Porque às vezes uma imagem vale mais que mil palavras, há certos instantâneos e memes a circular por aí que fazem uma melhor análise do tempo que vivemos do que prolongadas teses do mais reputado sociólogo.
Como este grafitti, pois é só o que falta:
A Mona Lisa não digo que se ponha nestes preparos, mas com a Kardashianização das mulheres tudo é possível.
- Ou este, acerca da efeminização dos homens:
Mais este, acerca das mulheres que querem só direitos mas não deveres; que esperam deixar de lado a feminilidade e a dignidade femininas, mas ser mimadas pelo sexo oposto; que exigem "igualdade a martelo", até no que não lhes convém...mas depois se queixam; ou ainda as que são loureiras e sabem agradar até encontrar quem as carregue...para depois se revelarem umas mandonas, egoístas e desarranjadas de primeira, que esperam flores e chocolates mas acham o cúmulo fazer uma simples sanduíche lá em casa:
Caso arrumado.
Por terras de Vera Cruz vai um grande burburinho nas redes sociais, graças a um caso de adultério que deu brado, foi filmado e - como não podia deixar de ser - acabou online em todo o seu esplendor. O enredo é reles, o desfecho reles é: o marido desconfiou do comportamento da cara-metade, espreitou-a, seguiu-a...e surpreendeu-a num local de rendez-vous indigno na companhia do melhor amigo do casal, um novo-rico da região, igualmente casado. Fora safanões e insultos, não acabou tudo em *mais* bordoada e arnica porque os traidores se refugiaram no carro...e o veículo pagou a maior parte das favas.
Nada haveria de notar aqui, não fosse a tirada "foi fazer a unha né, Fabíola?" ter ficado na boca do povo, sido transformada em incontáveis memes e parodiada à exaustão. É que "vou fazer as unhas" foi a desculpa que a mulher inventou para se ausentar sem que o esposo desse por nada.
A única coisa que ainda não percebi no meio de toda esta trapalhada é se a tal Fabíola era manicura e ia fazer as unhas de uma cliente (como afirmam alguns sites) ou se era bancária e ia tratar das próprias garras (como dizem outros).
Também não importa: já se sabe que aplicar gel, extensões, brilhinhos e bonequinhos é um passatempo demorado que chegue para ir chamar a morte, quanto mais para fazer trinta por uma linha.
Qualquer incauta que tenha cedido à curiosidade e experimentado um simples verniz-gel nude, sem um desenhinho que fosse, sabe que o suplício de liga-o-forninho-desliga-o-forninho-massacra-a unha-pinta-a-unha dá tempo de matar trinta neurónios por segundo ou - para que tal não aconteça- de rezar mentalmente o terço, embora seja mais provável que a maioria se dedique aos mexericos para não morrer de tédio naquela agonia. Logo, a Fabíola arranjou a desculpa quase perfeita...só que as desculpas são como o crime: quando toca a isso, perfeição não existe.
Logo, aqui confirmo as minhas suspeitas de que a nail art, tal como as leggings, é invenção do demo para espalhar o mau gosto e perder as almas. Para já, porque trazer as mãos capazes de envergonhar um papagaio ataviado de lantejoulas dá cá um mau ar que quem não é, parece. (E quem não resiste a uns brilhitos que me desculpe; acredito que haja gente honesta que faz isso sem pôr mal no assunto, até porque tenho uma ou duas amigas que não perdem a mania por mais que eu as arrelie).
E depois porque muitos nails corner são a versão ociosa para o sec. XXI dos tanques públicos de lavar a roupa onde para matar o aborrecimento, se contavam todas as tricas e se podiam ganhar, por osmose, todos os vícios. Não se pode aprender grande coisa estando tanto tempo parada, sem poder sequer ler para se entreter e a ver entrar cores horrorosas e apliques assustadores pelos olhos dentro, enquanto se ouvem frases que acabam com "fostes", "fizestes", "o comer", "môr" e "miga". É que é impossível sair dali algo que eleve o espírito, pronto. Imaginam, sei lá, Audrey Hepburn ou qualquer outra Senhora a fazer "espampanâncias folclóricas" nas mãos? Eu cá não.
