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Wednesday, February 3, 2016

Com idade para ter juízo


Há uma frase do livro Memórias de uma Gueixa que sempre me ficou: "as ilusões são como os adornos de cabelo: as raparigas gostam de usar muitos ao mesmo tempo; as mulheres mais velhas parecem tontas usando apenas um".

Isto porque até as coloridas gueixas passavam a usar trajes e enfeites mais sóbrios depois da maioridade.

Quer isto dizer que uma vez passada a adolescência, se deva prescindir da capacidade de sonhar? De todo. Quem o faz, morre para a vida. Mas sempre me disseram que há coisas que é indesculpável tolerar ou fazer depois dos 25 anos.

 E creio bem que uma delas é iludir-se com promessas vazias, com intenções fátuas, alimentando situações que não levam a lugar algum ou acreditando em pessoas que já provaram e voltaram a provar que nunca realizarão nada do que dão a entender. Na primeira juventude ou quando a situação é inteiramente nova, vá que não vá.


 Passa, como passam os pecados de estilo que toda a gente comete quando ainda não encontrou ao certo o que lhe fica bem. Mas num adulto é tão pateta deixar-se iludir como continuar a usar roupas, acessórios e penteados de adolescente. Não bate certo, parece estranho, fica datado e não é produtivo. Isto aplica-se a várias coisas: das pessoas que continuam pateticamente a perseguir sonhos de menino enquanto deixam as contas por pagar às mulheres que se deixam enganar por um homem que claramente não sabe o que quer para ele, quanto mais para os outros. Há que pensar "que figura faria eu se vestisse agora o que usava aos quinze anos?" - indo buscar retratos antigos se preciso for, para ter a ideia bem presente - e fazer a comparação. E se o resultado não for bonito, se parecer ridículo, mudar rapidamente.  A ingenuidade tem prazo de validade, e o wishful thinking também. 


Tuesday, February 2, 2016

"Não há passos divergentes para quem se quer encontrar"


O senhor mano teve uma fase em que era fã empedernido de Jorge Palma (ainda é, vá) e não descansou enquanto não me pôs a apreciar-lhe o génio, a poesia e a música. Que acabou por se entranhar, por mais que Sérgio Godinho (quanto a mim, o nosso maior compositor vivo sem desprimor para ninguém) Rui Veloso ou mesmo Fausto fizessem mais o meu cup of tea. Melodicamente falando sempre pendi  para harmonias, profundidade e riqueza instrumental mais do que para o jazz e um certo ambiente boémio que me parecia vir das canções de Jorge Palma. Mas que tem coisas lindíssimas, tem. 

Não posso ouvir Passos em Volta sem desatar a chorar, eu que não sou nada dada a choradeiras, e Eternamente Tu é capaz de ser das letras mais bem apanhadas e cheias de verdade que já se cantaram sobre o amor. A versão de que gosto e que agora não encontro, com aquele violino rasgado, é do disco Bairro do Amor, corrijam-me se estou errada...

Mas voltemos à letra. A verdade é que quando duas pessoas querem encontrar-se, não importa o tempo, as partidas da vida, os ressentimentos, a distância, os obstáculos ou as desculpas. Por mais que o destino tenha mão no assunto, há muita coisa que ele não faz sozinho e a que não obriga, só fica na fama. 



Chama-se muito "destino" àquilo que se permite que o destino faça, para o bem e para o mal. O facto que custa a aceitar, às vezes, é que só "diverge" quem quer.

 Quem não quer que assim seja, dá os passos necessários pelas dimensões e universos que forem precisos.

O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão 
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção 
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós 
Meu amor, o tempo somos nós 

O espaço tem o volume da imaginação 
Além do nosso horizonte existe outra dimensão 
O espaço foi construído sem princípio nem fim 
Meu amor, tu cabes dentro de mim 

A nossa história começa na total escuridão 
Onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão 
A nossa história é o esforço para alcançar a luz 
Meu amor, o impossível seduz 


O meu tesouro és tu 
Eternamente tu 
Não há passos divergentes para quem se quer encontrar


 Dizia Júlio Dinis "quando o amor é de raiz, é tolice querer arrancá-lo". Conclua-se então que os amores de raiz que não matam, mas dão vida,  são aqueles que sujeitam o espaço à sua imaginação, os que dobram o tempo, os que se debruçam para alcançar o impossível. Porque quando alguém cabe dentro de alguém, pode fugir-se para o fim do mundo que esse espectro segue sempre atrás, ou consigo. Nunca se esquece, mesmo que pareça que se esqueceu, e nunca nada está completo. Pode fazer-se algo com isso- com esse mistério que ultrapassa a compreensão- e alcançar a luz, ou viver com metade de um coração para o resto da vida, na total escuridão onde tudo começa. Mas sempre sem meios termos.


