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Monday, October 22, 2012

Martha Stewart pinta as solas dos Louboutin de preto


Não sou exactamente fã da senhora, mas compreendo perfeitamente a opção. Numa altura em que (algumas) griffes procuram manter-se fiéis à sua filosofia de luxo original e evitar o show off, uma certa parcela de consumidores parece não se cansar de exibir logótipos e outros sinais - verdadeiros ou falsos - de poder económico. A confusão entre elegância e luxo, ou entre dinheiro e estilo, é um verdadeiro labirinto. Por um lado, os stakeholders mudaram - e as marcas icónicas não podem, por muito que queiram, produzir apenas os produtos que agradam às pessoas conhecedoras e de gosto. Há toda uma multidão com meios (ou cartão de crédito) ansiosa por esperar horas esquecidas numa fila para comprar uns sapatos Louboutin ou uma carteira Chanel - por mais que isso se afaste do conceito primitivo dessas Casas. E quem está disposto a pagar horrores e a esperar à chuva para obter um bem (marimbando-se para a tradição de atendimento personalizado, com chá e champagne) pretende, obviamente, exibir uma marca troféu. Inclusive, sente-se importante por aguardar na rua, numa esquisitíssima inversão de valores e expectativas. Mais ilustrativo ainda: mesmo entre os clientes que beneficiam desse " atendimento VIP" em sala privada já não se encontram apenas grandes herdeiras, as famílias de dinheiro velho, cabeças coroadas, manequins das velhas escolas de elegância ou estrelas Old Hollywood buriladas ao milímetro por profissionais. 
How to create your own LouboutinsDesportistas, rappers, baluartes da nova geração da MTV, estrelas de reality shows americanos impõem os seus gostos, ditam o que vende - e não querem peças discretas que se possam confundir à primeira vista com qualquer trapinho barato. Os anos áureos do Jet-7 internacional, das ladies who lunch, da intimidade entre as griffes e as suas musas começam a desvanecer-se com o tempo. O poder que os criadores detêm sobre uma marca é cada vez mais reduzido.  Por sua vez, os fãs dessas novas estrelas querem copiar o que vêem, seja comprando o mesmo, seja imitando com uma opção mais barata - que de preferência, passe pelo original. Mudaram-se as perspectivas: na opinião dos novos compradores e do seu séquito não é a beleza discreta, o detalhe, a qualidade, a durabilidade que importam, mas simplesmente o impacto visual e o status aparentemente associado a um logo ou detalhe imediatamente reconhecível. Quanto mais característica uma marca é ao primeiro olhar, mais facilmente atrai a contrafacção e a banalização. Recordemos que a Burberry teve de suspender o seu padrão- assinatura e o fim da D&G. Por outro lado, há que vender. E para vender em quantidade, é preciso agradar à maioria que só capta o imediato e não podia estar-se mais nas tintas para qualidade, conhecimento ou tradição. É um ciclo vicioso.
  Em Inglaterra as vendas de latas de tinta encarnada dispararam, tantas eram as jovens ansiosas por tingir as solas dos sapatos para os fazer passar por Louboutins. Martha Stewart faz o contrário, porque uma peça griffé é muito mais do que um monograma ou uma sola espampanante, íman de ladrões ou copiões. Quem realmente aprecia uma marca investe nela pela qualidade, pelo conforto, pelo design. Exibir é inútil - há sempre uma cópia, um modelo mais recente, uma inspiração mais barata.
Importa educar para o luxo? E em última análise, seria isso possível?

5 comments:

Colour my life said...

As pessoas são absolutamente ridículas. Já uma vez falei nessa frebre lá no blog. Acho um exagero. Para já, as solas vermelhas já estão mais banalizadas do que a moda das tachas. Não há parola nova rica que não me apareça com elas. Não importa se forem horríveis ou se não souberem usar em condições uns sapatos daqueles. Querem é mostrar. Se é importante educar para o luxo? Acho que não. Acho que é uma consequência natural de uma boa educação, de pessoas que se cultivam, de tolerância racional, de se saber estar. Nesse caso, quem tem dinheiro, saberá usá-lo muito bem. Quem não o tem, também saberá comprar, nem que seja nas Zaras deste mundo.

Rafaela said...

Na minha humilde opinião, não entendo como é que estas raparigas e mulheres fashionistas, que parecem gostar tanto de moda, conseguem descer tão baixo ao pintar de vermelho as solas dos seus sapatos. Mas qual será o prazer de tentar mostrar aos outros que se tem um par de Louboutin quando, no seu íntimo, sabem que tal não é verdade? Como é que conseguem desrespeitar todo o trabalho que está por detrás do par de sapatos original, desde o design, à escolha de materiais, até à sua confecção artesanal?
Não é possível educar para o luxo, mas apenas para o bom senso. É preciso ensinar que a contrafacção e a falsificação de logótipos é algo, a meu ver, imoral, uma vez que não se está a dar os devidos créditos aos seus criadores. Mas, numa sociedade onde o que importa são as aparências, nada disto me surpreende. Vale tudo para que meia dúzia de pessoas voltem a cabeça para admirar uma sola pintada.

Rafaela said...
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Imperatriz Sissi said...

True, true, true, poderia ter sido eu a escrever isso, Colour!
Mas por vezes dá-me para o optimismo. Já não há lojas que tenham a liberdade de seleccionar a clientela. Teremos de esperar que a selecção natural faça o seu trabalho. Mas fico triste quando vejo coisas bonitas a ser destruídas por quem não tem um pingo de gosto, ou adulteradas pelas próprias marcas para agradar às " parolas novas ricas", abrindo portas para a contrafacção e outros males. Enfim, antes uma nova pobre do que uma nova rica, é o que eu digo sempre ;)

Imperatriz Sissi said...

Querida Rafaela, eu diria que é ignorância e falta de educação. Hoje está na moda dizer que se gosta de moda. Muita gente gosta de ir às compras, gosta de roupa nova, é vaidosa, mas gostar de moda, perceber de moda e sobretudo, ter gosto e estilo são coisas que nada têm a ver com trapos e cartões de crédito. Pergunto-me muito o que diria Coco Chanel de tanta relaxaria, ela que até era democrática com " mesdames les copistes". Acham graça ao visual, à ostentação, mas não compreendem a ideia, o savoir faire e o trabalho por trás das peças. Educar para o luxo não será possível, infelizmente a minha pergunta era algo retórica. Não é possível dizer a uma rapariga ambiciosa e tonta: "não use coisas falsas ou ostensivas, que isso cai mal" se no seu círculo isso vai continuar a cair bem... enfim, já no século XIX havia esses conflitos de gosto e de luxo...até antes, sempre os houve. Simplesmente, não havia tanta coisa acessível a tanta gente, e cultivava-se, apesar de tudo, uma maior honestidade. Teremos de fazer como as senhoras bem do Sul após a guerra civil, que face aos novos ricos e vigaristas, adoptaram um bom gosto espartano. Via-se quem pertencia às famílias educadas porque se recusavam a ter carruagem e vestidos espaventosos...era um snobismo invertido.

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