Mas voltando à Fabíola, o pior é que ainda houve muito mulherio a acudir por ela, com argumentos do estilo "ai que sexismo horroroso" e o piorio do piorzinho, "ninguém é de ninguém". Talvez porque a moral de elástico é sempre solidária com os pecados com que se identifica, talvez por medo que os maridos e a opinião pública comecem a bater o pé às nails cheias de macacadas. É que muita gente não vive sem isso; e como no caso das ceroulas do demo, há sempre uma legião de diabinhas prontas a defender a causa até à morte...
Por mero acaso encontrei esta imagem de Liz Taylor que desconhecia de todo, e fiquei perfeitamente fascinada. Não consegui confirmar o contexto, mas é quase certo que se trata de uma prova de figurino para a produção de Cleópatra. E nada mais normal que se inspirassem numa das maiores beldades do Mundo Antigo (ou pelo menos, aquela cujo lindíssimo rosto conhecemos melhor) para ataviar de acordo uma das caras mais lindas (senão a mais linda) a agraciar as telas.
Os dois rostos juntos, é quase beleza a mais. Porque a beleza comove e às vezes ofusca.
Nefertiti, esposa de Aquenaton, era tão encantadora que o seu nome significava "a Bela chegou". Por ser assim chamada, alguns defendem que não era egípcia mas turca, enviada ao Faraó como um presente. Não me surpreendia que fosse verdade, já que nas belezas nascidas por essas bandas (quer no feminino, quer no masculino) não há meio termo: a mistura entre os traços orientais e europeus torna-as arrasadoras.
Quando o busto de Nefertiti foi encontrado em 1912, julgava-se que o olho esquerdo da escultura teria sido danificado pelo tempo, mas concluiu-se que nunca fora colocado para começar: o mais provável era que temessem terminar o trabalho, para que as deusas não se enciumassem com a perfeição da Rainha. O seu tipo de beleza transcende épocas, modas e padrões efémeros: tal como o de Simonetta Vespucci, por exemplo, era belo na sua época, continua a sê-lo hoje e o mais certo é continuar a espantar as gerações vindouras.
Já de Elizabeth Taylor - bela por fora e por dentro - basta dizer que interpretou Helena de Tróia (acima).
Pode partilhar o pódio dos palminhos de cara mais adoráveis e das figuras de ampulheta mais incríveis com ícones como Brigitte Bardot, Ava Gardner, Grace Kelly, Vivien Leigh, Sophia Loren e Marilyn Monroe, fora outras (Páris, se fosse chamado a novo julgamento, cortaria os pulsos antes de escolher a quem dar a maçã).
Mas embora nem todos concordem, muitos estudiosos da matéria defendem que a beleza de Liz (embora fosse discreta por vezes, salvo pelo violeta dos olhos) transcendia a formosura comum, por ser absolutamente simétrica.
A beleza é sempre composta de vários aspectos: exotismo, contraste, harmonia, simetria, perfeição e das pequenas falhas que a tornam mais apelativa, para não falar em certos exageros de traços que mais um bocadinho e beirariam o feio, mas por isso mesmo se tornam marcantes e lindos. Isto sem falar no carisma e no olho de quem vê, pelo que é impossível definir uma "beleza universal", mas apenas um conjunto de características geralmente apelativas. No entanto, Elisabeth Taylor andaria muito perto. Vale a pena ler na íntegra este inspirado texto sobre ela, de que reproduzo um bocadinho em tradução livre:
"Os rostos considerados lindos são feitos normalmente de feições pouco certas, mas dispostas de tal maneira que se tornam belas, como Marilyn Monroe; ou de traços bastante comuns, sem nada de especial, que fazem um rosto deslumbrante como o de Greta Garbo; ou ainda de características estranhas, marcantes, como Angelina Jolie - mas não consigo pensar em ninguém que tenha feições imaculadas, extraordinariamente belas que se juntaram para formar uma face ainda mais extrordinariamente bela, como Elizabeth Taylor. Não tem tudo a ver com os traços; a simetria é muito importante. Miguel Ângelo não conseguiria inventar uma cara tão perfeita se tentasse".
No outro dia apanhei por mero acaso os primeiros minutos de uma reportagem da TVI sobre alfaiataria (que lamentavelmente não encontro para ver melhor e partilhar convosco). E já se sabe que quando o tema é a arte da alfaiataria, ou a nobre profissão de modista/alfaiate, o tom será sempre ao estilo "o último dos moicanos".
