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Saturday, February 13, 2016

Quando eles dizem (ou acham) que amam.



O termo "amo-te" banalizou-se intoleravelmente. Em verdade, tenho para mim que sempre foi coisa que se dizia da boca para fora, naqueles momentos em que se confunde o entusiasmo da paixão (ou até da paixoneta) com algo mais forte e mais sólido. Ou pior, nos instantes em que alguém, com más intenções, faz mil juras e protestos para se aproveitar da ingenuidade alheia, ou da patética tonteria feminina de ceder a tudo para obter umas migalhas de amor. Não há nada mais triste do que isso.

Mas enfim, antigamente essas promessas eram palavras que saíam da boca dos namorados e o vento levava, ou que ficavam esquecidas num pedaço de papel, na arca das trapalhadas daquelas missivas que o poeta classificou, com justiça, como ridículas.

Hoje em dia, em que até a pessoa mais desmiolada tem voz activa nas redes sociais, o caso é um bocadinho pior, pois qualquer "amo-te" (seja sentido, falso, postiço, para inglês ver ou genuíno mas mal colocado) é declarado em público sem qualquer pudor. E com o S. Valentim à porta,  preparem-se para ver expostos ao mundo muitos "amo-tes" que se não fossem em suporte digital, não valeriam o papel em que seriam escritos.


Creio que não devia ser assim. Acredito, como o Carlos da Maia, que o amor verdadeiro é algo tão delicado que, não devendo ocultar-se (se alguém precisa de andar às escondidas numa relação, então não devia estar nela em primeiro lugar) convém ser envolto num certo pudor quase religioso ou supersticioso. Como os verdadeiros devotos se acanham em expor a sua fé, os verdadeiros amantes não querem ver profanado o seu amor. Ou seja, quem ama a sério não esconde, mas também sabe ser discreto. Não quer ver a sua devoção exposta a más intenções alheias, nem roçá-la por aí com os "amores" vulgares de quem está junto à falta de melhor.

E se numa mulher um "amo-te" vão e fátuo não cai lá muito bem, mas é desculpável porque muitas são românticas ou emocionais... de um homem há que ouvir isso com uma dupla camada de sal, já que é suposto eles terem terror à palavra e ao compromisso, salvo quando sentem verdadeiramente.


Já não falo dos "amo-tes" mentirosos e aproveitadores acima descritos. Deixemos isso de lado, porque é sórdido demais. Falemos naqueles que até se sentem, mas são um caso de mau diagnóstico.

Quando um homem diz que ama, ou age como se amasse, se arde na intensidade de um suposto "amor" que o consome e lhe vira a cabeça, mas esse "amor" só lhe serve para as conveniências, se não vem acompanhado dos cuidados mínimos para que a "amada" se sinta bem, tranquila, segura, então para o diabo com tais "amo-tes". Se por "amor" entende posse, ciúme, ou "venha a nós"...então não é amor: é obsessão.

Mas vejamos outro estilo de "amo-te contrafeito":  se um homem que aparentemente é bem intencionado, que não gosta de banalizar o palavrão, ao cabo de uns meses lá diz um "amo-te" mas não lhe passa pela ideia "esta é a rapariga dos meus sonhos" nem a necessidade de ter aquela mulher nos seus braços para sempre, se não pensa em fazê-la feliz e protegê-la acima de tudo, se não vê atrás dessa mulher um berço e um altar, se o facto de "amar" não o converte num homem diferente e melhor, então não ama verdadeiramente.




 Atrevo-me até a adivinhar que não está sequer realmente apaixonado, mas que se entusiasmou por alguém que estava à mão; que cedeu ao hábito, à necessidade biológica de afeição e companhia; que caiu num "amor vulgar" desses que, mesmo quando duram, não aquecem nem arrefecem. É como um amor comprado na lojinha do chinês, produzido em série para desenrascar. Da espécie dos "amores" que enganam os dois, que não estão à altura de serem chamados "amor" e que ninguém merece, em suma.

Afinal, se para cada panela há um testo, como diz o povo, haverá algures um "amo-te" verdadeiro para cada alma neste mundo de Deus. Daqueles que têm o fogo devorador e a intensidade da paixão, mas também a nobreza do sacrifício e a matéria prima da eternidade. Só que também há por aí muito medo e muita preguiça, muita vontade de "fazer dever", muito espírito de "antes mal acompanhado do que só" e muitas outras coisas que enchem os restaurantes de romantismos baratos todos os Fevereiros.


Adele devia ter adoptado o stage name "Adélia Desgraçada"



Oh Adelinha, vamos sentar-nos aqui e ter uma conversa de mulheres, que eu até gosto de a ouvir, acho que tem uma imagem óptima e só quero o seu bem. Tudo bem que os ex, quase todos ou todos mesmo, são uma praga da Humanidade (muitos só pelo facto de partilharem o planeta, outros porque aborrecem deveras) e uma inesgotável fonte de inspiração. 

