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Friday, October 26, 2012

"Perguntas a não fazer numa entrevista de emprego": Say what!?





Há dias deparei-me com esta pérola de texto, que ensinava  - com um realismo ingénuo a roçar o cómico, honra lhe seja feita - as perguntas a evitar numa entrevista de emprego. "Não questione sobre o salário" reza este guia para o escravo em potência. "Se o fizer vai demonstrar que se preocupa apenas consigo próprio e o seu bem-estar, ao invés de se preocupar com o posto ou a empresa". Ora, essa questão já foi referida aqui. Para começar, é indecente que os anúncios de emprego em Portugal não coloquem, por norma, uma estimativa do vencimento a par com a longa lista de exigências e requisitos preferenciais. E já agora, também não se pergunta na entrevista? Então vamos lá ver: o candidato ideal tem como objectivo de carreira trabalhar para aquecer, está visto. É suposto preocupar-se comovida e profundamente com uma empresa que nunca viu mais gorda e que não lhe retribui tal carinho e desinteresse? Candidata-se a um emprego sem fazer ideia de quanto é que a empresa está disposta a investir nos seus colaboradores (o que  a meu ver, é uma forma de desperdiçar tempo valioso à empresa e ao candidato; seria muito mais fácil dar uma previsão de salário, e quem não estivesse disposto a trabalhar por X não respondia ao anúncio para começar, evitando um monte de CVs e entrevistas inúteis...) e  nem na entrevista pode perguntar quanto pagam, para saber se o lugar lhe convém? Para não mencionar que nem todos os postos de trabalho que surgem são perto de casa, e é preciso calcular esse factor também. E caso o todo poderoso recrutador goste do entrevistado e diga " o lugar é seu"? Espera-se até à assinatura do contrato para que ele afinal conclua " espere lá, com este ordenado não fico"? Mas afinal...não estamos aqui a falar de negócios? Expliquem-me lá como é que se faz então, porque devo ter as prioridades trocadas. Não vou ver uma casa se o agente imobiliário não me disser quanto custa; se entro na Bershka espero pagar X, já na Chanel...conto com Y, e assim por diante. Em qualquer investimento, compra ou acordo espera-se saber quanto se gasta e quanto se ganha. Porque seria diferente em relação a um posto de trabalho? 

                                                                                      
"Ou estás caladinho, ou não és contratadinho"

Mas esperem, há mais. " Não questione o ambiente de trabalho: se o fizer vai demonstrar que teve problemas de relacionamento numa experiência anterior". Mau Maria! Então sondar o perfil e atmosfera da empresa faz do candidato um psicopata em potência?   Em Roma, sê romano: qualquer um gosta de saber em que ambiente vai cair para fazer por se integrar logo de início, eu acho. Mas que gente tão desconfiada...e a contar com fé cega e absoluta por parte de quem se candidata, ora pois. "Não questione sobre os tempos mortos e intervalos: se o fizer vai demonstrar que se preocupa mais com o descanso e o lazer do que propriamente o trabalho em si". Mau candidato. Mau! Não ganha biscoito. Onde já se viu, ainda mal cá chegou e já quer saber a que horas pode fazer as pausas previstas por lei de acordo com os hábitos dos colegas. Onde já se viu tamanha lata?  " Não questione se pode trabalhar a partir de casa: vai demonstrar que tem pouca vontade de sair de casa para ir trabalhar". Numa linha de montagem de parafusos, trabalhar a partir de casa pode ser um problema, noutros empregos nem por isso. Mas não haja questões: o candidato ideal está ansioso por ter uma bola e corrente amarrada ao tornozelo. "Não questione sobre férias: vai demonstrar que prefere marcar já as férias antes de ser contratado. O mais certo é continuar desempregado para poder gozar férias quando quiser". Boca foleira, meninos. Golpe baixo. Essa doeu. Não entendo onde está o problema de conhecer a dinâmica, regras e hábitos de uma organização que eventualmente se irá integrar - principalmente quando na maioria dos casos, o recrutador já virou o entrevistado do avesso, e é justo que se retribuam as perguntas. O artigo termina com " mas também não fique calado, que isso dá má impressão". Pois eu que cresci a crer que quando não temos nada de importante para perguntar fazemos melhor figura em silêncio, por aqui me fico...