Assim foi nesta peça, concluindo-se que os alfaiates tradicionais que continuam a trabalhar na capital cabiam numa caixinha de ovos...e em Coimbra ou no Porto o cenário não será muito diverso. Aliás, uma leitora conimbricense do blog de Manuel Luís Goucha (que apareceu na reportagem por ser cliente de um jovem alfaiate dos nossos dias, desses com um toque mais vanguardista) lembra saudosamente, e bem, os tempos em que por estas bandas havia não só os ateliers deste e daquele alfaiate ou modista, mas belas lojas como O Último Figurino, A Nova Paris, as Modas Veiga ou (para noivas e cerimónia) o Tito Cunha (onde a senhora mãe comprou o tecido e os adereços para o seu "grande dia", num tempo em que a qualidade das fatiotas ainda era a única pequena extravagância; nada de bolos de três metros nem casórios temáticos com limusina). Essas tinham um conceito semelhante ao da Loja das Meias (e um pouco ao que ainda se vai fazendo no El Corte Inglès) - além de pronto a vestir, vendiam tecidos maravilhosos que depois de escolhidos, restava passar aos pisos de cima onde se dava a magia das toilettes por medida. Era a caverna de Aladino, com chapéus festivos e adereços por toda a parte...vários andares apinhados de profissionais de moda atarefados e elegante clientela. E tendo eu o sangue de dandies e profissionais de moda, isto falava bem alto ao meu coração...

Ainda herdei algumas dessas peças, fora outras vintage que tenho juntado à colecção, com a etiqueta do tecido (ou no caso dos casacos, fornecedor de peles) e o selo da loja...e apesar de já ter assistido ao declínio dessas casas, recordo-me bem de acompanhar o pai às provas de fato, fascinada com a precisão de tudo aquilo.
Ora, na reportagem, um dos profissionais à moda antiga notava o facto de este serviço se ter tornado um nicho ou um luxo (mercê da proliferação de marcas acessíveis de pronto-a-vestir, mas também da "democratização" das próprias griffes mais exclusivas, que já não põem nas confecções o detalhe de antigamente- um paradoxo, dado que a indústria de moda nunca terá sido tão poderosa e influente como hoje, a movimentar milhares de milhões). Mas apontava também uma das causas disso.
Ou seja, a crescente (e a meu ver, excessiva) informalidade e à vontade que se tornaram tão habituais.
Contava então o respeitável senhor que o declínio da alfaiataria no nosso país começou com o 25/4, comme il faut...depois dos "cravos", vestir bem e ir a certos eventos começou a ser mal visto, considerado reaccionário, sinais de ostentação do tempo da outra senhora. E lá se foram a tradição, os fatos elegantes, os smokings, os fraques e as casacas....
Tudo isto seria natural (o mundo avança, gostemos ou não) se não se tivesse tornado permanente.
Que durante um tempo toda a gente quisesse ser hippie e contrariar a norma, fazer tudo às avessas, andar menos empertigado e mais à vontade, é típico de qualquer fenómeno social do género. A Revolução Francesa também deu cabo das extravagâncias, passando a usar-se um look mais natural e mais prático, quase sem anquinhas e sem caudas, ideal para calcorrear as ruas com a cabeça de alguém numa estaca a gritar "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Só que se tratavam por "cidadãos" em vez de ser por "camaradas". A moda, com as suas idas e vindas, não é um capricho criativo de meia dúzia de designers sem nada melhor para fazer: acompanha as convulsões políticas, artísticas, económicas, intelectuais, sociais e assim por diante.
O mal é que, volto a dizer, esse estado de coisas se reflectiu no "à vontadinha" que já aqui discutimos. É compreensível que havendo alternativas mais em conta, a alfaiataria continue a ser um costume só de algumas pessoas - o que não significa que se perca completamente a noção das circunstâncias, ou que não se aplique um pouco do espírito e savoir-faire ao modo de trajar, mesmo que se usem roupas "comuns". Não faltam marcas com camisaria bastante decente, por exemplo, que nem sequer tentam educar o consumidor para que ele perceba o que é adequado a que situação. E depois vemos almas que se preciso for, vão de jeans a uma festa solene, achando que basta atirar-lhe um blazer mal cortado para cima...
