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Saturday, November 10, 2012

Os fala barato da internet


Há pouco um blogger que muito aprecio, o Dexter das Confissões de uma Mente Depravada, tirou-me as palavras da pena com um texto assaz lúcido. Tenho para mim que este é um país onde se resmorde muito. Para fazer alguma coisinha de jeito hesita-se, anda-se às voltas, ninguém se atreve. Mas para rosnar e opinar, lá está o português. E quando opina um português, opinam logo dois ou três. Pior ainda, quando um atira uma posta de pescada previamente demolhada em asneira, os outros imitam-no para não ficar atrás; era o que faltava não acrescentar qualquer coisinha à peixeirada geral. 
Mais do que reflectir, neste país bitaita-se
É espantosa a quantidade de gente que adora o som da própria voz: basta ter o azar de assistir a reuniões, assembleias ou "tertúlias" neste país para perceber isso. É um costume que aterroriza, por exemplo, os ingleses (povo com os seus defeitos, mas pragmático e direito ao assunto) que incautamente, venham para cá trabalhar. Uma reunião que supostamente, demoraria meia hora, por cá arrasta-se ad nauseam: há sempre um ou dois imbecis que decidem discursar interminavelmente, bater no ceguinho, dizer mais do mesmo, não acrescentar nada à assistência a não ser um tédio assassino. Vi estas personagens na faculdade (há sempre o chico esperto da turma que decide interromper a aula para massacrar o professor e os colegas com opiniões medíocres e cheias de pormenores) e sobretudo, vi-as enquanto jornalista, em intermináveis trabalhos noite dentro: verdadeiros testes à minha paciência, à sanidade dos meus neurónios, à capacidade do meu gravador e ao espaço do meu bloco de notas. Há sempre aqueles a quem apetece berrar, em modo Su Majestad "Porque não te calas?!" atirá-los para o chão e encher-lhes a boca de papel higiénico para estancar a verborreia ou silenciá-los de forma mais...permanente. 
                                              
Nem o frio, nem as cadeiras desconfortáveis, nem o sono, nem o jantar à espera eram capazes de fechar aquelas bocarras, verdadeiros depósitos de porcaria, nem de deter aqueles enxurros de cloaca, capazes de soltar por aí a cólera e a peste. Ainda por cima, a incapacidade para ser sucinto ou para estar calado nas excelentes oportunidades para isso é directamente proporcional à escassez de inteligência e de espírito. Quem muito fala pouco acerta, lá diz o povo. Ora, para pessoas assim, a internet foi uma bênção dos céus. Dizia o Dexter que é muito desagradável abrir os comentários dos jornais online: eu já nem os abro. Do palavrão gratuito à ofensa mais gratuita ainda, passando pela imbecilidade pura e simples sem esquecer os erros ortográficos, o catálogo da mediocridade, da estupidez, oferece de tudo. Depois há o Facebook
Jesus, o que esta gente chata e amarga tem constantemente de deitar cá para fora. A possibilidade de ter quem os ouça! De se queixar! De atirar aos olhos dos outros as suas opiniões sobre a política, sobre o futebol, sobre o estado do país, sobre gatinhos e cãezinhos e piadas sem graça. Oh, maravilha da tecnologia!  E se não houver nada para dizer, escarrapacha-se uma imagem com uma frase feita. É preciso falar. É preciso dizer alguma coisa...a ânsia de protagonismo é voraz, há que alimentá-la constantemente. Por fim, temos a blogosfera. Há quem se divirta a semear bitaites em blog alheio. E dirão vocês:  a Sissi não pode falar, tem um blog onde embirra sobre tudo o que lhe apetece. A diferença é que ao blog só vem quem quer e o dono do blog pode filtrar os comentários, poupando os seus frequentadores aos surtos de patetice do vaidoso mais próximo. E se os meus amigos e conhecidos no Facebook não quiserem aturar as minhas opiniões, é só não abrir os links que lá deixo para o Imperatriz e pronto. O que difere grandemente de ver, no mural e em detalhe, a palermice debitada várias vezes por dia. 
 No entanto há uma enorme vantagem na internet: se as redes sociais permitem a esta gente com ego inchadíssimo e pouco miolo desabafar à fartazana, talvez se calem um bocadinho na vida real. Ao menos estando em casa e ao quente, confortavelmente sentado ao computador, só lê quem tem paciência e não é preciso arranjar desculpas para sair à francesa...

3 comments:

menina lamparina said...

Subscrevo na íntegra! Esta história de toda a gente ter espaço e oportunidade para dizer qualquer coisa é chata e difícil de aturar... recordo o post em que relato o momento em que caí no erro de comentar uma notícia no site de um jornal, por engano. Credo.

http://ameninalamparina.blogspot.pt/2012/09/o-atrevimento-da-ignorancia-ou-de-como.html

Imperatriz Sissi said...

Lembro-me bem desse texto. Tens razão. Essa gente tem poderes paranormais, soltura de opiniões mirabolantes, verborreia incurável...é doentio.

Tamborim Zim said...

Dei gargalhadinha, ai dei! Muito boa a imagem das bocarras transformadas em dedadas, em caso e ao quente, para nos libertarem ao vivo e a cores...

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