Depois há os primeiros amores que voltam e a magia até se dá: veja-se este caso de dois namorados separados pela II Guerra Mundial que nunca se esqueceram e agora se reencontraram com 90 e poucos anos, que até me fez aparecer uma lagrimita ao canto do olho.

Mas - eu que conheço muito pouco da sua discografia, vá- será que cada single seu tem de versar um amor antigo? É que depois de Hello, de que eu até gostei bastante mas  já não era o primeiro nem o segundo com o tema "porque é que ele se foi embora?" ainda vem mais este bater na mesma tecla. Será que a  Adele é assim tão desgraçada? O Herman José tinha uma personagem assim, o fadista Felisberto Desgraçado, mas acho que nem ele era assim tão chorão.  



De qualquer maneira....bem dizem que quem vive do passado é museu, mas a julgar pelo sucesso da menina concluo que as suas letras devem falar à alma de MUITA gente que tem pedras no sapato, ressabiamentos, mágoas mal resolvidas e uma vontade infinita de gastar kleenexes...

Já estou como a Susaninha: ai meu Deus, como a vida é triste.

Friday, February 12, 2016

Momento national Geographic#6: aqueles casais deprimentes, parte II




Antes do textozinho romântico que é suposto escrever para este fim de semana (vá, sou contra romantiquices e xaropes mas posso desligar o cinismo um pouco) deixem-me amargar-vos um bocadinho as vésperas do Dia dos Namorados, para não ficar tudo muito peganhento.

É que vi isto, não consigo "desver" o que vi e sofrimento adora companhia. Ou seja, tenho de desabafar.

 Já se sabe que as pessoas a quem "tanto lhes faz ser a noiva no casório como o morto no enterro" pioraram muito com a era do Instagram. 



O feio hábito do attention whoring não só é estimulado da mesma forma que uma estufa faz crescer as plantas, como os recursos estão todos à mão para quem quer chamar as atenções sobre si mesmo, ainda que da pior maneira. Sinceramente, às vezes interrogo-me se certas criaturas pensam que estão a partilhar conteúdos para o vácuo ou a falar sozinhas, tal é o descaramento com que publicam intimidades.

E agora há casalinhos que superam isso tudo. Muitos deles vieram mesmo tornar realidade aquele medo que ocorre quando se vêem certos parzinhos mal arranjados na rua: "nem quero imaginar estes dois trambolhos entre quatro paredes!".

Ou seja, criaram a hashtag #aftersex  e desataram a publicar selfies suas depois de...enfim, dos seus rituais de acasalamento. Como diz este artigo sobre o assunto, discrição e privacidade são noções ultrapassadas para muita gente.

Digo isto com voz de narrador de documentário sobre macacos. 




As tais selfies -algumas- nem seriam especialmente reveladoras, não fosse a indicação explícita do que andaram para ali a fazer. Agora se postam tal coisa para mostrar ao mundo que são amados, que andam contentinhos da vida, que não lhes falta nada, que finalmente desencalharam ou para arreliar alguém, já não faço ideia.

Atenção, não digo que, fossem todos os ditos casais de uma beleza de capa de revista, a coisa fosse menos chocante ou menos parva. Isto há namorados ridículos que são como as mães babadas: acham sempre que nunca ninguém se apaixonou à face da terra. Mas enfim, o resultado não seria esteticamente tão disparatado nem tão embaraçoso. 

Há pessoas que brincam dizendo que só falta partilhar online que se foi à casinha; eu acho que já não falta mais nada. Só respeito por si próprios e pelo par, que isso está a faltar de certeza.

 



Terra de idiotas- uma realidade distante?





Esta semana dei uma olhadela ao filme homónimo, que de vez em quando passa na televisão e que nos forneceu tema de conversa para o jantar. Para quem não viu o filme, o enredo é simples: no presente as pessoas de Q.I. elevado vão adiando ter filhos, enquanto a população menos dotada e menos culta não faz o mínimo planeamento familiar, reproduzindo-se como roedores, o que resulta em, daqui a 500 anos, a Terra estar povoada de perfeitos burros vestidos.

Questões reprodutivas à parte (que isso da inteligência às vezes salta gerações e pode nascer um génio numa família de gente estúpida como um melão; talvez não tenha acesso aos estímulos mais adequados, mas não deixará de ser brilhante à sua maneira)
 pergunto-me se teremos de avançar muito no futuro para assistirmos a uma realidade semelhante. 

Não tanto por uma questão de dotes intelectuais inatos, mas pela forma como usar o cérebro está a cair em desuso. 

