Recomenda-se:

Netscope

Sunday, October 28, 2012

As verdadeiras "Gabrielas"



                                   
Ainda não aderi ao remake da Gabriela de quem toda a gente fala, mas já faltou mais. Facto: não estou habituada a prestar atenção à TV generalista e sempre que me lembro, o episódio já acabou. Como para as minhas bandas ainda não há aquela modernice espectacular que permite voltar atrás na programação (nunca fui muito de televisão, mas considero essa uma invenção genial) estou totalmente perdida. Não vi o original (passou muito antes de eu nascer e quando foi reposto, eu não tinha horário para seguir) mas as novelas e séries baseadas nas obras do grande Jorge Amado sempre foram das poucas "brasileiradas" toleradas lá em casa.
 A prova provada do sucesso da Gabriela é que até o senhor meu pai, baluarte supremo do anti popularuchismo, deita a pestana para lá. Se o sururu na blogosfera e redes sociais não fosse suficiente para comprovar o êxito da trama, isto bastava-me. De modo que ando tentadinha a seguir a novela, até porque o único episódio que vi (com a infeliz Lindinalva a ser ostracizada e expulsa de toda a parte) nos fez sentar a todos, como se já não soubéssemos como ia acabar a personagem...
 O destino da pobre coitada fez-me lembrar as histórias moralizadoras (e horríveis) que as minhas avós contavam sobre as mulheres "frágeis" do seu tempo, as que se "portavam mal" (nunca me explicavam exactamente o que queria isso dizer, mas era um termo que resumia o piorio). Jovem que cedesse ao namorado, caso este não cumprisse a promessa de casar com ela e a "aventura" se soubesse,  estava perdida para todo o sempre. O que vemos em Gabriela ou noutros romances como A Rosa do Adro não  é exagero. As coisas passavam-se de facto assim. A não ser que a rapariga "desonrada" (palavra horrorosa!) viesse de boas famílias - com pais muito compreensivos  que a protegessem - e tivesse enorme força de carácter para se defender, era vista como uma espécie de propriedade do povo, num estranho e chocante raciocínio "esta já deu amens a um, tem obrigação de fazer o mesmo com quem calhar". Além da exclusão social enfrentava insultos, assédio e todo o tipo de incómodos. Para a família era uma vergonha - muitas acabavam realmente por expulsá-las de casa - e dificilmente algum rapaz no seu perfeito juízo quereria casar com ela: uma mulher assim não era de confiança. Partia-se do princípio que o sexo feminino não tinha autodeterminação para seleccionar com quem dormia ou deixava de dormir;  logo, ou se era "direita" ou não se era. Se a fraqueza lhe tinha chegado para estar com um, bastavam duas lérias para se envolver com o padeiro, o leiteiro e todos os integrantes do quartel mais próximo. Não existiam as nuances de comportamento dos nossos dias, só havia mulheres honradas ou as malfadadas, as desgraçadas, que acabavam sempre mal. A inocência, a "donzelice" eram um simples carimbo de garantia, para assegurar que a jovem era imaculada (logo, com valor) até ser controlada pelo marido. O conceito de uma mulher ser séria por opção própria, de ser um indivíduo capaz de decisão, estava ausente da maioria das cabeças. Aliás, uma das personagens da novela argumenta " então esse é o valor de uma mulher? Tudo o que pensamos, tudo o que estudamos, tudo o que somos, o resto não conta para nada?".
Aquelas a quem os parentes voltavam as costas faziam eventualmente justiça aos mexericos: os casos da "menina séria" que acabava na prostituição para sobreviver por se ver desamparada eram mais comuns do que se pensa. (É muito curioso ver, por exemplo, os registos das "matriculadas" na cidade de Lisboa  na época de Eça de Queiroz).
A paranóia de "espreitar pelas saias alheias" era de tal ordem que um namoro longo, por mais inocente e platónico que fosse, constituía um perigo enorme. Por exemplo, 
contaram-me o caso de uma rapariga desse tempo que namorou muito tempo com um rapaz, com intenções de casar. Foram adiando e para grande desgraça, o noivo morreu: supostamente a namorada estava "como tinha nascido" mas a dúvida bastava. Foi um sarilho para casar a infeliz, e ela deu-se por muito contente quando lhe arranjaram um noivo sem fortuna e meio tolo, que não tinha capacidade para "pescar" coisa melhor.
  Outra cedeu ao noivo na véspera do casamento, e ele deu à sola na manhã seguinte, sem passar pela Igreja: a necessidade de resguardo das mulheres era proporcional à vontade masculina de dar cabo dessas defesas, por mais à vontade que estivessem para visitar as mesmas "mal fadadas" que tanto condenavam. Era um círculo vicioso e assaz estranho. Mais estranha ainda era a naturalidade com que homens e mulheres encaravam a única reabilitação possível para uma mulher dessas: o casamento. Podia ter andado na pândega com meio mundo, mas se casasse, nem que fosse com o pior dos bêbedos, era mais ou menos aceite ou como se dizia ao tempo " casou, honrou". 
   Nunca me considerei feminista e em certas coisas sou bastante bota-de-elástico, mas esse dom masculino de dar e tirar a honra alheia conforme a presença ou ausência de papel passado sempre me irritou, como me irritava a redução da mulher a um simples selo de garantia e a discrepância de liberdades entre os sexos. Libertinagens nunca me pareceram bem, nem para homens nem para mulheres, mas nesse tempo o pior dos devassos tinha a lata de exigir uma moça inocente e se ela se revelasse doidivanas como ele, ai Jesus! Não era tanto o status quo, mas a desfaçatez da coisa. 
   Certas "liberdades" conquistadas pelas mulheres, e certas reclamações das feministas têm que se lhes diga, é um facto. Mas ser vista como um indivíduo de pleno direito, com auto determinação, inteligência e poder de escolha, um ser não reduzido à sua intimidade, foi a maior conquista de todas. E mesmo assim...

