Tenho tendência para adoptar todos os infelizes que me aparecem â porta. A Bolacha trouxe consigo para casa dois lindos amigos abandonados, que receberam o nome de Edward Longshanks e Julien (Dudu e Juju Marlene para os amigos, respectivamente).
Mas eu tinha decidido que quando mudasse de casa compraria um persa ou um bosques da Noruega. Em três anos perdi o Black, um persa preto, e o Gatafunho, ambos vítimas de doença; agora estava pronta para me dedicar outra vez a um "miolos de peluche".
Andava a ver anúncios, procurando um com quem simpatizasse, quando soube do caso de um gato peludo, lindo e posto na rua por donos desumanos que depois de o terem submetido às piores torturas - desde cortar-lhe as unhas tão rente que elas não voltaram a crescer a obrigarem-no a viver numa varanda minúscula, exposto ao sol e ao frio - decidiram livrar-se dele. O pobre Farinelli vivia da caridade de uma vizinha que o alimentava e abrigava-se num vaso, para escapar aos cães. Quando era apanhado pela senhoria, esta brindava-o com vassouradas.
Quisemos adoptá-lo imediatamente, mas as desventuras do "Fofinho" (nome irónico dado pelos anteriores "donos" indignos desse título) não tinham acabado. A senhora que tratava dele, cheia de boas intenções mas fraca do miolo, prontificou-se a apanhá-lo para nós e guardá-lo em casa por dois dias, até terminarmos a mudança. Resultado?
Quando fomos buscá-lo, estava o "Fofinho" fechado há dois dias numa caixa de transporte minúscula, gelado, mergulhado nos próprios dejectos e restos de comida e quase louco de medo. Nunca vi um gato com um aspecto tão sujo e miserável. (Mais tarde soube que a sua "protectora" quando viu que ele estava molhado, tentou resolver o problema com um...secador de cabelo- o que é para os gatos pior que cryptonite). Depois de um banho enorme, ficou catatónico, não interagia, coxeava, quase não comia. Diagnóstico do veterinário? Infecção urinária ( pudera) patinhas queimadas pelo contacto com tantas impurezas e claro, febre.
Com medicação, muito carinho e infinita paciência, conseguimos "civilizar" o Farinelli. Dei-lhe esse nome por ser branco e "enfarinhado", mas ele parecia-se mais com um pit bull ou uma criança enlouquecida pelos maus tratos. Não sabia usar a casa de banho, encolhia-se quando lhe tocavam, mordia toda a gente já que não podia usar as garras...
Ao fim de umas semanas, com muitos resguardos na caminha, muito amor e muita paciência, tornou-se um gatinho quase normal, muito
carinhoso e brincalhão, que se virava ao contrário, fazia vénias, vinha ter connosco, respondia quando o chamavam...
Um momento de distracçaõ e o Farinelli fugiu (época de casalamento dá nisto). Ainda apareceu dois dias depois, mas assustou-se e desapareceu de novo, deixando-me no mais profundo desgosto. Eu que já não sabia passar sem ele, que por vezes nem tinha vontade de sair para ficar com o "mê" gato.
Agora tive notícias. Parece que foi visto junto ao Fórum, ferido e assustado. Rezo para que consigamos agarrá-lo e trazê-lo de volta. Não suporto pensar que esteja a sofrer.
Claro que posso comprar ou adoptar outro persa. Mas não é o Farinelli e eu quero o Farinelli, que morde, faz caretas e enruga a testa com ar desconfiado. Gosto muito mais dele, do meu "Dexter" passado do miolo e sofrido, do que poderia gostar de qualquer gatinho com pedigree.
Farinelli Dexter de La Malva....volta para casa, por favor! Precisamos de ti!