S.Bernardo de Claraval dixit: "de boas intenções está o inferno cheio"




A famosa frase terá sido dita por S. Bernardo de Claraval e reforçada por S. Francisco de Sales, que insistiu nessa grande afirmação do reformador da Ordem de Cister (e um dos responsáveis pelo ideal de nobreza Cristão a partir do sec. XII). "Nunca duvideis de que S. Bernardo dizia a verdade quando avisava que o inferno está cheio de boas intenções e vontades", lembrava. 

 Mas muitas outras personalidades citaram tal máxima, que é veraz todos os dias. Há até quem acrescente "o inferno está cheio de boas intenções; o céu está cheio de boas acções" e existe ainda aquela versão "a estrada para o inferno é pavimentada de bons propósitos".

Claro que para se fazer um uso mais amplo e prático da frase é necessário não a considerar só numa perspectiva espiritual e religiosa, já que nem toda a gente crê no inferno (o que não quer dizer que não tenha os seus infernos privados). Pensando nesse sentido, adequa-se mais outra frase célebre: quando as acções falam, as palavras são insignificantes. Ou outra ainda, esta mais dramática: as lágrimas mais amargas derramadas sobre sepulturas devem-se a palavras por dizer e coisas por fazer.


Intenções ou palavras, vai dar tudo ao mesmo (embora haja palavras tão importantes que valem por  acções e ditas no momento certo, poderiam mudar o curso de muitas histórias por aí). O que conta aqui é que muita gente tem os propósitos mais nobres e elevados, as melhores intenções, grandes ideias, mas por preguiça/soberba/cobardia/egoísmo/ imaturidade, nunca as leva adiante. Acha sempre que tem todo o tempo do mundo, que tudo lhe é devido, que a oportunidade não passará, sabe-se lá.

E como tudo tem consequências neste mundo -até a inércia e o silêncio - mais cedo ou mais tarde a brincadeira corre mal, criando-se ali um inferno, nem que seja um inferno emocional. Ou porque se perde algo ou alguém, ou porque é demasiado tarde para compensar fulano ou beltrano pelos agravos, ou simplesmente porque o remorso é uma entidade bem viva e insistente. Alguém disse "o medo de agir é temporário, o arrependimento é eterno". Não há pior tortura do que o "e se?", do imaginar o que poderia ter sido. Tragédia é a diferença entre o que foi e o que poderia ter sido.

O propósito era bom, mas a intenção é como a Fé: sem obras, torna-se vazia e incompleta.


Monday, February 1, 2016

Os skinny jeans estão de pedra e cal, mas...




Apesar de muitas publicações da especialidade quererem por força anunciar a morte dos skinny jeans, qualquer stylist sensato - ou qualquer consumidora com juízo- percebe que se tornaram num clássico (ou antes, que se assistiu ao regresso definitivo de um clássico) e não vão a lado nenhum. Afinal, por muito que saiba bem variar as silhuetas com jeans boyfriend, culottes, flared, boca de sino, mom ou boot cut, usar skinny jeans - ou slim, vá- é uma mera questão de lógica e ergonomia. 

Que outro formato permite usar todos os tipos de calçado? Só o afunilado e de bainhas curtas! Com uns skinny jeans não é preciso andar aflita porque as bainhas arrastam pelo chão se nos apetecer calçar ténis ou bailarinas. E que demónios de calças iríamos vestir para calçar cuissardes, botas de montar ou galochas, tudo confortos a que nos habituámos? Alguém me explica? Ah pois. Além disso, o seu formato simples, clean, presta-se a tudo sem muito esforço: uns stilettos bonitos, um top elegante e está feita a toilette. E até são razoavelmente favorecedores para a maioria, desde que bem escolhidos - admito que para as mulheres mais cheiinhas possam ser um desafio, mas nada de impossível com um pouco de prática e bom styling.



