Era uma vez uma amiga minha, que como a Rapunzel, tinha logos cabelos louros e vivia fechada numa espécie de torre, guardada por uma mãe bicho do mato. A menina tinha poucas visitas, saídas muitas menos. O próprio carteiro era recebido de vassoura em punho, não fosse um abelhudo a fazer-se passar por inofensivo funcionário dos correios. Neste cenário, restava à minha amiga - além das precárias em liberdade condicional, arrancadas a ferros pelo grupo - brincar na propriedade atrás da casa e usar a imaginação. Ela pintou de encarnado, com mercúrio, o pelo do cão e as penas dos pombos de leque. Ela domesticava ouriços cacheiros. Fazia vestidos encantadores para as bonecas. Criou um código para passar por determinados pontos do terreno, fronteiras imaginárias que deviam ser ultrapassadas com respeito e uma palavra passe, não fossem os espíritos zangar-se e a desgraça desabar sobre as cabeças dos incautos.
Mas tudo tem limites. Certo dia, a mãe ouviu-a falar com alguém; uma conversa animada, divertida, como se a pessoa presente fosse a personagem mais fascinante deste mundo. Aproximou-se - quem teria entrado sem bater?
Afastou os ramos e para seu espanto, viu a filha sentada, tendo à sua frente, em lugar de honra, um tufo de ervas espetado num pau.
- Que fazes? - perguntou, julgando que a pequena tinha enlouquecido de vez (o que seria naturalíssimo).
- Nada, mãe - respondeu ela, com a maior tranquilidade. - Estou só aqui a conversar com o ´Cabelos Compridos´.

