...e que volta e meia vão parar às redes sociais misturados com toda a sorte de lamechices, às vezes intriga-me. Já partilhei convosco dois textos bastante decentes perdidos naquelas páginas da treta que é preciso "meter like" (Credo, abrenúncio, espiga rodrigo!) para poder ler e que certos amigos têm a mania de seguir vá-se lá saber porquê. E desta vez, pelo mesmo veículo mas através de dessas páginas pró-feminilidade e tradição que aprecio e recomendo, dei-me com este poema que me agradou bastante, apesar de eu ser muito niquenta quando o assunto são versos.
A autora é desconhecida, assim o diz quem partilhou, e por voltas que desse não a encontrei, mas atrevi-me a uma tradução livre porque achei que tinha umas imagens fortes e expressivas sem cair em doses de xarope.
Amo-te...da tua alma ao teu sorriso
Do teu coração às tuas mãos; essas mãos que me acariciam só de as ver (...)
Amo-te quando escureces e também quando resplandeces.
Quando gelas e quando queimas.
Quando és tranquilidade e quando és perigo.
Quando és choro e quando és riso.
Quando és paz e quando és guerra...
...e continua por aí fora, terminando com trá-lá-lá, trá-lá-lá, a minha vida só é plena contigo, o habitual. Os poemas, mesmo o dos grandes autores, têm esta coisa de às vezes ficarem melhor incompletos. Quando algumas estrofes são perfeitas é patetice tentar rematá-las, mas isso sou eu que digo e vale o que vale...
Captou-me a atenção a ideia das "mãos que me acariciam só de as ver", porque é verdade. Quando se começa a gostar de alguém, a ganhar alguma intimidade, as mãos dessa pessoa tornam-se importantes. Dar a mão é de repente um grande assunto, especialmente se as mãos em causa forem bonitas. No caso masculino, uma mão elegante, mas firme e forte, é uma promessa de amparo, de protecção, de "não te deixarei tropeçar".
Depois, e deixem-me continuar a falar para as meninas e senhoras porque consigo apenas adivinhar como um homem sente isto: uma mulher pode encantar-se com o sorriso à Clark Gable, o sentido de humor contribui muito para a conquista, mas é quando os olhos "dele" escurecem, quando uma sombra de melancolia os tolda e esse reflexo não passa despercebido mas entra directamente no coração feminino, que se percebe que é amor. Gostar da luz é fácil, mas fascinar-se pela sombra exige certa dose de atenção que se existe, quer dizer alguma coisa.
De igual modo, em qualquer relacionamento superficial, "ama-se", salvo seja, tudo o que é resplandecente e caloroso: mas amar quando "gela", amar quando as coisas se tornam densas- não necessariamente desagradáveis, mas assumindo uma certa gravidade- apaixonar-se mais, se possível, quando um homem diz, muito calma e firmemente, "isto assim não pode ser" ou quando tem os seus acessos como todo o mundo tem, aqueles que fazem pensar "olá! não lhe conhecia este lado tão indomável"...já requer sentimentos mais profundos.
Amar quando o outro é paz e guerra, amar mesmo quando o outro não é tranquilidade, mas perigo (quanto mais não seja, porque quem tem um coração nas mãos pode sempre parti-lo) amar por um amor que não depende das circunstâncias mas abraça igualmente o bom e o mau, como a Terra aceita o sol e a chuva, o frio e o calor, isso é caso sério. E quando se chega a tal conclusão, é maravilhoso e assustador ao mesmo tempo, como todas as coisas relevantes.
Quando era pequena, uma das minhas alegrias era sentar-me no largo escritório do senhor pai a ler os livros a que deitava a mão- incluindo a Segunda Guerra Mundial em BD, uma colecção sobre as tropas de elite deste mundo (gostava particularmente de um volume sobre os samurais) alguns exemplares da avó, como Jane Eyre e...os livros escolares Deus, Pátria e Família quer do pai, quer do avô, em que "mãe" ainda se escrevia "mai". Achava aquilo o máximo e alguns pequenos contos ficaram-me na memória. Não admira que agora estes livrinhos nostálgicos estejam à venda de novo, mas ando com vontade de descobrir onde os nossos estão guardados.
