Há mais de vinte dias que a avó está no hospital e não sabemos como a saga vai acabar, nem os médicos atinam com a solução a dar-lhe. Esperamos que tudo corra pelo melhor, porque 82 anos valem o que valem, e se acrescentarmos que já passaram por esses 82 anos todas as maleitas do dicionário, a concorrer entre si
(ou a aliar-se, já não sei) para a atormentar e complicar o tratamento, pior é. Conforta-nos saber que a avó Celestina já escapou de outras piores, que é a pessoa mais resistente que eu conheço, que chegou a esta idade com uma lucidez e inteligência raras, que enfim, é a avó Celestina. Pareço-me com ela (e com o seu lado da família) em muitos aspectos, nem todos eles fofinhos e amorosos. Um temperamento aceso, se nos traz algumas chatices, também nos permite ser valentes perante a adversidade e dar dois pontapés no perigo. Está a resistir a tudo isto, considerando que perdeu o irmão mais novo pouco antes, que nos deixou a todos com o coração destroçado. Quando olho para este cenário, pergunto-me se vale a pena uma pessoa irritar-se, zangar-se, perder tempo com tretas. Com o diz que disse, com maldadezinhas dos bancos do liceu, que não valem um caracol. Deixar mal entendidos por resolver, coisas por dizer, perder tempo com futilidades que não acrescentam rigorosamente nada. Ou simplesmente uma pessoa ralar-se com quem é mau para nós, seja por embirração, orgulho, raiva, ambição, ciúmes ou o que quer que seja. Tudo o que vejo neste instante é a minha avó a embirrar com os coitados dos enfermeiros (sinal de que com sorte, não está assim tão mal) e a minha oração para que no desfecho, haja saúde e sanidade de espírito. Para ela e para nós.