2 comments:

Cristina Torrão said...

Bom post, Sissi, gostei muito de ler. Como eu costumo dizer: as meninas, antigamente, eram educadas para serem canários numa gaiola. Aconselhava-se serem bonitas, mas viviam numa redoma, que nada tinha a ver com a vida real. Quanto mais sossegadas fossem, quanto mais ignorantes, quanto mais venerassem os homens e lhes obedecessem, melhor (e isto é só o começo. O resto, a Sissi já disse ;)

Quanto à "Gabriela": eu sou tão velha, que me lembro da telenovela original ;) Um ponto a meu favor: ainda era quase criança. O que mais nos surpreendeu, naquele tempo, penso que foi a capacidade de os brasileiros de criarem uma série de televisão, em que os atores eram tão naturais e credíveis e que nos mantinha presos, de episódio para episódio. Acredite: naquele tempo, não havia nada na televisão portuguesa que fosse assim (a não ser as séries estrangeiras). Ficámos simplesmente deslumbrados!

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Cristina :) . A avó tinha uma frase que me arreliava imenso. Dizia ao meu irmão e primos "escolhe uma menina criadinha em casa". No tempo dela isso significava menina de boa família, que não precisava de trabalhar, de se expor a conhecimentos estranhos nem tinha permissão para andar em ramboias. Na altura não entendia bem e achava-lhe uma graça...
Mas agora, relativizando (e olhando para certos comportamentos que vejo) não acho a frase tão disparatada. Lá está, mudam-se os tempos mas raparigas sossegadas e doidivanas, sempre houve...
Um dia ainda hei-de seguir a original, porque só vi um episódio ou dois, de relance. Mas ando com vontade de reler o livro, porque junto com a Teresa Batista é a obra de Jorge Amado que conheço pior.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...