Ora, num deles havia uma história que nunca esqueci e que agora tenho pena de não encontrar para vos mostrar, mas era qualquer coisa sobre um honrado lavrador, pai de numerosa família, nem rico nem pobre, que a cada desafio, negócio ou possibilidade respondia sempre "haja saúde".Se pensava investir nisto ou naquilo, um terreno, um carro de bois, os estudos da prole, o que fosse, ainda que vozes agoirentas dissessem que se calhar era arriscado, ele lá atalhava com um "haja saúde", e ia trabalhando sempre, aumentando pouco a pouco o seu património. No final o bom homem prosperava e fábula era rematada com "haja saúde...e juizinho" qualquer-coisa-qualquer-coisa. Haja saúde...e juizinho, que tudo há-de correr pelo melhor.
Pois cada vez mais creio nisto do "haja saúde". Ou no "let go and let God", ou no "amanhã Deus dará" que a avó T., Senhora sábia e serena, me repetia vezes sem conta.
Há quem se preocupe por preocupar e como tal, não descansa enquanto não preocupa os outros também, em modo corvo de tormenta. Ou quando há razão para preocupação, trate de ver isso à lupa para se preocupar melhor. E ainda, se não houver de todo, inventa preocupações para não ser apanhado desprevenido (a) numa serena despreocupação. É gente que acha que se não estiver preocupada, não está a levar as coisas a sério. Acho que no fundo tem medo de ser tomada por não-te-rales, por irresponsável, ou de ser surpreendida por alguma volta do destino.
Mas a preocupação e a prudência, como tudo na vida, querem-se na medida certa. De menos, e é um convite ao desastre, pois não planear os eventos é planear o fracasso. Em demasia, esmifra as energias a uma pessoa, tira-lhe a motivação, rouba a parte divertida e prazerosa a qualquer iniciativa e já se sabe que sem entusiasmo nada sai bem. Afinal, preocupar-se por antecipação é preocupar-se duas vezes - ou afligir-se com coisas que podem nunca vir a acontecer...e o pior, arrastando os outros no seu pessimismo!
Nem Hakuna Matata, don´t worry be happy...nem ralar-se pelo prazer masoquista de se ralar que é, lá no fundo, uma desculpa para continuar confortavelmente na mesma enquanto se faz o papel de pessoa responsável, pressurosa, madura, de pés assentes na terra, com permanente cara de quem chupou um limão.
Por isso, haja saúde e depois, Avé Maria e avante. É que cansa andar sempre a reassegurar quem vê papões em cada esquina...
Por terras de Vera Cruz vêem-se todos os extremos, particularmente no que ao comportamento feminino diz respeito. Por um lado, manifestam-se nas redes sociais fortes correntes de pensamento advogando o regresso à feminilidade e a um comportamento mais tradicional; por outro, é o que sabemos e que tão mau nome dá injustamente à mulher brasileira por este mundo fora. Mas tenho para mim que o Brasil, com as suas doidices- sem ofensa - acaba por ser um reflexo do que se passa no resto deste planeta do Senhor. E no fim-de-semana reparei em duas notícias que provam que *sotaque brasileiro aqui* a mulherada endoidou, gentxi.

1-A cantora Ivete Sangalo tem estado na boca do povo via redes sociais porque armou (já que falamos no Brasil e à falta de melhor termo) um barraco monumental em pleno concerto seu ao ver o esposo a conversar com uma desconhecida no camarote. Parou de cantar para avisar o rapaz e ameaçar a "outra" com direito a palavrões e tudo. E o mulherio, o mesmo que se enfurece e berra "ninguém é propriedade de ninguém" se um marido ciumento faz cenas, aplaudiu esta demonstração pública de insegurança e falta de chá...