Actualmente acha-se mais bem empregue espatifar um ror de dinheiro em nail art medonha do que em mandar ajustar qualquer peça para que pareça mais decente; e nem falemos no atropelo dos dress codes, que transforma qualquer evento vagamente promissor numa salganhada...
Não é só a qualidade dos fatos que decaiu. É que quando a tradição e o rigor se perdem, isso estende-se a tudo e vai por ali abaixo, por ali abaixo....
E no entanto, o aprumo no traje condiciona não só a forma como os outros percepcionam quem veste (e por conseguinte, como tratam essa pessoa) ou a imagem que se comunica aos demais, mas o modo como o próprio se conduz, a sua postura corporal, a sua forma de estar. O que é de qualidade eleva tudo à sua volta. Bem dizia Eça de Queiroz: "a toilette, tal como a nobreza, obriga".
Entre as modernices + consumismos + laicismos que dão cabo do significado à quadra, o stress dos presentes e os esforços para reunir a família (e infelizmente em muitos casos, para driblar certos constrangimentos de parentela que o espírito natalício não consegue aliviar)...o Natal pode ser uma carga de trabalhos. Ou para algumas pessoas, perder totalmente o propósito. Não nos deixemos enganar: a data não é uma festa comercial como muitos pensam, tão pouco "só para as crianças". Pode ser tão especial como desejemos que seja, desde que as pessoas não se afastem do seu verdadeiro sentido...e que fujam de alguns pecadilhos natalícios sem jeito nenhum. A ver:
1- Atormentar-se porque "vai engordar" com as Festas
Sem querer cair em falsos moralismos... nesta quadra, a existir alguma preocupação relacionada com guloseimas, devia ser a de partilhar os doces e os petiscos com quem não tem a mesma sorte. Se a ideia de ganhar umas gordurinhas é assim tão assustadora, uma forma simpática de a contrariar é convidar para a mesa alguém que ajude a fazê-los desaparecer, ajudar numa iniciativa para os sem abrigo ou simplesmente descer a rua para levar umas filhoses à D. Felismina, coitada, que é um pouco bisbilhoteira mas não é má pessoa e até tem os filhos todos no estrangeiro. De resto, com um pouco de cuidado é possível provar de tudo sem inchar como um balão. O stress dos preparativos trata de queimar o resto das calorias...
2- Arreliar-se com as musiquinhas de Natal
Já se sabe que são uma maçada, mas fazem parte. Mais vale cantar mentalmente as mais bonitas enquanto se corre as lojas...
3 - Não fazer presépio
Além de ser uma linda tradição iniciada por S. Francisco de Assis, tornou-se um encantador costume português, que lembra que o verdadeiro rei da festa não é o consumista Pai Natal à americana, mas o Menino Jesus. Sem falar que as crianças adoram comprar as figurinhas, procurar o musgo, montar o cenário...
4- Cortar árvores
A não ser que elas precisem de ser cortadas (e quem tem terrenos seus saberá o que deve ser desbastado). Não sendo assim, para quem faz questão de uma árvore "a sério", as Câmaras Municipais e os Bombeiros disponibilizam por vezes pinheiros cortados para prevenção de incêndios, e há sempre a alternativa de comprar, num viveiro, uma árvore em vaso que pode ser plantada depois. Senão, mais vale cingir-se às versões artificiais...
5- Querer que tudo seja perfeito
Ralar-se porque gatos e enfeites de Natal não combinam, ou porque as crianças também espatifam a árvore de Natal, ou porque quer uma consoada de anúncio mas a sua família arma uma batalha campal por qualquer coisa - tudo isso faz parte e Natal sem zaragata não é Natal, porque onde há confusão quer dizer que a família está reunida e isso é uma bênção. Ninguém quer um Grinch ou um Mr. Scrooge sem espírito de Natal, mas o excesso de zelo pode transformar a pessoa mais alegre numa Christmaszilla.
6- Pinderiquices que não lembram, literalmente, ao Menino Jesus
Da mesma forma que o Presépio saiu de cena, também há quem ache por bem actualizar o estilo aos enfeites de Natal...ou usar dessa bela coisa que são os enfeites natalícios "fashion" ou "tuning" (Credo!).