Senão, reparem: já nem falo em aspectos como o avanço tecnológico, que às vezes simplifica um bocadinho demais (por exemplo, dizem que as pessoas andam a ficar desmemoriadas porque dependem demasiado do Google para confirmar informação) nem do facilitismo no acesso ao Ensino Superior. 



Mas basta olhar à nossa volta com olhos de ver para notarmos que estamos entregues à bicharada: por um lado, as pessoas menos instruídas. Antigamente entretinham-se acumulando muito conhecimento empírico na escola da vida: jogavam cartas, iam à caça, a bailes, dedicavam-se à agricultura, conversavam à lareira, partilhavam receitas, contos e mezinhas, inventavam cantigas ao desafio e para passar as informações mais importantes da actualidade e regular os bons costumes, lá estava a Igreja que quanto mais não fosse lhes dizia "se forem debochados e malcriadões, vão para o Inferno" e as obrigava a decorar uns Padres- Nossos e umas Salvé Rainhas, que se não entrassem na alma ao menos exercitavam a memória.



Hoje, como passam o tempo? A embasbacar -dependendo da faixa etária e localização- para os programas da manhã ou da tarde, pejados de dramas da vida real e de cantores brejeiros que fazem trocadilhos malandros próprios para adolescentes com as hormonas em ebulição, para a Casa dos Segredos, para as séries mais degradantes que a MTV se lembre de fazer ou no limite, para coisas do estilo Jackass. O resto do tempo livre
 passam-no nas redes sociais a partilhar piadas igualmente brejeiras e conteúdos semelhantes ao que vêem na televisão, a discutir futebol como se fosse assunto de estado ou a dançar qualquer música "marota" e "sensual". Nada os diverte se não for brutal, lascivo ou envolver dinheiro. Nos casos piores, tentam copiar os gangs que vêem nos videoclips. Em suma, perderam até o rótulo de "bons selvagens", de gente simples, humilde e genuína, para estarem cada vez mais básicos, em contacto como nunca com as necessidades e os comportamentos do Cro-Magnon.


Mas não julguemos por um instante que só a instrução salva alguém: não é pela camada "culta" da população que nos salvamos. Não só pessoas com estudos superiores admitem orgulhosamente ler pornochachadas e o culto ao grotesco tomou conta da Arte,  como  ainda há dias vimos a loucura que vai pelas faculdades do continente americano (no Brasil a loucura é completa e nos E.U.A. pouco mais se adianta) e as inutilidades politicamente correctas que intelectuais e cientistas perdem tempo a analisar, em vez de tentarem esclarecer os mistérios do universo ou fazerem por solucionar os problemas reais da Humanidade, como era costume.


Vão-se preparando, é só o que vos digo. 

Thursday, February 11, 2016

Alegoria das pessoas- bolo


Visualizem  o seguinte cenário: vocês vão à padaria e vêem um bolo lindíssimo, artisticamente feito. Uma verdadeira obra prima da cake art. Não resistem a provar uma fatia, cheios de gula e curiosidade, convencidos de antemão de que tem de ser delicioso como parece. Mas mal lhe ferram o dente...percebem que afinal aquela Mona Lisa da pastelaria não sabe rigorosamente a nada (acontece muito, até já vos contei um episódio) ou que até sabe um pouco mal, a creme de pasteleiro (blhec) em vez de natas e doce de ovos. Imaginem pior ainda, pois estamos na Quaresma e convém não tentar muito as almas: que sabe a azedo (Credo!). Depois, não contente com enfiar-vos este grande barrete, o malfadado bolo provoca-vos uma intoxicação alimentar que vos deita por terra três dias.

Voltariam a achar os bolos dessa padaria apetitosos? A sentir vontade de os provar? Duvido. Por muito bela que fosse a escultura do pastel, por muito aparato que fizesse na montra e que até lhe reconhecessem a formosura, a recordação do mau estar ia 
impedir-vos de se aproximarem dele. A não ser que fossem extremamente teimosos ou masoquistas.




Pois há pessoas que são exactamente como um bolo desses. São apelativas (bonitas, carismáticas, poderosas ou cheias de glamour) e com isso, conseguem impressionar por um tempo, mantendo por perto amigos ou um amor. Mas tantas asneiras fazem, tantos desgostos dão, tantas vezes desiludem, é tanto mais do mesmo, que a certa altura uma pessoa já fica cega para a sua beleza ou o seu encanto. Podem aparecer no maior esplendor, e até se lhes reconhece os atributos com que andaram a enganar os incautos, mas já não causam efeito. Olha-se para elas como quem vê um bonito edifício abandonado ou uma escultura bem conseguida mas sem outra utilidade além de ocupar espaço. Pior ainda, entra-se em modo "já nem te estou a ver, já me pareces um mosquito". 