Que isto, vamos lá ver: uma Senhora não deve demonstrar, a torto e a direito, que se perturba com qualquer serigaita; mas coser tudo consigo também não atrai nada de bom. Se algo causou desconforto a cara -metade deve ser informada, quanto mais não seja em modo "olhe lá não torne a fazer outra ou devolvo-o à mãe que o ature". Só que em privado, por amor da Santa. Que Ivete tinha bons pulmões até eu sabia e mal conheço a sua música. Mas que era uma Maria Escandalosa é novidade para mim...que vergonhaça!

2- A notícia já é antiguinha mas só me chegou agora e é de cair p´á banda. Uma rechonchuda e despachada rapariga de 21 anos, cansada de viver em pecado com o namorado de longa data que não parecia nada interessado em dar o nó, engendrou modo de o rapaz fazer dela uma mulher honesta. Certo, o que não falta por aí são loureiras cheias de ardis mortinhas para arranjar quem as carregue para agirem como umas matrafonas depois (assim como não faltam homens que não querem atar mas também não têm coragem para desatar). Mas Lenyenne Helen de Oliveira superou tudo: marcou a cerimónia em segredo e o "noivo", que nem sabia que estava noivo, foi posto perante o facto consumado. Como bom banana que devia ser - porque se não fosse, não se punha de casa e pucarinho com uma mulher a quem não lhe apetecia dar o seu nome, oras - Felipe, o namorado, casou e casou mesmo, não fosse ela sacar de algum rolo da massa em frente àquela gente toda. Ele disse que até foi uma boa surpresa e que era a atitude que lhe faltava, mas com aquela cara de sofrimento não sei não.
Ainda bem que acabou tudo pelo melhor, casou, honrou como diria a minha avozinha e só se estraga uma casa que isto, como também dizia a minha avozinha, quer-se lé com lé e cré com cré: uma mulher da luta só leva a sua avante se houver um banana que esteja pelos ajustes.
Mas é uma tristeza ver uma mulher a desdobrar-se com total falta de dignidade para literalmente caçar um homem. Aliás, aposto convosco e não me devo enganar que também foi ela que andou atrás dele, possivelmente sujeitando-se a tudo, e que lhe pediu namoro.
Alguns dirão que a ordem dos factores não altera o produto, mas ninguém me tira da minha cabecinha careta que por mais modernices que se inventem, o homem que fica com a mulher que se ofereceu de bandeja se deixou "capturar" à falta de melhor. É daquelas coisas efeminadas que alguns fazem e raramente acaba bem, pois ambos acabam por se ressentir disso. No fundo os homens, mesmo os menos masculinos, sonham arrebatar a mulher dos seus sonhos; e as mulheres, mesmo as mais modernas, sonham ser conquistadas, querem ser a única para eles, o ideal, a noiva prometida. Não querem sentir que obrigaram alguém! E daí já não digo nada...
Se eu tivesse cinco euros por cada homem que já ouvi queixar-se, no fim de um relacionamento desse género "eu não lhe ligava nenhuma, ela é que me endrominou- devia estar parvo! Nunca estive a 100% na relação e ela, logo que se apanhou segura, deixou de me tratar bem" e por cada mulher que, em situações semelhantes, se lamenta "não é que ele não quisesse casar- ele não queria era casar comigo!" estava a gozar os rendimentos num dolce far niente.
A muitos homens falta hombridade e atitude para se mexerem pelo seu verdadeiro amor e a muitas mulheres falta dignidade e e compostura para esperar por ele. É deprimente aquilo a que se sujeitam...mas lá diz o povo, "quem quer casar sempre casou; não é com quem quis, é com quem achou".
Moral da história: Dignidade dignidade, quem a tem chama-lhe sua!
Em tempos disse aqui e aqui que não há que temer repetir uma toilette usada num dia que correu menos bem, reutilizando-a numa outra ocasião que se afigure extremamente feliz.
