qualquer um pode aplicar sem grande esforço no dia a dia. Sofrer com paciência os defeitos dos demais (como gostaríamos que nos aturassem) perdoar as injúrias, consolar os tristes, corrigir os que erram, ensinar os ignorantes (em vez de troçar da ignorância ou mau gosto alheio, por exemplo) dar bom conselho a quem precisa, e assim por diante... são sinal de poder, de auto domínio. 

Quanto mais não seja, de que se é forte o suficiente para não se deixar contagiar pela maldade que está na moda. Esta versão da Cinderela é assumidamente antiquada, fiel à versão original da história e aos tempos em que as princesas de conto ainda não eram todas guerreiras, mas tinham de ser bondosas e femininas. E ainda bem...



Aqueles casais deprimentes


A imagem acima - de um jovem casal a passar um momento difícil nos finais da Grande Depressão - dá que pensar. Para já, porque ao colorir-se o retrato, ficou tão vívido que parece uma fotografia actual. Mas é mais do que isso...este casal podia estar a atravessar a Grande Depressão, mas não era de todo um casal deprimente. Já explico o que quero dizer com isto...

Ora reparem neles: membros da classe trabalhadora, marido desempregado, habituado ao duro ofício de lenhador, rodeados de um cenário pouco confortável numa fase da vida em que tudo devia ser rosas. E no entanto, há uma elegância nos dois que desafia as circunstâncias. São um casal bonito.  A mulher está sentada no rude barracão como uma rainha no seu trono, posando para o maior artista. Ele parece encarar a crise com a sobranceria de um aventureiro habituado a muito pior, ou o descaso de um varão medieval pela morte. 

É claro que podemos adivinhar aqui uma situação de "amor e uma cabana"- como dizem os chineses, quando se é amado, até a simples água fria tem um doce sabor. Mas o amor, embora seja per se uma forma de riqueza, não garante que os elementos de um casal façam por conservar em si mesmos aquilo que atraiu o outro em primeiro lugar.

São muito frequentes os casos de casalinhos que, mal se pilham numa relação sólida, vai de se descuidarem. E de darem razão àquelas piadas sem grande graça, vulgo "apanhou-se comprometido (a), desleixou-se". Ora, não há nada mais deprimente. É certo que o amor não está reservado às pessoas convencionalmente atraentes, sempre super bem vestidas a caminho de uma passadeira encarnada qualquer...mas não deixa de estar associado à beleza, aos pequenos luxos, às coisas boas da vida, à sensualidade. E um casal que deixa de ser sexy ou vá, apresentável (porque muitos não eram umas belezas para começar, mas quando eram, mais deprimente se torna) é mesmo de entristecer uma pessoa. 

Quem teve pais que sempre fizeram por manter a boa forma e um certo glamour mesmo em casa terá talvez maior dificuldade em entender essas desculpas esfarrapadas, em estilo "já me casei..."; mas qualquer alma observadora se arrepiará, se se detiver nisso, ao contemplar estas pessoas pouco felizes, deixando entrever uma vida social que se resume a pasmar frente à Casa dos Segredos (ou em casos menos graves, um filme qualquer) e um "amor" murcho, sem graça, de papelão, à falta de melhor, daqueles só para não ficar para tio ou tia. Isso não é sequer amor e uma cabana, que ao menos é uma ideia romântica. É a versão pequeno burguesa e reles, como diria o primo Basílio, de um suposto amor- ou pior, é um "môr". Não é vida - é uma vidinha.


E muitas vezes, as crianças levam com as culpas: ter filhos é o melhor pretexto para quem é preguiçoso (a). Há dias vi um casal que sinceramente, me deixou a pensar se teria adoptado/raptado a criança que trazia consigo. O pequenito era lindo, louro como um sol, com os caracóis a bater nos ombros sob um bonezinho de bom gosto, adoravelmente vestido. Os pais? Ela gorda como um texugo e larga como um viaduto, entrouxada em roupa sem graça como quem vai limpar com lixívia; ele pançudinho e careca, com trajes igualmente pouco cuidados. Podia ser a ama a passear o filho dos donos da casa, mas quero acreditar que as amas têm mais aprumo...deviam ser daqueles que pensam "já não compro roupa para mim, só para o meu príncipe/princesa" (e isso de tratar os filhos por príncipes também é do mais deprimente que há, salvo se for mesmo verdade).