Há um motivo para existir uma coisa cheia de mofo que se chama "cumprir a tradição". É que caso se dê asas a certas pessoas mais...bom, criativas, cheias de modernices, o mau gosto instala-se com muiiita facilidade. De modo que em vez de bolas, maçãs, embrulhinhos e sininhos de cores sortidas; de tons branco, verde, encarnado, prateado e dourado...se vêem por aí horrores estilo árvores de Natal pretas, vulgo pinheiro zombie/ todo chamuscado (se o autor da obra for um pretensioso armado em decorador) ou pior um pouco (se o autor ou autora for deste género) árvores cor de rosa de alto a baixo, rosa-serigaita ou rosa nails, cheias de purpurinas e plumas, que mais parecem a árvore de Natal de um cabaret ou de uma casa de mau viver (o Natal é para todos, mas haja respeito hein?). Uma árvore com cara de quem foi enfeitada por uma stripper (ou vá, por uma Barbie de feira) é tão mau como uma noiva com um decote vertiginoso. O mesmo vale para a partilha de piadas brejeiras com o Pai Natal, as figuras do Presépio ou o que seja. Haja respeito pela quadra, fazfavor.
7- Trazer preocupações para a mesa
O futuro profissional do filho, os preparativos do casório da filha que só dão dor de cabeça, o negócio que não há meio de desenvolver, a crise do país, etc. Confusão saudável é uma coisa - estragar os festejos com coisas sérias que se podem adiar para o ano, é outra.
8 - Ser um maluquinho dos presentes
Ou porque se entra em modo "não dou nadinha a ninguém!" (o que é um bocadinho triste e de evitar a não ser em caso extremo) ou porque se exagera com medo de melindrar e
traz-se este mundo e o outro, gastando horrores em bugigangas, ou porque se é preconceituoso em relação a presentes que têm má fama, mas que escolhidos com bom gosto dão excelentes ofertas, ou ainda porque se compra inflaccionado. Na dúvida, antes correr tudo a vales-presente que se poderão gastar mais sensatamente logo a seguir. E em todo o caso, o gesto é que conta e isto não é uma competição...
Nunca por nunca ser ouvi a avó elogiar algo de alguém, principalmente uma criança, nem felicitar fosse quem fosse por uma boa notícia, que não se seguisse, acto contínuo, um "benza-o (a) Deus!".
Se fulano tinha um bonito carro novo, já se sabia: foi uma boa compra, benza-o Deus. Se sicrana tivesse acabado de ser mãe, que lindo bebé, benza-o Deus!; se a filha de beltrano fosse uma rapariga assim guapa, "é muito linda, benza-a Deus!"....e por aí fora.
Não se tratava com isto de "invocar o nome do Senhor em vão", mas de uma forma de delicadeza, a que se misturava um certo medo supersticioso de demonstrar alguma inveja disfarçada (pois muita gente, quando inveja o alheio, trata de elogiar em modo "peçonha e mel") e pior: de deixar escapar, ainda que sem querer, algum tipo de quebranto ou mau olhado que lesasse a pessoa visada.
Com um "benza Deus" estava feita uma declaração de boa vontade, como quem diz "estou contente por ti e só te desejo o melhor". Vestígios de um tempo em que as pessoas não diziam à vontadinha tudo o que lhes apetecia, sem consideração pelos sentimentos dos outros.
Ora, estando uma pessoa de família nos Emirados Árabes, achou muita graça ao ver que, mostrando aos amigos os retratos de casa, lhe disseram bem dos filhos, não sem adicionar logo um "benza Deus" à sua maneira. Que isto nós até podemos andar zangados com certos muçulmanos, achar que não podem fazer da Europa um califado e que na nossa casa mandamos nós e os convidados que se portem de acordo, mas dos árabes que conheci só tenho bem a dizer...gente generosa ao extremo, de quem -acho eu- os portugueses terão herdado a tradição da hospitalidade...