Se formos supersticiosos, é um pouco como a velha crendice de tirar e voltar a pôr o que se vestiu do avesso sem querer, o mais depressa possível. Ou como os jogadores que tiram e voltam a vestir o casaco quando estão a perder há muito tempo na mesa de cartas.
Não há melhor forma de, como dizem os brasileiros, quebrar a urucubaca ou, à portuguesa, o enguiço. Mágico? Talvez, se acreditarmos que tudo na vida pode ter um pouco de magia.
Mas -dependendo do tipo de pouca sorte que ficou associada a esse vestido/fato/adereço - há mais na equação. Aquele tailleur que foi testemunha de um fracasso profissional pode ser determinante quando se consegue, noutra ocasião, o resultado inverso. É que falhar, como triunfar,é também um hábito...e convém que não se associe o sucesso ou a frustração a talismãs. Aparecer com a mesma roupa de um dia amargo é desafiar a sorte, é um que-se-danem, é um gigantesco gesto feio aos intervenientes de empreitadas anteriores.
O mesmo vale para um vestido fabuloso, às tantas comprado de propósito para uma situação que se esperava romântica e marcante mas que ficou em águas do melhor amigo dos portugueses ou pior, acabou num vale de lágrimas (já vos contei o que a minha amiga fez com o seu vestido de noiva, por isso nunca duvidem do poder de "vestir duas vezes para desenguiçar"). Não há melhor modo de exorcizar, de dar a volta por cima, de fazer delete às más memórias do que substituí-las por boas, do que levar o vestido que se pôs para estar com um valente palerma, o vestido mal empregadinho, para junto de melhores companhias, if you know what I mean.
Mas nem só a roupas se aplica a receita: se um local, um bar, um restaurante ou o que seja, está ligado a más memórias, há que lá voltar noutras circunstâncias, com outro ar e outro plus-one ou grupo de pessoas quanto antes, não só para tirar o mau feng shui ao sítio, mas porque a vida é demasiado curta. Há dias fiquei danada: andei tempos infinitos a evitar um café que fazia o melhor chocolate quente da cidade porque me lembrava coisas ruins. Quando finalmente ganhei coragem para lá voltar, tinha mudado de gerência e já não havia chocolate para ninguém...eis disparate em que não torno a cair! Tanto chocolatinho com natas perdido, grrr.
Vestir uma camisa masculina (tal como é ou mesmo fazendo dela túnica ou vestido) é um hábito natural (ou consumada arte?) de qualquer fashionista que se preze.
A dualidade, a contradição de um tecido mais espesso e mais firme, dos colarinhos rígidos, de um corte severo feito para as linhas deles contra as formas mais frágeis e curvilíneas do corpo feminino faz um contraste que, bem usado, é admirável e intriga. Recordemos a fórmula de Brigitte Bardot e Audrey Hepburn, dando-se-lhe um nó à cintura (um favorito pessoal meu); Marilyn Monroe em Os Inadaptados; Greta Garbo, que se dizia possuir seiscentas camisas e suspeito que nem todas seriam de senhora; Louise Brooks, Marlene Dietrich, Katharine Hepburn ou Uma Thurman em Pulp Fiction.
A oxford shirt, a camisa de flanela ou a camisa branca de qualquer tipo
ganha assim o romântico ou picante nome de "boyfriend shirt" (li há dias que para um homem, a sua camisa a ser usada pela mulher que ama é uma bandeira de vitória estendida sobre território conquistado) , mesmo que nada ande mais longe da verdade. Muitas vezes, a boyfriend shirt que fica tão elegante nos streetstyles da vida, com o mistério da androginia somado à hipotética história de romance, nada teve de romanesco.
Frequentemente é a "brother shirt", a "daddy´s shirt": tesourinho doméstico, estava pendurada em casa porque porque sim: ou porque se ofereceu ao pai ou ao irmão e lá ficou esquecida, ou porque andava perdida nos armários e era um desperdício não fazer nada dela, Christian Dior homme, Yves Saint Laurent ou vintage do tempo da Maria Cachucha cujo padrão vem mesmo a calhar para as tendências do momento.