Ao ver tais "parcerias", ocorrem ideias do tipo "realmente, só se estragou uma casa", "pobre pequena, casou com um bruto" ou "de facto, esta mulher deve ser daquelas loureiras sem educação que fazem tudo para agradar, mas mal arranjam quem as carregue não servem para nada e tratam de arruinar um homem". Ou tudo isso junto. Cruzes.

Em qualquer caso, o amor deve servir para puxar pelo melhor das pessoas, para fazer com que desabrochem em todo o seu potencial. É claro que o aspecto é um mero símbolo disso - mas há que respeitar a dignidade que o amor exige. Até porque atrás da beleza que se degrada, vai tudo o resto por aí abaixo...e se um casal em plena Grande Depressão conseguiu manter-se decente, não há desculpas para os outros todos.








Wednesday, December 16, 2015

Papás: não é desta protecção que as vossas filhas precisam


O Expresso noticiou, com um grande artigo num dos seus blogs, um vídeo institucional criado por uma organização Norueguesa, visando alertar os homens para o respeito pelas mulheres. Até aí, fantástico. O vídeo é bem feito, bonito e comovente.

 Mas se olharmos para além do texto bonitinho e da musiquinha melancólica, percebem-se duas coisas: primeiro, o quanto a premissa é redutora (segundo os autores, todos os males das raparigas se resumem ao facto de os rapazes não acharem nada de grave dirigirem piadinhas sexistas, ou chamarem p*** e galdérias às meninas) e segundo, o tom vitimista da coisa, roubando às mulheres toda a responsabilidade pelos seus actos e pela sua segurança. Basta começar pelo título "Papá, protege-me porque nasci mulher". 



Calma aí.

Deixem-me começar pelo argumento com que concordo no anúncio, embora a meu ver tenha sido mal explicado porque isto da "igualdade" baralha sempre tudo: é obrigação de qualquer homem com H, de um Senhor que se preze, de um homem honrado, criar os seus filhos rapazes para essa velha instituição que se chama ser um CAVALHEIRO.

Há um dever moral de ensinar o seu filho a respeitar todas as meninas e senhoras como se fossem suas mães ou irmãs. A evitar certo palavreado dirigido a, ou na presença de, meninas ou senhoras. A não bater numa menina nem com uma flor (embora seja justo afastá-la com mais veemência se ela lhe bater primeiro).

A não invadir o espaço físico alheio sem ser convidado e - caso seja um rapaz muito popular - a jamais descer ao ponto de se aproveitar das fraquezas (e da falta de juízo) do sexo oposto. Mesmo que se trate de raparigas alteradas por uns copos a mais, logo fora da posse das suas faculdades; ou até "daquelas" jovens "oferecidas" com baixa auto estima iludidas e desmioladas, que oferecem este mundo e o outro não numa perspectiva modernaça e casual, sem compromisso, "get mine,  get yours e no fim cada um vai à sua vida" mas na tentativa patética de obter umas migalhas de amor e atenção. Um cavalheiro evita brincar com os sentimentos alheios, ainda que possa dizer, em sã consciência, "eu nunca a enganei, nunca lhe prometi nada". Não precisa disso.




Um homem ensinará os seus filhos que um homem, como mais forte, deve ter cuidado com o que é delicado e frágil - e isso pode incluir ser compassivo com a "galdéria da escola", protegendo-a de si própria. E por fim, a respeitar que um não é um não. Ainda que pareça quase um sim, a própria hesitação alheia é sagrada. Se vier a ser sim não faltará oportunidade de o confirmar, if you know what I mean.

 Tudo isto é muito simples: é dizer a um rapazinho "não cresças para ser um cobarde e um canalha". Depois o resto passa por dar o exemplo, pois os meninos tendem a tratar as futuras mulheres na sua vida conforme vêem o pai tratar a mãe e as irmãs. A fidelidade, o carinho, o cuidado, o respeito, a firmeza e a delicadeza de atitudes  são coisas hereditárias.

E por aqui me fico quanto à ala masculina; agora vamos ao lado feminino da questão. O vídeo é todo narrado com frases que fariam chorar as pedras da calçada...se não as ouvirmos realmente bem.

"Querido papá. um dia os meninos vão chamar-me vadia por causa do comprimento da minha saia";



"Querido papá. um dia eu vou estar perdida de bêbeda e um rapaz vai avançar demais embora eu diga que não, mas vou estar demasiado entornada para que ele acredite em mim";

Assim como cabe a um pai educar filhos respeitadores, cabe-lhe criar filhas prudentes, com noção do apropriado e conscientes de que este mundo está cheio de gente de má rês, e de que isso não muda por mais campanhas açucaradas que se façam.