                                                       
  Confesso que não sou uma expert na matéria: na maioria das funções que ocupei havia um conhecimento prévio do meu perfil e do meu trabalho, que levou à contratação. Já estive nas duas posições e uma entrevista de emprego é sempre limitada para ambas as partes. No entanto, parece-me que uma empresa que espere um comportamento submisso e patético, de quem está por tudo, é uma boa candidata a empregados que se estão nas tintas - que querem um trabalho para o desenrasca, perdoem o termo, e não uma carreira. Dizer que sim a tudo não é empenho, não é dedicação à empresa nem amor à camisola - seria irrealista pensar tal coisa de um recém chegado que nunca lá trabalhou - mas desespero e em alguns casos, falta de fibra. Conheço boa gente que foi contratada ao responder torto, indignada, às perguntas mistério (há empresas que provocam os candidatos de propósito, a ver como reagem). Se eu estivesse no papel do entrevistador e visse um candidato que não perguntava nada do que era do seu interesse, só me ocorria pensar que estava perante uma pessoa desonesta, disposta a tudo, com cartas na manga, pronta a mostrar o seu verdadeiro eu uma vez contratada. Pela parte que me toca, what you see is what you get - gosto de ser honesta, que sejam honestos comigo, cartas na mesa; se convém muito bem, senão, os negócios são mesmo assim. 
  Porém, se este é o perfil do empregado perfeito em Portugal...está tudo explicado.

 

11 comments:

Sérgio Saraiva said...

Lol... Eu nas entrevistas que faço por regra das primeiras perguntas que faço aos candidatos é quando e que querem ganhar?... :p
O objectivo é por um lado matar logo um dos temos mais quentes à partida, que já se sabe estará sempre na cabeça das pessoas, e depois confesso... Desarma um pouco os candidatos.

No entanto confesso que a resposta do candidato por norma é relativamente inutil, até porque mesmo que se avance para a contratação, o valor proposto é sempre um misto daquilo que se considera justo para o candidato e o orçamento que se tem para a função, independentemente daquilo que ele pediu. Até porque nas empresas por onde passei os valores para cada cargo estão fixados à partida, pelo que não há grande ou mesmo nenhuma margem para acertos.

De resto gosto de pessoas irreverentes. Descrevi aqui um exemplo

Fashionista said...

concordo que não se fale logo de férias, ou pausas no trabalho, mas o vencimento é fundamental e deve ser falado! Aliás, o facto de fazermos perguntas demonstra logo o interesse!

Jedi Master Atomic said...

Como o Sérgio disse e bem no comentário dele, o ordenado que se quer ganhar, normalmente não há muito espaço para discussão sobre o mesmo, pois está imposto um intervalo limite pela direção. E esta é mais uma razão para se ter escrito isso no anuncio do emprego. Se a empresa só tem para dar até €1200 consoante a experiencia então que escreva isso no anuncio.

Ao Virar da Esquina said...

Mas é que é mesmo esse o perfil que pretendem e é por isso mesmo que ando com vontade de me ir embora. Acertezte na muche!

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

@Sérgio. Mas "desarmar" para quê? Se me perguntassem isso, estando eu farta de saber que têm um valor à partida, mais valia negociar abertamente. Ou responder com outra pergunta "quanto é que a empresa está disposta a pagar"? Não percebo porque é que o dinheiro há-de ser um bicho de sete cabeças. O candidato está lá para ganhar dinheiro e a empresa para seleccionar o melhor candidato a quem quer pagar um serviço. É o mesmo que entrar numa loja, escolher, e haver rodeios para me dizerem o preço do artigo!