Algumas exigem uma visita à costureira para tirar a largura em excesso se forem mesmo grandes e reajustar os punhos (ou em certos modelos, para descortinar o que fazer quanto aos botões de punho); outras há que um simples cinto/colete/pullover por cima resolve; noutras ainda não se faz nada além de duas voltas de styling e já está. Não se esqueçam também as sem-história: comprou-se porque era bonita, a marca boa e o preço convidativo, para usar no melhor modo "não te rales", maria-rapaz de saltos altos.
É certo que por vezes se faz o mesmo com sobretudos ou blazers mandados ajustar; mas isso dá mais trabalho e a metáfora, fora o bolso interior, vai dar ao mesmo a não ser que queiramos argumentar que uma carteira posta dentro do bolso é simbolicamente um colete anti balas que tenta proteger os seu grandes corações cheios de basófia contra as flechas do Cupido. Por isso fiquemo-nos pela alegoria da camisa, que é uma armadura por si só.
Ora pensemos: por muitas camisas "de homem" que haja no armário de uma mulher, por mais vezes que se roube a camisa ao "inimigo", elas ficam sempre a perder em número para as camisas femininas que se têm. São sempre a excepção, a variante. De modo que há invariavelmente uma estranheza na hora de apertar os botões. Os "deles" são cosidos à direita com as casas à esquerda, ao contrário dos nossos (que dão muito mais jeito, ou talvez seja uma questão de hábito).
Há imensas teorias para o motivo de tal distinção que se tornou praticamente universal a partir do sec. XIX, sendo que a mais razoável é a que sustenta que os homens precisavam menos da ajuda de um criado de quarto para se vestir, logo os botões eram orientados para o do-it-yourself, enquanto os botões femininos eram colocados para facilitar a vida às aias, dextras na sua maioria.
Mas questões práticas à parte...isso, minhas amigas e amigos, encerra todo um enigma da dinâmica entre os sexos: como não havemos de ser diferentes, de agir, pensar e sentir cada qual a seu modo, se até numa coisa tão simples como o sentido em que se apertam os botões, homens e mulheres o fazem precisamente ao contrário? Eles dizem que as mulheres complicam, nós dizemos que eles haviam de vir com manual de utilizador (quando muito poucas de nós se entretêm a ler um manual de instruções, logo pouco adiantaria) mas em boa verdade ninguém complica, só se falam diferentes linguagens.
Porque reparem, "eles" sentem precisamente o mesmo que nós, tal como o propósito de ter os botões fechados é exactamente igual. O que muda é o modo de lá chegar. O ciúme, a paixão, a timidez, a ânsia e o carinho provocam as mesmas sensações boas e más, a forma de as processar, de lidar com elas e de as expressar é que pode ser distinta entre eles e elas.
Homens e mulheres serão sempre um mistério insondável uns para os outros, mas quando uma mulher se aventura nessa estratégia de styling do "borrowed from the boys" transpõe ligeiramente o umbral, resolve um bocadinho da charada. De uma forma janota, ainda por cima...
Soará estranho colocar "estilo" e o acto de chamar o nome do Senhor em vão, salvo seja, na mesma frase. Mas pus-me cá a pensar que reflectir naquilo que é correcto, elevado, esteticamente harmonioso na hora de estar e de se ataviar é meio caminho andado para a elegância, mesmo que as motivações para isso nada tenham de religioso ou espiritual (embora essa seja uma inspiração tão boa como qualquer outra).