Dito isto, todos os visuais precisam de um upgrade. Por muito bem que uma silhueta funcione, é necessário recorrer a pequenos toques para a manter fresca e actual. Pessoalmente adoro-os num look negro total ou num coordenado neutro (vide Kendall Jenner e Gigi Hadid); de botas extra longas e blazers; ou com uma camisa masculina e scarpins, mas este artigo sugere  outras nove formas de conseguir um belo efeito, umas mais interessantes do que outras: 

- Com botins statement (aqueles que comprou porque o design era fora do vulgar);

 - A acompanhar sapatos oxford e um casaco oversized;

-  Com skinny pretas, um casaco de peles e botins pontiagudos de salto baixo (my favourite!!!) como Joanna Hillmann. Já sei o que fazer com os meus botins iguais a estes.);




- Usá-los cortados grosseiramente nas bainhas para mostrar os sapatos preferidos;

-Acompanhar as versões de bainhas desfiadas com um blazer de colégio ou sports jacket;

- Com um top romântico e botins pontiagudos estilo bruxa (adoro!);




- Com botas pelo joelho e um varsity jacket, ou outro casaco exótico (vou definitivamente tentar isto com umas botas Pura Lopez de ponta escura).




- Coordenar os jeans com um top fora do vulgar, que contrabalance o aspecto clássico das calças.

Toca a vasculhar os armários, porque vale quase tudo para não desistir deste básico...


Dois conselhos dos Vikings para homens de hoje


Um dos sites masculinos mais interessantes que para aí andam teve a boa ideia de publicar uma famosa colecção de versos viking atribuídos ao próprio Deus Odin.Vale a pena ler estes velhos provérbios sobre honra, hospitalidade, bravura e hombridade, que continuam muitíssimo actuais. Afinal, mais elmo menos elmo, com ou sem espadas e lanças, o comportamento masculino ancestral não se alterou tanto como isso. E de acordo com algumas vozes sensatas, urge cultivar na Europa - ou recuperar - os tradicionais valores e comportamentos viris, a bem da se segurança das mulheres e de uma sociedade equilibrada.



E claro, não há nada mais "macho man" do que um Viking. Para grandes males, grandes remédios- a homens que perderam o norte, apliquem-se massivas doses nórdicas de um arquétipo masculino por excelência!

Das 80 máximas retiradas do Hávamál ("ditos do Altíssimo") guardei duas que me pareceram particularmente sensatas para os homens actuais, que salvo raras excepções andam precisados de recordarem quem são...ou quem deveriam ser:


1- "Sensato e reservado/
Todo o homem deveria ser/ 
 e cauteloso ao confiar nos amigos/
muitas vezes um homem recebe o castigo/ 
das palavras que diz a outro".


Não há nada pior do que um homem influenciável, cheio de curiosidade mesquinha e de ouvidos leves, que troca tricas e mexericos como uma flausina ou rege a sua vida de acordo com o que ouve dizer. 

Por incrível que pareça, há muitos assim: abelhudos e bisbilhoteiros. Depois, na era das redes sociais e com uma vida mais sedentária, o fenómeno agravou-se. Muito mau também é quando um homem não sabe distinguir os amigos verdadeiros dos "amigalhaços" da onça, sempre prontos a aproveitarem-se das vantagens de uma amizade mas pouco capazes de serem leais quando a ocasião o exige...ou pior ainda, quando se coloca tais "amigos" à frente da família

A palavra de um homem deve valer um escrito, e um Senhor ouve duas vezes, filtra a informação e fala só uma...além de saber estabelecer prioridades bem claras quanto ao seu círculo social. O "núcleo duro" que rodeia um cavalheiro tem de ser tão criteriosamente escolhido como o d´O Príncipe de Maquiavel - ou seja, com pouquíssima gente autorizada a opinar e um "quem manda aqui sou eu" escrito em letras gordas. Um homem forte não dá contas da sua vida nem receia dar um soco na mesa se as amizades pisam o risco. O resto são, passe o termo, mariquices de mentes fracas. Ou cobardias de homens beta ( passivos, efeminados, sem pulso nem fibra) cheios de medo de desagradar e incapazes de suportar qualquer tipo de confronto.