Isto porque embora o comprimento da saia não dê a ninguém o direito de insultar ou atacar outrem, não seja um convite e até possa não ser estatisticamente proporcional às agressões (se assim fosse, as mulheres em certos países muçulmanos nunca tinham problemas) é sim, em certos sítios, horas e circunstâncias, um factor de risco. Em todo o caso, há locais e situações para tudo e uma rapariga bem formada, educada de forma direita pelos pais, sabe que não precisa de vestir como a Nicki Minaj para ser bonita. Ensinem as vossas filhas a procurar a elegância, e não tanto a sensualidade, e a zelar por uma boa reputação, incluindo nas redes sociais. Expliquem-lhes que se uma roupa parece duvidosa, se calhar vai levantar ideias duvidosas nos outros. E que não convém dar aos outros uma ideia errada e injusta de si mesma.



Mostrem-lhes que os homens apreciam as mulheres elegantes e modestas, que são essas que eles querem, mais tarde, apresentar aos pais; que a feminilidade, ao contrário da vulgaridade, nunca cai mal....e dificilmente elas serão insultadas injustamente por causa da roupa. Poderão arreliá-las com outras coisas (a miudagem arranja sempre por onde implicar) mas para isso, aposto que lhes faltarão argumentos. Vestir como uma stripper sem ser incomodada pode até ser um direito, mas não devia ver-se como uma "vitória feminina".

Igualmente, convém martelar, ad nauseam, indo buscar testemunhos de parentes ou amigas mais velhas se preciso for, que uma rapariga alterada por álcool ou drogas não pensa bem, não vê bem, não mede o que faz.  Assim como um rapaz alcoolizado pode perder a noção dos limites. Rapaz bêbedo, rapariga bêbeda, o resultado nunca é famoso. Isso é facto e depois do mal feito culpar o rapaz aproveitador e o machismo serve pouco de consolo.




E depois o vídeo continua visando casos mais dramáticos:

"Querido papá, um dia um rapaz aparentemente inofensivo não vai entender que não é não". 

Isto já é mais complicado. Pode acontecer à rapariga mais independente, mais forte - ou porque teve azar, ou porque é ingénua, está apaixonada, dali não espera violências e o imbecil não soube conter o seu "entusiasmo" (ou não lhe ensinaram isso de respeitar a tal hesitação sagrada, que pode surgir- com toda a legitimidade- mesmo que as reservas pareçam ter caído).  O remédio contra isto é preventivo, porque uma sova à moda antiga após o mal feito também não desfaz o mal nem cura o trauma. Ensiná-la a ser assertiva quando necessário, a não ter medo de verbalizar nem de ser desagradável com quem é desagradável. 


As mulheres são educadas para ser encantadoras, mas isso nem sempre funciona no mundo em que vivemos. E acima de tudo, convém dar-lhe uma forte noção de respeito próprio e mostrar-lhe como ler os sinais e saltar fora ao primeiro pisar de risco: um namorado que abusa não o faz de um momento para o outro. A falta de respeito, o descaso pelos sentimentos dela, o amesquinhar da auto estima, a pressão está lá sempre antes de o mais grave acontecer.

"Querido papá, um dia o homem perfeito vai deixar de ser perfeito e agredir-me".

Outra de que infelizmente nenhuma mulher está livre (nem homem, mas vamos aqui pela lei da força física). Também aqui nenhuma agressão surge do nada e só há uma vacina: treinar cada menina para nunca tolerar, desculpar ou relativizar a falta de respeito, o ciúme patológico, a crueldade psicológica, íntima ou física. O papel de um pai é avisar sobre os maus rapazes, sem estender essa ideia assustadora a todos os rapazes; dar a uma rapariga a consciência do seu real valor; frisar que nunca deve isolar-se nem guardar esses segredos, que pode contar com a família para ouvi-la sem julgamentos. 



Muitas mulheres têm medo de confidenciar com o pai - e/ou os irmãos rapazes- temendo reacções extremas. Podia estar o dia todo a relatar casos de mulheres maltratadas que recearam pedir ajuda à família por essa razão, agravando o problema quando podia ser remédio santo (pois infelizmente, os cobardes só respeitam a força bruta).

Mais do que tudo, para prevenir ambos os casos - estranhos ou namorados que abusam e agridem -   as artes marciais e as aulas de auto defesa fazem mais pela auto estima e segurança feminina do que todo o feminismo junto.