A não ser que se seja de uma teimosia ou masoquismo sem limites. Mas como diria a Mafalda (abaixo) "a paciência tem limites, e o infinito também".







"Pistoleiras" sem fronteiras


Ainda estive para empregar o termo Aventureiras sem Fronteiras, mas receei que não se percebesse que género de aventureira estava a descrever.  Isto para não escrever Rameiras sem Fronteiras que não ofendia ninguém, já que as meninas são do género de se tratarem  amigavelmente umas às outras por "bitch", pegas e outros "mimos carinhosos" que agora são moda entre certo tipo de mulheres. Mas como não queria um título muito malcriado, Pistoleiras sem Fronteiras ou Loureiras sem Fronteiras também serve.

Isto porque a fazer zapping descobre-se cada pérola...



Eis que a Sic Radical anda a passar este programa, espécie de Jogos sem Fronteiras, o concurso que tanto animava os Verões da nossa infância (nunca perceberei que graça achava eu àquilo, mas entusiasmava-me) ou de Gladiadores Americanos, mas com flausinas de péssimo ar que se esgatanham, insultam e tramam umas contra as outras para disputar 100 mil dólares. 



Ou seja, as galdérias em causa (há que chamar tudo pelos nomes)  lá fazem as corridas de obstáculos, os puzzles gigantes e as gincanas com acessórios de esferovite, mas com muita peixeirada, palavrão, twerk, unhacas gigantes, traseiros de hectare ou de melancia, tatuagens horrorosas (juro que vi um beijo garatujado num pescoço) coxas grossas com mini saias de lycra e outros trapos de stripper medonhos pelo meio. Enfim, o costume.  Aliás, o título do programa em Portugal é mesmo "Desavergonhadas".



Mas sabem o que me incomoda? Nem é o conteúdo em si, que já se sabe que o mundo anda como anda e se uma pessoa vai afligir-se com o mau gosto passa a vida a ter quebras de tensão. É o facto de - como nos Jersey Shores e outros "Shores", nos Kardashians e nas Casas dos Segredos - estes comportamentos ordinários serem apresentados como positivos, vencedores, aspiracionais ou no mínimo, normais e inofensivos. 

Não há ironia na coisa, não há um "vejam estas primatas", nem um  "digam às vossas filhas que não tentem copiar isto", muito menos um "não imitem isto em casa, não sejam desavergonhadas, vulgares e grosseironas". Nada. É em modo "tudo muito lindo" para ser imitado pelo tipo de pessoas que nós sabemos e transmitido às infelizes crianças que elas vão pondo no mundo. 

Admiram-se com as figuras que vemos na rua e com os atrevimentos que às vezes saltam ao caminho de pessoas de bem? Eu cá não.

Wednesday, February 10, 2016

Um tipo feminino em vias de extinção.




Só há dias reparei que o canal FOX Crime está a passar duas das minhas séries preferidas: Poirot e Miss Marple, as muito glamourosas adaptações da obra de Agatha Christie. Que pratinho. 




Apaixonei-me pela série Poirot em pequena (começou em 1989!) porque a avó era fã acérrima e eu fazia-lhe companhia ao serão, já então a pasmar para as roupas e os cenários. Íamos buscar um petisco qualquer e ficávamos na saleta com uma manta sobre os joelhos a observar como o detective belga punha as suas "celulazinhas cinzentas" a analisar, tim tim por tim tim, os enredos mais intrincados. Um dia ainda arranjo todos os episódios e uma valente dose de tempo livre - cada história é looonga - para ver tudo de fio a pavio.



 Por Miss Marple interessei-me mais tarde, mas foi igualmente amor à primeira vista: a simpática solteirona mostra como a intuição feminina, aliada ao simples conhecimento e observação da natureza humana, é o suficiente para uma pessoa não se deixar enganar. E claro, há igualmente uma boa dose de figurinos riquíssimos e grandes actores na série (como Julian Sands, Sophia Myles e Saffron Burrows). 



Mas para uma observadora atenta, os dois programas têm outro aspecto interessante: os cavalheiros e as senhoras. A forma como se vestiam, moviam e comportavam é very british, certo, mas também é um produto do seu tempo.



 Assistindo a Poirot e a Miss Marple podemos contemplar em toda a sua glória a english rose, um tipo feminino em vias de extinção: uma delicada beldade inglesa de pele de porcelana, cabelos naturalmente escuros, acobreados ou louros, olhar misterioso e suave, faces rosadas, uma classe a toda a prova, maneiras impecáveis e modestas. Os ingleses bem se lamentam que o arquétipo tenha quase desaparecido, a favor do estilo stipper chic cheio de extensões no cabelo, saias curtíssimas, bronzeamento artificial alaranjado e quilos de maquilhagem. Sinais dos tempos...

Quem tem juízo e gosto pode sempre inspirar-se no passado. É o que vale.








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