Moro perto de um jardim infância do Estado, que este ano lectivo (pirralhos dos 0 aos 5 anos têm ano lectivo?) passou a ter creche, para alegria e alívio de cerca de 30 pais. Creche, entenda-se -
e eu só percebi a diferença após fazer a cobertura noticiosa da abertura de umas quantas - é para crianças mínimas, até aos 3 anos. Já lá vamos.
Como a escolinha fica numa rua antiga, de um sentido só (ainda estou para saber quem foi o autor de tão brilhante ideia) todas as manhãs é o mesmo regabofe. Tudo bem que os piquenos dão passinhos curtos, mas caramba, será que estes cerca de 60 paizinhos (se contarmos com os dois elementos do casal e os avós nem quero pensar no montão de viaturas que isso dá) não percebem que não há espaço para 60 carros à porta do infantário /creche?
Era bem mais simples pegarem nos filhos ao colo ou fazerem o trajecto do carro até à porta num daqueles carrinhos de bebé gigantes que insistem em levar para toda a parte, mesmo quando os miúdos já estão quase a entrar para a universidade. Mas enfim, acho que os carrinhos são só para parecer bem e empatar elevadores...
É uma coisa que me faz confusão, e hoje de manhã percebi porquê:
as famílias portuguesas estão traumatizadas,lelés da cuca, minha gente!Ainda há dias se ouvia a costumeira notícia: em férias, os pais não sabem onde hão-de deixar ( vulgo: largar; depositar) os filhos. Pobres crianças. Eu ainda sou do tempo em que havia avós para isso, quando não lá se desenrascava uma ama.
Hoje, um humilde elemento da classe média (ou uma pesssoa remediada, como diz o nosso povo que tem sempre sinónimos para tudo) que se atreva a ter filhos é muito pretensioso - e quer te-los só para dizer que sim - ou muito doido, ou muito corajoso, ou tem um relógio biológico sobre humano. Só pode.Como diria a personagem de Octave Mirbeau, " quando não se é rico, o melhor é não se ter filhos...". Ou, atrevo-me a acrescentar, mudar-se para a Dinamarca, a Suécia ou outro país mais sensível e civilizado.
Com uma legislação laboral que se está bem marimbando - para não usar outra palavra- para as famílias,horários desumanos, ordenados rés vés campo de ourique que não permitem pagar a boas amas/empregadas a tempo inteiro, ATLs e colégios (obrigando os miúdos a misturar-se todos em instituições estatais, à cunha, em ruas sem estacionamento)e as reformas a chegar cada vez mais tarde, que já nem os avós podem dedicar-se aos netos...HAJA CORAGEM!
Estas crianças crescem sem saber se são um tesouro (cadeirinha no carro quase até à idade adulta, mil brinquedos) ou um trambolho, um empecilho que é preciso despachar. Qualquer lado serve, desde que não brinque na rua, Deus nos livre.
E não me façam engolir essa de que "socializar é bom para as crianças". Ninguém me convence que um bebé de meses se divirte a socializar com o desgraçado no berço ao lado. O que há é um festim de bactérias (não é à toa que chamam "infectários" aos colégios) e rebentos a crescer à lei da selva.
Sei de casos de crianças que antes de nascer já estavam na lista de espera para quatro ou cinco creches públicas. Ora, eu admito isso para entrar em colégios exclusivos ou faculdades de medicina, mas parece-me hiperbólico, digno de "1984" que o mesmo aconteça a bebés. E não se esqueçam dos centros escolares, que vão empurrar a pequenada para quilómetros de casa, impedindo-os de almoçar com a família. Estão entregues à bicharada. Sem referências, sem afectos, sem papinhas da avó, criados em massa.
A crescer assim, despachados,empurrados à bruta para fora do ovo, sovados pelos companheiros de infortúnio, depositados a magote no mesmo aviário, como é que os pequenotes podem ser educados? Que futuro tem este país, com toda uma geração a ser...mal criada?