A crença no mau olhado (e nas várias orações não oficiais visando livrar as pessoas dele, assentes num certo "Catolicismo Popular" mas relativamente bem toleradas mesmo nos tempos da Inquisição por serem inofensivas, apesar de caírem na categoria de folk magic ou crendice supersticiosa) é mais antiga que do que o tempo na Europa. Os romanos acreditavam nele, mas os judeus - e em particular, os mouros - terão tido forte influência no espalhar dessa ideia que criou raízes profundas na Península Ibérica, Itália e Grécia. Recentemente, ao ler sobre as tradições sicilianas que me são tão caras num blog dedicado ao assunto, achei muito curioso como a tradição cá e lá é praticamente igual. E alguém lembrou que ainda hoje os muçulmanos, além de se defenderem com a "Mão de Fátima" contra tal maleita, têm também o hábito de acrescentar "Mash´Allah!" ("foi a vontade de Deus") quando felicitam alguém. É essa a sua forma de "benza Deus!".

"Que lindo bebé - Mash´Allah!" é como quem diz "que a sua alegria se mantenha" ou "Deus, por Sua Divina vontade, concedeu-lhe esta bênção e o que Ele fez ninguém pode desfazer". É uma garantia de boas intenções e de desejar que aquilo que é bom ou bonito, assim permaneça.
Pena é que por cá a cortesia do "benza-te Deus" se vá perdendo, como de resto, se tem desvanecido tanta tradição e o significado espiritual de muitas coisas da nossa cultura...
Embora respeite o percurso dos Xutos & Pontapés, esta canção nunca foi muito o meu cup of tea (talvez porque era uma das poucas que toda a gente sabia arranhar na guitarra, logo calhava invariavelmente em qualquer visita de estudo, dando-se a síndroma de karaoke).
Mas a letra tem que se lhe diga: há muita gente que vive a ver os sonhos partirem à espera que algo aconteça, a desejar o que não teve e agarrado ao que não tem, a ouvir os conselhos dos outros e a cair nos buracos. E que não sabe que excepcionalmente, desistir é uma virtude; que há batalhas que não merecem o esforço; em suma, almas casmurras que desconhecem os benefícios de passar a outra coisa, do para a frente que atrás vem gente, de um belo siga a marinha, moving on, ou siga para bingo!
Mas enfim, isso é lá com cada um- se querem acreditar que quando as nuvens partirem o céu azul ficará e quando as trevas se abrirem o sol brilhará, fantástico. Ter uma mente positiva é meio caminho andado para chegar a qualquer objectivo. E há quem seja feliz assim.
O pior é quando as pessoas que "olham o céu" se fincam em ideias que não são boas, ou exequíveis, ou que mesmo que corressem pelo melhor se calhar não eram tão convenientes como elas acham que são...e não se tiram daí, por mais que sofram e que arreliem quem está à volta com isso. Nem tudo o que se quer é necessariamente bom...
Viver desejando o que não se tem, agarrado àquilo que não é seu, já é mau que chegue: mas quando se está mesmo a ver que, ainda que se venha a ter essa coisa/relacionamento/desejo realizado... o resultado não vai ser famoso; ou quando no processo de alcançar esse desejo, só se atrai o piorio...alto.
Há muito quem pareça comprazer-se em situações que geram permanente confusão, conflito e auto-destruição. Mas mesmo assim teimam, achando que vai valer a pena o esforço...ficando cada vez mais frustradas e infelizes, incapazes de explorar outras possibilidades, sem ver que por vezes, na vida, temos de ser como a água e fuir, fazer limonada com os limões que aparecem, tentar outras avenidas ao invés de controlar tudo e dizer "é assim!". E frequentemente parece que o Céu zomba dessas pessoas, dando-lhes exactamente o oposto como castigo pela sua teimosia.
Porém, ainda há uma categoria mais aborrecida das "pessoas que olham o céu": são as que tentam impor as suas fixações a quem as rodeia. Se uma ideia pareceu boa há cinco anos mas não tem dado em nada - só em disparate - há que continuar a empurrar quem está a jeito ou sob o seu comando (sejam os funcionários da empresa, os filhos, os membros de uma banda) sempre na mesma direcção, mais um esforçozinho que está quase, concordem que não concordem. Este tipo de pessoas que "olham o céu" não só cai nos buracos, como quer obrigar toda a gente a ser como elas: a andar de nariz no ar e sem ter os pés no chão, a viver agarrado ao que não tem, a ouvir os conselhos dos outros e a atirar-se para os ditos buracos. É como um cego a querer guiar à força quem até pode ser míope, mas ao menos tem o bom senso de usar óculos...