@Jedi Eu não diria melhor.

@Fashionista: depende de como se coloca a questão, da dimensão e tipo de empresa ou função, da entrevista e do contexto em si. Em alguns casos creio que se justifica, e perguntar não ofende.

Imperatriz Sissi said...

Tanto quanto sei, em algumas empresas é mesmo. Querem alguém 100% disponível, no questions asked. Não sei qual é a noção de negócios que estas pessoas têm...

Sérgio Saraiva said...

Rodeios em relação ao preço? Mas rodeios como, se é logo das primeiras coisas que se perguntam? Rodeios seria não tocar no assunto... Se isto é fazer um bicho de sete cabeças, o que será então falar abertamente? Aqui o "desarmar" é no sentido de passar logo à partida a mensagem de que não se quer estar com rodeios, e daí a pergunta direta.

Agora cada coisa no seu lugar: quem conduz a entrevista deve ser o entrevistador e não o entrevistado, aqui lamento :p

Aqui há a questão de gerir as expectativas das pessoas e lembra-te que uma negociação tem tudo a ver com expectativas, até para se perceber se há ou não enquadramento à partida. E acho que os candidatos devem assumir as ambições que tem, inclusive salariais. Portanto respostas evasivas do estilo: "não digo eu, digam antes voçês quanto é que a empresa está disposta a pagar" é uma má resposta; a perguntas diretas "quanto é que queres ganhar" devem-se dar respostas diretas e não passar a bola para o outro lado.

Sérgio Saraiva said...

Normalmente os ordenados não são publicados nos anuncios por uma questão de confidencialidade: para não expor essa informação às outras empresas concorrentes.

É verdade que na prática depois tudo se sabe, mas...

Imperatriz Sissi said...

Passar a "batata quente" para o entrevistado que pouco sabe da empresa e dos seus padrões não me parece bem. Cria um constrangimento e pode atrapalhar um candidato que até pode ser fantástico mas assim não dá o seu melhor na entrevista. E para quê, se a empresa já sabe quanto está disposta a pagar? É justo que ambos os lados tenham acesso à informação. Essa confidencialidade só existe por cá, ao que vejo. Nos países anglo saxónicos é raríssimo ver um anúncio sem uma estimativa do ordenado. Até porque se essa questão é escondida no anúncio mas levantada no início da entrevista (antes de uma pessoa saber de aspectos como o volume de trabalho, responsabilidades, carga horária, etc) é difícil calcular um valor justo. Além disso, a entrevista é, muitas vezes (como coloquei num comentário no seu blog)um primeiro contacto com a empresa. Muitas colocam anúncios, mas não estão nas páginas amarelas, não têm um site informativo nem um nome conhecido. Logo, é natural que o candidato coloque questões, quanto mais não seja para se situar. De qualquer forma, é bom ter conselhos de quem já conduziu muitas entrevistas...
Para mim, se não for uma negociação de igual para igual, tenho dificuldade em ver essa organização como um bom lugar para trabalhar.

Jedi Master Atomic said...

Estive a pensar no que tinha escrito e de facto não faz muito sentido as empresas escreverem o máximo que podem dar, num anuncio, porque isso retira margem para negociar.

Estive a pensar noutra alternativa e acho que fazia mais sentido escreverem o MINIMO e depois incentivarem a negociação, como por exemplo:

"...bla bla bla....o ordenado mínimo que pagamos é €1000. Consoante as qualificações e experiência que o candidato apresentar na entrevista, este valor poderá ser negociado para cima."

Desta forma não se está a publicitar quanto é que se vai pagar na realidade às outras empresas e as pessoas têm uma noção se aquilo lhes interessa ou não. Se for alguem que esteja à espera de ganhar €3000 ao ver este anuncio vai imediatamente atirá-lo para o lado, visto que as margens para negociar não serão assim tão grandes...lol

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