Poder-se-á argumentar que evil is cool, que o Príncipe das Trevas é que é, por excelência, a man of wealth and taste, como dizia o Mick Jagger. Mas não esqueçamos que primeiro, o Príncipe deste mundo era antes de tudo um anjo, o mais bonito de todos por sinal, e que aprendeu o que sabia no seu berço celestial junto dos outros anjinhos e Arcanjos. Segundo, que (como tantas pessoas com grande sentido de estilo mas pouco miolo que eu conheço, que se dedicam cinicamente a conviver com gente grosseira por diversão) Lúcifer, figurado ou crendo-se literalmente na sua existência, adora fazer pouco dos humanos inspirando-os a vestir tudo o que é mau e a agir ainda pior. Faz, por assim ser, a troça baudeleriana - "a única vantagem do mau gosto é o prazer aristocrático de uma pessoa se rir dele".

Daí engendrar ceroulas do demo, nail art e outros horrores para perder almas, como temos visto. A eternidade dá-lhe tempo para se entreter com disparates, e o Diabo, bem ataviado nos seus fatos Savile Row e nos seus acessórios Hermès, devorando pela enésima vez Dante e Milton (porque é vaidoso e gosta de ler sobre si mesmo) ri-se a bom rir dos homens e mulheres mortais que por aí andam semi-vestidos de lycra e poliéster, pasmando para o Jersey Shore.
Mas ora vejamos: se a condição para a elegância é sobretudo a elegância interior, que passa mais que qualquer outra coisa por se fazer leve, por se adequar às circunstâncias, por agir sem atrevimento nem timidez, por colocar o próximo em primeiro lugar, por usar sempre de delicadeza, agir como se nunca se estivesse realmente a sós e por não fazer de si motivo de falatório (logo, não depende tanto de conhecimentos acessíveis a quem quer aprender nem de recursos económicos) então agir e trajar com elegância é, creia-se ou não, andar como manda não só o figurino, mas o Criador.

A Bíblia está pejada de referências quanto às vestimentas, quase todas focadas em evitar a ostentação (logo, o mau gosto) e a sensualidade grosseira (e já se sabe, é quase impossível estar elegante usando peças reveladoras em demasia). Mas vamos mais longe (os meus leitores ateus ou agnósticos que me dêem aqui um momentinho, já falo convosco). Se o Criador é Todo- Poderoso, podia muito bem ter inventado, por exemplo, o poliéster, certo? Bastava-lhe estalar os dedos. Mas não. De forma amorosa, rigorosa, pensando em tudo, criou a matéria-prima para as fibras naturais, bonitas de ver, confortáveis, que se adequam à pele. Criou as amoreiras, os bichinhos da seda, o algodão e a lã. Depois inspirou a Humanidade a tecer. Claro que se pode argumentar aqui que foi a Natureza, inexplicavelmente perfeita, o que vai dar ao mesmo. Mas para criar fibras sintéticas já foi preciso complicar os processos, além de ter em mente propósitos menos elevados, como os custos e a facilidade.
E voltemos ao uso que se faz das fatiotas de gosto duvidoso: a exemplo, os vestidinhos de viscose ridículos que têm o único propósito de revelar as formas, formas essas que ainda por cima nem sempre estão na sua melhor forma, passe o trocadilho. A crer em Deus, já se sabe que não atraem nada de bom. Mas não crendo, também se sabe a atenção negativa que acarretam, além de serem um convite a tudo quanto é desordenado, bagunçando assim a sociedade mais um bocadinho. Seja por obra de uma entidade inimiga, ou por acção da Humanidade sempre pronta a escorregadelas....

Que raio de ideia a minha começar a primeira manhã do ano a espreitar na RTP a versão de João Botelho de Os Maias. Quem aqui vem muito sabe que Eça, mas em especial o Carlinhos e o João da Ega, estão sempre a surgir a talho de foice, por isso sou suspeitíssima. E já se sabe que nenhuma produção de TV ou cinema consegue jamais estar à altura do modo como imaginamos os livros, por muito que não tome liberdades criativas com o enredo ou os diálogos (a versão brasileira até fez uma Maria Monforte morena e vivinha da silva, a aparecer aos filhos no melhor modo novela mexicana!). Mas pronto, apesar de eu já ter comentado em tempos, em função do que vi no trailer, que a Maria Monforte estava vestida como a Eliza Doolittle quando vendia flores, usava uns vestidos que mais lembravam a descrição das "confecções baratas dos armazéns da América" totalmente contrárias à descrição de "mulher de gosto e de luxo" e caminhava com a passada de um soldado, algo impensável numa Senhora daquele tempo, eu não sou muito exigente. Não espero de tudo o que se faz por aí o rigor de figurino de um E Tudo o Vento Levou, e olhem que quanto a actores sou muito benevolente, até porque não é a minha área: desde que me soe natural, por mim está bem. Logo, qualquer coisa que se faça com Os Maias tem da minha parte infinita condescendência, gosto sempre de ver. Mas...que ferro!!!
