Pipoca mais Doce dixit "Ainda está para nascer um pai com capacidade de discernimento que diga "a minha filha saiu-me cá um trambolho".
Esse não é um dos meus medos. Parece-me que não haverá instinto maternal que me prive da lucidez. O meu receio é outro, e atinge-me de cada vez que os bem intencionados do costume vêm falar-me nas maravilhas de pôr filhos no mundo. Ok, uma pessoa encomenda um piqueno, carrega-o nove meses sabe Deus como, é uma canseira para ele ver a luz do dia e uma trabalheira maior ainda para tomar conta do rebento. E depois? Uma criança, sangue do nosso sangue, desenhada com amor (senão é fracasso na certa - crença minha) um ser precioso...é um perfeito estranho, que não conhecemos de lado nenhum.
A minha dúvida é se essa coisa famigerada e com reputação infalível, o instinto maternal, será seguro contra todos os riscos, ou se há simpatias humanas, não louváveis mas compreensíveis que nos levem a achar piada -ou não - a um filho.
Dúvida cruel: e se depois de tanto esforço eu não gostar deles? Mesmo que os ame porque não tenho outro remédio, pode dar-se o desastre de não os admirar lá muito. Sei lá, podem sair-me uns camafeus. Modéstia à parte, fui uma criança fofinha, daquelas que recebem festas na cabeça a torto e a direito quando passam na rua, e o meu irmão era mais giro ainda, um anjo. Andar de cavalo para burro era uma maçada, até porque comprar roupinhas e botinhas amorosas para uma carantonha sem graça estraga a festa a qualquer um - com a agravante de a responsabilidade ser 50% minha. E as aparências (relativas, afinal) não são tudo. Podem ter uma personalidade intolerável, parecerem-se com os colegas mais irritantes que tive na primária. Ou cultivar vícios: passar o dia pasmados a fazer palavras cruzadas ou qualquer hobbie chato, pequeno burguês e pouco criativo; podem sair-me piegas e choramingas, estilo Eusebiozinho, independentemente da educação que lhes der. E ter uma filha galdéria, imune a todos os ensinamentos das nossas antepassadas, que me faça passar vergonhas? Ou pior ainda, uma marmanja que faça questão de comer como um lobo, usar cabelo à porco espinho e calças com as banhas de fora só para me amargar a existência? Acho que não aguentava isso. O Diabo seja cego, surdo e mudo, mas ninguém está livre, nem programando a criaturinha por computador. Conheço pais bem parecidos, educados, uns amores, com filhos que mais pareciam nascidos de um ovo à beira da estrada. Como é que uma mãe, mesmo a melhor do mundo, lida com tal roleta russa?
Claro que há pais com filhos feios que insistem em dizer que eles são bonitos, obrigando-nos a resmorder um "pois" contrafeito e a pensar cá connosco que a afirmação não deixaria ser verdade se tivessem o bom senso de lhes mudar o visual. Ainda assim, a natureza é caprichosa e ninguém é santo - o que me leva a ir considerarando os panfletos de colégios internos pelo sim, pelo não, antes que o relógio biológico comece a dar sinal.