2- "Um homem tolo/
se obtém riqueza ou o amor de uma mulher/
enche-se de soberba, mas nunca de sabedoria/
fica mais e mais arrogante a cada dia".

Já se sabe que os tolos não podem ter nada sem se deslumbrarem logo. Já um homem a sério tem consciência de que tudo o que é grandioso, belo, bom, raro ou impressionante - sejam vitórias profissionais, poder, status social, património ou o amor da mulher dos seus sonhos - dá trabalho. Implica uma grande responsabilidade. Muitas das melhores coisas na vida são "leves de obter e pesadas de manter". 

Assim, um cavalheiro ajuizado esforça-se para conservar aquilo que possui. Não se gaba disso, não se enche de excessiva confiança, não toma nada por garantido nem se torna arrogante, antes pelo contrário. Sabe que quanto mais tem, mais é esperado dele. Vê-se muito isto nos atletas famosos: quantos não começaram por ser grandes promessas apenas para se encherem de vento, andarem em estroinices em modo "sou o maior" e desaparecerem de cena pouco depois? Os desportistas que se mantêm no topo são os que fazem pouco caso da fama e trabalham duramente para não caírem do pódio. E assim é nos negócios e no amor: um tolo considera-se invencível nos negócios, ou que uma vez conquistada a mulher que deseja pode fazer os piores disparates, pois já possui tudo. E quase sempre se engana.

Espertalhões, estes Vikings!


Sunday, January 31, 2016

Isto é Carnaval, ou é a sex shop do tio Belmiro?


Eu já vos disse várias vezes que sou muito foliona e que adoro o Entrudo- até partilhei aqui uma ou outra fatiota. Mas também já me tenho queixado quer da brasileirização, quer da pouca vergonhização do Carnaval...está bem que há que partir a loiça antes da Quaresma, mas não exageremos. Carnaval é Entrudo, é matrafonas e caretos e gigantones e bailes de máscaras glamourosos à moda antiga, é o Carnaval de Veneza, de Torres Vedras, de Trás-os-Montes ou da Beira Alta com a sua valsa malcriada ou o Mardi Gras. Todos os anos o assinalo de alguma maneira - ainda estou cá a pensar de que me vou mascarar desta vez - mas nunca me convencerão de que ele se festeja num samba à chuva com abanar de celulites (que as meninas mais parecem uns frangos de supermercado, brancas, geladas e com penas) ou com fatos manhosos de poliéster/ acetato/viscose, quanto mais reduzidos melhor (que invariavelmente acabam a levar com um agasalho que não combina por cima). Há que ter brio, até nas palhaçadas! 

Ora, hoje passaram-me uma postagem do facebook da mercearia do Tio Belmiro (até gosto de lá ir, mas um hipermercado nunca será senão uma mercearia gigante) que me deixou a pensar outra vez nisto. É que palavra de honra, a fatiota de Capuchinho ou lá o que era que ilustrava o sortido de máscaras de Carnaval era tão ordinareca que mais parecia um anúncio de uma loja para adultos. No melhor espírito que descrevi aqui. Era mini saia encarnada, era meias pela coxa, era um ar vulgar todos os dias. 

Estranhamente agora a publicação já não está disponível. Terão outros clientes/internautas dado pelo inapropriado da coisa e reclamado, ou feito troça? Não que seja novidade, de todo: Capuchinhos, Brancas de Neve e por aí fora em versão sexy é o que mais há por este mundo perdido. Mas num supermercado familiar, numa página toda fofinha com receitas e coisas assim, destoa. Por muito que a Popota se vista pior do que isto...


S.João Bosco: a ignorância é a mestra da admiração




Conta-se que S.João Bosco, que se homenageia hoje - canonizado em 1934 e aclamado por S.João Paulo II como "pai e mestre da juventude" - tinha um lado muito brincalhão. Como ficou órfão muito novo e não dispunha de grandes recursos, quando tinha por volta de dezassete anos trabalhou como criado de mesa num café em Chieri, no norte de Itália. E para se entreter, dedicava-se a fazer truques de magia que espantavam o patrão e a clientela.