Eça de Queiroz será dos nossos grandes autores o mais acessível de representar, talvez mais até que Júlio Dinis. Não há linguagem menos empertigada e arcaica; mais intemporal, mais corriqueira (apesar de rica) mais ritmada nem mais simples. Não é difícil imaginar os diálogos boémios do João, do Carlos e dos amigos a serem tidos por quaisquer dois rapazes à porta de um bar hoje em dia, com a maior naturalidade. Ou as queixas furiosas da Condessa de Gouvarinho a serem atiradas por qualquer mulher ciumenta: "vai para a outra, para a brasileira!". Pois sim. Eis que os actores declamam solenemente o livro como se, lá por se passar no século XIX, tenha forçosamente de soar a uma época em que as coisas e as pessoas eram a preto e branco e não se mexiam. O Ega bem havia de troçar desses modos postiços...
Depois, sem querer elaborar muito que não estou para isso, haverá autor mais descritivo que Eça de Queiroz? Impossível. Quem não aprecia, de que é que se queixa logo? Das descrições intermináveis, minuciosas, obsessivas mesmo, de ambientes, fatiotas, decorações, cozinhados, sentimentos, objectos. É um pratinho (ou um inferno) para qualquer produtor ou realizador, pois para recriar a ideia não é preciso imaginar grande coisa. Mas nem assim: Afonso da Maia tinha cabelo cortado à escovinha, é o signature look dele...pois aqui aparece de farta cabeleira; depois ele, de uma contenção que roçaria a fleuma se não agisse sempre com o espírito recto e são que Eça tão carinhosamente explica, reage à notícia da desgraça do neto com um drama, uns modos trágicos de Imperador de Carnaval...Afonso que no livro diz duas coisas ao Ega, quase sem poder falar, esmagado com a má nova.
E a Maria Eduarda, "essa senhora que nem brasileira é, é tão portuguesa como tu e eu" que até o Dâmaso, estúpido como um melão (esta expressão não vem nos Maias, é d´O Crime Padre Amaro, mas seja) diz que "ela fala como a gente, não tem "sutaque" nenhum" zás, tem um "sutaque" brasileiro que baste.
Depois, a falar em Dâmaso, como é que se lembraram de fazer um mais charmoso que o Carlos da Maia, e quase nada ridículo? Então Carlos, que tinha uma figura de belo cavaleiro da Renascença, um verdadeiro Príncipe, é aqui um homem perfeitamente normal, sem nada que dê nas vistas nem na estatura, nem nos trajes, nem na figura - só lhe faltava o chapéu de coco para ser tão banal que Maria Eduarda não desse por ele nas ruas de Lisboa. Já Dâmaso também é do mais normalinho - razoável nos modos, nem tão gorducho como isso, simpático até. What the hell!
A única coisa que me pareceu a condizer com o que é descrito no romance foi mesmo o ambiente sinistro das cenas finais do adulteriozinho e do incestozinho, quando Maria Eduarda, à luz da revelação, se afigura a Carlos como algo de predador e de ferino, mas nem por isso menos irresistível. O que é difícil de fazer saiu bem e sem exageros, o que era de caras foi feito à bordoada, ou quê?
Vou precisar de reler yet again, passe o pleonasmo, para desfazer esta impressão desconsolada...que má ideia a minha!