Recomenda-se:

Netscope

Friday, November 2, 2012

O Monstro que Esconde Gente


Depois de adulta, tive o azar de travar conhecimento com um monstro pior do que o Bicho Papão, a Cuca e o Homem do Saco todos juntos. É parecido com esses inimigos míticos da nossa infância - no modus operandi silencioso, na persona misteriosa e sem rosto que adopta - mas oferece perigos maiores, porque é real. Invisível, mas muito real. Encontrei-o pela primeira vez há alguns anos, quando a minha querida avó sofreu um problema de saúde que lhe baralhou boa parte da memória e lhe provocou, embora de forma intermitente, alterações nos sentidos e na percepção da realidade. O nosso cérebro é o maior mistério que há; bastam alguns neurónios feridos para provocar os mais estranhos efeitos. Num momento, ela era a avó que sempre tínhamos conhecido - sensata, ponderada, com um sentido de humor refinado e característico. Dali a pouco ficava entre o cá e o lá, vagueando no passado, ou perturbava-se com coisas que só ela compreendia. Por exemplo, começou a ter sérios problemas com a dimensão das coisas - os prédios, os postes - que ora lhe pareciam minúsculos, ora lhe pareciam gigantes. Não conseguia racionalizar o que "via" e insistia connosco que tudo tinha mudado de tamanho, como é que era possível tal coisa, que vinham a ser aqueles postes da luz novos, quem tinha sido o iluminado que mandara fazer aquilo, e não se tirava disto, repetindo o mesmo discurso vezes sem conta. Estes episódios davam por vezes origem a momentos hilariantes ou bizarros, ao melhor estilo 100 Anos de Solidão; outras vezes, porém, era muito complicado. Bem tentámos a abordagem "fingimos que alinhamos para não a perturbar, que daqui a pouco passa" mas a nossa avó não era tão fácil de convencer. Não lhe parecia certo e queria discutir connosco o que ia na sua cabeça, sem se recordar que tínhamos tido a mesma conversa há poucas horas atrás. Por vezes caía em si e dizia "mas que disparate, ai a minha cabeça. Eu não estou maluca, não ando é bem desde aquela vez em que fui para o hospital".  Partia-me o coração ver isto, mas o mais difícil era manter a paciência nos momentos em que estava pior. O Monstro que come gente, que muda a personalidade das pessoas e que as esconde na barriga ao mesmo tempo que lhes veste a pele, tinha atacado. Certo dia, exasperada, virei-me para o Monstro e gritei-lhe: "Devolve a minha avó! O que é que fizeste à minha avozinha?!". Nesse momento o malvado deve ter-se tocado, viu que estava descoberto e recuou, porque a avó voltou a si e desatou a rir. "A Sissi está maluca, querem ver?".
 Neste caso o Monstro que Esconde Gente aproveitou uma doença para se instalar, mas há outros meios de fazer vítimas. Algumas pessoas são atacadas por ele devido à dependência de substâncias ou a um trauma violento, outras têm uma personalidade temperamental, influenciável ou volúvel que o convida a fazer delas a sua casa ; outras ainda, perfeitamente saudáveis, deixam que certos acontecimentos (ou emoções como a raiva, o ressentimento ou o ciúme) as afectem de tal maneira que nunca mais voltam ao seu velho "eu".  Mas todas mostram o mesmo sintoma: a alma virada do avesso. Alterações de personalidade ou comportamento mais ou menos prolongadas, por vezes tão profundas que da pessoa original, só se reconhece mesmo a fisionomia. O olhar muda. A forma de tratar a pessoas próximas altera-se. O discurso também. Só de vez em quando o verdadeiro eu da vítima assoma à superfície, por breves períodos. Não há garantias de uma cura definitiva, de um exorcismo que o expulse para todo o sempre. Dos monstros que tenho visto, este é capaz de ser o piorzinho de todos...

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...