 Na verdade, o seu repertório era de tal modo impressionante - de fazer aparecer um frango vivo no prato onde havia um frango assado a transformar dinheiro em lata ou água em vinho - que a dada altura o signor Cumino, dono do café, deixou de achar graça e foi a correr chamar um Padre , queixando-se de que tinha um mago em casa. Quem fazia tais coisas, só podia ser por artes demoníacas. 



O Padre tomou o caso a sério e chamou por sua vez o Cónego e Arcipreste, que não foi de modas e mandou vir o rapaz para o interrogar sobre a Fé. João respondeu a todas as questões com muito acerto, contendo o riso, e finalmente contou ao Cónego que tudo não passava de ilusionismo, demonstrando mesmo como fazia alguns truques. O bom do Inquisidor, que estivera quase para o denunciar ou - palavras suas- "com vontade de lhe dar uma sova" desatou então a rir-se da esperteza do rapaz e mandou-o embora com um presente, recomendando-lhe "vai, João, vai em paz e diz lá a todos que a ignorância é a mestra da admiração".

E não será mesmo? Se é verdade que para bem viver, para manter o entusiasmo na existência, é preciso nunca perder um certo espírito infantil de nos maravilharmos com o que é belo (e de encontrar beleza nas coisas mais simples) também não deixa de ser verdade que só os papalvos se admiram com tudo e pasmam para qualquer coisa. Sem espírito crítico, é-se refém de tudo e todos; quem não é um bocadinho mundano, um bocadinho céptico, passa por pateta, social e espiritualmente falando...



E isto verifica-se nos mais variados sectores: as pessoas que aderem a todas as modinhas e modismos, como se nunca tivessem visto nada, ou que ficam de joelhos perante qualquer figurão, fazem de labregas ou de pouco sofisticadas, no mínimo. Conhecem por acaso uma semi-celebridade da televisão? Ei-las a postar  bela da selfie, como quem encontrou um bicho raro. Há novidade?
Adoptam-na como se fosse a Pedra Filosofal e advogam em público a causa, com a devida mudança no retrato do perfil só para não ficarem atrás da carneirada toda.



 Uma personalidade visita a parvónia? Vai de convidá-la lá para casa no maior servilismo, não sem avisar  antes "a nossa casinha é muito simples". É o espírito das fangirls, groupies e fanboys, que seguem para toda  parte qualquer ídolo do momento. E em certas pessoas, esse espírito de teenager dura toda  vida. Falta-lhes sobriedade e noção do apropriado: afinal, quem teve acesso a muita coisa, quem já viu muita coisa e conheceu muita gente, não se deixa impressionar sem mais aquelas.



E o mesmo acontece quando se trata de questões de fé ou de remédios. Uma mixórdia fica na moda, toca a tomá-la. Uma terapia espiritual mais recente que muito whisky de supermercado anda na berra, toca a acreditar piamente no guru, só porque ele lhe disse com ar entendido "você teve problemas em pequenino" ou "uma tia que lhe morreu tem uns recados do Além para si" como se toda a gente não tivesse todo problemas em pequeno (de pais que não se entendiam a varicela e papeira) ou tias que bateram as botas.

Isto sem falar nas almas que - já com boa idade para ter juízo- mal entram numa relação, vai de jurar amor eterno em público e de partilhar intimidades que só aos envolvidos deviam dizer respeito, sem ao menos avaliarem se o caso tem pernas para andar.



 O espírito infantil de quem nunca viu nada é o mal de muita gente.  É mesmo um mandamento da elegância ser um pouco blasé e conter a admiração, por mais legítima que seja. Bem diziam Baudelaire e La Fontaine:  "há que  surpreender os outros sem que nós mesmos jamais o sejamos" e "aqueles que do mundo não têm nenhuma experiência deixam-se surpreender por coisas sem qualquer importância" .

O cinismo é como tudo na vida: tal como o ciúme e as especiarias, em excesso é mau, mas em pequenas doses traça a linha entre o saber estar e o pasmar para as coisas. Por muito ingénuo ou ávido de emoções que se seja, é possível ao menos fingir alguma indiferença para não passar por tolo. No mínimo, até se ter a certeza de que a "grande novidade" não é passageira, nem um verbo de encher ou um engodo de marca maior...






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