Reduzir tudo ao sexismo -até o que depende da auto-responsabilidade - é  míope, perigoso, cheio de wishful thinking e de um idealismo que só lembra aos nórdicos, obcecados pelas questões de género.

"Querido papá, ENSINA-ME A TOMAR BEM CONTA DE MIM PRÓPRIA...porque sou mulher" é uma mensagem bem mais sensata, porque é ilusão tentar educar toda uma sociedade de forma perfeita para a tornar livre de agressores. Afinal, ou somos fortes e independentes ou não somos. Decidam-se.

Assino por baixo (e as memórias dolorosas não me deixam mentir)


Eu não quero pensar no futuro das novas gerações, tanto adoçam a vida e os factos às crianças (menos quando as sobrecarregam de actividades extra curriculares daquelas fúteis, as chamam índigo e ridicularias dessas, as fazem levar uma vida de monge, mas em mau, em frente a ecrãs e não as deixam comer doces nem sal...aí tenho pena delas, que tortura!). Os pequenos da minha geração eram badass. Circulam pela web incontáveis textos nostálgicos sobre o assunto e eu própria já escrevi um aqui, por isso não vou elaborar. Arrumo apenas com meia dúzia de argumentos de peso: reguadas na escola, lamparinas correctivas quando necessário, óleo de fígado de bacalhau à colherada (continuo grande fã, nada ilumina tanto a pele e o cabelo; mas usem-no em cápsulas, que o sofrimento molda o carácter mas não exageremos) mercúrio nos termómetros, mercurocromo nas feridas para andar pintalgado dias a fio (em casa foram mais benevolentes: passaram a usar betadine para essas "feridas de guerra"), e...mertiolato.



O nome "mertiolato" ou "merthiolate" pode parecer estranho na era do politicamente correcto e do ai-Jesus-não-traumatizem-as-flores-de-estufa, mas era todo um ritual darwinista de iniciação, uma autêntica operação de eugenia, uma agogê de meter medo aos espartanos, no melhor modo só os fortes sobrevivem. Ao pé de um frasco daquela mixórdia, o pior bully (no meu tempo eram "rufias") da escola era pêra doce.

Digo-vos já que, tanto quanto sei, nunca ninguém morreu por ser *mal* tratado com esse líquido esverdeado ou rosado, whatever, com cheiro a hospital e que parecia esfolar uma pessoa viva; mas que dava vontade de bater as botas ou desmaiar para acabar com a dor, isso dava.

Que me lembre, só tomei contacto umas duas vezes com tal poção mágica, e uma delas ficou-me gravada a ferros na memória. Era o Dia da Unidade, ou outro evento militar solene, e eu teria uns três anos. Os Oficiais tinham por hábito levar os filhos a essas festas e eu adorava assistir às paradas e observar os cavalheiros nas suas fardas de gala, acompanhados por elegantes senhoras (quem nasce torto, nunca se endireita). Nem protestava perante os longos discursos e refeições que pareciam durar hooooras. Foi uma boa escola.


 Depois deixavam a pequenada andar à solta por ali entre tanques e canhões e eu, sempre traquinas, decidi começar às corridas numa via enorme com casernas, ou garagens, não estou certa, de ambos os lados. Mas ai- os meus sapatinhos de cerimónia não combinavam com o pavimento e escorreguei de cara no chão por ali fora. E o vestidinho de mangas curtas não me protegeu os braços, que foram a primeira coisa a assentar - ou antes, a ir de rojo - no betão ou lá o que era. Zás, fiquei com um braço em carne viva e desatei a choramingar...só um pouco, nunca fui muito piegas.

Levaram-me para a enfermaria e um jovem soldado simpático, julgando decerto que a recruta quanto mais cedo melhor (ou confundindo o frasco de mertiolato com o de água oxigenada, que teria mais lógica usar) aproximou da minha pele um algodão bem embebido naquela porcaria.


Aí é que berrei e chorei a sério. A dor foi tão forte que parecia que me tinham atingido com um taco de baseball na cabeça. Julguei que o coração me ia parar e que ia ter uma coisinha má...sem exagero, foi esse tipo de dor. Não morri. Volto a dizer, acho que ninguém morreu do mertiolato: só se tornou mais forte graças a ele.

Mas embora leis que controlem casos mais graves de bullying possam fazer falta, é inegável que as crianças de hoje são muito fraquinhas...não aguenta mertiolato, não está preparado para enfrentar a selva da vida. Ponto.

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